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Roteiro de Viagem na Croácia Além das Ilhas

Croácia além das ilhas: vinho em Zagorje, grappa em Hum, trilhas, pássaros e aventura no interior.

Foto de Nikola Kojević: https://www.pexels.com/pt-br/foto/vista-aerea-do-deslumbrante-litoral-da-ilha-de-kolocep-30114620/

Conheça o lado rural e selvagem da Croácia, com vinhedos na “pequena Toscana” de Zagorje, grappa medieval em Hum, observação de pássaros na reserva do Danúbio, trilhas no Velebit, ciclismo entre ilhas e a impressionante reserva natural de Dinara.

A Croácia ficou famosa pelas ilhas e pelo litoral, mas o país tem muito mais do que praia. Para quem já conhece Dubrovnik, Split, Hvar e Korčula, ou simplesmente busca uma viagem diferente do óbvio, o interior croata oferece paisagens que poucos viajantes brasileiros conhecem. Vinhedos cercados por castelos, vilas medievais com menos de 30 moradores, reservas de aves no Danúbio, trilhas que cruzam montanhas calcárias e nascentes de águas turquesa que parecem pintura.

Este guia reúne seis experiências para quem quer entender o lado rural e mais aventureiro da Croácia. Funciona bem como extensão de um roteiro pelas ilhas, ou como viagem inteira para quem prefere campo a praia.

Zagorje: a “pequena Toscana” croata

Uma hora ao norte de Zagreb fica Zagorje, região cujo nome significa algo como “atrás da montanha”. Os castelos brilham nas colinas, as estradas serpenteiam entre vinhedos e os vilarejos parecem ter saído de contos de fadas. Não chega a ser a Toscana italiana, mas é parente próxima, com personalidade própria e quase nenhum turismo internacional.

A região era considerada um lugar atrasado da Croácia até pouco tempo atrás. As pessoas saíam para trabalhar em Zagreb e voltavam apenas nos fins de semana. A virada veio com os vinhos. Hoje, Zagorje produz cerca de 70 mil garrafas anuais em pequenas vinícolas familiares, com uma diversidade impressionante de variedades como chardonnay, riesling, sauvignon, muscat, pinot noir e graševina, a uva típica da região. A análise dos solos revela calcário e argila, com 23 microzonas distintas no terreno.

Comparada à Dalmácia e à Ístria, Zagorje é um quase segredo. Mas os vinhos têm chamado atenção. Um produtor de referência é o Vuglec Breg, hotel-vinícola onde dá para passar de 30 minutos a algumas horas degustando rótulos e visitando os processos de fermentação. As reservas mostram a metodologia moderna, com tanques de aço inoxidável, mas o conjunto preserva o ar artesanal.

A área conhecida como Veliki Tabor Castle vale uma parada. As estradas atravessam quintais cheios de vida rural, com galinhas, vinhedos e fornos de pão. A culinária local combina queijo, presunto e pratos rústicos que casam muito bem com os brancos cítricos da região.

Para quem busca uma experiência ainda mais íntima, vinícolas como a do produtor Igor Horvat, em Petrač, recebem visitas em um vinhedo charmoso, com pequenas cachoeiras formadas pelo declive natural do terreno. A produção é pequena, voltada ao mercado interno, e raramente chega ao Brasil.

Como chegar: trens diretos saem de Zagreb a partir de € 104 a diária. Voos para Zagreb chegam de Heathrow, Manchester e outras conexões europeias.

Hum: a menor cidade do mundo e sua grappa medieval

No interior da Ístria, fica Hum, uma cidade fortificada com apenas 100 metros de comprimento por 35 metros de largura. Sim, é considerada por muitos como a menor cidade habitada do mundo. Mais curioso ainda, Hum é famosa pela produção da biska, uma grappa medieval que ainda hoje preserva a receita original, com infusão de visco.

A bebida tem origem celta, posteriormente preservada pelos antigos romanos e adaptada pelos ístrios ao longo dos séculos. É considerada por moradores como uma espécie de remédio caseiro. Muitos descrevem como “remédio para qualquer mal”, e dizem que basta uma colher para curar enjoo, gripe e até preguiça. Verdade ou não, a experiência de provar biska em um lugar tão pequeno e antigo é diferente de qualquer outra coisa.

A vila tem uma taverna chamada Humska Konoba, restaurante de madeira escura, lareira aquecida e vista para os terraços. Vale parar ali para um aperitivo antes do almoço, com biska gelada e pratos típicos da Ístria.

