Rota do Vinho e Gastronomia em Cingapura

Singapura virou um dos destinos gastronômicos mais surpreendentes da Ásia, com cena multicultural que vai do chili crab nos hawker centers ao fine dining premiado, passando por bares de uísque escondidos em hotéis boutique e restaurantes chineses sofisticados que misturam Huaiyang, Xangai, Sichuan e cantonês num só endereço.

Fonte: Civitatis

Singapura para comer e beber: o guia honesto de quem encara o calor para garimpar os melhores endereços

Singapura entrou de vez no radar mundial em 2018, quando Crazy Rich Asians escancarou para o planeta o que muita gente que já tinha passado por lá sabia: a cidade-estado é um dos cenários mais fascinantes do mundo, e isso vale tanto para o visual quanto para o que se coloca no prato. Não é exagero dizer isso. Quem chega em Singapura pela primeira vez costuma ter dificuldade de processar tudo de uma vez.

Dois graus acima do Equador, a sensação térmica desafia o viajante logo na chegada. Humidade entre 80 e 90 por cento, termômetros sempre marcando algo entre o desconforto e o castigo. Mas a cidade respondeu a isso de um jeito muito singapurense: praticamente tudo é climatizado. Transporte público, ônibus, metrôs, MRT e táxis ou Grab, qualquer deslocamento te tira do calor em segundos. Quase todo centro comercial é uma geladeira. Isso muda completamente a forma de circular pela cidade.

Singapura é uma ótima base para explorar o resto do sudeste asiático. O Changi Airport, frequentemente eleito o melhor do mundo, te coloca em poucas horas em destinos como Camboja, Indonésia, Laos, Malásia, Mianmar, Filipinas, Tailândia e Vietnã. Já fiz isso algumas vezes e funciona muito bem como hub de uma viagem maior pela região.

Uma ex-colônia britânica que virou potência cosmopolita

Sendo uma antiga colônia britânica, com independência declarada em 9 de agosto de 1965, o inglês é falado e entendido praticamente em todo lugar. Você dirige no lado esquerdo da rua, o nome das ruas mantém o sabor da época colonial, e até as tomadas elétricas seguem o mesmo padrão do Reino Unido. Pequenos detalhes que facilitam demais a vida do viajante britânico, mas que qualquer estrangeiro adapta rapidamente.

Se você vem do Reino Unido, dificilmente vai estranhar comprar vinho em Singapura, embora os preços fiquem salgados graças ao imposto alto e aos 7 por cento de impostos sobre bens e serviços. Vinhos australianos e neozelandeses são consideravelmente mais baratos do que os europeus, no entanto. Bebidas chinesas, indonésias e malaias também aparecem na carta, especialmente quando o público da casa é asiático. Existem, claro, eventos pontuais de feiras de vinho, mas as datas não acontecem na mesma escala dos calendários europeus.

Há ótimos lugares para tomar bons drinks também. Em alguns restaurantes, os visitantes europeus podem ser pegos de surpresa com o vinho disponível por taça no aeroporto na chegada ou na partida. Acabei abrindo uma garrafa por ali mais de uma vez só para não acreditar nos preços. Nada barato. Não custa 24/7 em Singapura, e a vida nas ruas é largamente segura e tem valor, dá para circular sem medo às onze da noite, é quase desconfortável de tão tranquilo.

O lado das ruas: hawker centers e a alma da cidade

Um dos cantos mais populares e ubíquos da cidade fica nos hawker centers do bairro indiano-muçulmano, onde se serve carril, frituras, e os ultrapopulares roti prata, um pão achatado, leve, fofinho, conhecido também como roti canai. Para quem está aprendendo a cidade, esse tipo de programa vale mais do que qualquer Michelin. É barato, é vivo, é onde Singapura realmente acontece. E vale lembrar de uma coisa: a maior parte desses hawkers não serve bebida alcoólica, então o jeito é levar uma garrafa de casa ou se contentar com sucos frescos.

Onde comer em Singapura: a lista pessoal

Os dez endereços abaixo passam por diferentes regiões da cidade e por orçamentos bem variados. Vale ler com calma, porque cada um tem sua personalidade, e isso muda bastante o tipo de noite que você vai ter.

1. By Bottles & Bottles

Veterano da indústria, Koh Chin Liang levou Bottles & Bottles para duas localizações. Duas estão no aeroporto, uma na nova complexa Jewel, e a mais nova ainda no Terminal 3. Não é uma operação de varejo apenas, dá para tomar um copo de vinho ali na loja, no estilo bem casual de quem está esperando um voo ou matando tempo no caminho. Uma mesa longa comporta 25 pessoas.

