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Onde a Indústria do Turismo Mais Cresce em 2026

Brasil, Egito, Etiópia, Butão e Seicheles são os cinco destinos que mais cresceram em chegadas internacionais em 2025, segundo dados da UN Tourism analisados pela BBC Travel — com o Brasil liderando o ranking global com impressionantes 37% de alta, em um movimento que mostra como os viajantes estão se afastando dos destinos tradicionais saturados e correndo atrás de países com identidade forte e ainda sem multidões.

Foto de Phuntsho Wangdi: https://www.pexels.com/pt-br/foto/montanhas-colinas-montes-rio-16524362/

O turismo mundial quebrou todos os recordes em 2025. Mais de 1,5 bilhão de pessoas cruzaram fronteiras internacionais ao longo do ano, segundo o World Tourism Barometer mais recente, publicado pela UN Tourism em janeiro de 2026. A taxa de crescimento global ficou em 4%, se aproximando da média pré-pandêmica de 5% ao ano registrada entre 2009 e 2019. Mas o dado mais interessante dessa fotografia não está no número total — está em onde esse crescimento aconteceu.

A BBC Travel publicou em fevereiro de 2026 uma análise assinada pela jornalista Lindsey Galloway com um título provocador: “O turismo está bombando em 2026 — só que não onde você imagina”. A matéria mostra que, enquanto a Europa continua sendo a região mais visitada do mundo (quase 800 milhões de chegadas, com crescimento sólido de 6%), os campeões de crescimento percentual estão todos fora do mapa tradicional. Brasil liderando com 37%, Butão com 30%, Egito com 20%, Etiópia com 15% e Seicheles com 13%.

Steven Vigor, CEO da consultoria de viagens Revigorate ouvido pela BBC, tem uma explicação sintética para o fenômeno: “Esses países se encaixam numa categoria crescente de destinos emergentes com identidade forte — que não são mais nichos, mas ainda não estão saturados. Cada vez mais viajantes são atraídos por cultura distinta, paisagens marcantes e a possibilidade de descoberta. Países com identidade forte e acesso razoável são os vencedores claros.” A frase resume bem o que está acontecendo. O viajante de 2026 quer o oposto da multidão em Veneza, Barcelona ou Santorini. Quer chegar em algum lugar e sentir que ainda existe uma história para ser contada.

A seguir, os cinco destinos que mais cresceram, analisados com olhar de quem organiza viagens na prática — e informações úteis para quem quer entrar nessa onda antes que ela também se torne mainstream.

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1. Brasil: o campeão mundial com 37% de crescimento

Começar por casa soa estranho, mas é impossível ignorar. O Brasil foi o país que mais cresceu em turismo internacional em 2025 entre os grandes destinos analisados pela UN Tourism. Trinta e sete por cento a mais de turistas estrangeiros em um único ano — um salto que nenhum outro destino relevante do planeta conseguiu igualar.

As razões são várias e se acumularam. A isenção de visto para americanos, canadenses e australianos implementada em 2025 destravou um mercado enorme. A câmbio favorável do real em relação ao dólar e ao euro transformou o Brasil num dos destinos com melhor custo-benefício do mundo para europeus e norte-americanos — um jantar refinado em São Paulo ou Rio custa metade do preço de uma capital europeia equivalente. A recuperação da conectividade aérea pós-pandemia, com voos diretos restabelecidos entre Brasil e cidades como Zurique, Londres, Doha, Istambul e Paris, ampliou o alcance. E, somando tudo, há um fator intangível: o Brasil voltou a aparecer em listas de tendências, campanhas publicitárias e conteúdo de redes sociais.

Para o viajante estrangeiro, o país oferece uma variedade de experiências que poucos destinos conseguem reunir. Rio de Janeiro segue sendo a porta de entrada emocional, com o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar, as praias da Zona Sul e o Centro histórico redescoberto. São Paulo consolidou-se como polo gastronômico global, com restaurantes brasileiros entre os mais bem ranqueados do mundo. O Nordeste — de Fernando de Noronha aos Lençóis Maranhenses, passando por Jericoacoara e Chapada Diamantina — ocupa o imaginário do turismo de natureza e praia. E a Amazônia ganha cada vez mais espaço com o turismo de base comunitária e os chamados jungle lodges, como o Anavilhanas e o Mirante do Gavião.