Observação de pássaros na reserva do Danúbio

A leste de Osijek, na planície da Panônia, o Rio Drava encontra o Danúbio em uma paisagem de pântanos, canais e florestas alagadas. A região forma o Kopački Rit Nature Park, parte croata da reserva da biosfera Mura-Drava-Danúbio, reconhecida pela UNESCO. É chamado, por alguns, de “Amazonas da Europa”.

Mais de 300 espécies de aves vivem ali, incluindo a maior população de águias-de-cauda-branca da região do Danúbio. Outras espécies de destaque são as garças, harpias, castores e veados. A reserva tem uma passarela de madeira de dois quilômetros que parte da vila de Kopačevo. Quem prefere ver tudo da água, pode pegar barcos turísticos elétricos com partidas regulares.

Como visitar: o ingresso e o passeio de barco custam a partir de cerca de € 30, com saídas regulares.

Trilha Premužić: caminhada no Parque Nacional Velebit

No norte da Croácia, longe da costa dálmata, fica o Parque Nacional Velebit do Norte, uma região cárstica com formações de pedra branca, prados de flores silvestres e bosques densos. A Premužić Trail é uma trilha clássica de 55 quilômetros, que pode ser feita em três dias com etapas de 18 a 20 quilômetros por dia.

A trilha foi construída pelo alpinista croata Ante Premužić nos anos 1930. Foi pensada para ser confortável mesmo em trechos íngremes, e ainda hoje é considerada uma das mais bem-mantidas dos Bálcãs. O percurso oficial começa em Zavižan e atravessa formações conhecidas como rochas de Hajdučki e Rožanski, com paisagens que combinam pedra cinza, urzes e bosques. Em alguns trechos, dá para sentir a temperatura cair abaixo de zero, mesmo em dias quentes no litoral.

É opção excelente para quem gosta de caminhar com calma, em pequenos grupos, com paradas para fotos e descanso. Existem albergues simples ao longo do trajeto, com diárias acessíveis.

De bicicleta pela Croácia

Pedalar pela Croácia tem ficado cada vez mais popular. Cidades como Hvar, Korčula e Mljet oferecem percursos com pouco trânsito, vistas para o mar e paradas em vilas pesqueiras pequenas. Existem agências internacionais com roteiros estruturados de duas a duas semanas pelo país.

Um dos circuitos mais elogiados é o Islands and Highlands, da empresa Much Better Adventures. O passeio combina trechos pela Ístria, com paradas em Trogir e Šibenik, e segue por Pag, com uma média diária de cerca de 40 quilômetros, em hospedagens variadas que vão de hotéis a casas pequenas. Em alguns trechos, há o suporte de veículos que carregam as bicicletas, o que torna o passeio acessível mesmo para iniciantes.

Para os mais experientes, há trechos mais desafiadores, como a subida de Sveti Jure no monte Biokovo, ou a travessia da península de Pelješac, com vinhedos e vistas para Korčula.

Reserva Natural de Dinara: o “olho da terra”

A mais nova reserva natural da Croácia, designada em 2021, é a Dinara Nature Park, uma região cárstica enorme na fronteira com a Bósnia e Herzegovina, que mostra uma face totalmente diferente do país. As cores são outras, a vegetação é outra, e a paisagem inclui o ponto mais alto da Croácia, o Sinjal, com 1.831 metros.

O parque guarda algumas das nascentes mais impressionantes do país. Uma delas, conhecida como Veliko Vrilo, ou “Grande Fonte”, é uma piscina natural circular de água turquesa, que se parece com um tagine, profundo e cercado por rocha branca. O nome popular, “olho da Terra”, faz sentido quando se vê de perto. A nascente alimenta o Rio Cetina, que cruza grande parte da Dalmácia.

Uma trilha de cerca de 16 quilômetros, ida e volta, leva ao topo do monte Dinara, com vistas surpreendentes. Atenção ao calor, especialmente entre julho e agosto, porque a região é exposta e seca. Mais informações: dinarajezdac.hr.

Tabela de comparação rápida

Para ajudar a escolher qual experiência encaixa melhor na sua viagem, veja o resumo abaixo.

