Rota do Vinho e Gastronomia em Como

Descubra o melhor do Lago de Como na Itália: vilarejos charmosos, restaurantes premiados, vinhos locais e dicas práticas para planejar sua viagem com tranquilidade.

Fonte: Civitatis

Visitar o Lago de Como é entender, finalmente, por que tanta gente fala desse lugar com os olhos brilhando. Não é exagero. Existe algo nas margens dele, no jeito como as montanhas descem direto pra água, nas vilas penduradas em encostas, que faz com que a primeira impressão dure semanas depois que você volta pra casa. E o engraçado é que, mesmo sendo um dos destinos mais badalados da Itália, ele ainda guarda cantos onde dá pra sentar, pedir um copo de vinho branco da região e esquecer que o resto do mundo existe.

Vou contar aqui o que aprendi ouvindo gente que conhece a região de verdade, somando dicas que ajudam quem está planejando ir pela primeira vez. Sem enrolação, sem aquele tom de folheto turístico.

Por que o Lago de Como continua sendo um dos lugares mais especiais da Itália

A região fica na Lombardia, no norte do país, encostada nos Alpes. O lago tem um formato curioso, parecido com um Y invertido, e cada braço dele tem uma personalidade própria. O braço sudoeste leva a Como, a cidade que dá nome ao lago. O sudeste vai pra Lecco, mais industrial e menos turística. E o braço norte é onde está o coração do romance, com Bellagio cravada no meio, exatamente no ponto em que os três braços se encontram.

Não é à toa que George Clooney comprou casa por ali. Brad Pitt também já apareceu por essas bandas. Mas antes deles, gente como Alessandro Volta, o inventor da pilha elétrica, e Lev Tolstói já tinham deixado suas marcas. Tolstói, inclusive, passou parte da Idade do Ferro e do século 19 fascinado pela paisagem, o que diz muito sobre o poder visual do lugar.

Como chegar e se locomover sem dor de cabeça

A entrada mais lógica é por Milão. O aeroporto de Milano Malpensa atende a maioria dos voos internacionais, inclusive os que saem do Brasil. De lá, você aluga um carro e em uns 45 minutos está em Como. Parece simples e é, mas vale uma observação: dirigir na região exige paciência. As estradas margeando o lago são estreitas, com curvas fechadas, ônibus que aparecem do nada e ciclistas em todo canto.

Se a ideia é ficar em Bellagio ou nas vilas do braço norte, talvez compense pegar um carro só pra ida e voltar de barco. Os ferries que cruzam o lago são parte da experiência. Você anda com o vento na cara, vê as vilas surgindo uma atrás da outra, e gasta muito menos energia do que tentando estacionar em ruelas medievais.

Menos de oito quilômetros ao norte de Milão, em pleno trajeto pra Como, você já começa a sentir a paisagem mudar. O vale de Y invertido do lago aparece no horizonte conforme o carro sobe pelas colinas suíças. É um daqueles trechos em que dá vontade de parar o carro só pra olhar.

Onde comer no Lago de Como: dos estrelados aos cantos discretos

A gastronomia da região é uma mistura interessante. Tem influência alpina, tem peixe de água doce, tem queijos que praticamente não saem da Lombardia. E tem chefs que decidiram, há anos, fazer alta cozinha sem perder o pé na tradição local.

I Tigli in Theoria, em Como

O chef Franco Caffara conquistou a primeira estrela Michelin de Como em 2012 com este restaurante. E aí, em 2014, fez de novo no I Tigli in Theoria, instalado num palácio do século 15 lindamente restaurado. O lugar consegue ser sofisticado sem ser pesado. Tem ar de coisa antiga, mas a cozinha é contemporânea e ousada. No térreo funciona uma sala mais informal, dedicada a aperitivos e coquetéis, perfeita pra começar a noite antes do jantar. Site: www.theoriagallery.it

Osteria del Gallo

Essa eu coloco na lista pelo charme. É uma taverna no centro de Como, frequentada antigamente por escritores e gente do meio literário. Hoje serve um menu sazonal feito com ingredientes frescos da região. A pegada é de osteria de bairro, sem firulas, com vinhos do dia escritos no quadro negro. Eles vendem também salumeria e queijos artesanais, vale a pena levar uma fatia de Valchiavenna Bresaola pra provar depois. Site: www.osteriadelgallo-como.it

Da Gigi

Na cidade velha, a Enoteca da Gigi virou referência pra quem gosta de vinho. A família toca o lugar desde 1930, o que já diz muita coisa. Você encontra desde brancos leves até tintos importantes, com seleções italianas e internacionais. Dá pra comprar uma garrafa, levar pra casa, ou simplesmente sentar nas mesas externas e beber ali mesmo, vendo o movimento da rua. Site: www.enotecagigi.com

