Dicas Para um Turista Alugar um Carro na Itália

Quem planeja uma viagem à Itália e decide alugar um carro geralmente pensa nas estradas cênicas da Toscana, nas curvas da Costa Amalfitana, nos vilarejos medievais que o trem simplesmente não alcança. E essa visão está correta — o carro muda completamente a experiência de viajar pelo país. O problema é que a maioria dos turistas brasileiros chega sem entender as regras do jogo, e o resultado aparece semanas depois, na forma de multas debitadas no cartão de crédito sem explicação aparente.

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Não existe motivo para isso acontecer. Toda armadilha é evitável com informação. O que falta, quase sempre, é alguém explicar o assunto com clareza antes do embarque.


A Documentação Que Você Precisa Levar

Começa aqui o primeiro erro de muita gente. A Carteira Nacional de Habilitação brasileira, sozinha, não é suficiente para alugar carro na Itália. A legislação italiana exige que motoristas estrangeiros apresentem a Permissão Internacional para Dirigir (PID), também chamada de Permissão Internacional para Conduzir, emitida pelo DETRAN do seu estado.

A PID é um documento simples de obter, custa pouco, tem validade de um ano e precisa ser retirada pessoalmente no DETRAN antes de viajar. O processo é rápido — mas não pode ser deixado para a última hora. Leva a CNH original, uma foto 3×4 e o comprovante de pagamento da taxa.

Na locadora, você vai apresentar a CNH, a PID e o passaporte. Sempre os originais — cópias autenticadas não são aceitas. Algumas locadoras também pedem para ver o carimbo de entrada no Espaço Schengen, para confirmar que você não ultrapassou os 90 dias permitidos para turistas.

Um detalhe que muita gente ignora: a maioria das locadoras exige que o motorista tenha pelo menos 21 anos — algumas pedem 25 — e que a CNH tenha no mínimo um ano de emissão. Motoristas com menos de 25 anos frequentemente pagam uma taxa adicional chamada young driver fee. Confirme isso no momento da reserva para não ter surpresa no balcão.


O Cartão de Crédito É Tão Importante Quanto a CNH

Na Europa, e particularmente na Itália, o cartão de débito raramente é aceito para alugar carro. A locadora vai bloquear um valor de caução no seu cartão de crédito — que pode variar bastante, de algumas centenas a mais de mil euros, dependendo da categoria do veículo e da cobertura de seguro contratada. Esse valor fica retido até a devolução do carro em boas condições.

Por isso, chegue com o cartão de crédito com limite disponível suficiente. E atenção: o cartão precisa estar no nome do motorista principal. Cartão do cônjuge ou de familiar não serve.

Se você usa cartão de crédito internacional com anuidade zero ou cartões de viagem, verifique antes se eles oferecem cobertura de seguro para aluguel de veículos no exterior. Alguns oferecem, e isso pode te livrar de pagar pelo seguro da locadora — que é sempre mais caro.


Seguro: Onde Está o Dinheiro Perdido de Muita Viagem

O seguro é o capítulo mais confuso e mais importante do aluguel de carro na Itália. As locadoras trabalham com diferentes tipos de cobertura, e entender o que cada uma inclui pode fazer diferença de centenas de euros no custo final.

O seguro básico — geralmente chamado de CDW (Collision Damage Waiver) — cobre danos à lataria, mas quase sempre tem uma franquia: um valor que você paga do bolso em caso de sinistro antes de o seguro entrar. Essa franquia pode ser de 500, 800, 1.000 euros ou mais.

Existe uma opção chamada Full Coverage ou seguro de franquia zero, que elimina essa exposição financeira. Custa mais por dia, mas dá tranquilidade para dirigir sem ansiedade pelas estradas italianas, que têm ruelas estreitas, paredes de pedra antigas e situações que você simplesmente não encontra no Brasil.

Uma alternativa inteligente é contratar um seguro complementar por fora da locadora — existem empresas especializadas, como a iCarhireinsurance ou a própria cobertura de alguns cartões de crédito premium. Em geral, o custo é significativamente menor do que o que a locadora cobra.