Para o brasileiro que lê esta análise, fica uma reflexão: o país vive um momento raro em que o mundo olha para cá com interesse genuíno. Aproveitar isso vale tanto para quem trabalha no setor quanto para quem quer conhecer o próprio Brasil com o olhar de quem finalmente percebe que o vizinho tem coisas que muita gente atravessa oceano para ver.

2. Butão: os 30% de crescimento do “reino da felicidade”

Butão é o caso mais curioso da lista. O pequeno reino himalaico, com pouco mais de 800 mil habitantes, adota há décadas uma política de turismo de “alto valor, baixo volume” — ou seja, propositadamente restringe o número de visitantes. Entre os muitos filtros, o país cobra uma Sustainable Development Fee de 100 dólares por dia por turista (já foi 200), valor destinado a educação, saúde e preservação ambiental do próprio país.

Apesar dessa barreira de entrada, o Butão cresceu 30% em chegadas internacionais em 2025. E esse crescimento aconteceu por um motivo paradoxal: a taxa diária, que afastou visitantes de orçamento menor, acabou atraindo um perfil de viajante disposto a pagar pela exclusividade e pela experiência rara. É o tipo de destino que virou símbolo de status para quem já fez tudo.

O Butão é, de fato, diferente. O país mede seu progresso pelo Gross National Happiness (Felicidade Nacional Bruta) em vez do PIB tradicional — conceito que virou referência global em debates sobre bem-estar e desenvolvimento. A arquitetura tradicional segue rigorosa até em construções novas. A maioria dos butaneses veste trajes tradicionais (o gho masculino e o kira feminino) no dia a dia. Não existe semáforo na capital, Thimphu.

Para o visitante, o ponto alto costuma ser o Tiger’s Nest Monastery (Paro Taktsang), mosteiro pendurado literalmente numa encosta a 3.120 metros de altitude, acessível apenas por uma caminhada íngreme de três a quatro horas. A recompensa da subida é das mais fotografadas da Ásia — e, para quem consegue visitar no horário certo, uma das mais silenciosas.

Ponto prático: desde 2023, o Butão também pode ser visitado por conta própria em alguns casos, mas a maioria dos visitantes ainda chega por pacotes com agências credenciadas. A entrada é por via aérea pela Paro International Airport, uma das pistas de pouso mais desafiadoras do mundo (só cerca de 50 pilotos são certificados para pousar ali). A melhor época é entre março e maio ou entre setembro e novembro.

3. Egito: 20% de crescimento e o aguardado GEM

O Egito pulou 20% em chegadas internacionais em 2025 e tem um evento específico puxando esse crescimento: a abertura oficial completa do Grand Egyptian Museum (GEM), em Gizé, o maior museu arqueológico dedicado a uma única civilização já construído no mundo. Com mais de 100 mil peças expostas, incluindo a coleção completa de Tutancâmon reunida pela primeira vez desde a descoberta do túmulo em 1922, o GEM transformou a experiência de visitar o Egito.

Antes do GEM, o roteiro clássico do Egito tinha limites — o antigo Museu do Cairo, na Praça Tahrir, apesar de histórico, estava saturado e mostrava só uma fração do acervo nacional. Com o novo museu, a cidade virou parada obrigatória de dias inteiros antes de seguir para o sul.

O resto do roteiro egípcio mantém a força que sempre teve: as Pirâmides de Gizé e a Esfinge, praticamente coladas ao GEM; o cruzeiro pelo Nilo entre Luxor e Aswan, com paradas nos templos de Karnak, Luxor, Edfu e Kom Ombo; Abu Simbel, os colossos de Ramsés II esculpidos na rocha, realocados nos anos 1960 em uma das maiores operações de engenharia da história; e, para quem tem mais tempo, o deserto branco de Farafra ou mergulho em Dahab e Marsa Alam, no Mar Vermelho.

Observação realista: o Egito exige acompanhamento mais de perto das condições regionais. Consulte sempre as orientações do Itamaraty antes de fechar a viagem. Em períodos estáveis, é um dos destinos mais impressionantes do mundo. Também é sensível a calor — junho a agosto bate facilmente 45 graus em Luxor. O melhor período é entre outubro e abril.

4. Etiópia: 15% de crescimento e a joia da arqueologia africana

A Etiópia é, sem exagero, um dos destinos mais subestimados do planeta. Com 15% de crescimento em 2025, o país começa a aparecer no radar de um tipo específico de viajante: aquele que quer combinar história profunda, natureza selvagem e culturas ainda relativamente preservadas da globalização.

