Como Fazer o Roteiro Pelo Sul do Marrocos
Esse roteiro começa e termina em Marrakech, e no meio tem de tudo: montanhas do Atlas, kasbahs de barro que serviram de cenário para Game of Thrones, o maior palmeiral do Marrocos, dunas de areia, silêncio absoluto do deserto e uma das cidades mais cinematográficas da África. São sete dias densos, com deslocamentos longos e paisagens que mudam radicalmente a cada 100 quilômetros. Fazer isso por conta própria é possível — mas exige planejamento real, não só vontade.

Chegada em Marrakech
O Aeroporto Internacional Marrakech-Menara (RAK) fica a apenas 6 km do centro da cidade. Do Brasil, você vai fazer pelo menos uma conexão — as mais comuns saem por Lisboa, Madrid, Paris ou Istambul. A Royal Air Maroc opera via Casablanca.
Do aeroporto ao centro, o bus nº 19 é a opção mais barata (aproximadamente 20 MAD) e passa na Djemaa el-Fna, o coração da cidade. Funciona bem, mas demora e para em vários pontos. Táxi fixo oficial do aeroporto custa por volta de 70 a 100 MAD — negocie antes de entrar, e ignore os motoristas informais que abordarem do lado de fora da saída.
Dia 1 e 2 — Marrakech
Dê dois dias completos à cidade. Não por protocolo, mas porque Marrakech é do tipo que precisa de tempo para fazer sentido. No primeiro dia, você ainda vai se perder nos souks, se irritar com a insistência dos vendedores e achar tudo barulhento demais. No segundo, começa a entender o ritmo e aproveitar de verdade.
A Djemaa el-Fna funciona como palco permanente: músicos Gnawa, encantadores de serpentes, vendedores de suco de laranja, contadores de histórias em árabe que não precisam de tradução — a encenação já basta. Chegue antes do anoitecer e suba em qualquer terraço de restaurante ao redor da praça para ver tudo se montar enquanto o sol desce atrás do minarete da Koutoubia.
A Mesquita Koutoubia não é aberta a não muçulmanos, mas o jardim ao redor é público e muito tranquilo — ótimo para um café da manhã sossegado antes da batalha dos souks. O Palácio Bahia e as Tumbas Saadianas ficam lado a lado na medina velha e podem ser vistos numa mesma manhã.
O Jardim Majorelle — comprado e restaurado por Yves Saint Laurent — é um dos jardins mais fotografados do mundo. O azul cobalto dos muros é quase irreal ao vivo. Abra às 8h e as filas crescem rapidamente, então chegue cedo. Logo ao lado, o Museu Yves Saint Laurent é pequeno mas bem feito, vale para quem tem qualquer interesse em moda ou design.
Para se mover dentro de Marrakech, o petit taxi (bege ou laranja, dependendo da cidade) é o mais prático. Sempre combine o preço antes ou exija o taxímetro. Os aplicativos Careem e inDriver funcionam em Marrakech e tiram a negociação da equação.
Dia 3 — Marrakech → Aït Benhaddou → Zagora (360 km)
Aqui começa a parte mais logisticamente desafiadora — e mais bonita — do roteiro.
A rota sai de Marrakech pelo sul, sobe as montanhas do Alto Atlas pela Estrada Nacional N9 e cruza o Passo Tizi n’Tichka a 2.260 metros de altitude. A paisagem muda completamente: de cidade cor-de-rosa para picos nevados (no inverno) ou áridos e dourados (no verão), com aldeias berberes penduradas nas encostas e pastores que cruzam a estrada sem pressa nenhuma.
Como fazer esse trecho:
A opção mais confortável e que faz mais sentido para este roteiro específico é alugar um carro. Não porque o transporte público não exista — existe —, mas porque o sul do Marrocos tem uma lógica de estradas secundárias, paradas em kasbahs e desvios de última hora que só funcionam com autonomia de veículo. Alugue em Marrakech (aeroporto ou centro), com devolução na mesma cidade ao final do roteiro. Empresas como Europcar, Hertz e locadoras locais operam no aeroporto. Custo médio: entre 50 e 80 euros por dia, dependendo da categoria do carro e da temporada.
Quem não quiser dirigir pode optar pelo ônibus CTM de Marrakech a Ouarzazate (4 a 5 horas, cerca de 100 MAD), mas vai perder as paradas intermediárias e a flexibilidade de explorar o caminho. Outra alternativa é contratar um motorista particular em Marrakech para um ou dois dias — custará mais, mas é muito comum no sul e pode ser combinado diretamente no riad onde você estiver hospedado.
