Destinos Europeus que Combatem o Overtourism
Conheça como cinco destinos europeus estão enfrentando o overtourism em 2025 e 2026: Amsterdam com limite de 20 milhões de pernoites e proibição de cruzeiros no centro até 2035, Dubrovnik com sistema de reservas em tempo real e portal online, Barcelona com proibição de aluguéis tipo Airbnb até 2028, Santorini com limite diário de 8.000 visitantes de cruzeiros e nova taxa de 20 euros, e Comino Island em Malta com cota de 4.000 banhistas por sessão na famosa Blue Lagoon.

Segundo a agência de turismo da ONU, 1,1 bilhão de pessoas viajaram internacionalmente entre janeiro e setembro de 2025. As chegadas de turistas subiram 5% no mesmo período de 2024, e este ano ainda mais pessoas devem viajar do que nunca. O turismo está se tornando mais acessível, e estamos cada vez mais começando a sentir o impacto real dos destinos mais movimentados e lotados.
O overtourism deixou de ser preocupação teórica para se tornar realidade incontornável. Cidades europeias historicamente acolhedoras começam a regulamentar fluxos de visitantes, estabelecer cotas, taxar entrada e até proibir certas formas de turismo. Para o viajante atento, entender essas mudanças é fundamental, tanto para planejar viagens dentro das novas regras quanto para refletir sobre o impacto das próprias escolhas.
Impulsionados por um apelo urgente à ação do World Travel & Tourism Council no verão passado, vários dos principais pontos turísticos da Europa desenvolveram planos de gestão únicos para enfrentar o problema. A seguir, como cinco destinos estão respondendo, com informações práticas para quem planeja visitá-los.
1. Amsterdam, Holanda
A capital holandesa já está implementando seu plano para tornar a cidade habitável para residentes e visitantes, limitando o número de pernoites turísticas a 20 milhões por ano. Além disso, uma política limitando novos hotéis foi introduzida, permitindo novas acomodações apenas se um hotel fechar.
A segunda parte do plano entrou em vigor em 2026, com a introdução de um limite rígido de 100 paradas de cruzeiros marítimos por ano (reduzido de 190). Os turistas que fazem passeios de um dia de cruzeiros agora também pagam uma taxa turística de 15 euros. A cidade tem procurado relocar seu terminal de cruzeiros modernizado e de baixo tráfego para fora dos limites, mas o custo é alto demais. Relatórios sugerem que a meta de longo prazo pode agora ser banir cruzeiros do centro da cidade até 2035.
Para quem planeja visitar Amsterdam, vale chegar fora da alta temporada (evitar verão europeu), reservar acomodações com antecedência (a oferta hoteleira não cresce mais) e explorar bairros além do centro histórico. Cidades próximas como Haarlem, Utrecht e Delft oferecem charme holandês com muito menos pressão turística.
2. Dubrovnik, Croácia
Junto com um esquema modernizado de park-and-ride, introduzido para reduzir o congestionamento ao redor do centro histórico, Dubrovnik agora tem um sistema de reservas online de referência e contadores de pessoas em tempo real (para monitorar a aglomeração). Também está se promovendo como destino o ano todo para reduzir sua carga no verão. Esses são todos pilares principais do plano de gestão turística de toda a cidade sob a iniciativa Respect the City.
Central ao projeto está o Dubrovnik Pass, um bilhete de transporte público que fornece entrada gratuita a pontos turísticos como as City Walls e museus. O passe rastreia os visitantes nos locais principais via um portal online, encorajando-os a se afastar de multidões. Essas medidas foram implementadas junto com a introdução de uma frota de ônibus modernizada e zona de baixo tráfego ao redor da Cidade Antiga, contribuindo para uma infraestrutura menos sufocada para todos e ar mais limpo no centro.
Para quem planeja visitar Dubrovnik, vale considerar visita em primavera ou outono. O Dubrovnik Pass é altamente recomendado tanto pela economia quanto pela facilidade de movimentação. Reservas online de horários para atrações como as City Walls são essenciais. Explorar ilhas próximas como Lokrum ou cidades como Cavtat oferece atmosfera dálmata sem multidões.
3. Barcelona, Espanha
Os protestos de residentes que aconteceram em Barcelona, nas Ilhas Baleares e nas Canárias colocaram a Espanha na linha de frente do combate ao overtourism. Em resposta, o prefeito de Barcelona, Jaume Collboni, traçou uma estratégia para enfrentar números altos de visitantes, começando com uma proibição de apartamentos de aluguel de curto prazo.
Collboni anunciou que a cidade não renovaria as licenças de mais de 10.000 apartamentos estilo Airbnb, movimento que aborda uma grande consequência do overtourism: o preço da moradia ficando inacessível para residentes. Com aluguéis subindo mais de 68% nos últimos anos em Barcelona, os locais estão incapazes de garantir moradia acessível.
