Guia de Viagem no Golden Circle na Islândia
Golden Circle na Islândia: o guia honesto para fazer o roteiro mais famoso do país sem cair em armadilhas de turista.

Um roteiro circular de cerca de 230 km saindo de Reykjavík que reúne o Parque Nacional Thingvellir, a área geotérmica de Geysir e a cachoeira Gullfoss, podendo ser feito em um dia ou esticado por dois ou três com paradas secretas, fontes termais e o cráter Kerið.
O Golden Circle é provavelmente a primeira coisa que aparece quando alguém digita “o que fazer na Islândia” no Google. E faz sentido. É a rota mais acessível para quem está baseado em Reykjavík, concentra três atrações que valem por uma viagem inteira, e dá pra encaixar até numa escala longa entre voos. Só que justamente por ser tão popular, ela vem cheia de meias verdades, ônibus lotados em horários ruins e expectativas que nem sempre batem com o que você encontra no chão (literalmente, porque tem chão de lava, gelo e musgo, tudo no mesmo dia).
Vale a pena? Vale muito. Mas vale mais ainda se você souber como atacar o roteiro, quando ir, onde parar fora do óbvio e o que esperar de cada uma daquelas três paradas clássicas. É disso que esse guia trata.
O que é o Golden Circle, afinal
A rota tem três pontos principais, que aparecem em qualquer folheto, em qualquer agência, em qualquer post de Instagram sobre a Islândia:
- Parque Nacional Thingvellir (escreve-se Þingvellir em islandês, mas todo mundo lê “Thingvellir” mesmo).
- Área geotérmica de Geysir, com o gêiser Strokkur fazendo o show.
- Cachoeira Gullfoss, a “queda dourada”.
Esses três lugares formam um circuito que sai e volta a Reykjavík. A distância total fica em torno de 230 quilômetros, dependendo de quanto você se desvia para conhecer paradas extras. Em um dia bem puxado dá pra fazer tudo. Em dois dias, você respira. Em três, começa a flertar com a Islândia de verdade.
O nome “Golden Circle” não é oficial nem antigo. Foi praticamente inventado pela indústria do turismo para vender uma rota redondinha, que coubesse em um pacote. E funcionou bem demais.
Quando ir: cada estação muda completamente o roteiro
Aqui mora um dos pontos mais ignorados pelos viajantes de primeira viagem. A Islândia muda de cara de forma brutal entre verão e inverno, e o Golden Circle sente isso na pele.
Verão (junho a agosto)
É a melhor janela para quem quer luz, estradas tranquilas e a possibilidade real de dirigir sozinho sem sustos. O sol da meia-noite permite que você esteja em Thingvellir às 23h com claridade de fim de tarde. As estradas secundárias estão abertas, as fontes termais estão acessíveis, e o verde dos campos de lava cobertos de musgo é uma coisa quase irreal.
O problema do verão é a multidão. Geysir, principalmente, lota. Os estacionamentos enchem entre 10h e 16h. Se você puder fazer o roteiro começando às 7h da manhã ou só depois das 17h, sua experiência muda completamente.
Inverno (novembro a março)
A Islândia no inverno é outro país. Thingvellir coberto de neve, Gullfoss parcialmente congelada, e a chance real de ver aurora boreal nas noites em que você for dormir longe da poluição luminosa de Reykjavík. As paisagens são mais dramáticas, mas o dia tem só quatro ou cinco horas de luz útil.
Dirigir no inverno exige preparo. Pneus de neve obrigatórios, atenção redobrada com vento (que abre porta de carro como se fosse papel), e disposição para mudar planos se uma tempestade fechar a rota. Não é para qualquer um, mas a recompensa visual é incomparável.
Meias estações (abril, maio, setembro, outubro)
Pessoalmente acho essas as melhores janelas. Menos gente, paisagem em transição, ainda existe chance de aurora em setembro e outubro, e o clima é menos hostil que no inverno cheio. Maio costuma ter dias longos sem o caos turístico de julho.
Como fazer o roteiro: as três formas mais comuns
Carro alugado
É a forma que eu mais recomendo. Você controla os horários, para onde quiser, fica o tempo que precisa, e ainda consegue chegar nas atrações antes ou depois dos ônibus de excursão. Aluguel de carro na Islândia é caro, sem rodeios. Um compacto manual no verão sai por algo entre 70 e 120 euros por dia, dependendo de quando você reserva.
Recomendação prática: reserve com antecedência. A oferta é limitada e os preços disparam perto da data. Sempre faça seguro completo, principalmente o que cobre danos por vento e cascalho, que são as duas coisas que mais quebram carro no país.
Tour guiado de um dia
Sai de Reykjavík cedo, volta no fim da tarde. Preço médio entre 90 e 150 euros por pessoa. Vantagem: zero preocupação, guia conta histórias, ônibus aquecido. Desvantagem: você fica preso ao cronograma, chega nos lugares no mesmo horário que outros vinte ônibus, e não consegue parar nas atrações secundárias que mais valem a pena.
