Guia Prático Para Visitar os Fiordes da Noruega

Fiordes da Noruega: o guia prático de quem sonha em navegar entre paredões de gelo e mar.

Fonte: Civitatis

Descubra como planejar uma viagem aos fiordes noruegueses, com dicas de roteiro, melhor época, transporte, custos e os trechos imperdíveis entre Bergen, Geiranger, Flåm e Sognefjord.

Existe um momento, logo depois que o barco entra no fiorde, em que o silêncio muda de textura. As paredes de rocha se fecham dos dois lados, o vento some, e a água fica tão lisa que parece sólida. É esse o instante que faz quem visita os fiordes da Noruega entender por que tantos viajantes voltam para casa dizendo a mesma coisa: nenhuma foto dá conta. Eu confesso que demorei a planejar essa viagem porque achava que seria complicada demais, cara demais, fria demais. Era tudo isso, em parte. Mas também era muito mais simples do que parecia, desde que você entenda como o país funciona.

Este guia é para quem quer ir aos fiordes sem se perder em mapas confusos, sem gastar o que não precisa, e sem cair na armadilha de tentar ver tudo em três dias. Porque os fiordes não combinam com pressa.

Por que os fiordes da Noruega são únicos

A Noruega tem mais de mil fiordes espalhados pela costa. Foram formados pelo movimento de geleiras imensas durante a última era do gelo, há cerca de 2,5 milhões de anos. O resultado são vales profundos, com paredões verticais que despencam direto no mar, cobertos por florestas verdes, cachoeiras que aparecem do nada e vilarejos minúsculos pendurados nas encostas.

Quatro fiordes concentram a maioria das visitas:

FiordeComprimentoProfundidadeDestaque
Sognefjord205 km1.308 mO maior e mais profundo
Hardangerfjord173 km900 mMacieiras e Vøringsfossen
Geirangerfjord15 km260 mPatrimônio da UNESCO
Lysefjord42 km400 mPreikestolen e Kjeragbolten

Cada um tem uma personalidade própria. O Geirangerfjord é o mais cinematográfico. O Sognefjord é o mais grandioso. O Hardangerfjord é o mais bucólico, conhecido como a Rainha dos Fiordes, especialmente bonito na primavera quando as macieiras florescem. O Lysefjord é o destino dos aventureiros, com aquelas trilhas que viraram cartão postal do Instagram.

A melhor época para visitar

Aqui vai a primeira decisão importante. A Noruega muda completamente de personalidade dependendo do mês.

De maio a julho é, sem dúvida, o período mais procurado. Os dias são longuíssimos, e perto do solstício de junho o sol praticamente não se põe. Imagine fazer uma trilha às onze da noite com luz suficiente para ler. As temperaturas variam entre 15 e 22 graus durante o dia, suficiente para caminhar de camiseta, embora as noites continuem frescas. As cachoeiras ainda estão fortes por causa do derretimento da neve. Esse é o cenário do “sol da meia-noite”, que vale por si só a viagem.

Agosto e início de setembro também são ótimos, com menos turistas e clima ainda agradável. As trilhas continuam abertas, e os preços de hospedagem começam a cair um pouco.

De outubro a março é outra viagem completamente diferente. Mais barata, mais silenciosa, mas com dias curtos e estradas que podem fechar. Em compensação, é quando aparece a aurora boreal no norte. Os cruzeiros da Hurtigruten operam o ano todo, inclusive no inverno, o que é uma forma confortável de ver os fiordes quando eles ficam cobertos de neve.

Evite ao máximo abril e novembro. São meses de transição, com chuva constante, neve derretendo, muitas trilhas fechadas e pouco do charme que você está indo buscar.

Como chegar

A porta de entrada natural é Oslo, capital do país e principal aeroporto internacional. De São Paulo, não existe voo direto. As conexões mais comuns são via Lisboa, Paris, Frankfurt, Amsterdã ou Copenhague. O tempo total de viagem fica entre 16 e 22 horas, dependendo da escala.

Mas se o seu foco são os fiordes mesmo, considere voar direto para Bergen. É a segunda maior cidade da Noruega, está no meio da região dos fiordes, e tem voos a partir das principais cidades europeias. Conexões em Copenhague, Oslo ou Amsterdã costumam funcionar bem.