ExperiênciaEstiloNível de EsforçoMelhor Época
Vinhos em ZagorjeGastronômicoLeveMaio a outubro
Grappa em HumCulturalLeveAno todo
Aves no DravaNaturezaLeve a moderadoAbril a outubro
Trilha PremužićAventuraAltoJunho a setembro
Ciclismo pelas ilhasAtivoModeradoMaio, junho, setembro
Reserva DinaraNatureza e trekkingModerado a altoMaio, junho, setembro

Como chegar e se locomover

A Croácia tem aeroportos internacionais em Zagreb, Split, Dubrovnik, Zadar e Pula. Quem vem do Brasil normalmente conecta em uma cidade europeia, como Frankfurt, Munique, Amsterdã ou Roma.

Para explorar o interior, o carro é praticamente indispensável. As estradas são em boas condições, com rodovias modernas conectando as principais regiões, e o aluguel sai relativamente barato fora da alta temporada. Para roteiros mais específicos, vale considerar agências locais que oferecem traslados, motoristas privados e passeios guiados em vinícolas e parques naturais.

Para a região de Zagorje, o ponto de partida natural é Zagreb. Para a Ístria e Hum, Pula ou Rijeka funcionam bem. A reserva do Drava fica perto de Osijek. O Velebit é mais acessível a partir de Zadar ou Rijeka. E a Dinara fica próxima de Split ou Knin.

Quando ir

A melhor época para conhecer essa Croácia rural depende da atividade.

PeríodoVantagemAtenção
Abril e maioTudo florido, menos turistasPode chover bastante
Junho e setembroClima ideal para trilhasReservas com antecedência
Julho e agostoDias longos e secosCalor forte e mais lotação
OutubroColheita de uvas, ar cristalinoRestaurantes fechando aos poucos
Novembro a marçoVilas tranquilas, gastronomia fartaFrio e muita coisa fechada

A época da colheita, em setembro e início de outubro, é especialmente boa para visitar vinícolas. Para trilhas, junho oferece a combinação ideal de dias longos, flores e temperatura moderada.

Dicas práticas para viajar com tranquilidade

Algumas observações úteis para essa parte da Croácia:

A língua croata é difícil, mas o inglês está bem disseminado em hotéis e restaurantes. Em vilas pequenas, gestos e simpatia resolvem.

Os horários rurais são diferentes do litoral. Restaurantes fecham mais cedo, vinícolas pedem reserva, e algumas atividades só funcionam mediante agendamento. Vale planejar com um ou dois dias de antecedência.

Os pagamentos com cartão funcionam quase em todo lugar, mas vale levar dinheiro vivo para vilas pequenas, taxistas e pequenos produtores que só aceitam euros em espécie.

A comida é farta. Os pratos rurais costumam ser servidos em porções generosas, com presunto, queijo, embutidos, pães rústicos e doces de frutas. Não conte com cardápios vegetarianos elaborados em todos os lugares, embora isso esteja mudando.

O calor de verão no interior pode ser intenso. Em Zagorje, Dinara e na reserva do Drava, leve protetor solar, água e roupas leves. À noite, mesmo em julho, pode esfriar nas montanhas, então uma camada extra ajuda.

O que comer no interior croata

A culinária do interior é menos baseada em frutos do mar e mais em carnes, queijos e pratos cozidos lentamente. Alguns destaques que valem provar:

  • Štrukli, massa recheada com queijo cremoso, assada ou cozida, típica de Zagorje
  • Kulen, embutido picante de porco, especialidade da Eslavônia
  • Čobanac, ensopado de várias carnes com páprica
  • Manestra, sopa rústica da Ístria com legumes e feijão
  • Fritule e kroštule, doces fritos comuns em festas rurais

Acompanhe com os vinhos brancos de Zagorje, os tintos da Ístria, ou com uma dose pequena de biska ou rakija caseira.

O que fica da Croácia rural

Quem viaja pelo interior da Croácia volta com uma percepção diferente do país. Não é só sobre paisagem, mas sobre ritmo. As pessoas falam mais devagar, os almoços duram mais, os anfitriões insistem para você experimentar mais um copo, mais um pedaço de presunto, mais uma história. Existe um orgulho rural genuíno, sem performance, sem exagero.

É um lado da Croácia que combina muito com a ideia de pomalo, aquele estado mental tipicamente croata de fazer as coisas com calma. No interior, isso ganha contornos ainda mais fortes. Os castelos brilham nas colinas, as nascentes seguem alimentando os rios, as aves continuam migrando, e os pequenos produtores resistem com paciência ao tempo. Para quem viaja sem pressa, é uma das experiências mais ricas que a Europa central oferece hoje.

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