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Roteiro de Passeios Para fãs de Amy Winehouse em Londres

Amy Winehouse não apenas viveu em Camden — ela era Camden. O bairro entrou nas letras dela, moldou a voz dela, foi cenário de noites épicas e madrugadas pesadas, e é onde a presença dela ainda é sentida de uma forma que vai além de estátua e placa de metal.

Foto de Pedro Roberto Guerra: https://www.pexels.com/pt-br/foto/36013308/

Para quem vai a Londres como fã, Camden não é só mais um bairro no mapa da cidade. É um endereço com peso emocional diferente. A diferença entre passar pela estátua dela no Stables Market como mais um ponto turístico e entender o que aquele lugar significa dentro da história dela é enorme — e essa diferença se faz conhecendo o contexto, a sequência dos lugares, a cronologia de uma vida que foi vivida de forma muito intensa e muito pública naquelas ruas.

Este roteiro não precisa ser feito em um único dia. Pode e talvez deva ser dividido em dois: um dia dedicado a Camden e às imediações, outro para os locais mais afastados do bairro. Mas pode ser comprimido em um dia longo para quem tem menos tempo.


Antes de começar: entender quem era Amy Winehouse

Amy Jade Winehouse nasceu em 14 de setembro de 1983 em Southgate, norte de Londres, numa família judaica de classe média. O pai, Mitch, era taxista e cantor amador que cantava Frank Sinatra no carro enquanto dirigia. A mãe, Janis, era farmacêutica. A voz de Amy — aquele contralto úmido, carregado, diferente de tudo que o pop britânico produzia na época — apareceu cedo, ainda na adolescência.

Ela estudou na Sylvia Young Theatre School, treinamento que ela mesma interrompeu e retomou em pedaços, com a impaciência típica de quem sabia que o caminho dali era diferente. Cresceu ouvindo jazz, soul americano dos anos 50 e 60, Tony Bennett, Thelonious Monk, e misturou tudo isso com o que vivia nas ruas e nos pubs do norte de Londres.

Camden não foi um cenário que ela escolheu por imagem. Foi o lugar onde ela se reconheceu.


Ponto 1 — A estátua no Stables Market: o começo do roteiro

O ponto de partida natural é a estátua de bronze no Stables Market, na Chalk Farm Road, NW1 8AH. A escultura foi criada pelo artista Scott Eaton e inaugurada em 2014, três anos após a morte dela, pela atriz Barbara Windsor na presença de Mitch e Janis Winehouse.

Eaton não quis replicar uma foto específica. Quis capturar uma amálgama: o quadril projetado para o lado, a mão na saia, o salto alto, o beehive — o penteado que virou símbolo dela e que ela própria dizia ter criado quando tentava esconder o rosto da câmera num show e alguém achou que era proposital. O detalhe mais humano da estátua é o pé ligeiramente virado para dentro. Eaton colocou ali de propósito — para transmitir a insegurança que existia por baixo da atitude.

A estátua fica no meio do Stables Market, cercada por barracas de comida, lojas, turistas e moradores passando. Não está num pedestal isolado. Está no fluxo da vida do mercado, que é exatamente onde Amy estaria.

Chegar cedo pela manhã antes da abertura completa do mercado é outra experiência — mais silenciosa, mais íntima. Mas ver a estátua com o mercado funcionando ao redor também tem algo muito coerente com quem ela era.


Ponto 2 — A pedra na Music Walk of Fame: o reconhecimento no chão

A poucos minutos a pé da estátua, na calçada em frente à estação de metrô de Camden Town, existe uma pedra circular embutida no chão com o nome dela. Faz parte da Music Walk of Fame de Camden — uma série de placas instaladas na Chalk Farm Road e nas imediações que homenageiam artistas com ligação histórica ao bairro.

O pai dela, Mitch Winehouse, descreveu Camden como o “oxigênio” de Amy no dia em que a pedra foi inaugurada. A frase condensa bem o que o bairro representava para ela — não um endereço, mas algo sem o qual ela não conseguia funcionar.

Outras pedras na calçada homenageiam The Clash, Madness, The Pogues e Blur, entre outros. Mas a de Amy é a que as pessoas fotografam mais. Está muito gasta nas bordas.