Endereço útil: www.bottlesandbottles.com.sg

2. Jade Palace Seafood Restaurant

Fundado em 1998, oferecendo Yue, mais conhecida como cozinha cantonesa, o Jade Palace tem possivelmente o melhor chili crab da cidade. O chilli crab é bom de fato, e o caranguejo com pasta de pimenta preta é delicioso quando bem feito. BYO funciona ali, com taxa de rolha. A versão em inglês do cardápio pode ter algumas peculiaridades de tradução, mas nada que estrague o jantar. Aberto às segundas e domingos das 4h às 4h.

Endereço útil: www.simhoisai.com.sg

3. Madame Fan

Filha do Alan Yau (Hakkasan e Wagamama), Madame Fan apresenta uma cozinha cantonesa moderna em ambiente moderno e simpático, com paredes em coral e cortinas plissadas. Localizada no edifício do antigo Britannia Club nos anos 1950, é uma sala bonita, e o brunch acontece com champanhe nas quintas, sextas e domingos.

Endereço útil: www.madamefan.sg

4. Whiskey Library

Reivindicando ter mais de mil uísques, a Whiskey Library fica no térreo do The Vagabond Club, um hotel boutique Marriott em uma das únicas Singapuras não tão longe do Little India, do bairro luminoso de luz vermelha do Desker Road e do Jalan Besar, com muitos pequenos cafés bons e muitos pequenos bares que abrem até as primeiras horas. O mobiliário é completo com cortinas de veludo e decorações em ouro, lembrando dias de Império. Servem almoço, e abrem das quintas em diante.

Endereço útil: www.hotelvagabondsingapore.com

5. No Menu

Conhecido por sua deliciosa massa caseira, óleo de oliva de maçã e tarte, e pelo recebimento caloroso pela casa. No Menu é uma adega de família onde se pode tomar um copo do vinho do Walter Massa, e o cozinheiro chefe é o ítalo-piemontês Osvaldo Forlino, que chegou em Singapura em 2002 vindo do Piemonte. Ambos embaixadores do Timorasso, a antiga uva piemontesa que o Massa salvou e fermenta em tanques de aço inoxidável só.

Endereço útil: www.osvaldo.sg/nomenu

6. Imperial Treasure Shanghai

Os pratos chineses favoritos em Singapura oferecem opções de Huaiyang, Xangai, Sichuan e cantonês com uma carta de vinhos bem alta. A carta tem custos razoáveis, embora BYO seja permitido com taxa de rolha. O restaurante fica dentro do shopping movimentado Orchard Road. Para quem nunca comeu uma cozinha de Huaiyang fora da China, vale a parada.

Endereço útil: www.imperialtreasure.com

7. Sin Hoi Sai

Esse zi char de Singapura, literalmente “stir-fry”, é por trás de uma parada de ônibus na Tiong Bahru Road, com mesas dispondo de open walkway. Dá para sentar em uma mesa debaixo das estrelas ou em um espaço refrigerado de algumas portas para baixo. O caranguejo com pimenta é a estrela.

Endereço útil: www.sinhoisai.com

8. Fish Pool

Uma garrafa de champanhe e um bar de ostras encontradas no mesmo edifício do Madame Fan. Na época da publicação, é só para eventos particulares, mas “the mermaids” vai voltar, no entanto, uma vez que os tempos normais retornam, e assistir a uma champanhe Louis Roederer rodando enquanto se observa um par de sereias travessas é o que cada visitante de Singapura merece.

Endereço útil: www.thecoclub.com/fishpool

9. Islamic

Olhando à frente para sua centena em 2021, Islamic tem o melhor biryani de peixe da cidade. O fundador Abdul Rahman foi chefe principal da família Alsagoff, um grupo árabe rico do comércio de espécies e mar. A terceira geração está dentro. Fãs do biryani de peixe incluem presidentes, primeiros-ministros e membros da realeza da região. Esse cidadão comum aqui também surge no biryani. Sem álcool permitido, levem suas garrafas para casa, ou apreciem em silêncio com o fruto proibido em sucos.

