Guia do Turismo de Vinhos na Geórgia

Geórgia, o país do Cáucaso que está renascendo entre vinhos ancestrais, mosteiros nas montanhas e uma cozinha que conquista qualquer viajante curioso.

Fonte: Civitatis

Geórgia: o destino do Cáucaso que está conquistando os amantes de vinho e cultura

Quem chega à Geórgia pela primeira vez costuma sentir uma coisa estranha, quase contraditória. É um lugar completamente novo, com alfabeto próprio, paisagens dramáticas e tradições que pouca gente fora da região conhece. E ao mesmo tempo bate aquela sensação esquisita de já ter estado ali antes. De pertencer àquilo de alguma forma. Não é à toa que tantos viajantes, depois de poucos dias entre Tbilisi e os vilarejos do interior, dizem que sentiram que finalmente encontraram um lar.

A jornalista e fotógrafa Carla Capalbo, autora do premiado livro Tasting Georgia: A Food and Wine Journey in the Caucasus, descreveu essa sensação de forma marcante. Ela contou que três dos seus avós nasceram na Itália e emigraram para a América antes da Primeira Guerra Mundial, mas nunca esqueceram a infância italiana. A avó piemontesa falava de uma porca de estimação chamada Cleópatra, queijos feitos com leite das vacas da família, salsichas de porco curadas com lã de ovelha, vegetais e uvas cultivados para o vinho da casa. Aquela agricultura integrada, em que cada família produzia um pouco de tudo, desapareceu da Europa há mais de vinte décadas. As regras da União Europeia praticamente eliminaram esse tipo de vida rural. Mesmo em áreas onde a monocultura foi rejeitada, ficou inviável produzir um pouco de cada coisa.

Por isso a Geórgia mexe tanto com quem aprecia a vida mais lenta. Ali, esse mundo ainda existe.

Por que a Geórgia está no radar agora

O país está atravessando um período de redescoberta. Depois do colapso da União Soviética, que tentou impor uma visão padronizada de industrialização e apagar boa parte da herança cultural local, a Geórgia começou a olhar para si mesma com outros olhos. Hoje o foco está em recuperar o que sempre foi seu. O canto polifônico, as danças regionais, as receitas tradicionais, as uvas nativas. Tudo aquilo que parecia ameaçado voltou ao centro da conversa.

E essa é talvez a melhor hora para visitar. O turismo cresceu, claro, mas ainda não chegou ao ponto de descaracterizar o país. Famílias hospitaleiras começaram a abrir suas casas, oferecendo refeições, degustações de vinho e quartos para hóspedes. Vinícolas pequenas e artesanais, antes invisíveis, hoje recebem viajantes do mundo inteiro. É um momento raro, daqueles em que dá para sentir que algo está acontecendo bem na sua frente.

Tbilisi, a capital que mistura camadas

Tbilisi é linda. E é o tipo de cidade que recompensa quem caminha sem pressa. O centro histórico fica encostado no rio Mtkvari, com as casas de madeira pintadas, sacadas trabalhadas em ferro forjado, sofás velhos e poltronas espalhados pelas ruas, vacas cochilando em meio à correria, cachorros largados nas calçadas lamacentas. Pode parecer caótico, mas existe ali uma vontade clara de autodeterminação. Os animais têm dono, eles só foram soltos para passar o dia (uma escolha curiosa, diga-se de passagem). Talvez ainda falte um pouco para entender de verdade esse estilo de vida georgiano, mas a observação é genuína.

A cidade tem hotéis para todos os bolsos. Quem quer subir para a fortaleza Narikala pode usar o teleférico saindo do Parque da Paz, ao lado do palácio presidencial. Na rua principal, a Rustaveli Avenue, fica o Museu Nacional, que abriga peças antiquíssimas vindas de escavações arqueológicas e ótimos artefatos artísticos (www.museum.ge).

Para quem busca sabor local, a pequena cervejaria Salobie Bia, na rua Machabeli, é parada certa. Quem prefere ficar mais perto do coração da cidade pode optar pela Writer’s House, com seus jardins charmosos no estilo vila. Para um jantar diferente, vale conhecer o Vino Underground, onde o sistema de rolha resistente é dispensado em garrafa por garrafa, e onde os fãs de vinhos georgianos da família encontram seu pedaço do paraíso (Galaktion Tabidze Street).

