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Roteiro em Bordeaux de Château em Château

Bordeaux além do vinho: roteiro por châteaux históricos, vinhedos biodinâmicos e estações de arte que poucos brasileiros conhecem na França.

Fonte: Civitatis

Bordeaux de Château em Château: o roteiro que transforma uma viagem de vinhos em algo muito maior

Bordeaux tem 6.500 propriedades produtoras de vinho, e essa é justamente a parte complicada de planejar uma viagem para lá. Por onde começar quando praticamente cada esquina da região oferece um château para visitar, uma adega para descer, uma taça para girar contra a luz do fim de tarde? A resposta que faz mais sentido, depois de conversar com quem mora na região e de estudar com calma o que existe por lá, é abandonar a ideia de ver tudo. Bordeaux não se entrega assim. Ela se revela em pares, em contrastes, em duplas de châteaux que mostram lados opostos de uma mesma história.

A lógica é simples e funciona bem. Você escolhe duas propriedades próximas, visita uma de manhã e outra à tarde, e deixa o meio do dia para um almoço sem pressa, uma caminhada no campo, talvez uma soneca debaixo de uma árvore. É assim que se conhece Bordeaux de verdade. Não com pressa, não correndo atrás de pontuações Parker, mas comparando, sentindo, reparando nas diferenças que fazem da região um dos lugares mais fascinantes do mundo do vinho.

Abaixo, alguns desses pares que valem a viagem. Cada dia foi pensado para mostrar um contraste específico, e o conjunto desenha um retrato bem mais honesto de Bordeaux do que qualquer tour padrão venderia.

Branco contra tinto: começando pelo lado menos óbvio

Bordeaux é 90% tinto. Esse número costuma surpreender quem chega achando que a região é só uma fábrica de Cabernet e Merlot poderosos. Mas existem brancos brilhantes por lá, e visitá-los logo no primeiro dia é uma forma de quebrar a expectativa e entender que Bordeaux foi, por boa parte do século XX, uma terra que produzia mais branco do que tinto. A história dá voltas. Hoje, para encontrar os melhores brancos, o caminho é Pessac-Léognan.

Manhã: Château Carbonnieux

Em Pessac-Léognan, o Carbonnieux é uma das visitas mais equilibradas que se pode fazer. Pertence aos irmãos Eric e Philibert Perrin, sem nenhuma relação com os Perrin do Château de Beaucastel, no Rhône. Aqui a propriedade se divide quase exatamente no meio: 50ha de tinto e 42ha de branco. Pouquíssimos vizinhos têm essa proporção. O resultado é um branco cheio, com concentração cremosa, feito com Sauvignon Blanc e Sémillon, as duas grandes uvas brancas de Bordeaux.

A propriedade respira história. As construções datam do século XIII, e por um longo período os monges beneditinos foram donos do lugar e ali fizeram brancos célebres. Em 1786, Thomas Jefferson visitou Carbonnieux e plantou um pinheiro americano, que continua de pé até hoje. Detalhe poético: o terceiro presidente dos Estados Unidos, que tanto amou os vinhos franceses, deixou ali sua marca botânica.

As visitas vão da opção Clássica, por 10 euros, com duas taças, até a Prestigiosa, por 20 euros, com três vinhos e um prato de comida. Para quem quer algo mais elaborado, existe um workshop de comida e vinho com três vinhos harmonizados a queijos por 22 euros. Aberto de segunda a domingo, de maio a outubro.

Tarde: Château Haut-Bailly

A poucos minutos dali fica o Haut-Bailly, também em Pessac-Léognan. Aqui só se faz tinto, em 30ha cuidados por proprietários americanos. Está entre os melhores tintos da denominação, com uma elegância clássica que parece pertencer a outro tempo, cheio de notas de madressilva enroladas, tabaco e frutas negras carnudas. Provar é obrigatório.

A história do château pode ser rastreada até 1461, e a adega antiga, do século XIX, contrasta lindamente com a parte moderna e clean. Há uma loja bem abastecida com livros, equipamentos de degustação e itens curiosos. Em ocasiões especiais, é possível organizar um jantar com o chef da casa. Uma nova adega está em construção. As visitas variam de 20 euros por uma hora a 50 euros pela experiência de 90 minutos com tour e degustação.

Tecnologia de ponta contra baixa intervenção: o contraste de Saint-Estèphe e Pauillac

Este é talvez o dia mais revelador do roteiro. Dois nomes celebrados do Médoc, produzindo vinhos extraordinários e icônicos, mas seguindo filosofias absolutamente opostas. Visitar os dois no mesmo dia abre os olhos.