Le Specialità Lariane

Fundada em 1985 por Marco Molli, fica em Lenno, na margem do lago, a uns 50 minutos de Como. É especializada em defumação e cura de peixes de água doce, com destaque para o missoltini, que é uma especialidade icônica do lago. Também faz bottarga (ovas) e mostardas. Não é um restaurante, é um produtor com loja, e vale a parada se você curte explorar produtos regionais com história. Site: www.lespecialitalariane.it

Cantine Angelinetta

Indo pra norte, depois de uns 90 minutos saindo de Como, você chega em Domaso. Lá fica a vinícola da família Angelinetta, montada num cenário absurdo, com terraços de pedra subindo a colina logo acima da água. Eles produzem vinhos próprios, com uvas plantadas em parreirais que parecem desafiar a gravidade. Visita com degustação é altamente recomendada. Site: www.cantineangelinetta.com

Silvio

Nos jardins da Villa Melzi, a uns 30 quilômetros de Como, está o restaurante de peixes mais respeitado do lago. O dono, Cristian, é pescador, ou seja, o peixe que chega ao prato saiu da água naquela manhã, da skiff dele mesmo. A especialidade da casa é o missoltini, peixe seco curado ao sol. Comer ali, com vista pra Bellagio, é uma experiência das mais memoráveis da viagem. Site: www.bellagiosilvio.com

Ristorante Mistral

No Grand Hotel Villa Serbelloni, em Bellagio, fica o único restaurante com estrela Michelin de toda a margem do lago. Ambiente sofisticado, vista cenográfica e o trabalho do chef Ettore Bocchia, que usa gastronomia molecular pra criar receitas inovadoras sem abandonar a cozinha italiana. Não é barato, mas se você quer uma noite memorável, esse é o endereço. Site: www.ristorante-mistral.com

Os vinhos da região: uma descoberta que vale o esforço

O Lago de Como tem uma denominação de origem chamada Terre Lariane IGT. Pouca gente comenta isso fora da Itália, mas a viticultura ali é antiga e séria.

InformaçãoDetalhe
DenominaçãoTerre Lariane IGT
Área plantada100 hectares
Uvas brancas principaisChardonnay, Riesling, Verdese
Uvas tintas principaisMerlot, Pinot Nero
ClimaPré-alpino com influência lacustre

O clima pré-alpino, somado à influência do lago, dá aos vinhos uma personalidade que mistura frescor de montanha com mineralidade. Os brancos costumam ser leves, perfumados, ótimos pra acompanhar peixe defumado. Os tintos são mais discretos do que os do sul da Itália, mas têm elegância. Vale provar nas próprias vinícolas, sempre que possível.

O que ver, além de comer e beber

A região não vive só de gastronomia. As atrações culturais e naturais são fortíssimas, e dá pra montar roteiros de vários dias sem se sentir entediado nem por um momento.

Tempio Voltiano, em Como

Esse é um museu pequeno, dedicado a Alessandro Volta, o cientista que inventou a pilha elétrica. Fica em Como mesmo e é uma parada rápida, mas interessante pra quem gosta de história da ciência. Site: www.alessandrovolta.it

Villa Olmo

Em Como, à beira do lago, fica uma das villas mais imponentes da região. Os jardins são abertos ao público e recebem exposições e eventos com frequência. Vale a caminhada até lá, ainda mais ao final da tarde, quando a luz bate diferente sobre a fachada neoclássica.

Lido di Villa Olmo

Pertinho da villa, tem o lido com piscinas, onde dá pra encarar um banho em pleno verão. É um luxo discreto que poucos turistas conhecem.

Comacina, a única ilha do lago

Comacina é a única ilha do Lago de Como, e tem uma atmosfera diferente do resto. Lá houve, no passado, uma comunidade importante que acabou destruída em conflitos medievais. Hoje você anda entre ruínas, escultura ao ar livre e silêncio, com vista pra montanhas dos dois lados. É um lugar pra ir devagar.

Villa del Balbianello

Talvez a villa mais cinematográfica do lago. Já apareceu em filmes do James Bond e da saga Star Wars. Fica numa península que avança pelas águas, com jardins minuciosamente cuidados. A visita pede agendamento, especialmente em alta temporada.

O funicular de Como a Brunate

Esse é, pra mim, um dos passeios mais subestimados. Você pega o funicular em Como e em poucos minutos chega em Brunate, um vilarejo nas alturas, com vista panorâmica do lago inteiro. Pra quem topa caminhar, dá pra subir até o Faro Voltiano, e depois descer até Torno por trilhas no meio da mata. É uma caminhada de algumas horas, recompensada por mirantes em todo trajeto.