Self drive de dois ou três dias
Para mim, o melhor formato. Dormir uma noite em Selfoss, Laugarvatn ou perto de Flúðir muda tudo. Você acorda perto das atrações, faz Thingvellir antes dos ônibus chegarem, almoça com calma, ainda dá tempo de incluir a Secret Lagoon ou o Kerið antes de voltar.
Os três grandes: o que esperar em cada parada
Parque Nacional Thingvellir
Esse é o lugar com mais peso histórico de toda a Islândia. Foi ali, por volta do ano 930, que os colonos vikings reuniram o primeiro parlamento do mundo, o Alþingi (lê-se “althing”). Uma pedra plantada no chão, chamada Lögberg ou “Law Rock”, marca o ponto exato onde a civilização islandesa começou, pelo menos a parte organizada dela.
Mas o que mais impressiona em Thingvellir não é a história. É a geografia. O parque fica no encontro das placas tectônicas norte-americana e eurasiana, e você consegue ver, com seus olhos, a fenda que se abre entre os dois continentes. Caminhar pela trilha principal do parque é literalmente andar dentro dessa rachadura.
Tem ainda a fissura Silfra, uma fenda preenchida com água glacial cristalina que oferece o que provavelmente é o mergulho mais bizarro do planeta: você nada entre dois continentes ao mesmo tempo. A água tem visibilidade de mais de 100 metros e fica em torno de 2 a 4 graus o ano inteiro. Precisa de roupa seca e operadora credenciada. Não é barato (em torno de 150 a 200 euros), mas quem topa, não esquece.
Tempo recomendado de parada: mínimo 1h30, ideal 2h30.
Área geotérmica de Geysir
A palavra “gêiser” em todas as línguas do mundo vem daqui. O Great Geysir original, que chegava a jogar água a 70 metros de altura, está praticamente adormecido faz décadas. Mas o vizinho dele, o Strokkur, compensa. Ele entra em erupção a cada cinco ou dez minutos, jorrando água quente a até 40 metros.
A dica honesta: chegue cedo ou no fim do dia. Entre 11h e 15h, o lugar fica disputado. E uma observação que ninguém te conta: não fique com o vento batendo nas costas em direção ao gêiser. Quando o jato sobe, o vento traz uma chuva de água quente direto no seu rosto. Já vi turista perder câmera por isso.
O resto da área tem várias fumarolas, piscinas borbulhantes coloridas e trilhas curtas. Vale uma volta. Do outro lado da estrada tem um centro com restaurante, lojinha e banheiro, que é onde quase todo mundo acaba parando.
Tempo recomendado: 1h a 1h30.
Cachoeira Gullfoss
A “queda dourada” é o tipo de lugar que parece exagerado nas fotos, e ainda assim consegue impressionar ao vivo. A água do rio Hvítá despenca em dois degraus, num desnível total de cerca de 32 metros, dentro de um cânion estreito. A névoa sobe, o barulho engole tudo, e em dias de sol é comum ver arco-íris se formando sobre as quedas.
Tem uma história bonita por trás. No começo do século 20, investidores estrangeiros queriam comprar a cachoeira para construir uma hidrelétrica. A filha do proprietário, Sigríður Tómasdóttir, lutou contra a venda a vida inteira, chegou a ameaçar se jogar nas quedas e acabou conseguindo, com ajuda do governo, impedir o projeto. Por isso Gullfoss segue intocada hoje.
Existem dois mirantes principais: um superior, com vista panorâmica, e um inferior, mais perto da queda, onde a água respinga na sua cara. No inverno, o caminho inferior costuma ficar fechado por causa do gelo.
Tempo recomendado: 1h.
As paradas que ninguém comenta o suficiente
O Golden Circle clássico tem três pontos. Mas os melhores momentos da rota, na minha opinião, estão nas paradas que ficam fora do folheto.
Kerið
Uma cratera vulcânica de aproximadamente 3.000 anos, com um lago azul intenso no fundo e paredes vermelhas de óxido de ferro. Fica bem perto da estrada principal, cobra uma entrada simbólica (em torno de 400 ISK, uns 3 euros), e dá pra fazer a volta completa no topo da cratera em uns 30 minutos. Visualmente é uma das paradas mais impressionantes da rota inteira.
Secret Lagoon (Gamla Laugin)
Em Flúðir, fica a piscina geotérmica mais antiga da Islândia, de 1891. Bem menos lotada que a Blue Lagoon, bem mais barata, e com aquela atmosfera de fonte termal de verdade, sem o exagero de spa. Entrada por volta de 3.000 a 3.500 ISK. Leva traje de banho e uma toalha. Tomar banho antes de entrar é obrigatório (sem roupa, no vestiário, como manda a tradição islandesa).
Friðheimar
Uma estufa de tomates aquecida geotermicamente, em Reykholt, que virou restaurante. Você almoça no meio do cultivo, com sopa de tomate ilimitada, pão fresquinho e bloody mary feito ali. Reserva com antecedência é obrigatória, porque lota.