A proibição, que deve ser implementada até 2028, alinha-se com os objetivos da Agência de Turismo da Catalunha de tornar o turismo de ano inteiro e encorajar os visitantes a explorar a região mais ampla. Ao promover viagens responsáveis em áreas rurais, espera-se que isso alivie o congestionamento em áreas de alta densidade.
Para quem planeja visitar Barcelona, vale antecipar reservas de hotéis tradicionais (que devem absorver demanda dos Airbnbs proibidos), considerar acomodações em cidades próximas como Girona, Sitges ou Tarragona, e dedicar tempo à Catalunha como um todo (Costa Brava, Pirineus catalães, Priorat). Visitas fora do verão europeu evitam o pico de aglomeração.
4. Santorini, Grécia
Adotando abordagem estratégica para gerenciar o turismo de cruzeiros, essa ilha grega introduziu uma cota diária de passageiros que limita o número de visitantes de cruzeiros à ilha em cerca de 8.000 por dia, comparado com números anteriores de pré-temporada entre 15.000 e 17.000. Além disso, uma taxa de 20 euros por passageiro introduzida em 2025 já impactou pedidos de atracação de navios maiores, com chegadas previstas para cair 18% em 2026.
Essas medidas reconhecem que Santorini, com suas vilas brancas em penhascos vulcânicos, simplesmente não tem infraestrutura para receber dezenas de milhares de visitantes por dia. A icônica Oia, em particular, tem ruas estreitas que se tornavam praticamente impassáveis em dias de múltiplos cruzeiros simultâneos.
Para quem planeja visitar Santorini, vale considerar pernoitar na ilha em vez de visita rápida via cruzeiro (a experiência é incomparavelmente melhor). Para o pôr do sol em Oia, chegue várias horas antes ou aceite que estará em multidão considerável. Outras ilhas das Cíclades como Naxos, Milos, Folegandros e Sifnos oferecem beleza grega com muito menos pressão turística.
5. Blue Lagoon, Comino Island, Malta
As águas azuis ao largo de Comino Island se tornaram tão lotadas nos últimos anos que frequentemente havia espaço apenas em pé. No entanto, um novo sistema lançado em maio de 2025 agora exige que todos os visitantes reservem horário online. Esses são divididos em sessões matinais, vespertinas e noturnas, com cota de 4.000 visitantes em qualquer momento (12.000 por dia). A Team Blue Lagoon também expandiu a zona de natação designada em 12%, ajudando a reduzir o aglomeramento na água.
Monitorando os resultados no verão passado, o Conselho de Turismo de Malta reportou redução significativa nos números de visitantes em massa, com um máximo de 3.830 pessoas registradas em qualquer momento, uma enorme melhoria sobre os picos de 12.000 do verão anterior.
Para quem planeja visitar a Blue Lagoon, reserva online antecipada é agora obrigatória. As sessões matinais e vespertinas tendem a ter clima mais propício para natação, enquanto a sessão noturna oferece atmosfera mais tranquila. Vale combinar com visita à própria Malta, explorando Valletta, Mdina, Gozo e os templos megalíticos.
Você sabia? Apenas 10% dos destinos recebem 80% dos turistas
Pesquisas mostram que 80% dos viajantes visitam apenas 10% dos destinos do mundo. Escolher um lugar longe dos hotspots turísticos ajudará a proteger alguns dos pontos turísticos mais celebrados do planeta.
Esse dado é provavelmente o mais importante de toda a discussão sobre overtourism. A solução fundamental para o problema não está apenas em regulamentações governamentais, mas em escolhas individuais dos viajantes. Cada pessoa que escolhe um destino menos conhecido, uma estação fora do pico, um itinerário mais lento ou uma região rural em vez de uma cidade saturada está contribuindo para a solução.
Comparativo das medidas adotadas
| Destino | Medida principal | Quando |
|---|---|---|
| Amsterdam | Limite de 20 milhões de pernoites; 100 cruzeiros/ano; taxa de 15 euros | Em vigor; expansão 2026 |
| Dubrovnik | Sistema de reservas online e contadores de pessoas em tempo real | Em vigor |
| Barcelona | Fim de 10.000 apartamentos estilo Airbnb | Até 2028 |
| Santorini | Cota de 8.000 visitantes de cruzeiros/dia; taxa de 20 euros | Em vigor desde 2025 |
| Blue Lagoon, Malta | Reserva online obrigatória; cota de 4.000/sessão | Desde maio 2025 |
Veredito geral
É inspirador ver destinos impulsionados pelo turismo fazendo planos para regular números de visitantes. O próximo passo é coletar feedback de residentes, viajantes e operadores turísticos para ver o impacto no terreno, bem como relatar os desafios e vitórias.
Como viajar de forma mais responsável
Para o viajante que quer fazer parte da solução e não do problema, há várias estratégias práticas. Visitar fora da alta temporada é provavelmente a medida mais eficaz. Maio, junho, setembro e outubro frequentemente oferecem clima excelente em destinos europeus com muito menos multidões e preços mais baixos.