Endereço útil: www.islamic.sg

10. Ah Orh Seafood

Ah Orh fica no térreo de um bloco de Habitação do Desenvolvimento (HDB) ou Housing Development Board (115 Jalan Bukit Merah). Mais de 80 por cento dos singapurenses e residentes vivem nesse tipo de moradia social. O restaurante carrega a herança de seu fundador, Goh Liang Chit, que veio do dialeto Teochew, ou Chaozhou da China, referindo-se aos seus pratos preto incomumente complexos para um paladar chinês. Pratos imperdíveis incluem o caju Sri Lanka, frio e laqueado. BYO sem taxa de rolha. Aberto das 11h às 14h e das 17h30 às 22h.

Endereço útil: www.ahorhseafood.sg

Como organizar a viagem em Singapura

Singapura é compacta. Faz diferença saber disso na hora do planejamento. Em três dias dá para passar pelos principais bairros e provar a essência da cidade, mas quem realmente gosta de explorar vai querer ficar de cinco a sete noites. Eu costumo recomendar pelo menos uma semana, principalmente se a ideia é alternar entre o fine dining e os hawker centers.

Distâncias e deslocamento

O MRT, sistema de metrô local, é rápido, limpo, climatizado, sinalizado em inglês e ridiculamente barato perto do padrão europeu ou norte-americano. Para distâncias maiores ou trajetos noturnos, Grab funciona muito bem. Táxis também são honestos. Esqueça a ideia de alugar carro, não faz sentido nessa cidade.

O calor é o calor

Não tem jeito. Quem viaja para Singapura precisa aceitar a realidade do clima. Algumas dicas práticas que aprendi com a prática:

CuidadoPor quê
Roupas levesAlgodão e linho resolvem boa parte
Hidratação constanteGarrafa de água sempre à mão
Intervalos no ACShoppings ajudam a recuperar
Programas externos no fim do diaSol da tarde castiga muito
Calçado confortávelVocê anda mais do que imagina

Melhor época

Singapura não tem propriamente estações, mas existem épocas mais e menos chuvosas. Os meses entre fevereiro e abril costumam ser um pouco menos úmidos. De novembro a janeiro chove muito, com pancadas fortes em fim de tarde. Não chega a impedir a viagem, mas vale o aviso.

Bairros que valem o passeio

Little India tem o tipo de energia que prende qualquer viajante curioso. Cores fortes, templos hindus, restaurantes baratos, mercados barulhentos. Chinatown carrega a herança chinesa do país, com templos taoístas e ruas dedicadas a doces tradicionais. Kampong Glam, o bairro malaio-muçulmano, talvez seja o mais fotogênico, com fachadas pintadas e cafés modernos misturados a lojas de tecido árabe. Tiong Bahru vem se renovando como bairro hipster, com cafés autorais, livrarias e o Sin Hoi Sai que mencionei acima.

Marina Bay, claro, é o cartão postal. O Gardens by the Bay e o famoso Marina Bay Sands compõem o cenário que virou símbolo da cidade. Vale ir, mas reserve apenas algumas horas. A alma de Singapura não está ali, está nos hawker centers e nos bairros antigos.

A cena dos bares e vinhos

A cena dos vinhos em Singapura cresce ano após ano. O custo final é alto, isso é um fato, mas a curadoria de algumas casas é tão refinada que vale o esforço de pelo menos uma noite mais cara durante a viagem. Whiskey Library é um achado para quem ama uísque, com aquele clima de biblioteca colonial. No Menu te coloca em contato direto com a uva Timorasso e com uma Itália que poucos esperam encontrar em Singapura. Bottles & Bottles funciona como uma parada esperta para quem está em conexão no Changi.

Para drinks, a cidade tem alguns dos melhores bares da Ásia, frequentemente premiados em listas internacionais. Um Singapore Sling no Long Bar do Raffles continua sendo programa obrigatório, mesmo sendo turístico. Faz parte da experiência.

Vale a pena ir?

Vale, com observações. Singapura não é destino barato e não é destino frio. Aceitar essas duas verdades faz toda a diferença. Aceitando isso, a cidade se torna uma das experiências gastronômicas mais ricas do mundo, com uma multiculturalidade que poucos lugares conseguem oferecer.

Em poucos dias você come cozinha cantonesa, malaia, indiana, peranakan, italiana de Piemonte, fine dining inglês, biryani de família centenária, chili crab à beira de calçada e roti prata de hawker. Tudo isso dentro de poucos quilômetros quadrados. E sai com a sensação de que ainda falta provar metade.

Singapura recompensa o viajante curioso. Recompensa quem prefere sentar num plástico vermelho de hawker tanto quanto numa mesa com toalha branca de fine dining. É essa amplitude que faz da cidade um destino especial. Para quem encara o calor e topa garimpar, dificilmente existe lugar mais interessante no sudeste asiático.

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