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Roteiro no Uruguai e Suas Regiões Vinícolas

Uruguai e suas regiões vinícolas: o segredo mais bem guardado da América do Sul, com vinhos surpreendentes, Montevidéu cosmopolita e uma rota enogastronômica que poucos brasileiros conhecem de verdade.

Fonte: Civitatis

Uruguai e suas regiões vinícolas: o segredo que a América do Sul ainda guarda bem

Tem um detalhe curioso sobre o Uruguai que demora um pouco para cair a ficha. Enquanto Argentina e Chile aparecem em quase toda conversa sobre vinhos sul-americanos, o vizinho pequeno ali do outro lado do Prata segue meio escondido, quase como se preferisse assim. E talvez prefira mesmo. Explorar o Uruguai e suas regiões produtoras é como entrar num clube discreto, daqueles em que ninguém precisa gritar para mostrar que tem qualidade.

O país é um dos menores do continente, mas vem construindo uma cena bombástica, com um circuito de vinícolas que rivaliza com vizinhos famosos e uma capital que envelhece bem, ganhando ares cada vez mais cosmopolitas. Investimento estrangeiro chegando, cultura vinícola crescendo, e ainda assim o Uruguai continua fora do radar da maioria dos viajantes. Coisa rara hoje em dia.

E é justamente isso que faz a viagem valer tanto.

Descobrindo Montevidéu

Chegar em Montevidéu tem algo de anticlímax no bom sentido. A cidade não tenta te impressionar à força. Ela só está ali, vivendo seu ritmo, com prédios art déco gastos pelo sol, calçadões longuíssimos beirando o Rio da Prata e um cheiro de carne assada que parece escapar de cada esquina por volta do meio-dia.

A Cidade Velha é o lugar para começar. Bares históricos, cafés antigos, e aquela energia meio melancólica que parece herança direta dos literatos uruguaios da época de ouro, muitos deles também compositores de tango. Se der sorte, dá para emendar uma milonga numa dessas casas, e é talvez a experiência mais quintessencialmente montevideana que existe. Não é turística no sentido empacotado. É só a cidade fazendo o que sempre fez.

O tango, aliás, foi inventado entre os portos e ruas das duas cidades, e a discussão sobre quem nasceu primeiro, se Buenos Aires ou Montevidéu, segue acalorada (mas convenhamos, não tão acalorada quanto a do bife uruguaio versus argentino). Pessoas de fora costumam achar que o tango uruguaio não tem o mesmo brilho do argentino. Não comprem essa. O tango que se ouve aqui tem o canto mais longo da história do gênero, segundo quem entende. Uma das instituições mais antigas do continente nasceu em 1830, e segue ativa. O Mercado Ferrando (pág. 29) é só uma das paradas que vale incluir no roteiro noturno.

Estilisticamente, a cidade impressiona sem fazer força. Há um desfile de movimentos arquitetônicos que vai dos gigantes neoclássicos como o Palácio Salvo e o Teatro Solís ao belle époque das fachadas, com cantos modernistas espalhados que surpreendem quem está só de passagem. O aeroporto, projetado por Rafael Viñoly, é dos mais bonitos da região.

“Montevidéu tem mais arquitetura art déco do que qualquer outra cidade além de Nova York, e mesmo assim segue fora do radar como destino.”

Quem disse isso foi a britânica Karen Higgs, autora do Guru’Guay Guide to Montevideo, que vive na cidade desde 2000 e tomou um café na Cidade Velha para conversar sobre o assunto. Segundo ela, os encantos de Montevidéu não estão na vitrine. Eles aparecem aos poucos, e essa demora é parte do charme.

As ruas, de fato, ficam estranhamente silenciosas à tarde. Cuesta acreditar que um terço do país vive ali. Yerba mate na mão, andando pelos 22 km de orla, com o sol baixando devagar sobre o Prata, é a imagem mais honesta da capital. Montevidéu é uma colmeia cultural, sim, mas com portas fechadas. Você precisa empurrar algumas para descobrir o que está acontecendo lá dentro.

Candombe, murga e o ritmo do país

Difícil falar de Uruguai sem mencionar duas formas de expressão que carregam o país nos ombros. A murga, sátira política cantada com comédia, é pilar do carnaval uruguaio, embora performances aconteçam o ano todo. E o candombe, dança vigorosa ao som de muitos tambores, conta a história da experiência africana no Uruguai. Tem coisa que precisa ser vista e ouvida ao vivo para fazer sentido, e essas duas estão na lista.

Captar uma murga não é entretenimento turístico, é aula condensada sobre como o uruguaio enxerga a própria política e o próprio absurdo cotidiano. Vale ir mesmo sem entender cada verso. O contexto se monta sozinho.

A rota dos vinhos de Canelones

Da cultura para o vinho, a transição é fácil porque os vinhedos começam praticamente nos limites da cidade. Canelones virou o território produtor mais importante do Uruguai ao longo do século 20, justamente pela proximidade com o mercado consumidor sedento da capital. O clima atlântico ameno favorece a produção de uvas de qualidade, com solos de argila rica espalhados pelas colinas onduladas que canalizam aquelas brisas costeiras refrescantes. Detalhe essencial nesse clima úmido.