San Giovanni, Bellagio e o “Pearl of the Lake”

Em Bellagio, vale conhecer a vila de San Giovanni, especialmente em julho, quando acontece a festa local com queima de fogos sobre a água. Hospedar-se em Bellagio é caro, mas pelo menos passar um dia inteiro lá é obrigatório. O apelido “Pérola do Lago” não veio à toa.

Tremezzo e arredores

Tremezzo concentra algumas das villas mais belas do lago. Villa Carlotta tem jardins extraordinários, abertos ao público, com estátuas, fontes e plantas que mudam a cor das ruas conforme a estação. Logo ao lado, em Tremezzina, está a Villa Erba, em Cernobbio, que também merece a parada.

Roteiro sugerido para aproveitar bem

Se você tem três a cinco dias, dá pra montar algo bem equilibrado. Eu pensaria mais ou menos assim:

DiaPrograma sugerido
Dia 1Chegada em Como, caminhada pelo centro histórico, jantar no I Tigli in Theoria
Dia 2Funicular pra Brunate, almoço na Osteria del Gallo, tarde no Lido di Villa Olmo
Dia 3Ferry até Bellagio, visita à Villa Melzi, jantar no Silvio
Dia 4Tremezzo, Villa Carlotta, Villa del Balbianello, retorno por barco
Dia 5Vinícolas em Domaso, visita à Cantine Angelinetta, retorno relaxado

Esse esqueleto se adapta bem. Se sobrar tempo, encaixe Comacina. Se faltar tempo, corte Domaso e foque no triângulo Como, Bellagio, Tremezzo.

Quando ir, e o que ninguém te conta

Os meses de maio, junho e setembro são os melhores. O clima é estável, os jardins florescem, e a multidão de julho e agosto ainda não chegou ou já foi embora. Julho e agosto são caóticos, com filas pra ferry, restaurantes lotados e preços nas alturas. No inverno, muitos hotéis e villas fecham, mas a paisagem ganha uma melancolia bonita, com neblina baixa sobre a água.

Uma dica que pouca gente menciona: leve sapato confortável. Sério. As cidades são em terreno íngreme, com escadarias de pedra que vão de um nível ao outro. Bellagio, especialmente, é praticamente uma escada gigante.

Outra coisa importante é reservar tudo com antecedência. Restaurantes premiados como Mistral e Silvio enchem rápido, e em alta temporada não tem espaço pra improviso. Mesmo as visitas a vinícolas pedem agendamento prévio.

My top 10 em Como: três paradas que merecem destaque

Arte Dolce Lyceum

Em um dos lugares mais pitorescos da cidade, num antigo palácio à beira do lago, funciona uma confeitaria, sorveteria e bistrot que satisfaz qualquer desejo doce. Sorvetes artesanais, doces frescos, e a opção de pedir pra viagem e fazer um piquenique no jardim do palácio. Site: www.artedolcelyceum.it

Visini

Uma delicatessen histórica perto do Duomo, hoje transformada em experiência gastronômica multifacetada por uma segunda geração de proprietários. Comida pra levar, pratos clássicos italianos, vegetarianos, saudáveis ou internacionais, comida artesanal de verdade. Boa parada pro almoço prático, sem perder qualidade. Site: www.visini.it

Caffè Milani

Com mais de oitenta anos de experiência em importar e torrar café, o Caffè Milani vai muito além de um café qualquer. É um centro cultural do café, dividido entre ilhas botânicas e treinamento técnico, onde dá pra desfrutar de um café fresco e ainda levar grãos pra preparar em casa. Site: www.caffemilani.it

Algumas impressões finais

O Lago de Como entrega o que promete, e mais um pouco. Tem o luxo dos hotéis cinco estrelas e dos restaurantes estrelados, claro, mas tem também o lado humano, do produtor de vinho que recebe a visita pessoalmente, do pescador que vira chef, da osteria que serve queijo de uma vila que ninguém ouviu falar.

A graça da região está em equilibrar essas duas faces. Você pode gastar uma fortuna no Mistral em Bellagio numa noite, e no dia seguinte almoçar uma focaccia com mortadela num café de Como por dez euros, feliz da mesma forma. O lago não cobra ingresso pra ser apreciado. As montanhas estão ali, refletidas na água, esperando você passar pra olhar.

Quem vai uma vez, costuma voltar. E quem volta, costuma ficar mais tempo. É esse tipo de lugar.

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