Aït Benhaddou fica a 30 km antes de Ouarzazate e merece uma parada de duas a três horas. O ksar — uma aldeia-fortaleza de adobe e terra crua — é Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1987. É um dos lugares mais fotografados do Marrocos, e mesmo assim impressiona ao vivo: as torres de barro se empilham umas sobre as outras, o rio Ounila (seco boa parte do ano) separa o ksar da margem moderna, e as ruelas internas têm uma quietude que contrasta com a movimentação turística lá fora. Gladiador, Game of Thrones, Babel, Lawrence da Arábia — tudo foi filmado aqui.
Atravesse o rio a pé (há pedras para pular quando está baixo, ou uma passarela de madeira) e suba até o ponto mais alto do ksar. Ignore as lojas de souvenir na entrada e explore devagar.
Depois, continue por mais 200 km até Zagora, descendo pelo Vale do Draa — o maior palmeiral do Marrocos. São dezenas de quilômetros de palmeiras datileiras ladeando o rio, kasbahs de barro surgindo a cada curva, oásis que parecem inventados. É uma das estradas mais bonitas do roteiro, e vale reduzir a velocidade.
Dia 4 — Zagora → Nkob → Tazzarine → Erfoud (300 km)
Zagora em si é uma cidade pequena e tranquila, com função clara de porta de entrada para o deserto. O famoso cartaz na entrada da cidade que dizia “Tombouctou — 52 jours” (Tombuctu, 52 dias de camelo) foi por muito tempo o símbolo da cidade — e ainda existe versões dele por lá.
Antes de sair, vale uma manhã nas dunas de Erg Lihoudi, a poucos quilômetros do centro de Zagora — muito menores e menos movimentadas do que as do Erg Chebbi em Merzouga, mas boas para um primeiro contato com o deserto. Dromedários para passeio são facilmente contratados no local.
O trajeto de Zagora até Erfoud pelo interior — passando por Nkob e Tazzarine — é a parte mais off the beaten path do roteiro. São cidades pequenas, com população berbere predominante, mercados locais sem nenhum ar turístico e paisagens de hammada (deserto rochoso) que contrastam com o que vem antes e depois. Nkob especificamente tem uma concentração impressionante de kasbahs antigas — mais de 40 — e uma vista para as montanhas do Djebel Saghro que poucos viajantes param para apreciar.
Esse trecho não tem transporte público regular. Grand taxi compartilhado entre as cidades menores é a única opção sem carro próprio — e vai exigir paciência para esperar lotação, negociar preço e aceitar horários indefinidos. Com carro, é um dia de estrada aberta com paradas onde quiser.
Dia 5 — Erfoud e as Dunas do Erg Chebbi
Erfoud é a cidade de apoio para o Erg Chebbi — as dunas mais icônicas do Marrocos, que chegam a 150 metros de altura e se estendem por mais de 50 km ao longo da fronteira com a Argélia. As dunas ficam a cerca de 50 km de Erfoud, na direção de Merzouga.
A experiência clássica — e genuinamente impressionante, apesar de massificada — é ir de dromedário ao acampamento no deserto para ver o pôr do sol, jantar com música Gnawa ao redor da fogueira e dormir na tenda. O céu à meia-noite, sem poluição luminosa, é de outro nível. Qualquer riads em Erfoud ou Merzouga organiza isso; vale reservar com antecedência na alta temporada (março-abril e outubro-novembro).
Quem preferir menos estrutura pode contratar um transfer de 4×4 até as dunas e subir a pé para o pôr do sol — rápido, barato e sem a obrigação do circuito turístico completo. A areia laranja ao entardecer tem aquele tom específico que nenhuma fotografia realmente captura.
Fora das dunas, Erfoud tem um mercado de fósseis que merece uma volta. A região é rica em depósitos do Paleozoico, e pedras e esculturas com trilobitas e amonitas reais são vendidas em toda parte. Os preços são muito negociáveis.