Ponto 3 — The Hawley Arms: o pub onde ela era vizinha

O Hawley Arms, na Castlehaven Road, é talvez o pub mais associado a ela em todo o mundo. Amy frequentava esse lugar com uma regularidade que ia muito além de ser cliente — ela era quase moradora. Subia no palco improvisada, tomava pint com os mesmos grupos, trazia amigos e músicos. Era o tipo de estabelecimento que, para ela, funcionava mais como sala de estar do que como bar.

O incêndio que destruiu o pub em 2008 — no mesmo dia em que os Camden Markets vizinhos também pegaram fogo — foi tratado por ela quase como uma tragédia pessoal. Ela se manifestou publicamente sobre o acontecimento com uma seriedade que revelava o quanto o lugar importava.

O Hawley Arms foi reconstruído e ainda existe no mesmo endereço. A decoração preserva algo da atmosfera original. Não é museu, não cobra para entrar, não tem placa dizendo “Amy tomava cerveja aqui”. É simplesmente um pub que carrega a memória dela no modo como funciona.


Ponto 4 — The Dublin Castle: onde tudo começou a virar sério

Seguindo pela Parkway, o Dublin Castle é outro endereço essencial no roteiro. É um pub com palco que existe desde 1979 e que foi um dos primeiros lugares onde Amy se apresentou ao vivo de forma regular, ainda nos primeiros anos de carreira, antes do lançamento do Frank em 2003.

O Dublin Castle tem uma longa tradição de lançar artistas britânicos antes de eles serem grandes. Blur tocou ali. Madness saiu daquele palco. Amy era mais um nome numa cidade cheia de nomes promissores quando começou a aparecer ali — mas a diferença de nível era perceptível desde as primeiras noites.

O pub ainda funciona e ainda tem música ao vivo quase toda semana. Entrar, pedir uma bebida e ficar olhando para aquele palco pequeno sabendo o que saiu dali é um dos momentos mais concretos de contato com a história dela que este roteiro oferece.


Ponto 5 — Camden Square, número 30: o endereço que ninguém precisa apresentar

A cerca de dez minutos a pé do centro de Camden, a Camden Square é uma praça residencial tranquila, completamente diferente do caos colorido da Camden High Street. Casas vitorianas, árvores, silêncio relativo. O número 30 era a casa de Amy.

Foi ali que ela viveu nos últimos anos da vida. E foi ali que ela morreu, em 23 de julho de 2011, aos 27 anos.

A casa é propriedade privada e não está aberta ao público. Não há atração turística ali — só o endereço, a fachada e o peso do que aconteceu. Fãs deixam flores, cartões, objetos pequenos no muro e nas grades. A placa com o número da rua foi roubada tantas vezes que a prefeitura de Camden desistiu de repor e o conselho local teve que pedir publicamente que parassem de tirar como souvenir.

Chegar ali e ficar um tempo é um momento diferente de qualquer outro no roteiro. Não tem nada para ver num sentido turístico convencional. Tem muito para sentir num sentido completamente outro.


Ponto 6 — Murais e arte de rua: a Amy que sobreviveu nas paredes

Camden tem uma tradição viva de arte de rua, e Amy continua sendo um dos rostos mais reproduzidos nas paredes do bairro. Os murais aparecem e desaparecem — essa é a natureza da arte urbana — mas há concentrações ao longo da Hawley Road, nos arredores do Stables Market e em algumas paredes da Camden High Street que costumam ter pelo menos uma referência a ela.

O mural mais famoso e mais fotografado mostra o rosto dela em grandes proporções, com o beehive reconhecível e os olhos de delineador marcado. Não há um endereço fixo que garanta que estará lá — mas caminhar pelo bairro com atenção às paredes faz parte da experiência de entender como Camden a trata como parte do território, não como lembrança de passado.


Ponto 7 — Roundhouse: o palco que ela amava

O Roundhouse, na Chalk Farm Road, é um dos locais de música mais icônicos de Londres. Construído originalmente como uma remessa de trens no século XIX, foi transformado em espaço cultural nos anos 60 — Pink Floyd tocou lá, Led Zeppelin, Jimi Hendrix. Amy Winehouse se apresentou no Roundhouse em momentos importantes da carreira, incluindo shows que ficaram registrados como alguns dos melhores da vida dela ao vivo.