Hot River no vale de Reykjadalur
Um pouco fora do circuito tradicional, mas perto de Hveragerði, na rota de volta para Reykjavík. É uma caminhada de mais ou menos 1h subindo a montanha, que termina num rio onde a água quente da terra se mistura com água fria de degelo. Você entra no rio e escolhe a temperatura andando alguns metros pra cima ou pra baixo. Coisa de outro mundo.
Nesjavellir Geothermal Power Plant
Para quem se interessa por como a Islândia transforma vulcão em eletricidade, vale uma visita à usina geotérmica de Nesjavellir, parte do Hengill. Ela produz cerca de 120 MW de eletricidade e 1.110 litros por segundo de água quente entre 80 e 85 graus. Tem visitação educativa e a paisagem em volta já justifica o desvio.
Quanto custa: estimativa real para dois viajantes
Valores aproximados para um casal fazendo o Golden Circle em dois dias no verão, sem luxo nem pão duro extremo.
| Item | Custo estimado (EUR) |
|---|---|
| Aluguel de carro compacto (2 dias) | 180 a 240 |
| Combustível | 60 a 90 |
| Hospedagem fora de Reykjavík (1 noite) | 130 a 220 |
| Refeições (2 dias) | 160 a 220 |
| Entrada no Kerið | 6 |
| Secret Lagoon (2 pessoas) | 50 |
| Estacionamento em Thingvellir | 10 |
| Total aproximado | 600 a 840 |
Esses valores não incluem o mergulho na Silfra nem voos. E variam bastante conforme câmbio e temporada. No inverno, hospedagem fica um pouco mais barata, mas combustível compensa.
Dicas práticas que economizam dor de cabeça
Moeda: a coroa islandesa (ISK) é a moeda local, mas você praticamente não precisa de dinheiro vivo. Tudo, e quero dizer tudo mesmo, aceita cartão. Até o banheiro público em alguns lugares.
Fuso horário: UTC, sem horário de verão. No verão, a diferença para o horário de Brasília é de 3 horas (a Islândia adiantada). No inverno brasileiro, fica 3 horas. Costuma ser bem direto na conta.
Conexão: o sinal de celular cobre praticamente toda a rota do Golden Circle. Comprar um chip pré-pago da Síminn ou da Nova no aeroporto resolve a vida. Cerca de 30 euros dá conta de uma semana com bastante internet.
Roupa: mesmo no verão, leve camadas. O clima muda em quinze minutos. Capa de chuva impermeável, blusa térmica, calça que seca rápido. No inverno, multiplique isso por três e acrescente luva, gorro e cachecol grosso. Tênis comum não basta; bota impermeável faz toda diferença.
Combustível: abasteça quando vir um posto, não quando precisar. Algumas regiões da rota têm distâncias longas entre postos, e quase todos funcionam por cartão automático, 24h, sem atendente.
Comida: comer fora na Islândia é caro. Um prato simples em restaurante sai por 25 a 40 euros. Uma boa estratégia é comprar na rede Bónus (a mais barata do país, logo de identificar pelo porquinho rosa) e montar lanches para o dia. Sandwich, fruta, biscoito, água. Economiza muito.
Água: pode beber direto da torneira em qualquer lugar. É uma das melhores águas do mundo. Comprar água engarrafada na Islândia é jogar dinheiro fora.
Estradas: a estrada principal do Golden Circle (Route 36, 365, 37, 35) é toda asfaltada e bem sinalizada. Mas qualquer desvio para estradas com numeração F (as F-roads) exige veículo 4×4, e essas só ficam abertas no verão.
Roteiro sugerido de dois dias (a forma que funciona melhor)
Dia 1
Sair de Reykjavík por volta das 8h. Primeira parada: Thingvellir. Caminhar pela fenda, almoçar leve no café do centro de visitantes. Seguir para Geysir no início da tarde. Strokkur, fumarolas, lojinha. Daí Gullfoss, com calma, nos dois mirantes. Dormir em Flúðir, Selfoss ou Laugarvatn.
Dia 2
Acordar sem pressa, tomar café da manhã na pousada. Secret Lagoon de manhã, antes do meio-dia. Almoço no Friðheimar (com reserva). De tarde, Kerið. Voltar para Reykjavík pela tarde, com parada no Reykjadalur se ainda tiver disposição para a trilha.
Vale a pena?
Sim, vale. Mas vale com ressalvas. O Golden Circle é a porta de entrada para a Islândia, não a Islândia inteira. Se você só tem dois dias, faça com gosto. Se tem uma semana, faça em dois dias e use os outros cinco para descer a costa sul até Jökulsárlón, ou subir para Snæfellsnes. O país oferece muito mais do que esse circuito de cartão postal.
E uma última coisa que costuma passar despercebida: a Islândia não é destino de pressa. O lugar parece desenhado para quem topa parar o carro no acostamento, descer, ficar dez minutos olhando uma colina coberta de musgo, e seguir adiante sem entender direito por que aquilo emocionou tanto. O Golden Circle funciona bem nessa lógica. Basta não tratar a rota como uma checklist.