Escolher destinos alternativos é outra estratégia poderosa. Em vez de Veneza, considere Bolonha ou Ferrara. Em vez de Santorini, considere Folegandros ou Naxos. Em vez de Barcelona, considere Valência ou Bilbao. Em vez de Dubrovnik, considere Kotor (Montenegro) ou Trogir. Essas alternativas frequentemente oferecem experiência igual ou superior com muito menos pressão.
Ficar mais tempo em menos lugares também é estratégia importante. Em vez de seis cidades em duas semanas, considere três cidades. A qualidade da experiência aumenta dramaticamente, gastos beneficiam mais a economia local e a pegada de carbono diminui.
Apoiar negócios locais e familiares, em vez de cadeias internacionais, mantém o dinheiro turístico circulando na comunidade. Hospedar-se em hotéis pequenos em vez de redes, comer em restaurantes familiares, comprar de artesãos locais e usar guias da região cria impacto positivo direto.
Respeitar regras locais, sejam elas formais (cotas, reservas, taxas) ou informais (códigos de vestimenta em locais religiosos, etiqueta cultural, horários de silêncio), é sinal de respeito básico que muitas vezes está em falta no turismo de massa.
Considerar transporte mais sustentável quando possível também ajuda. Trens em vez de voos curtos na Europa, transporte público em vez de cruzeiros, caminhadas e bicicletas em vez de tours motorizados, todas essas escolhas têm impacto.
Tendências para os próximos anos
O movimento de regulamentação turística não vai parar nos destinos mencionados. Outras cidades europeias estão observando atentamente os resultados dessas medidas pioneiras e provavelmente adotarão políticas similares. Veneza já tem taxa de entrada para visitantes de um dia, e cidades como Bruges, Florença e Praga discutem medidas semelhantes.
Fora da Europa, destinos como Bali, Kyoto, Machu Picchu e várias ilhas do Caribe também estão implementando ou considerando medidas de gestão de turismo. A tendência global é clara: o turismo de massa sem regulamentação está chegando ao fim.
Para o viajante, isso significa que planejamento antecipado se torna cada vez mais importante. Reservar com antecedência (especialmente atrações com cotas), conhecer as regras locais, ter flexibilidade de datas e estar disposto a explorar alternativas serão habilidades cada vez mais valiosas.
O futuro do turismo provavelmente envolverá menos espontaneidade em destinos populares, mais reservas obrigatórias, mais taxas turísticas direcionadas à conservação e gestão, e um deslocamento gradual de demanda para destinos menos conhecidos. Para muitos viajantes, isso pode soar como restrição, mas na verdade é oportunidade. Destinos com gestão adequada oferecem experiência muito superior àquela do turismo de massa descontrolado.
Por que essas mudanças importam para você
Para o viajante brasileiro, há considerações específicas. Viagens à Europa representam investimento significativo de tempo e dinheiro, e ninguém quer chegar a um destino sonhado para descobrir que não tem como acessá-lo, ou que precisa fazer fila por horas para ver o pôr do sol em Santorini.
Conhecer as regras com antecedência permite planejamento adequado. Reservar a Blue Lagoon em Malta antes de viajar, comprar o Dubrovnik Pass com antecedência, considerar pernoitar em Santorini em vez de cruzeiro, escolher acomodação em Barcelona dado o fim dos Airbnbs até 2028, todas essas decisões evitam frustrações e potencializam a experiência.
Além disso, há a dimensão ética. Visitar destinos que cobram taxas turísticas significa contribuir diretamente para sua manutenção e gestão. Respeitar cotas e reservas significa permitir que residentes locais tenham qualidade de vida. Explorar alternativas significa espalhar os benefícios econômicos do turismo de forma mais equitativa.
O viajante consciente do século 21 é aquele que entende que sua presença em um destino tem impacto. Pode ser impacto positivo, gerando renda local, criando intercâmbio cultural e financiando preservação, ou impacto negativo, contribuindo para inflação habitacional, degradação ambiental e perda de qualidade de vida dos moradores. Escolher fazer parte da solução é decisão individual de cada um.
As medidas adotadas por Amsterdam, Dubrovnik, Barcelona, Santorini e Comino Island representam apenas o começo de uma transformação maior na indústria do turismo. Os destinos que conseguirem equilibrar receita turística com qualidade de vida dos residentes e preservação do patrimônio serão os grandes vencedores das próximas décadas.
Para quem ainda quer conhecer esses destinos icônicos, a mensagem é clara: vá, mas vá preparado, vá com respeito e vá com tempo. As mudanças não estão tornando essas viagens impossíveis, apenas mais conscientes. E provavelmente essa é a melhor coisa que poderia acontecer com o turismo global. Vale demais a reflexão.