A originalidade do plano era instalar a estátua dentro do Roundhouse. A ideia foi descartada por questões de acessibilidade pública, e a estátua foi para o Stables Market. Mas o Roundhouse permanece como parte da geografia musical dela.

O espaço ainda funciona como casa de shows. Verificar a programação antes de ir a Londres pode render uma noite de música ao vivo num ambiente que ela conhecia bem.


Ponto 8 — Southgate: onde tudo começou, bem antes de Camden

Quem quiser ir mais fundo na história dela pode estender o roteiro até Southgate, no norte de Londres — a vizinhança onde ela cresceu. É uma área residencial comum, sem nada de turístico no sentido tradicional, mas é onde a família Winehouse vivia, onde ela foi a escola antes do Sylvia Young, onde a voz dela se formou antes de qualquer microfone.

Não há memorial em Southgate, não há placa. É simplesmente o lugar onde ela era uma criança cantando no carro com o pai. Para um fã que quer entender a cronologia completa, chegar ali fecha um círculo que Camden sozinha não fecha.


Ponto 9 — Edgwarebury Cemetery: o último endereço

O cemitério de Edgwarebury, em Edgware, é onde as cinzas de Amy Winehouse estão enterradas. A lápide é preta com inscrições em rosa, simples e inconfundível. Fica no bloco judaico do cemitério — a família Winehouse é de tradição judaica ashkenazi, e o enterro seguiu os rituais da religião.

Para chegar, o caminho mais direto é o metrô pela Northern Line até a estação final — Edgware — seguido de uma caminhada de cerca de 30 minutos. Ou táxi da estação, que é mais rápido.

O costume judaico de deixar pedras sobre a lápide em vez de flores tem um significado diferente da tradição cristã — a pedra é permanente, não murcha. Muitos fãs que vão ao cemitério levam uma pedrinha pequena para deixar ali, mesmo sem ser da religião. É um gesto respeitoso que os visitantes acabam adotando naturalmente.

O cemitério fecha cedo — verifique os horários no site antes de ir, especialmente no inverno, quando o fechamento pode ser às 16h.


Ponto 10 — A Sylvia Young Theatre School: onde a voz ganhou técnica

A Sylvia Young Theatre School fica em Marylebone, no centro-oeste de Londres. Foi onde Amy estudou durante parte da adolescência — ela foi aceita, se destacou, foi expulsa por piercing não autorizado, e eventualmente voltou. A relação dela com a escola tinha toda a ambiguidade que marcava a relação dela com qualquer estrutura.

A escola não é aberta ao público e não organiza visitas relacionadas a ela. Mas passar pelo endereço — 1 Nutford Place, W1H 5YZ — e entender que foi ali que a voz dela recebeu treinamento formal é uma parte da história que fica invisível para quem só conhece Camden.


O tour guiado: quando vale pagar por um guia

Existe um tour a pé oficial de Amy Winehouse em Camden, oferecido pela Compleat Walks e disponível via GetYourGuide. Dura cerca de duas horas, tem avaliação de 4,8 de 5 em dezenas de reviews, e é conduzido por guias que conhecem não só os endereços mas as histórias por trás de cada um.

Para quem está fazendo o roteiro pela primeira vez e quer contexto histórico e musical aprofundado enquanto caminha, o tour guiado acrescenta camadas que o passeio independente não alcança. Para quem prefere o ritmo próprio e a liberdade de parar quanto tempo quiser em cada lugar, o roteiro independente funciona muito bem — Camden é compacta o suficiente para que tudo faça sentido a pé sem nenhuma dificuldade.


Amy Winehouse tinha 27 anos quando morreu. Gravou dois álbuns de estúdio — Frank em 2003 e Back to Black em 2006 — e deixou um arquivo de performances ao vivo que ainda é estudado por músicos e produtores de todo o mundo. O Back to Black se tornou o álbum mais vendido no Reino Unido no século XXI. Ganhou cinco Grammys numa única noite, em 2008, recorde que foi dela por anos.

Mas a grandeza disso tudo fica em segundo plano quando você está parado na frente do número 30 da Camden Square numa tarde de outono, com o vento fazendo barulho nas árvores da praça e os buquês de flores murchas apoiados no muro.

Camden guarda ela de um jeito que nenhum museu conseguiria. É o melhor tipo de memorial — o que não foi construído para ser memorial, mas acabou sendo.

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