Canelones concentra cerca de dois terços dos vinhedos uruguaios, e aqui vem o ponto mais bonito da região: 90% das vinícolas são familiares, e quase sempre é a própria família que recebe você. Não é um marketing montado. É a estrutura real do setor. A maior parte são produtores boutique, pequenas operações de família, cada uma com sua marca própria. Explorar Canelones é descobrir essa diversidade de estilos e variedades.

O grande nome do Uruguai no vinho é o Tannat. Variedade galega plantada em muitos lugares mas que tem aqui sua expressão mais marcante, ao lado do Albariño. A família Bouza foi das primeiras a plantar esse Albariño galego, num gesto que diz muito sobre a relação cultural do Uruguai com a Galícia. As condições atlânticas se assemelham às galegas, e o talento espanhol também aparece nos restaurantes da Bouza, conhecida pela coleção de carros antigos vintage que decora a propriedade.

Outro spot bacana para almoçar é a Artesana (artesanawinery.com), a 30 minutos da capital. Vinícola boutique inspirada nos donos californianos, com um Zinfandel surpreendente (raridade no Uruguai) maturado em barrica de carvalho e finalizado com aduelas de menu próprio.

A família Pizzorno (pizzornowines.com) também oferece uma experiência íntima de almoço com degustação. E quem quer explorar o terroir do Tannat de verdade, vale conhecer a Família Deicas, sediada na centenária Juanicó (juanico.com), uma das mais antigas adegas do país, fundada em 1830. Outras paradas que valem o trajeto: Carrau, Antigua Bodega Stagnari, Varela Zarranz e Los Nadies, sempre indo do gigantesco ao boutique.

Um mapa mental das vinícolas de Canelones

VinícolaDiferencialVale a pena para
BouzaAlbariño e carros antigosQuem busca elegância e história
ArtesanaÚnico Zinfandel do paísCuriosos por raridades
PizzornoAlmoço familiar e íntimoExperiência aconchegante
JuanicóTradição desde 1830Fãs de Tannat clássico
Reinaldo de LuccaVinhedo poético, conversas longasQuem ama viticultura artesanal
PisanoGeração jovem e novas linhasApreciadores de inovação

Um dia perfeito entre Canelones e Montevidéu

Vou contar como montar um dia que faz justiça à região, juntando o que de fato funciona quando se planeja a viagem.

Manhã

Embora os locais bebam yerba mate, uma infusão das folhas secas de uma planta nativa, normalmente sorvida de uma cuia, talvez você precise primeiro de um café. O The Lab (thelab.com.uy) tem um ponto excelente em Punta Carretas onde dá para começar o dia, café na mão, caminhando pela península costeira. O maior tesouro de Montevidéu é estar bem na beira da água, e uma caminhada costeira é o jeito mais revigorante de começar (ou terminar) o dia.

Depois de driblar o trânsito da manhã, siga para Canelones, onde cada visita a vinícola se transforma em algo pessoal. Meu trajeto preferido começa por Reinaldo de Lucca (deluccawines.com), um vigneron de verdade, que fala sobre cultivo de uvas no modo mais poético possível.

Almoço e tarde

Para almoçar, Lo de Porro (Battle y Ordóñez 664), em Las Piedras, restaurante típico de antigamente onde o vinho é servido em jarra e a massa é feita fresca todo dia. Depois, curtíssimo trajeto até os irmãos Pisano (pisanowines.com), 10 minutos saindo de Progreso. Cada um dos irmãos (Daniel, Gustavo e Eduardo) tem visões únicas sobre vinho uruguaio (vendas, vinificação e viticultura, respectivamente) e fazer degustação com eles é inesquecível.

Vale pedir para provar com o Pisano mais jovem, Gabriel, que está à frente da nova onda de vinhos uruguaios com o rótulo boutique Viña Progreso (vinaprogreso.com).

Noite

A vida noturna começa tarde em Montevidéu. Então faça uma caminhada no começo da noite pela Cidade Velha, absorvendo a atmosfera, a arte de rua, a arquitetura. Depois passe o restante da noite beliscando e bebericando enquanto pula entre o número crescente de bares de vinho e coquetelaria da cidade, terminando com música ao vivo numa milonga, que costuma seguir até as primeiras horas da manhã.

Onde ficar, comer e beber

Hospedagem

Casa Sarandí, para quem quer sentir cheiro de casa longe de casa. B&B que oferece muito caráter, conforto e todas as informações de bastidor que você poderia querer. Imersão cultural pura na Cidade Velha de Montevidéu. (casasarandi.com)

Sofitel Montevideo: prédio art déco de 1921 cujo nome se traduz como “palácio nas areias”, pelo posicionamento à beira-mar no badalado Carrasco. Combinação clássica de luxo opulento, hands-on, com um ótimo restaurante, adega bem abastecida e um spa elegante.