Se o seu estilo é mochileiro, com orçamento apertado, o Black Tomato Hostel (veja Facebook) é divertido e tem ótima localização. Para algo um pouco mais sofisticado, mas ainda acessível, o Hotel Gomi 19 é bem acolhedor (hotelgomi19@gmail.com).

Nos últimos cinco anos surgiram restaurantes que mudaram a cena. O Stamba é um hotel-restaurante lindíssimo, instalado em uma antiga gráfica, irmão do badalado Rooms Hotels (www.stambahotel.com). O Alubali é um pátio relaxante, perfeito para uma bebida ou um lanche, aberto até tarde (Akhvlediani Street). Já o Wine Factory reúne vários bares e restaurantes em uma antiga fábrica convertida, incluindo a versão mais recente da escola de culinária e do café do chef Tekuna Gachechiladze (veja Facebook). Algumas ruas dali, na Saidanaa (@saidanaa_), Nathan Moss produz charcutaria de alta qualidade com porcos georgianos e está prestes a abrir um café para apresentar seus produtos (Sharadhidze Street). Combinam muito bem com os vinhos qvevri, aliás.

Kartli e a região baixa de Mtskheta Mtianeti

Essa parte central da Geórgia fica logo a oeste e um pouco ao norte de Tbilisi, e dá para conhecer num bate-volta. Para ver as 425 ou mais variedades de uva nativa do país, o Centro Científico de Pesquisa em Agricultura, em Saguramo, é parada obrigatória (www.srca.gov.ge). É um instituto vitícola impressionante, com uma coleção nacional que começou em 2009 e cobre mais de 44 hectares de videiras, dispostas em fileiras de quatro plantas cada. Você não vai provar os vinhos feitos com essas uvas, mas o passeio em si é fascinante, especialmente na época em que as uvas estão visíveis.

Outro nome forte por ali é Chardakhi, vilarejo onde mora o pioneiro Iago Bitarishvili, produtor de vinho qvevri (www.iago.ge). Ele e a esposa Marina Kurtanidze montaram um pequeno restaurante na casa, onde servem Chinuri local, que dá origem a um vinho artesanal de altíssima qualidade (chardakhi8@gmail.com).

Não passe por Mtskheta sem visitar a Catedral Svetitskhoveli, antiga capital do país e patrimônio mundial da Unesco. E logo na saída de Mtskheta, na rodovia, o Salobie é o queridinho georgiano de fast-food, com ensopados deliciosos com cornbread, kebabs e os famosos khinkali suculentos.

Imereti, no oeste

Imereti é uma região de pequenas colinas, fazendas e florestas. É também o berço de muitos pequenos produtores familiares de vinho, e quem trabalha com qvevri ali é praticamente uma produção em série em comparação com outras regiões. Em Maguturkesi, na estrada principal entre Khashuri e Kutaisi, Zaliko Bozhadze (qvevri.maqatubani@yahoo.com) é um mestre oleiro cujas ânforas estão entre as melhores do mundo. O estúdio e o grande forno ficam a poucos passos da casa dele.

Archil Guniava, no minúsculo vilarejo de Kvaliti, é um dos melhores enólogos da região, com uvas locais e um charme que só os pequenos produtores familiares conseguem oferecer (archiguniavawinecellar@gmail.com, ou veja Facebook). Não deixe de provar a adega, especialmente se for o seu primeiro contato com vinhos qvevri.

Mais perto do epicentro do vinho georgiano está Ramaz Nikoladze, o enfant terrible da cena. Ele faz alguns dos exemplares mais puros e complexos de qvevri feitos com uvas brancas ou âmbar (em georgiano, Tsolikouri). A esposa dele, Nestan, é uma cozinheira incrível também (georgianslowfood@yahoo.com). Kutaisi, a capital regional, tem um ótimo mercado coberto. Antes da pandemia, várias companhias aéreas operavam voos diretos da Europa para o aeroporto da cidade, e tomara que voltem em breve.