Dia 6 — Erfoud → Tinghir → Ouarzazate (220 km)
Tinghir é a porta de entrada para as Gargantas do Todra (Gorges du Todra) — paredes de calcário de até 300 metros de altura que formam um canyon por onde passa um riacho. É uma das paisagens mais dramáticas do Marrocos e pode ser explorada completamente a pé, sem guia, simplesmente caminhando pelo leito do rio. As paredes se fecham tanto que o céu vira uma faixa estreita lá em cima. Chegue cedo para pegar a luz entrando pelo canyon — na hora certa, é cinematográfico.
Da Garganta, siga para Ouarzazate. Já conhecida como a “Hollywood da África”, a cidade abriga os Atlas Film Studios — o maior estúdio de cinema a céu aberto do mundo, onde foram filmadas cenas de Gladiador, A Múmia, Game of Thrones e dezenas de outros filmes. A visita guiada aos estúdios é aberta ao público e dura cerca de uma hora.
A Kasbah Taourirte, no centro de Ouarzazate, é uma das kasbahs mais bem preservadas do Marrocos — ainda habitada em partes, com um labirinto de corredores e uma vista bonita do terraço. A entrada é barata e a visita vale a pena mesmo com pouco tempo.
Ouarzazate não tem trem. Quem chega de ônibus (CTM opera a rota desde Marrakech e algumas outras cidades) precisa usar grand taxis ou táxi privado para se mover entre Ouarzazate e os arredores, incluindo Aït Benhaddou.
Dia 7 — Ouarzazate → Marrakech / Retorno ao Brasil
O retorno a Marrakech refaz a estrada N9 pelo Alto Atlas no sentido inverso — e a paisagem, vista de baixo para cima desta vez, é igualmente impressionante. São aproximadamente 4 a 5 horas de viagem.
De ônibus CTM, a linha Ouarzazate–Marrakech tem saídas regulares pela manhã. Reserve online pelo site ctm.ma ou compre no guichê da estação. Custo: em torno de 90 a 120 MAD.
De carro alugado, o trajeto dá para ser feito com parada no Passo Tizi n’Tichka para uma última foto com as montanhas antes de devolver o carro no aeroporto.
O vôo de retorno ao Brasil sai de Marrakech. Dependendo da conexão, pode valer a pena passar uma noite extra em Marrakech antes do embarque — a cidade é boa o suficiente para mais um jantar na Djemaa el-Fna e uma última volta nos souks sem pressa.
O que organizar antes de sair do Brasil
Passaporte: brasileiros não precisam de visto para o Marrocos — até 90 dias de turismo, só com passaporte válido.
Dinheiro: o Dirham marroquino (MAD) não é conversível fora do país. Leve euros ou dólares para trocar nos bancos ou casas de câmbio em Marrakech. Os caixas eletrônicos (ATM) funcionam bem nas cidades grandes, mas escasseiam no interior — leve dinheiro suficiente antes de entrar no sul.
Chip: compre um chip da Maroc Telecom ou Orange Maroc no aeroporto ou em qualquer loja de celular. Pacotes de dados generosos por cerca de 50 MAD. Sinal é razoável nas cidades, fraco ou inexistente no deserto e no interior — avise quem precisar saber.
Hospedagem: nas cidades grandes (Marrakech, Ouarzazate), reserve com antecedência especialmente na temporada alta. Em Zagora, Erfoud e Tinghir, o mercado de riads e guesthouses é abundante e os preços são muito mais baixos do que em Marrakech. No deserto, os acampamentos são reservados diretamente pelos próprios riads — peça para o seu anfitrião organizar.
Idioma: o árabe darija é o dialeto local, o francês abre quase todas as portas, e o inglês funciona nos circuitos mais turísticos. Algumas palavras em árabe fazem diferença: shukran (obrigado), la shukran (não, obrigado — indispensável nos souks), bezzef (muito/demais, útil para reclamar de preço).
Roupas: leve camadas. O deserto é quente de dia e frio à noite, especialmente entre outubro e março. As montanhas do Atlas podem ter temperaturas abaixo de zero no inverno. Nas medinas e locais religiosos, ombros e joelhos cobertos são questão de respeito — e de evitar atenção indesejada.
Esse roteiro é exigente, mas é exatamente o tipo de viagem que deixa marca. Não tem nenhum dia fácil — os deslocamentos são longos, as estradas do interior são sinuosas, o calor do deserto é sério. Mas cada quilômetro tem paisagem nova, cada cidade tem uma lógica própria, e o sul do Marrocos tem uma beleza austera e antiga que é difícil de encontrar em outros lugares. Vale o esforço, com folga.