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Roteiro das Cidades Imperiais do Marrocos

Casablanca, Meknes, Fez, Rabat e Marrakech formam o chamado circuito das cidades imperiais — quatro antigas capitais do país mais o seu maior centro econômico, conectadas por trem, ônibus e estradas que funcionam razoavelmente bem para quem viaja por conta própria. São oito dias que percorrem séculos de história islâmica, arquitetura berbere, souks labirínticos e uma ou outra surpresa que nenhum roteiro de agência deixa espaço para acontecer. Este guia é para quem quer entender exatamente como fazer cada etapa, sem intermediário.

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Dia 1 — Chegada em Casablanca

O Aeroporto Internacional Mohammed V (CMN) é o principal hub do Marrocos para vôos intercontinentais. Do Brasil, a conexão mais comum é via Lisboa, Madrid, Paris ou Istambul — a Royal Air Maroc opera direto de São Paulo via Casablanca. A chegada costuma ser tarde, o que justifica a nota do roteiro original: o quarto fica disponível a partir das 15h, mas dá para negociar bagagem armazenada se chegar antes.

Do aeroporto ao centro, o trem da ONCF que sai direto do terminal é a opção mais inteligente. Chega à Gare Casa Voyageurs em menos de 40 minutos, custa cerca de 50 MAD na segunda classe e roda com boa pontualidade. Táxi oficial do aeroporto custa entre 200 e 300 MAD — mais caro, menos interessante, mas útil se você chegar com muita bagagem ou muito tarde.

O primeiro dia é só de chegada, jantar e adaptação ao fuso horário. Casablanca tem três horas à frente de Brasília no horário de verão brasileiro — não é grande coisa, mas o corpo sente.


Dia 2 — Casablanca, Meknes e Fez

Esse é o dia mais carregado do roteiro, e precisa começar cedo. A ideia é visitar Casablanca pela manhã, parar em Meknes no meio do dia e dormir em Fez. São aproximadamente 320 km percorridos ao longo do dia.

Em Casablanca, o essencial fica concentrado em poucos pontos. O bairro Habous — construído pelos franceses nos anos 1920 — tem uma arquitetura peculiar, meio colonial, meio arabesca, com lojas de artesanato e uma atmosfera muito mais tranquila do que o centro. A Praça Mohammed V, cercada por prédios art déco, é boa para uma caminhada rápida. A fachada do Palácio Real não é aberta ao público, mas impressiona por fora. E a Mesquita Hassan II — com seu minarete de 210 metros, parte da estrutura construída literalmente sobre o Atlântico — é uma das maiores mesquitas do mundo. Aceita visitação de não muçulmanos em horários específicos (manhãs, exceto sexta-feira); vale reservar com antecedência porque as filas sem reserva são longas.

O deslocamento de Casablanca a Meknes pode ser feito de trem ONCF com uma baldeação em Rabat ou Kenitra, ou de ônibus CTM com saída direta — cerca de 3h30 de viagem. O trem é mais confortável; o ônibus, mais direto dependendo do horário. Compre os bilhetes pelo site oncf.ma ou ctm.ma com dois dias de antecedência, especialmente em alta temporada.

Meknes merece pelo menos três horas. É uma das cidades imperiais menos visitadas do circuito, o que é, paradoxalmente, seu maior atrativo. Sem o fluxo turístico de Fez ou Marrakech, os souks e a medina têm um ritmo mais natural, mais marroquino de verdade. O cartão postal da cidade é a Bab Mansour — um portão monumental do século XVIII, coberto de mosaicos em tons de verde e branco, que o sultão Moulay Ismail mandou construir como declaração de poder. É só para olhar; não se passa por ela. Mas vale demorar ali.

Nos fundos da medina estão os estábulos reais de Moulay Ismail, que comportavam doze mil cavalos puro-sangue árabe. As paredes grossas de adobe, os canais subterrâneos de irrigação e a escala absurda da construção revelam bem o ego do homem que queria fazer de Meknes a Versalhes do norte da África. Deu parcialmente certo: a cidade inteira é Patrimônio Mundial da UNESCO.

