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Roteiro de Buenos Aires até Ushuaia na Argentina

Argentina completa: roteiro de Buenos Aires à Ushuaia com geleiras, vinhos, tango e Patagônia, reunindo as cidades imperdíveis do país vizinho em um só guia para brasileiros.

Foto de Jan Tang: https://www.pexels.com/pt-br/foto/placa-de-ushuaia-com-vista-panoramica-das-montanhas-34995953/

Argentina inteira num só roteiro: de Buenos Aires ao fim do mundo

A Argentina é daqueles países que o brasileiro acha que conhece depois de passar um fim de semana em Buenos Aires — e demora um tempo até cair a ficha de que o vizinho tem muito, muito mais pra mostrar. Não tem praia de cartão-postal, é verdade. Mas compensa na mesma moeda com geleiras azuladas, desertos avermelhados, montanhas, estações de esqui e vinícolas espalhadas por vales inteiros. Pra cada região, um tipo de turismo. E o melhor: mesmo destinos carimbados como de inverno, caso de Bariloche, rendem férias lindas em qualquer estação do ano. Dá pra ir sempre e, ainda assim, voltar com histórias diferentes.

Antes de entrar em cidade por cidade, uma observação que vale ouro. Aquela rivalidade decantada entre brasileiros e hermanos mora muito mais em piada de boteco, propaganda de cerveja e programa de humor do que na vida real. Os argentinos recebem a gente muito bem. E, seja dito de passagem, ainda fazem um churrasco melhor que o nosso — engolir esse sapo faz parte da viagem.

Buenos Aires em várias fases da vida

Buenos Aires tem essa coisa rara de funcionar pra qualquer perfil de viajante. Jovem, solteiro, casal recém-formado, família com criança pequena, casal sem filhos, turma da terceira idade — todo mundo encontra o próprio programa ali. E o mais curioso: dá pra voltar dez anos depois, numa fase diferente da vida, e descobrir uma cidade quase nova.

Quem está na fase de bater perna dia e noite vai direto pra Palermo, bairro cheio de lojas hypadas, bares descolados e aquela energia de gente jovem circulando até tarde. Os rapazes, em especial, costumam querer conhecer La Bombonera, a lendária fortaleza do Boca Juniors, perto do Caminito — estádio onde arrancar um empate já é tarefa difícil, quanto mais uma vitória. Ir num dia de jogo é um espetáculo à parte.

Casais apaixonados não vão ter dificuldade de achar cenário pra declaração. A cidade é cheia de parques. Tem o Jardim Botânico, mais tradicional, e tem opções mais discretas, como o Jardín Japonés da avenida Casares, que eu acho um dos cantos mais bonitos da cidade. Some a isso a oferta de hotéis-butique espalhados por Palermo e Recoleta e você tem uma viagem romântica sem esforço.

Quem viaja com filhos tem de sobra o que fazer. O Zoo tem um carrossel antigo lindíssimo, o parque Rosedal é ótimo pra respirar um pouco, Puerto Madero foi renovado e hoje oferece brinquedos mais modernos, no parque 3 de Febrero dá pra alugar pedalinho e, em Palermo Soho, aparecem lojas de brinquedos educativos que encantam os pequenos — e, confesso, os pais também.

Já os adultos sem crianças caem nos clássicos cafés da cidade. O eterno Tortoni, aberto em 1858 e frequentado pelo escritor Jorge Luis Borges, é visita obrigatória, mesmo com fila. As livrarias portenhas merecem um capítulo à parte: a El Ateneo, que ocupa um antigo teatro, é um deslumbre de verdade — dessas que fazem qualquer leitor travar no meio do corredor pra olhar pro teto. Completam o roteiro adulto o Teatro Colón e os shows de tango seguidos de jantar. Pode parecer programa turístico demais, mas a qualidade costuma ser ótima.

E tem coisas que agradam qualquer idade: a feira de antiguidades de San Telmo, nos domingos, e as mesas novinhas de Puerto Madero, com vista pra água. Se alguém ainda achar que viu tudo — o que é sempre uma ilusão —, ainda restam as estâncias abertas a visitas nos arredores da capital. Hotéis em fazendas oferecem cavalgadas, degustação de vinhos e caminhadas pelo campo. Esse turismo rural cresceu bastante entre os próprios portenhos, e os brasileiros, de todas as idades, também já caíram nele.

Entre os muitos hotéis da capital, os Meliás no Centro e em Recoleta seguem referência, com o padrão já consagrado da rede.