A BBC, na matéria original, destaca a Etiópia como um dos destinos mais ricos do mundo para quem se interessa por arqueologia, antropologia e história natural em escala. Os pontos-chave:

Lalibela, no norte do país, abriga 11 igrejas medievais escavadas inteiramente na rocha no século XII. Não “construídas” — escavadas. Cada igreja foi esculpida de cima para baixo dentro de um único bloco de pedra vulcânica. É patrimônio da Unesco e uma das obras de engenharia religiosa mais extraordinárias já concebidas.

Axum, centro do antigo império axumita que dominou o Chifre da África entre os séculos I e VII, guarda obeliscos gigantes de granito de até 24 metros e a catedral onde, segundo a tradição ortodoxa etíope, está guardada a Arca da Aliança original — nunca mostrada ao público, vigiada por um único monge que dedica a vida a essa função.

Gondar, cidade medieval com castelos de pedra que parecem ter sido transplantados da Europa, ganhou o apelido de “Camelot africana”.

As Montanhas Simien, no norte, abrigam o macaco gelada, espécie endêmica que vive apenas naquele ecossistema de altitude. Trilhas atravessam paisagens de penhascos que ultrapassam os 3.000 metros.

E o Vale do Omo, no sul, mantém comunidades indígenas como os Mursi, Hamer e Karo, cujas tradições culturais se preservaram por séculos com relativamente pouca interferência externa. O turismo nessa região é sensível e exige acompanhamento cuidadoso com operadoras que trabalham com princípios éticos — dá para visitar de forma respeitosa, mas é essencial escolher bem a agência.

Observação: a Etiópia ainda vive um período de ajustes de segurança em algumas regiões. A região de Tigray, que engloba Axum e parte de Lalibela, teve conflitos recentes — vale checar a situação atualizada antes de fechar o roteiro. As regiões central e sul costumam ser estáveis para turistas.

5. Seicheles: 13% de crescimento no arquipélago dos sonhos

As Seicheles, minúsculo arquipélago de 115 ilhas no Oceano Índico, ao leste da África, cresceram 13% em 2025 — número expressivo para um destino tão pequeno e que sempre foi associado a luxo exclusivo. O crescimento reflete uma tendência dupla: a chegada de mais voos diretos (especialmente via Emirates, Qatar Airways e Ethiopian) e o surgimento de opções de hospedagem intermediárias, que reduziram a barreira de entrada que existia quando o destino só tinha resorts de três mil dólares a diária.

As Seicheles têm uma carta forte: são, de acordo com diversos fotógrafos profissionais, o lugar com as praias mais bonitas do planeta. Não é exagero. As praias de Anse Source d’Argent (La Digue) e Anse Lazio (Praslin) aparecem há décadas em rankings das melhores praias do mundo. A combinação de areia branca finíssima, rochas de granito arredondadas em formato escultural, água turquesa transparente e coqueiros que se inclinam quase horizontalmente é visualmente imbatível.

Além do visual, há substância ecológica: o Vallée de Mai em Praslin é uma floresta primária patrimônio da Unesco onde crescem os coco-de-mer, frutos gigantes que só existem ali e que podem pesar mais de 25 kg cada. Aldabra, atol do extremo sul do arquipélago, abriga uma das maiores populações de tartarugas gigantes do mundo.

A experiência seichelense clássica combina três ilhas — Mahé (com a capital Victoria), Praslin e La Digue, conectadas por ferries curtos e frequentes. Três a cinco dias em cada uma rendem uma viagem completa.

Ponto prático: preços caíram relativamente nos últimos anos, mas Seicheles ainda é destino caro. Uma hospedagem intermediária razoável fica em torno de 250 a 400 dólares a diária. Voos do Brasil passam necessariamente por Dubai, Doha ou Adis Abeba.

Comparando os cinco destinos

DestinoCrescimento em 2025Perfil de viagemOrçamento diário médio
Brasil+37%Variado (praia, cidade, natureza)US$ 80–180
Butão+30%Cultura, espiritualidade, trekkingUS$ 300+ (incluso taxa)
Egito+20%Arqueologia, Nilo, desertoUS$ 100–200
Etiópia+15%História, antropologia, naturezaUS$ 90–150
Seicheles+13%Praia de luxo, naturezaUS$ 350–800

O que está por trás desse crescimento?