Verifique também se o seguro cobre roubo do veículo, danos a pneus, para-brisas e espelhos — itens frequentemente excluídos dos pacotes básicos e que, na Itália, são riscos reais.


A ZTL: A Armadilha Mais Cara da Itália Para Turistas

Se existe um assunto onde o turista brasileiro mais se queima na Itália, é aqui. A ZTL — Zona a Traffico Limitato — é uma área de tráfego restrito presente em praticamente todos os centros históricos das cidades italianas. Florença, Roma, Siena, Bolonha, Milão, Pisa, Lucca — todas têm ZTL.

O funcionamento é simples e implacável: câmeras registram automaticamente a placa de todos os veículos que entram nas zonas restritas. Quem não tem autorização recebe uma multa em casa — ou melhor, a locadora recebe a notificação, repassa ao cliente com taxa administrativa incluída, e debita tudo no cartão de crédito semanas ou meses após a viagem.

O valor das multas varia por cidade, mas geralmente fica entre 80 e 350 euros por infração. Entrar numa ZTL sem perceber numa mesma tarde, passando pela mesma câmera na ida e na volta, pode gerar duas multas. Dependendo da cidade, existem múltiplos pontos de controle, e cada passagem é uma notificação separada.

O que torna isso especialmente traiçoeiro é que as ZTL não são sempre visualmente óbvias. Os sinais existem, mas são pequenos, em italiano, e você pode passar por eles sem perceber se estiver distraído com o GPS ou com a paisagem.

A regra prática é: nunca entre de carro nos centros históricos das cidades italianas. Estacione fora das muralhas ou num estacionamento público próximo e entre a pé. Nos centros menores e medievais da Toscana — Siena, San Gimignano, Montepulciano, Pienza — o centro histórico é praticamente todo ZTL. O acesso de carro é para moradores registrados.

Se o hotel onde você vai se hospedar fica dentro de uma ZTL, entre em contato antes da viagem para que eles cadastrem a sua placa junto à prefeitura local. Muitos hotéis fazem isso, mas você precisa avisar com antecedência e fornecer o número da placa do veículo alugado.


Pedágios: Como Funciona a Autostrada Italiana

A Itália tem uma malha de autoestradas — chamadas de autostrade — que são pagas, eficientes e bem sinalizadas. Os pedágios existem praticamente em todos os trajetos de longa distância, e o valor pode ser significativo dependendo da rota.

O pagamento funciona de duas formas. Nas cabines manuais ou automáticas, você paga com dinheiro ou cartão. Existe também o sistema Telepass, que é um transponder eletrônico que passa automaticamente pelas cancelas — equivalente ao nosso Sem Parar. Carros alugados normalmente já vêm com o Telepass instalado, e a locadora cobra pelo uso. Confirme isso no contrato antes de retirar o carro.

Se o carro não tiver Telepass, use sempre a faixa sinalizada para pagamento manual — faixa branca ou amarela. A faixa azul é exclusiva para Telepass, e entrar nela sem o dispositivo pode gerar cobranças automáticas que você recebe semanas depois.

O valor dos pedágios varia conforme a rota. O trecho de Milão a Florença, por exemplo, custa em torno de 20 a 25 euros. De Florença a Roma, algo similar. Não são valores absurdos, mas é bom incluí-los no orçamento da viagem.


Escolha do Carro: Menor é Melhor na Europa

Quem está acostumado com estradas brasileiras tende a preferir carros maiores. Na Itália, essa lógica se inverte completamente. As ruelas dos centros históricos, os estacionamentos dos vilarejos medievais, as estradas secundárias da Toscana — tudo foi construído para veículos pequenos. Um carro compacto, da categoria hatch, navega muito melhor nesses ambientes do que qualquer SUV ou sedan de porte médio.