Samegrelo, no extremo oeste

A Samegrelo faz fronteira com o Mar Negro e tem um clima mais temperado e úmido do que o leste da Geórgia. Um dos lugares mais legais para comer e provar vinhos por ali é a Oda Family Marani, em Martvili, famosa pelas espetaculares cavernas no rio. A casa é tocada por Keto Ninidze e Zaza Gagua, casal que produz vinhos com caráter forte, feitos com variedades locais raras, como os leves Ojaleshi, Orbeluri e Dzelshavi (Gagua faz tudo sob a bandeira Vino M’artville em parceria com o amigo Nika Partsvania). Keto montou ainda uma área externa de cozinha rústica, com chão de terra batida e forno aberto, onde prepara muitos pratos tradicionais (keto.wines@gmail.com).

Se você estiver subindo ou descendo das terras altas de Svaneti, faça uma parada para almoçar em Zugdidi, no Diaroni (www.diaroni.ge). É um restaurante grande, popular, que serve cornbread local com queijo até pratos mais apimentados.

Guria e Adjara, no litoral

Ao sul da Samegrelo, essas regiões levam até o Mar Negro, no caminho para o pitoresco balneário de Batumi. A vegetação de cítricos e plantas exóticas ali é única no país. Até pouco tempo atrás, o chá era cultivado e exportado para toda a antiga União Soviética. Hoje os abacaxis são a aposta da vez, mas alguns produtores estão trabalhando para restabelecer as variedades de uvas nativas do litoral, especialmente a Chkhaveri. Zurab Topuridze, com a marca Iberieli, foi o primeiro a engarrafá-las, mas outros pequenos produtores estão seguindo o exemplo (www.iberieli.com).

O Chkhaveri produz um rosé super gostoso, leve e refrescante, que combina demais com os frutos do mar do litoral, especialmente com o nobre rodovalho do Mar Negro. Em Batumi, dá para comprar direto no mercado de peixes diariamente, e o peixe pode ser cozinhado logo ao lado, no pequeno restaurante Balagani Fish and Grill, na Gogebashvili Street (www.gobatumi.com). Outra especialidade local imperdível é o pão de ovo, em formato de barco, com queijo derretido por cima. Lembra um navio à deriva no prato.

Kakheti, o leste do vinho

Para mais lugares para visitar no leste da Geórgia e em Tbilisi, vale buscar a reportagem de viagem da Carla Capalbo na edição de junho de 2016 da Decanter, ou acessar Decanter.com (sobre Geórgia: restaurantes, hotéis e lojas).

Um pouco de geografia para entender o país

A Geórgia é encaixada entre a Rússia ao norte, a Turquia e a Armênia ao sul, o Azerbaijão a leste e o Mar Negro a oeste. As regiões mais conhecidas para o turismo de vinho e gastronomia são Samegrelo, Imereti, Racha, Kartli, Kakheti, Adjara e Guria. A capital Tbilisi fica relativamente ao centro-leste, próxima a Mtskheta, antiga capital religiosa. As cordilheiras do Grande Cáucaso ao norte e do Pequeno Cáucaso ao sul desenham boa parte da paisagem, e é por isso que viajar pelo país é também uma sucessão de cenários completamente diferentes uns dos outros.

RegiãoO que procurarEspecialidade
TbilisiBares de vinho, restaurantes contemporâneosCozinha autoral georgiana
KartliVinícolas pioneiras, centro de pesquisa de uvasChinuri
ImeretiPequenos produtores familiares, oleiros de qvevriTsolikouri
SamegreloVinhos raros, cozinha rústicaOjaleshi
Guria/AdjaraLitoral, frutos do mar, rosésChkhaveri
KakhetiA grande região do vinho georgianoSaperavi e Rkatsiteli

O ritmo lento como atrativo

Existe um detalhe que merece atenção. Em muitas dessas regiões, especialmente nas áreas rurais, ainda se pratica aquela agricultura mista que sumiu da Europa Ocidental. Pomares de frutas convivem com hortas, com algumas cabras ou vacas para uso doméstico. A maioria dos animais foi agrupada em galpões de criação intensiva mundo afora, mas na Geórgia ainda dá para encontrar essa autossuficiência. E quem viajou pela Sicília ou pelo Piemonte como eles eram décadas atrás encontra ali um eco emocionante. A agricultura autossustentável faz cada vez mais sentido, em qualquer canto do planeta.