De Meknes a Fez, o trem faz o trecho em pouco mais de 30 minutos — sai de hora em hora. Também dá de grand taxi compartilhado (uns 70 MAD por pessoa, saída quando lotar com seis passageiros), que demora cerca de uma hora.


Dia 3 — Fez: a cidade que exige presença total

Dê o dia inteiro a Fez. E se puder, fique mais um. A medina de Fes el-Bali é a maior zona urbana sem carros do mundo — mais de 150.000 pessoas vivem nesse labirinto de 9.000 ruas — e foi declarada Patrimônio Mundial da UNESCO em 1981. É o tipo de lugar que não dá para entender em meia manhã.

Entre pela Bab Bou Jeloud, o portão mais bonito da medina, com azulejos azuis do lado de dentro e verdes do lado de fora — azul é a cor de Fez, verde é a cor do islã. A partir daí, qualquer direção leva a algo interessante. Aceite se perder. O GPS trava constantemente nas ruelas e isso, na prática, funciona a favor do viajante.

A Madrasa Bou Inania é uma escola islâmica medieval com uma arquitetura de tirar o fôlego: mosaicos de zellige no chão, estuque entalhado nas paredes, madeira de cedro no teto e um pátio central com fonte que parece parado no século XIV. Fica na rua principal da medina e é aberta a visitantes por uma entrada barata.

A Fonte de Nejjarine — também chamada de Sabil Nejjarine — é uma das mais fotografadas de Fez, emoldurada por azulejos e madeira trabalhada. O museu de marcenaria ao lado tem peças notáveis e uma vista boa do terraço.

O destaque absoluto são os Curtumes Chouara — as tinas coloridas onde o couro é tingido com a mesma técnica há séculos. Para vê-los de cima, entre em qualquer uma das lojas de couro nos andares superiores que circundam o espaço. Os atendentes oferecem acesso ao terraço de bom grado — sabendo que você vai ver os produtos ao sair. Agradeça, olhe tudo, compre se quiser (o couro de Fez é genuinamente bom), negocie com paciência.

O Mausoléu de Moulay Idriss II — fundador da cidade — não é aberto a não muçulmanos, mas a praça ao redor é um dos pontos mais vivos da medina. A Mesquita Karaouine, fundada em 859 e considerada a universidade mais antiga em funcionamento contínuo do mundo, também é de acesso restrito, mas vista de fora já impõe respeito.

Para jantar, saia da medina e vá ao Ville Nouvelle — a parte moderna da cidade, com restaurantes contemporâneos e cafés tranquilos. A medina tem boas opções também, mas a pressão de entrar nos restaurantes turísticos nas ruelas principais cansa depois de um dia longo.


Dia 4 — Fez → Rabat (a capital que surpreende)

O trem de Fez a Rabat leva pouco mais de 3 horas e passa por Meknes e Kenitra. É uma das viagens ferroviárias mais agradáveis do país, com paisagem variando entre planícies agrícolas, colinas e pequenas cidades. Primeira classe custa em torno de 200 MAD; segunda, uns 130 MAD.

Rabat tem a reputação de ser a cidade mais discreta do Marrocos — e é mesmo. Capital administrativa do país desde 1912, a cidade combina uma medina muito mais tranquila do que Fez ou Marrakech com uma vida urbana organizada e uma qualidade de calçada que chega a surpreender depois de dias pisando nas ruelas medievais do norte.

O Mausoléu de Mohammed V e a Torre Hassan ficam lado a lado e podem ser vistos em menos de uma hora. A torre é um minarete inacabado do século XII — o sultão Yacoub al-Mansour morreu em 1199 antes de terminá-la, e ela ficou exatamente como estava. Ao lado, as colunas que seriam o corpo da mesquita permanecem de pé, sem telhado, formando um campo de pedra que é ao mesmo tempo ruína e monumento.