Manhã: Château Montrose

Saint-Estèphe, margem do estuário do Garonne. O Montrose se estende às margens do rio, e parte dos vinhedos fica praticamente raspando as cabanas dos pescadores. Uma das visitas mais impressionantes da região, com 90ha no que pode ser chamado de fronteira tecnológica da vinicultura mundial.

Uma adega de 10.000m² embaixo da terra. Tratores elétricos. Geotermia. Permacultura. Um pomar gigante. Um sistema completo para capturar o dióxido de carbono produzido durante a fermentação. Tudo isso aliado a um trabalho obsessivo nos vinhedos: o número de parcelas, por exemplo, era de 24 quando o diretor Hervé Berland chegou em 2011, e hoje passa de 110. O resultado disso é uma subdivisão que garante que cada pequeno bloco com características próprias seja respeitado e colhido na hora certa. Custa caro, exige uma equipe enorme, mas é o que separa um bom Bordeaux de um Bordeaux dos grandes. Não há taxa para visitar, mas é preciso reservar com antecedência pelo site.

Tarde: Château Pontet-Canet

Quinze minutos de carro para o sul e você cruza para Pauillac, onde fica o Pontet-Canet, propriedade emblemática do classement de 1855. Se você imagina que vai encontrar algo parecido com Montrose, prepare-se. O proprietário Alfred Tesseron e o diretor Jean-Michel Comme foram para o lado oposto da escala. Agricultura orgânica, biodinâmica, com todos os preparos biodinâmicos feitos no local.

E tem mais: oito cavalos de tração da raça Bretã trabalham os vinhedos em pelo menos metade dos 81ha do château. Vale a pena visitar os estábulos onde eles ficam quando não estão trabalhando, são bem cuidados. O trabalho na adega segue a mesma linha. Tudo manual, da seleção dos cachos ao enchimento dos tanques. Os tanques de cimento, aliás, são feitos com a areia, o argila e o cascalho retirados do próprio terreno durante uma obra de extensão. Nenhuma eletricidade é permitida perto das cubas. Iluminação LED apenas, e tudo movido a energia geotérmica.

Não há taxa, mas as visitas geralmente ficam reservadas para profissionais, ainda que possam ser estendidas a grupos de degustação e colecionadores. Para quem trabalha com vinho, é uma das visitas mais impactantes do mundo.

Histórico contra recém-criado: a Right Bank em duas escalas

Atravessar para a Right Bank é uma viagem em si. A paisagem muda, o ritmo diminui, os Merlots começam a dominar. Fronsac é uma das denominações mais subestimadas da região e, ao mesmo tempo, um dos lugares mais bonitos para passar o dia, com as vistas dos rios Dordogne e Isle.

Manhã: Château de La Rivière

Entre os mais antigos châteaux de Bordeaux, construído em 1577 por Gaston de l’Isle sobre os restos de um acampamento defensivo de Carlos Magno. É difícil errar quando se passa em frente: ele se ergue alto sobre os 100ha de parque e jardins. Mas o que realmente vale a pena ver são as 8ha de cavas de calcário que ainda servem para envelhecer os vinhos. Elas são uma forma brilhante de ficar pertinho do terroir calcário que domina não só Fronsac, mas também Saint-Émilion, Castillon e além.

As visitas atendem a públicos variados, inclusive famílias. Você pode até encomendar um piquenique para comer no pátio do château. E se você tem alguma alma chinesa por perto, eles oferecem uma cerimônia do chá pu’er, com direito a degustação para entender a história do chá tradicional, com uma boa taça em paralelo. Aberto de segunda a sexta o ano todo, mais sábados de maio a outubro. Visitas com hora marcada. Tour e degustação por 10 euros, ou tour e degustação de variedades individuais que comparam Right Bank e Left Bank por 25 euros.

Tarde: Château George 7

Para um contraste total, vá ao minúsculo Château George 7, criado há apenas alguns anos pela britânica Sally Evans, que mudou de carreira para se tornar uma vinhateira armada apenas com um diploma WSET e uma atitude positiva. É fácil dizer que existem propriedades novas em Bordeaux, mas é fascinante ouvir a jornada de quem realmente fez isso: encontrar uma fazenda abandonada, converter num lar e equipar uma adega vazia.

Sobre o nome: George significa “trabalhador da terra” em grego, e é também uma referência ao santo padroeiro da Inglaterra. E o número 7 é a estimativa bem-humorada de Sally de que o filho do Príncipe William, George, possa um dia se tornar George VII. Evans usou parte do nome para prestar a homenagem ao velho mundo enquanto se aventurava no novo. A primeira safra do château foi quase totalmente devastada pela geada, em 2017, o que fez de 2018 o verdadeiro vintage inaugural. Você vai ver verdadeiras mãos trabalhando aqui, com pouca ajuda dos consultores, Evans escolhendo as uvas, podando as videiras e movendo os barris.