Mendoza, o paredão do vinho

Quem pisa em Mendoza pela primeira vez estranha. O clima é muito seco, a terra parece arenosa, e você fica se perguntando como é que dali sai um dos vinhos mais famosos do Hemisfério Sul. A resposta está lá em cima: a Cordilheira dos Andes. As uvas, especialmente as da cepa malbec, adoram esse sol generoso e o paredão que a cordilheira faz de moldura.

A mesma cordilheira resolve o problema da água. Desce direitinho das montanhas, corre por canais abertos e entra pela cidade. Por isso Mendoza é uma cidade verde, com um parque enorme no centro, que dá uma disfarçada bonita na sensação de aridez. Não é à toa que grandes hotéis e restaurantes imponentes ocupam a cidade — Mendoza recebe negociantes de vinho do mundo inteiro, gente que vem testar as joias do chamado Novo Mundo.

Não estranhe se, no meio desse pessoal engravatado, você cruzar com alguém com aparência suja, meio descabelado, circulando pela cidade na maior calma. É a turma dos montanhistas. Mendoza é a base de quem chega do mundo todo pra escalar o Aconcágua, com seus 6.962 metros — o maior pico das Américas. Quem não é alpinista nem precisa pensar em subir: basta ir até a localidade de Puente del Inca, perto da fronteira com o Chile, tirar uma foto do gigante e brindar com uma taça de vinho local. Funciona muito bem.

As vinícolas, com reserva feita

Aqui vai um conselho prático pra quem vai a Mendoza: não tente visitar vinícolas no improviso. Muitas exigem reserva, e sair batendo na porta é receita pra frustração. O certo é escolher um dos dois vales mais conhecidos, listar três ou quatro vinícolas e marcar tudo antes de sair do hotel.

RegiãoVinícolas recomendadas
Valle do MaipúBodega La Rural, Nieto Senetiner, Família Zuccardi
Luján de CuyoCatena Zapata e outros rótulos premiados
Valle de UcoSalentein

A Bodega La Rural, no Valle do Maipú, tem um bom museu, vale a parada. A Família Zuccardi oferece aulas — só não esqueça de agendar. Já descendo mais ao sul, o Valle de Uco é a terra dos rótulos mais cobiçados, e a Salentein é uma escolha bonita, inclusive pela arquitetura.

Salta e Jujuy, a Argentina que parece outro país

Salta e Jujuy são bem diferentes entre si, mas aparecem no mesmo roteiro por uma razão simples: estão a uns 120 quilômetros uma da outra, no norte do país. A estrada velha que liga as duas é estreita, cheia de curvas, passa por florestas e precipícios de embrulhar o estômago. E, justamente por isso, entrega um visual de cair o queixo.

É o tipo de passeio pra quem gosta de pegar estrada — de preferência com alguma poeira. Não à toa esse trecho é usado até pelo Rally Dakar, que acontece na América do Sul desde 2009.

Salta é a maior das duas cidades, apelidada de La Linda. Fica entre Andes cheios de montanhas em tons marrons e vales profundos. O centro histórico é um charme que mistura influência colonial espanhola com a dos imigrantes árabes que chegaram nos séculos 19 e 20. Essa mistura aparece na comida, nos sobrenomes, nas fachadas — um detalhe que costuma passar despercebido.

San Salvador de Jujuy está mais perto da fronteira com Bolívia e Chile, pertinho dos Andes nevados, e tem tanto trechos de floresta úmida quanto áreas desérticas. O salar de La Puna, com aquele visual que lembra a superfície lunar, é um passeio obrigatório pra quem quer entender que a Argentina cabe vários países dentro dela.

Bariloche o ano inteiro

Bariloche é o destino argentino mais óbvio pro brasileiro médio. E, ainda assim, sempre surpreende. Tem gente que acha que o mais bonito de San Carlos de Bariloche está nas montanhas cobertas de neve, algumas delas prontinhas pra ser esquiadas. Outros fotografam obsessivamente as construções de madeira do centro, as janelas com cortinas e as mesas decoradas como se fossem de casa de boneca. E tem razão — parece cenário.

Mas nenhuma imagem é mais forte do que o lago Nahuel Huapi espelhando as montanhas e as florestas de pinheiros ao redor. O Parque Nacional Nahuel Huapi é o mais famoso da Argentina e um dos mais bonitos do continente. Além das trilhas no bosque, dá pra explorar o lago de barco, balsa ou até caiaque no verão.

Com mais tempo na mão, vale fazer a excursão até a Isla Victoria. Toma um dia inteiro, mas compensa. Outra maneira prática de ver as atrações do lago é a bordo de um carro pelo Circuito Chico, um caminho de 60 quilômetros que circunda as águas.