Ler a lista com atenção revela algumas tendências que vão além dos cinco destinos específicos. A primeira é a rejeição crescente ao overtourism — o turismo excessivo que transformou Veneza, Dubrovnik, Santorini, Barcelona e outros clássicos em experiências cada vez mais sufocantes. O viajante de 2026 está disposto a ir mais longe e pagar mais para escapar das multidões.

A segunda é a busca por identidade. Os cinco destinos da lista têm algo em comum: nenhum pode ser confundido com outro. Butão é só Butão. Etiópia é só Etiópia. Cada um carrega uma identidade cultural, arqueológica ou paisagística única. Num mundo em que as ruas turísticas de muitas cidades passaram a ser intercambiáveis — mesmas lojas, mesmos cafés, mesma estética —, os destinos com personalidade forte estão sendo recompensados.

A terceira é a conectividade. Todos os cinco países investiram nos últimos anos em expandir a oferta aérea, simplificar processos de visto (no caso do Brasil, isentar vistos para mercados-chave) e melhorar infraestrutura. O Egito abriu o GEM e expandiu o aeroporto do Cairo. O Butão facilitou o processo de visita independente. As Seicheles atraíram novas companhias aéreas. A Etiópia investe fortemente no hub da Ethiopian Airlines. Brasil reativou dezenas de rotas internacionais.

E a quarta, talvez a mais importante, é uma mudança no próprio conceito do que é uma viagem bem-sucedida. Para uma geração que viu tudo em tela, o valor do presencial aumentou. E o presencial em lugares com densidade cultural — não em cenário já visto mil vezes no feed — vale ainda mais.

Como se posicionar antes que esses destinos também saturem

Essa é a pergunta que organiza qualquer análise honesta de tendências turísticas: se esses destinos estão crescendo a esse ritmo, quanto tempo até eles virarem o próximo Santorini? A resposta, infelizmente, é que alguns já começaram a sentir efeitos.

As Seicheles debatem limites de capacidade em algumas ilhas. O Egito tem áreas de Luxor e Gizé que já estão próximas do colapso em alta temporada. O Butão, mesmo com a taxa alta, começa a questionar se 30% de crescimento é compatível com sua filosofia de baixa escala. A Etiópia é o destino mais “virgem” da lista, mas também o mais dependente da evolução política. E o Brasil, bem, o Brasil vive essa questão de forma permanente em lugares como Jericoacoara, Chapada dos Veadeiros e Fernando de Noronha.

Quem quer visitar esses destinos antes que eles sejam transformados tem janela de aproximadamente três a cinco anos. Depois disso, provavelmente virão limitações de visitantes, taxas extras, reservas antecipadas obrigatórias para atrações específicas. Ir agora não é só questão de curiosidade — é oportunidade real de experimentar algo que tende a mudar.

Uma última reflexão sobre viajar na contramão

Tem algo bonito na geografia dessa lista da BBC. Três dos cinco destinos ficam em regiões (América do Sul, África, Ásia do Sul) historicamente marginalizadas pelas listas de “melhores destinos do mundo” construídas a partir de uma perspectiva eurocêntrica. O fato de que o crescimento mais acelerado do turismo global esteja acontecendo nesses lugares, em 2026, diz algo importante sobre para onde o mundo está olhando.

Dos cinco, o Brasil é o único que o viajante brasileiro vive no dia a dia. Os outros quatro — Butão, Egito, Etiópia, Seicheles — são todos acessíveis a partir do Brasil com uma ou duas conexões, principalmente via Oriente Médio ou África Oriental. Nenhum é impossível. Todos exigem planejamento, alguns exigem coragem, todos entregam experiências que, do Caribe a qualquer capital europeia, simplesmente não existem.

Se existe uma lição prática que esses números de 2025 oferecem, é esta: o momento de visitar destinos emergentes é antes de eles deixarem de ser emergentes. O Butão de 2026 não será o Butão de 2030. A Etiópia de 2026 não será a Etiópia de 2032. Algumas dessas janelas se fecham mais rápido do que se imagina.


Fonte do artigo original: BBC Travel — “Tourism is booming in 2026 – just not where you think”, por Lindsey Galloway, publicado em 15 de fevereiro de 2026. Dados da UN Tourism, World Tourism Barometer, janeiro de 2026.

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