Já entrei pelo aeroporto de Bergen, e a sensação é diferente de chegar em Oslo. Você praticamente já está no clima, vê montanhas pela janela do avião, e em vinte minutos de táxi está no centro histórico de Bryggen.

O roteiro clássico de 7 a 10 dias

Esse é o tempo mínimo razoável para conhecer a região sem correr. Menos do que isso vira maratona. Mais do que isso, você consegue incluir trilhas mais longas e talvez subir até o norte.

Dias 1 e 2: Bergen

Comece por Bergen. A cidade tem cara de cartão postal, com aquelas casas de madeira coloridas do bairro de Bryggen, hoje Patrimônio Mundial da UNESCO. Reserve um dia para andar pelo centro, subir no funicular Fløibanen até o topo do monte Fløyen, e visitar o mercado de peixe. Vá no segundo dia ao aquário ou faça um passeio curto de barco pelos fiordes próximos.

Dias 3 e 4: Sognefjord e Flåm

Pegue o trem ou um barco rumo a Flåm. A viagem em si já é o programa. O percurso da Bergen Railway até Myrdal, seguida da descida pela Flåmsbana, é considerado um dos trajetos ferroviários mais bonitos do planeta. São 20 quilômetros de trilho que descem 866 metros em curvas espetaculares, passando ao lado de cachoeiras como a Kjosfossen.

Em Flåm, faça o cruzeiro pelo Nærøyfjord, o braço mais estreito do Sognefjord, com apenas 250 metros de largura em alguns pontos. Esse é o trecho que recebeu o selo da UNESCO, e justifica.

Dias 5 e 6: Geiranger

Geiranger fica mais ao norte, e chegar lá envolve alguma combinação de ônibus, barco e estrada. Vale o esforço. A estrada Trollstigen, com seus onze grampos de cabelo subindo a montanha, é uma atração por si só. Importante: ela só abre entre meados de maio e outubro, dependendo da neve.

Em Geiranger, faça o cruzeiro pelo fiorde para ver a cachoeira das Sete Irmãs, com seus sete jatos de água caindo lado a lado de um paredão de mais de 250 metros.

Dias 7 a 10: Stavanger, Preikestolen e Lysefjord

Se sobrar tempo, vá para Stavanger, no sul. De lá, parte a trilha mais famosa da Noruega, a do Preikestolen, ou Púlpito. São cerca de 8 quilômetros ida e volta, em terreno bem marcado, até um penhasco quadrado de 604 metros sobre o Lysefjord. A foto é icônica. A sensação no topo é difícil de descrever.

Para quem busca algo mais radical, o Kjeragbolten é uma pedra encravada entre dois paredões a 1.084 metros de altura. A trilha é mais dura e mais longa, mas a pedra virou ponto obrigatório para quem coleciona momentos de adrenalina.

Como se locomover

O transporte público na Noruega funciona muito bem, e é totalmente possível fazer toda a viagem sem alugar carro. Trens, ônibus e barcos se conectam num sistema chamado popularmente de “Norway in a Nutshell”, que vende pacotes prontos combinando esses meios.

Alugar carro tem prós e contras. O ponto positivo é a liberdade de parar em qualquer mirante, sair da rota principal, e descobrir vilarejos pequenos. O negativo é o custo. Pedágios, ferries cobradas, combustível caríssimo e estradas de mão única que exigem atenção dobrada. Se for sua primeira viagem ao país, o transporte público dá conta perfeitamente.

Os ferries são parte essencial da experiência. Várias estradas só funcionam porque cruzam fiordes em balsas. O sistema é eficiente, com horários certinhos, e dá para pagar com cartão.

Quanto custa

A Noruega é cara. Não adianta tentar mascarar isso. Mas dá para reduzir o impacto se planejar bem.

Uma refeição em restaurante comum custa entre 200 e 350 coroas norueguesas, algo entre 100 e 180 reais. Uma cerveja sai por 80 a 120 coroas. Hospedagem em hostel fica entre 400 e 700 coroas por noite. Hotel modesto, entre 1.200 e 2.000 coroas.

Algumas estratégias funcionam bem. Cozinhar no hostel ou apartamento alugado corta o gasto com comida pela metade. Os supermercados Rema 1000, Kiwi e Coop têm preços bem mais aceitáveis. Use a água da torneira, que é potável e de qualidade absurda em todo o país.

Não dá quase para pagar nada em dinheiro. A Noruega é praticamente cashless. Leve um cartão internacional habilitado, preferencialmente sem taxa de IOF dolarizado, e esqueça as moedas.