Restaurantes

Alquimista, escondido num pátio pacífico de Carrasco, é restaurante-instalação-arte com mesas em diferentes cômodos da casa e jardim, parecendo mais um jantar na casa de um amigo do que num restaurante. A cozinha uruguaia inovadora e colorida garante a qualidade no prato. (alquimistamontevideo.com)

Mercado del Puerto é o templo principal de comer em Montevidéu, mais sobre a experiência do que sobre alta gastronomia. O carnívoro vai delirar, com olhos lacrimejando ao ver tanto asado (churrasco lento) que é parte do espetáculo da fumaceira. (mercadodelpuerto.com)

Primusem: se você quer um pouquinho de tango com seu bife, Primusem é o lugar. Restaurante íntimo em museu de antiguidades na Cidade Velha, com músicos uruguaios servindo apresentações cativantes. (primusem.com)

Vinotecas e lojas

Barolo: a impressionante adega tem 160 rótulos que dá para tomar por taça ou por garrafa, ou abrir no restaurante Fellini ao lado. (fellini.uy)

Madiràn & Mercado Ferrando: este urbano com vários eateries, bares e boutiques abriga gastronomia desde paradas artesanais até casas de pasta. Amantes do vinho visitarão o Madiràn pela seleção eclética.

Montevideo Wine Experience: sob o comando do garrafeiro especialista (e amigo) Nicolás e Líber, um par de horas vai dar uma introdução valiosa ao vinho uruguaio. Fique atento aos sessions ao vivo.

Como chegar

O aeroporto de Montevidéu tem voos diários para Madri, Miami e Buenos Aires. Para quem vem do Brasil, normalmente o trajeto envolve conexão em São Paulo ou Buenos Aires, e depois aquele balsa de duas horas é alternativa charmosa a partir de Buenos Aires. Conexões diretas a partir de São Paulo também aparecem com frequência, dependendo da temporada.

A ferry de duas horas saindo de Buenos Aires é a opção mais romântica. Você atravessa o Prata vendo a paisagem mudar lentamente, e quando atraca em Montevidéu o ritmo da viagem já mudou. Recomendo demais quem está fazendo um roteiro juntando os dois países.

Por que o Uruguai ainda passa despercebido

Aí volta a pergunta inicial. Por que o Uruguai segue meio invisível no radar enogastronômico mundial?

Acho que parte da resposta está no jeito uruguaio de ser. Não há esforço deliberado para se vender. A escala dos produtores é pequena, a maioria familiar, e isso por si só limita exportação agressiva e marketing global. O Tannat, uva poderosa e meio difícil para o paladar acostumado a vinhos mais redondos, demora a conquistar quem chega esperando algo parecido com Malbec. Mas conquista. Depois que se entende o Tannat uruguaio (esse tanino firme, essa estrutura quase austera, esse frutado escuro), fica difícil voltar atrás.

E há também o fato de o país inteiro funcionar num registro mais baixo. Montevidéu não tem a explosão visual de Buenos Aires. As vinícolas não têm o cenário cinematográfico de Mendoza. As praias do leste, em Punta del Este, atraem o jet set argentino e brasileiro, mas mesmo ali há uma reserva uruguaia que segura o exagero. Tudo é um grau mais discreto, um grau mais íntimo, um grau mais sutil.

O resultado é uma viagem que recompensa quem chega disposto a entrar no ritmo, em vez de cobrar do destino que ele se ajuste ao ritmo do visitante. Aceita o tempo lento. Aceita o vinho denso. Aceita a conversa longa com o produtor que abre uma garrafa “só pra você experimentar”. Aceita ficar até de manhã numa milonga improvisada.

Diversidade que poucos esperam

Há ainda muita coisa a ser descoberta tucked into the folds of Canelones e Montevideo, e as poucas famílias dessa região vão te incentivar a continuar essa descoberta no Uruguai inteiro, na rota até Atlántida, Colônia e Maldonado. Não comece esse planejamento ainda. Sua próxima viagem está sendo planejada para descobrir o segredo mais bem guardado do vinho sul-americano.

A diversidade de estilos e variedades no Uruguai, comparada à Chile e Argentina, é o que retém turistas mais exigentes (como Eduardo Boido, enólogo da Bouza, que está à porta de Canelones). “Alguns anos atrás, para vinicultores em outros lugares, claro, o Tannat emergiu como campeão do Uruguai por causa do grande paladar, acidez e concentração ano a ano.”

Mas é a vinha mais plantada do Uruguai, mostrando promessa, incluindo o Albariño. A família Bouza foi a primeira a plantar essa variedade galega, cujas condições climáticas similares aos atlanticismos uruguaios e as origens galegas das gerações anteriores certamente ecoam até hoje no caminho do vinho que está sendo feito.

Esse jeito espanhol também aparece na coleção excepcional de carros antigos da Bouza, com vista para a vinificação extensiva.

Olha, no fim das contas, viajar para o Uruguai e suas regiões vinícolas é entender que existe um caminho diferente para se gostar de vinho. Sem espetáculo. Sem narrativa pomposa. Só uva, terra, mão familiar e uma conversa boa, de preferência ao lado de um pedaço de asado que demora horas para ficar pronto. Quem topa o convite, sai diferente. Quem não topa, fica em Mendoza, e tudo bem também.

Mas o segredo continua aqui, do outro lado do rio. Esperando.

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