Tours começam em 8 euros, gratuitos para menores de 18, mantidos quase todos os dias de abril a outubro. Quem visita pode pedir também uma bike elétrica emprestada para passear por Fronsac, particularmente útil porque a região tem algumas subidas íngremes.

Margem esquerda contra margem direita: o roteiro com balsa no meio

Não é fácil cobrir as duas margens em um único dia, mas existe um truque que torna isso possível e até divertido. Pegue a balsa de Lamarque, no Haut-Médoc, para Blaye, na margem direita. Você pode levar o carro a bordo. Para horários, consulte o site da hermesac.com.

Manhã: Château de Lamarque

Um dos châteaux mais incríveis do Médoc, localizado entre Margaux e Pauillac. Em vez de figurar nas listas das pessoas que vêm para os primeiros classés, Lamarque deveria estar bem mais conhecido entre turistas. Vale uma manhã inteira aqui, porque há muita história para absorver, e os atuais donos sabem contar bem.

O château em si data, em parte, de 1.000 anos atrás, construído originalmente como fortaleza por Garsion de Lamarque para conter os incômodos vikings que invadiam pelos rios. Está perfeitamente preservado, com uma sala do século XIII onde fica a coleção privada da família. Uma antiga capela datada do século XI tem ainda uma fileira de tonéis bem preservados onde se faz vinho, sob o interior bem mais moderno. O atual proprietário, Pierre-Gilles Gromand-Brunet d’Évry, é descendente direto de Garsion de Lamarque. É um excelente Haut-Médoc para inicializar a paleta. Visitas e degustações apenas com hora marcada.

Tarde: Château Peybonhomme-Les-Tours

Você vai querer ir direto à Citadelle de Blaye quando desembarcar da balsa, e está certo. A fortaleza do Patrimônio Mundial da UNESCO foi construída pelo renomado engenheiro militar Vauban, e é uma das mais bem preservadas da França. Há uma pequena vinha lá dentro, e você pode participar de uma degustação na Cellier des Vignerons. Mas o melhor é fazer Peybonhomme-Les-Tours, na comuna de Cars, com vista para o estuário.

A propriedade é certificada biodinâmica, com vinhos lindos produzidos pela acolhedora família Bossuet-Hubert. São vários os vinhos para experimentar, em particular um Energies envelhecido em ânfora e um espumante blanc de noir, totalmente sem sulfitos, mostrando os muitos desenvolvimentos interessantes que estão acontecendo em Bordeaux por uma abordagem mais hands-off, mais natural à vinicultura. Visitas com hora marcada.

Literário contra artístico: um dia diferente no sudeste

Se você curte literatura ou arte, esses dois châteaux entregam os dois lados, a cerca de 50km a sudeste de Bordeaux, na borda do Entre-Deux-Mers. É um lado da região que poucos turistas conhecem, e talvez por isso mesmo guarde algumas das experiências mais memoráveis.

Manhã: Château Malromé

Os amantes da arte não podem perder essa propriedade de 45ha em Saint-André-du-Bois, que existe desde o século XIV e que vem fazendo vinho desde então sem interromper a colheita em nenhum momento, atravessando guerras e revoluções sem nunca parar. É mais conhecido por sua ligação com o artista Henri de Toulouse-Lautrec, comprado pela mãe dele e onde ele morreu em 1901.

Vale a visita pela exposição Toulouse-Lautrec, com a possibilidade de andar pelos apartamentos e ver alguns dos esboços originais, incluindo grafites do século XIX para a fundação. Os novos proprietários franco-vietnamitas, Kim Valéry Huynh e suas filhas Mélanie e Amélie, fazem exposições regulares. Há ainda um restaurante, Adélé, batizado em homenagem à mãe de Toulouse-Lautrec, que é um posto avançado do popular restaurante Claude Darroze, em Langon, aberto de quarta a domingo, e tem um excelente brunch dominical.

Visita guiada custa 12 euros, incluindo uma degustação. O acesso ao apartamento Toulouse-Lautrec está disponível apenas pelo tour.

Tarde: Domaine de Malagar

Apesar de você poder ver vinhas por toda essa propriedade não-Maisantais, o vinho aqui é produzido por Jean Merlaut em uma vinícola ao pé da colina, perto, mas não aberta ao público. Chamado de Château Malagar, AP Bordeaux branco e rosé, e Premières Côtes de Bordeaux doce. Além de comprar vinhos em Malagar, você também pode comprar bilhetes para uma exposição sobre a vida de um dos mais famosos autores de Bordeaux, François Mauriac, ganhador do Nobel de Literatura em 1952, que aqui viveu. É uma das melhores coisas que você pode fazer ao visitar Malromé e Malagar a pé, há um caminho que conecta os dois châteaux.