Hospedagem: onde dormir

Em Bergen, fique perto de Bryggen ou na região do centro histórico. Caminhar é a melhor forma de conhecer a cidade.

Em Flåm, as opções são limitadas e a alta temporada esgota rápido. Reserve com vários meses de antecedência se for entre junho e agosto.

Em Geiranger, o vilarejo é pequeno e os hotéis ficam caros. Uma alternativa é se hospedar em cidades vizinhas, como Hellesylt, que ainda permite acesso fácil ao fiorde por barco.

Cabines de madeira, chamadas hytter, são uma opção tipicamente norueguesa. Algumas ficam à beira do fiorde, com vista que paga o investimento. Para grupos ou famílias, geralmente saem mais em conta que hotel.

O que comer

A culinária norueguesa não é o ponto forte da viagem, vamos combinar. Mas tem coisas que vale provar.

Salmão fresco, claro. O peixe é uma das principais exportações do país, e por aqui ele aparece em todo lugar, do café da manhã ao jantar. Em Bergen, o restaurante Cornelius Sjømatrestaurant tem uma proposta interessante: o peixe servido no dia foi pescado naquele mesmo dia.

O bacalhau seco, ou klippfisk, e os pratos com alce e rena também aparecem nos cardápios. Os waffles noruegueses, em formato de coração, com geleia de mirtilo e creme de leite azedo, são uma sobremesa típica e barata, vendida em lanchonetes simples beira de estrada.

O que levar na mala

O clima é instável em qualquer época. Aprendi isso na pele depois de ser surpreendido por chuva forte numa trilha em pleno mês de julho. Algumas peças são essenciais.

Capa de chuva impermeável, dessas que cobrem bem o tronco. Não confie em guarda-chuva, porque o vento dos fiordes destrói qualquer um. Calçado de trekking com solado firme, mesmo que você não pretenda fazer trilhas grandes, porque os terrenos costumam ser irregulares. Camadas, sempre. Camiseta térmica, fleece intermediário, jaqueta corta-vento. Boné e óculos escuros, já que o sol brilha forte mesmo com ar frio.

E protetor solar. Parece bobagem, mas com o sol da meia-noite refletindo na água, queimadura acontece sem você perceber.

Detalhes práticos importantes

A moeda local é a coroa norueguesa, NOK. O fuso horário é UTC+1, ou seja, quatro horas à frente de Brasília.

O idioma oficial é o norueguês, mas praticamente todo mundo fala inglês muito bem, inclusive em vilarejos pequenos. Brasileiros não precisam de visto para turismo de até 90 dias dentro do espaço Schengen.

Tomadas são do tipo F, as mesmas usadas em grande parte da Europa, com voltagem de 230V. Vale levar um adaptador universal.

Sites úteis para planejar: o portal oficial visitnorway.com tem informações atualizadas em inglês. O fjordtours.com vende os pacotes do Norway in a Nutshell. O vy.no é o site da companhia ferroviária estatal. O hurtigruten.com vende as passagens dos cruzeiros costeiros.

Algumas observações que poucos guias contam

Os mosquitos existem, e nos meses de verão eles incomodam de verdade em algumas regiões, especialmente perto de lagos e áreas pantanosas. Repelente na mala.

Os horários funcionam à risca. Trens e barcos partem na hora marcada, sem cinco minutos de tolerância. Chegue antes.

A natureza tem regras chamadas allemannsretten, o direito de todos. Você pode caminhar por quase qualquer lugar, acampar gratuitamente em terrenos não cultivados, colher frutas silvestres. Em troca, espera-se respeito absoluto pelo meio ambiente. Não deixe lixo, não faça fogueira fora dos lugares permitidos, não se aproxime demais da vida selvagem.

E uma última coisa que ninguém avisa direito. Os fiordes mudam de cor ao longo do dia. De manhã cedo são azul-prata. Ao meio-dia, verde-esmeralda. No fim da tarde, com o sol baixo, ganham um tom quase dourado. Reserve sempre um momento para ficar parado, sem câmera, sem celular, só olhando. É essa imagem que fica gravada de verdade.

Os fiordes não são um destino para colecionar fotos. São um destino para entender o que significa pequenez diante da paisagem. E quando você cruza um deles, como dizem os noruegueses, não esquece mais.

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