A Kasbah dos Oudaias é a parte mais bonita de Rabat. Uma antiga fortaleza berbere com ruas estreitas, casas pintadas de branco e azul, jardins andaluzes e uma vista para o rio Bou Regreg onde barcos de pesca ficam ancorados à tarde. O ambiente lembra vagamente Chefchaouen, mas sem o fluxo turístico.

A medina de Rabat é pequena e tem ótimas lojas de artesanato com preços mais honestos do que em Marrakech. Vale comprar aqui se você está deixando as compras para o final do roteiro.

Para se mover dentro da cidade, o tram de Rabat é moderno, limpo e cobre boa parte da cidade, incluindo o centro histórico. Bilhete custa cerca de 6 MAD.


Dia 5 — Rabat → Marrakech

O trem de Rabat a Marrakech leva aproximadamente 4 horas, passando por Casablanca. É a perna mais longa em trilhos do roteiro, mas corre bem. Saia de manhã para ter a tarde toda em Marrakech.

A chegada à Gare de Marrakech é no centro da cidade nova — de lá, petit taxi ou aplicativo (Careem, inDriver) chegam à medina em menos de 15 minutos.


Dia 5 e 6 — Marrakech: dois dias que ainda são poucos

Marrakech exige tempo e energia. Com dois dias, dá para ver o essencial sem correria — mas sem folga também.

O primeiro dia é para a medina velha. A Praça Djemaa el-Fna é o palco permanente da cidade: encantadores de serpentes, músicos Gnawa, contadores de histórias em árabe e berbere, vendedores de suco de laranja espremido na hora, barracas de comida que se montam ao entardecer e transformam a praça num restaurante a céu aberto para centenas de pessoas. Chegue por volta das 18h e suba num dos terraços dos restaurantes ao redor para ver tudo se montar enquanto o minarete da Koutoubia pega o último sol.

O Palácio Bahia é um dos mais belos do Marrocos — construído no final do século XIX por um grão-vizir que queria a residência mais impressionante da cidade, o que conseguiu. Quarenta câmaras, pátios com laranjeiras, tetos de madeira pintada e paredes cobertas de azulejos zellige. As Tumbas Saadianas ficam a dez minutos a pé e guardam os túmulos da dinastia saadiana do século XVI, redescobertos só em 1917 depois de séculos escondidos atrás de uma parede — o que os preservou extraordinariamente bem.

O Museu Dar Si Said tem uma das melhores coleções de arte marroquina do país, com joias berberes, tapetes, armas ornamentadas e mobiliário tradicional.

O segundo dia é para o Jardim Majorelle e os souks. O jardim comprado e restaurado por Yves Saint Laurent tem um azul cobalto nos muros que não parece real ao vivo — e é o fundo de quinhentas fotos por hora na alta temporada, então chegue quando abrir às 8h. O Museu YSL ao lado é compacto mas muito bem curado, especialmente para quem tem qualquer interesse em moda, design ou arte contemporânea.

Os souks de Marrakech são os mais intensos do país. Organizados por ofício — tanoeiros aqui, tecedores ali, ferreiros logo adiante — formam um mapa sensorial que começa a fazer sentido só depois de se perder algumas vezes. Negocie sempre: o primeiro preço nunca é o real. Especiarias, babuchas, lanternas de cobre, argan, tapetes — tudo está disponível, tudo é negociável. Uma postura tranquila e um “não obrigado” firme bastam para controlar a situação.

Para se mover dentro de Marrakech, petit taxi (bege/laranja) é o mais prático. Combine o preço antes ou exija o taxímetro. Os aplicativos Careem e inDriver funcionam bem e eliminam a negociação.


Dia 7 — Marrakech: dia livre para excursões ou descanso

O roteiro original prevê esse dia livre — e é uma boa decisão. Marrakech tem dois dias cheios antes e, após tanto deslocamento, um dia sem compromisso fixo é bem-vindo.