Além disso, carros menores consomem menos combustível, têm pedágio mais barato em algumas categorias, e são mais fáceis de estacionar nas cidades. A menos que o grupo seja grande ou que haja muito volume de bagagem, opte pelo carro mais compacto disponível.

Outro detalhe: a maioria dos carros alugados na Europa tem câmbio manual. Se você só dirige automático, especifique isso na reserva e confirme novamente no balcão de retirada — porque carros automáticos são menos comuns e às vezes acabam nas locadoras, especialmente em alta temporada.


Onde e Como Reservar

A melhor decisão é reservar online com antecedência, antes de embarcar. Preços no balcão são sempre maiores do que preços feitos pela internet com dias ou semanas de antecedência. Sites comparadores como Rentalcars, DiscoverCars e AutoEurope permitem comparar várias locadoras simultaneamente e visualizar os custos totais de forma mais transparente.

As principais locadoras internacionais — Hertz, Avis, Europcar, Enterprise, Sixt — têm balcões nos principais aeroportos italianos. Para quem chega pelo aeroporto de Roma Fiumicino ou de Milão Malpensa e vai para a Toscana de carro, a retirada é direta.

Um ponto importante: se o roteiro prevê pegar o carro em uma cidade e devolver em outra — por exemplo, retirar em Florença e devolver em Roma — existe uma taxa de devolução em local diferente (one-way fee). Ela pode ser cara. Vale a pena calcular se compensa em comparação com outras opções de transporte.


Combustível e Regras de Devolução

Na Itália, a maioria dos carros alugados usa gasolina (benzina) ou diesel (gasolio). Os postos são identificados claramente, mas fique atento: abastecer com o combustível errado é um erro grave e caro — o motor pode ser danificado, e a responsabilidade financeira é do locatário.

A política de combustível precisa ser conferida no contrato. Existem basicamente duas modalidades: full to full — você recebe o tanque cheio e devolve cheio — ou full to empty — você recebe cheio e devolve como estiver, pagando uma taxa pelo combustível já no momento da retirada. A opção full to full é geralmente mais econômica. Encha o tanque num posto próximo ao local de devolução antes de entregar o carro.


Regras de Trânsito Que o Brasileiro Precisa Conhecer

Algumas regras do trânsito italiano causam estranheza para quem vem do Brasil. Algumas delas valem a atenção especial.

O limite de velocidade nas autoestradas é de 130 km/h em condições normais, reduzido para 110 km/h quando chove. Nas estradas estaduais, o limite é 90 km/h fora das cidades e 50 km/h dentro dos perímetros urbanos. As câmeras de velocidade são frequentes e eficientes.

O uso do celular ao volante é proibido e multado com valores altos. Usar fone de ouvido enquanto dirige também é irregular. A tolerância é baixa.

Nas cidades italianas, o sinal amarelo do semáforo significa que o vermelho está prestes a acender — diferente do Brasil, onde muitos motoristas ainda tentam cruzar. Na Itália, o amarelo é para parar, não para acelerar.

Há também as rotonde — as rotatórias, que são abundantes nas estradas toscanas e no interior do país. O veículo que já está dentro da rotatória tem preferência. Parece simples, mas causa confusão frequente.


Uma Última Coisa Antes de Pegar as Chaves

Antes de sair do estacionamento da locadora, faça uma vistoria completa do carro com um funcionário presente. Fotografe todos os arranhões, amassados e danos existentes — mesmo os pequenos, mesmo os que parecem insignificantes. Exija que tudo esteja documentado no contrato de retirada.

Essa etapa parece exagerada até o momento em que você devolve o carro e a locadora afirma que aquele risco na lateral não estava lá antes. Com fotos com data e hora registradas, essa conversa não vai longe.

Feito isso, pegue a estrada. A Itália, vista pelo para-brisa de um carro pequeno numa estrada secundária ao fim da tarde, com o sol dourado batendo nas colinas e ciprestes alinhados ao horizonte, é uma das experiências de viagem mais bonitas que existem. Vale cada detalhe burocrático que você precisou resolver para chegar até ali.

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