A jornada de 7km é aberta para qualquer caminhante entusiasmado, e duas vezes por ano os dois domínios fazem uma celebração conjunta chamada Sur le Coteau des Artistes, onde você começa em Malromé com uma visita e degustação, caminha para Malagar para uma piquenique seguido por uma visita, e depois volta por outra trilha. É um dia inteiro, mas uma forma maravilhosa de conhecer a paisagem ao redor do vale do Garonne nessa parte de Bordeaux. As datas para 2020 ainda não tinham sido anunciadas no momento da publicação da revista de referência.

Aberto diariamente de fevereiro a novembro. A visita guiada custa 8 euros, incluindo um tour pela casa, a residência de Mauriac e o parque.

Pequeno guia prático para montar seu roteiro

Antes de fechar a mala, vale alinhar algumas decisões básicas que fazem diferença na execução.

Tema do diaChâteauxRegião
Branco contra tintoCarbonnieux e Haut-BaillyPessac-Léognan
Tech contra baixa intervençãoMontrose e Pontet-CanetSaint-Estèphe e Pauillac
Histórico contra novoLa Rivière e George 7Fronsac
Margem esquerda contra direitaLamarque e PeybonhommeMédoc e Blaye
Literário contra artísticoMalromé e MalagarEntre-Deux-Mers

Algumas dicas que costumam fazer falta para quem planeja a viagem pela primeira vez. Reserve tudo com antecedência. Bordeaux não é como Mendoza ou Vale dos Vinhedos, onde você bate na porta e entra. A maioria absoluta dos châteaux exige hora marcada, e os melhores enchem a agenda semanas antes. Cuide com o carro. Você vai dirigir bastante, e degustações em dois châteaux por dia somam taças que se acumulam. Combine motoristas, alterne quem prova com quem dirige, ou contrate carro com motorista para os dias mais densos.

Almoço é parte da experiência. Não tente economizar tempo pulando o almoço. Aproveite para almoçar entre os dois châteaux, num bistrô da região, num restaurante de château que ofereça essa possibilidade, ou comprando produtos para um piquenique. Isso muda completamente o ritmo do dia.

A melhor época para ir vai de maio a outubro, com setembro sendo provavelmente o ideal: tempo bom, vinhedos ainda verdes e densos antes da colheita, e a possibilidade de cruzar com a vindima dependendo da safra. Julho e agosto são quentes e algumas propriedades reduzem o atendimento. Inverno tem vantagens, principalmente para quem busca degustações mais íntimas, mas várias propriedades fecham ou exigem agendamento ainda mais restrito.

Sobre orçamento, ele varia muito. Visitas variam de gratuitas (caso de Montrose e Pontet-Canet, ambos sem taxa) até experiências de 50 euros nos châteaux mais elaborados. Calcule, em média, 20 a 30 euros por pessoa por visita guiada com degustação. Almoço bom em bistrô regional, algo entre 25 e 40 euros por pessoa. Hospedagem na cidade de Bordeaux é mais variada, com hotéis bons a partir de 100 a 150 euros a diária, e fica fácil rodar até as regiões. Saint-Émilion é encantador para uma ou duas noites, mas custa mais caro.

O que fica de Bordeaux quando você volta para casa

Bordeaux pode ser intimidante para quem chega. A reputação, os preços lá em cima dos grandes Crus, a sensação de que existe um código secreto que só os iniciados conhecem. Mas quando você organiza a viagem por contrastes em vez de por hierarquias, tudo muda. Visitar Carbonnieux e perceber que Bordeaux fez branco por séculos, comparar a tecnologia ultraavançada de Montrose com os cavalos bretões de Pontet-Canet, atravessar a balsa em Lamarque enquanto come um sanduíche olhando o estuário, caminhar entre Malromé e Malagar pensando em Toulouse-Lautrec e Mauriac. Essas coisas se misturam e formam uma memória bem maior que qualquer pontuação de revista.

E o vinho, claro, vira outra coisa depois disso. Você abre uma garrafa em casa, gira a taça, e começa a lembrar não só do sabor, mas da pessoa que conduzia o tour, do barulho dos cascos do cavalo no cascalho, do cheiro da cava calcária, da luz batendo na cozinha do château em hora marcada. Vinho é isso. E Bordeaux é, com todos os seus 6.500 produtores e a complexidade que parece desencorajar, um dos lugares mais generosos do mundo para quem decide se entregar a esse tipo de viagem.

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