Quem quiser pode usar o dia para uma excursão de meia jornada ao Valle de l’Ourika, a uns 60 km no sopé do Alto Atlas — palmeirais, cascatas, aldeias berberes. Ou para Essaouira, a cidade portuária na costa atlântica a 3 horas de ônibus, com uma medina mais fria, mais azul e muito mais tranquila do que qualquer cidade do interior.

Quem preferir ficar em Marrakech pode aproveitar o Hammam — o banho árabe tradicional que combina vapor, esfoliação e massagem. Qualquer riad indica um hammam bom na vizinhança por preços muito mais razoáveis do que os hammams turísticos da medina.


Dia 8 — Marrakech → Brasil

Café da manhã, últimas compras, táxi ao aeroporto. O Aeroporto Marrakech-Menara (RAK) fica a apenas 6 km do centro. O taxi oficial cobra em torno de 70 a 100 MAD; o bus nº 19 passa na Djemaa el-Fna e chega ao terminal por 20 MAD, mas demora mais.


O transporte que une tudo: o trem ONCF

A espinha dorsal deste roteiro é o trem da ONCF, a ferrovia marroquina. Casablanca, Rabat, Meknes, Fez e Marrakech são todas conectadas por trilhos — e o serviço é pontual, com ar-condicionado, duas classes bem distintas e venda online pelo site oncf.ma ou pelo aplicativo. Primeira classe custa em média 30% a mais que a segunda e vale o investimento para os trechos mais longos.

Os trens de alta velocidade Al Boraq (TGV) ligam Casablanca a Tânger em 2h10 e passam por Rabat em 45 minutos. Para o circuito deste roteiro, os trens convencionais já resolvem bem.

Dica importante: em Fez, a estação de trem (Gare de Fès) fica fora da medina, a uns 10 minutos de petit taxi. Em Marrakech, a estação fica no centro da ville nouvelle. Sempre confirme o ponto de chegada antes de tomar o táxi.


Antes de embarcar: o que organizar no Brasil

Visto: não precisa. Brasileiros entram no Marrocos só com passaporte válido, até 90 dias de turismo.

Dinheiro: o Dirham marroquino (MAD) não é conversível fora do Marrocos. Leve euros ou dólares para trocar ao chegar. Os caixas eletrônicos das redes Attijariwafa e Banque Populaire aceitam cartões internacionais sem grandes problemas. Avise seu banco sobre a viagem antes de sair.

Chip: compre ao chegar — Maroc Telecom e Orange Maroc vendem no aeroporto. Por cerca de 50 MAD, você tem um pacote de dados generoso que aguenta bem a semana toda.

Hospedagem: riads são a forma mais autêntica de se hospedar no Marrocos — casas tradicionais convertidas em guesthouses, com pátio central, café da manhã incluído e donos que conhecem a cidade melhor do que qualquer guia. Reserve com antecedência especialmente em Fez e Marrakech (temporada alta: março-abril e outubro-novembro).

Idioma: o francês é a língua prática do turismo marroquino — abre mais portas do que o inglês em qualquer cidade menor. Em Marrakech e Casablanca o inglês funciona bem nos circuitos turísticos. Algumas palavras em árabe darija fazem diferença no cotidiano: shukran (obrigado), la shukran (não, obrigado — imprescindível nos souks), bezzef (demais/muito — útil para reclamar de preço com leveza).

Roupas: este é um país muçulmano. Ombros e joelhos cobertos nas medinas e locais religiosos são tanto questão de respeito quanto de evitar atenção desnecessária. À noite, mesmo no verão, as cidades do interior ficam frescas — leve uma camada a mais na mochila.


Esse circuito pelas cidades imperiais é, provavelmente, a melhor introdução possível ao Marrocos. Cada cidade tem uma personalidade própria — Casablanca é moderna e cosmopolita, Meknes é grandiosa e subestimada, Fez é medieval e intensa, Rabat é tranquila e elegante, Marrakech é caótica e magnética. Fazer tudo isso por conta própria, no seu tempo, sem guia com bandeirinha, é a diferença entre ver o Marrocos e sentir o Marrocos.

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