Os hotéis de charme ficam em posições estratégicas, com vista pra água e pra montanha. Uma dica que poupa cabeça: é melhor se hospedar afastado de el centro, que fica agitado até tarde durante o inverno e também ferve no verão. Bariloche, afinal, não é só destino de inverno, quando lota demais. Com tanta natureza e serviços de primeira, agrada o ano inteiro.

San Martín de Los Andes, a vizinha mais quieta

Colada na fronteira com o Chile — do lado de lá ficam Pucón e Puyuhue —, San Martín de Los Andes é a porta norte do lado argentino da Patagônia. A cidade fica às margens do lago Lacar, que se conecta com o mesmo sistema de águas que chega até Bariloche.

De carro, a estrada dos Siete Lagos liga uma cidade à outra passando por paisagens de cinema até desembocar no Nahuel Huapi. É um daqueles trechos que o Google Maps não consegue traduzir.

San Martín é muito parecida com Bariloche, mas com bem menos gente no inverno. Pra esquiadores, praticantes de snowboard e, principalmente, pra quem busca um lugar mais sossegado, essa diferença de movimento transforma San Martín num destino até mais interessante que a vizinha famosa.

El Calafate e o Perito Moreno

Chegamos àquela parte do roteiro que parece que você saiu do planeta. El Calafate é a cidade mais importante do sul da Patagônia argentina e serve como base pra passeios no Parque Nacional Los Glaciares. O principal deles, claro, é o Glaciar Perito Moreno. Mas não dá pra esquecer dos também fabulosos Viedma e Upsala.

O parque abrange parte do Campo de Gelo Patagônico, uma das maiores reservas de água doce do mundo. Se você nunca viu uma geleira na vida, um adendo importante: não é um bloco de gelo parado. É uma massa viva, que avança ou recua continuamente, derrubando grandes pedaços na água com estrondos que você sente no peito antes de ouvir com o ouvido.

O Perito Moreno tem 30 quilômetros de comprimento e 5 de largura na boca, com 74 metros de altura. É um maciço em tons de branco e azul que dá pra ver de pertinho, através de passeios de ônibus que saem de El Calafate — o parque fica a duas horas.

Outra atração próxima é o monte Fitz Roy, um maciço de granito de 3.405 metros que desafia alpinistas do mundo todo. Mesmo quem não tem nada com escalada, só de olhar, se impressiona.

A cidade tem bons serviços, hotéis de luxo e restaurantes de renome. Não deixe de provar o cordeiro patagônico, assado lentamente no fogo de chão — é daqueles pratos que ficam na memória. Vale lembrar que em El Calafate fica o Eolo Patagonia’s Spirit, hotel de altíssimo padrão, membro da seleta chancela Relais & Châteaux.

Ushuaia, o fim do mundo

Ushuaia se apresenta como a cidade mais austral do mundo. Sim, existe uma disputa com a chilena Puerto Williams, mas essa é mais uma base militar ampliada do que uma cidade de fato. Com ou sem essa marca, no entanto, ninguém tira de Ushuaia o título de uma das cidades mais bonitas da América do Sul.

Fica na beiradinha da crosta continental, numa região chamada Terra do Fogo. É quase empurrada pra dentro do mar pelas Montanhas Martial, um trecho dos Andes que serpenteia pela rabeira do continente. O mar gelado que se abre à frente da cidade mostra mais montanhas nevadas e faróis que orientam navegadores pelo temido Canal de Beagle. As casas de arquitetura nórdica, com telhado baixo pra segurar a neve e interior aquecido, completam a cena.

Com tanta natureza ao redor, Ushuaia oferece caminhadas nas montanhas — que exigem uma boa dose de aventura —, esqui e passeios de barco. Mas o que dá vontade mesmo, e aqui não tem jeito, é passar o dia inteiro diante de uma janela enorme, com uma garrafa de vinho e um prato de empanadas, simplesmente olhando o mar e as nuvens passarem.

A melhor hospedagem da cidade, sem comparação, é o Resort e SPA Los Cauquenes, que entrega todos os prazeres dos melhores hotéis — no fim do mundo, literalmente.


Montar um roteiro único que cubra Buenos Aires, Mendoza, Salta, Bariloche, El Calafate e Ushuaia numa viagem só é ambicioso, e talvez nem seja a escolha mais inteligente. A Argentina se bebe melhor em pequenos goles. Dá pra começar pela capital, voltar anos depois pra Mendoza com foco em vinho, deixar a Patagônia pra uma terceira viagem, mais longa. Cada canto tem um ritmo, uma temperatura, um sotaque. Tratar tudo como um destino só é subestimar o país — e, no fim, subestimar a própria viagem.

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