Os vinhedos raramente aparecem isolados. Estão cercados de hortas, árvores frutíferas, videiras encostadas em muros e cercas. Os campos são pequenos, costumam ser margeados por bosques, cercas de pedra ou ferro forjado. Para quem cresceu ouvindo histórias de avós sobre uma vida assim, a Geórgia tem o efeito de uma máquina do tempo gentil.

Vinhos em qvevri, a alma do país

O vinho georgiano não é como o vinho que a maior parte do mundo conhece. A técnica do qvevri, ânfora gigantesca enterrada no chão, atravessa mais de oito mil anos de história. É a forma mais antiga documentada de vinificação no planeta. O suco da uva fermenta junto com as cascas, sementes e às vezes engaços, ganhando cor âmbar, textura encorpada e taninos firmes mesmo nos vinhos feitos com uvas brancas. Quem está acostumado com brancos leves pode estranhar no primeiro gole. Mas geralmente, no terceiro, já está apaixonado.

A produção em qvevri foi reconhecida pela Unesco como patrimônio cultural imaterial da humanidade, e isso ajudou a impulsionar o interesse internacional. Hoje, há produtores no mundo inteiro tentando reproduzir a técnica, mas a verdade é que nada se compara a beber um qvevri sentado à mesa de uma família georgiana, com khinkali fumegando ao lado e alguém entoando uma música polifônica logo na sala vizinha.

Quando ir

O fim da primavera e o começo do outono são as melhores épocas. Em maio e junho, as paisagens estão verdes e a temperatura é agradável. De setembro a outubro acontece a rtveli, a colheita das uvas, que é um acontecimento cultural enorme. Muitas famílias recebem visitantes para participar das vindimas, dos cantos, dos almoços longos. Se você gosta de vinho, agendar a viagem para essa época pode ser uma experiência transformadora.

O inverno também tem seus encantos, especialmente para quem quer esquiar em Gudauri ou Bakuriani, ou conhecer Svaneti coberta de neve. Já o verão pode ser quente no leste, mas o litoral do Mar Negro funciona como refresco.

Dicas práticas que fazem diferença

A maioria das pequenas vinícolas familiares pede agendamento antes da visita. Não é tudo que aparece de forma organizada em sites de reserva. Muita coisa funciona via Facebook, WhatsApp ou email direto com o produtor. Vale paciência e antecedência.

Alugar carro é uma boa ideia para quem quer explorar com liberdade, mas as estradas podem ser desafiadoras em algumas regiões mais remotas. Sinalização melhorou bastante, mas navegação por GPS ainda escorrega de vez em quando.

A hospitalidade georgiana, chamada de supra, não é encenação para turista. É uma instituição cultural genuína. Se você for convidado para uma mesa, vá. Aceite o brinde do tamada (o mestre dos brindes). Coma mais do que acha que cabe. É assim que se conhece a Geórgia de verdade, sentado à mesa com gente que considera o vinho parte de qualquer conversa importante.

Por que esse momento é especial

A Geórgia ainda guarda aquele equilíbrio raro entre tradição preservada e abertura para o mundo. Existem hotéis ótimos, restaurantes de alto nível, voos diretos para várias capitais europeias, vinhos exportados para os melhores endereços. E ao mesmo tempo, segue sendo possível dirigir uma hora para fora de Tbilisi e bater na porta de uma família que vai abrir o melhor qvevri da adega só para te receber.

Esse equilíbrio dura pouco em qualquer destino. Lugares assim são descobertos, depois adotados, depois transformados. A Geórgia ainda está naquele momento doce em que dá para sentir a redescoberta acontecendo, sem que o turismo de massa tenha tomado conta. Cantos polifônicos, danças regionais, receitas que atravessaram gerações, uvas que quase sumiram do mapa: tudo isso voltou para o centro da conversa, com energia.

Se você ama vinho, comida e cultura ancestral, é difícil pensar em destino mais oportuno agora. A Geórgia não é só uma viagem. É um daqueles lugares que ficam na memória como um lar que você não sabia que tinha.

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