Como Chegar na Serra da Estrela Partindo do Porto

Quem mora no Porto ou passa pela cidade antes de visitar a Serra da Estrela tem uma vantagem considerável sobre quem parte de Lisboa: a distância é menor. São aproximadamente 190 quilômetros entre o centro do Porto e as primeiras cidades da serra, contra os quase 280 quilômetros de Lisboa. Isso muda o planejamento de forma prática — o bate e volta num único dia é mais viável, a margem de erro no horário é maior e a viagem em si, especialmente de carro, tem uma qualidade paisagística que começa bem antes de chegar à montanha.

Fonte: Get Your Guide

Mas distância menor não significa necessariamente simplicidade. A Serra da Estrela continua sendo um destino que pune quem vai sem carro e recompensa quem vai preparado. Há diferenças importantes entre partir do Porto e partir de Lisboa — na rota, nas opções de transporte, no acesso às diferentes entradas da serra — e entender essas diferenças é o que separa uma viagem bem aproveitada de uma tarde frustrante numa estrada de montanha sem saída.

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A rota de carro: o caminho mais direto e mais bonito

De todas as formas de chegar à Serra da Estrela saindo do Porto, o carro é, sem discussão, a que oferece mais liberdade, mais conforto e, em muitos trechos, mais beleza. A rota principal é pela A1 em direção sul até à altura de Aveiro, onde se pega a A25 em direção leste. É aqui que a viagem começa a mudar de caráter.

A A25, também chamada de Autoestrada das Beiras, corta o interior de Portugal em sentido horizontal, de Aveiro até a fronteira com Espanha passando pela Guarda. É uma estrada que merece atenção no mapa porque ela mesma é parte do passeio. A partir de Viseu, o terreno começa a subir. As serras aparecem ao fundo. A vegetação muda de textura. Quem vai de olhos abertos consegue sentir, ainda na autoestrada, que está entrando em outro ritmo de Portugal.

A distância total do Porto à Covilhã — a cidade de entrada mais usada pelo lado leste da serra — é de cerca de 190 quilômetros, com tempo médio de duas horas e meia, sem paradas. Para chegar à Guarda, que funciona como entrada pelo lado norte, são quilômetros similares, com um trajeto ligeiramente diferente pela A25.

Há essencialmente três entradas para a Serra da Estrela que fazem sentido para quem vem do Porto:

Pela Guarda, saindo da A25 na cidade homônima. É a entrada mais ao norte da serra e faz sentido para quem quer começar por Manteigas vindo do Porto, pois o acesso por esse lado encurta um pouco o caminho e ainda permite passar por Celorico da Beira, com seu castelo medieval e uma atmosfera de interior que poucos turistas aproveitam.

Pela Covilhã, continuando na A25 além da Guarda e depois descendo pela A23 até a saída para a cidade. Essa é a rota mais usada porque leva diretamente à porta de entrada leste da serra, com acesso fácil à Torre. O detalhe é que, vindo do Porto, essa rota é um pouco mais longa do que entrar pela Guarda.

Por Seia, que exige sair da A25 mais cedo e descer pelo interior em direção ao sul. É a entrada que faz mais sentido para quem quer começar o roteiro pelo lado sul da serra — Museu do Pão, Sabugueiro, Lagoa Comprida. A estrada entre a A25 e Seia atravessa uma paisagem de vinhedos e montanhas que, em si mesma, vale a atenção.

A A25 e o que ninguém avisa

A A25 tem pedágios. Ao longo do trecho do Porto até ao interior, há portagens eletrônicas que funcionam pelo sistema Via Verde. Quem aluga carro em Portugal, em geral, já sai com o equipamento instalado — o valor é debitado automaticamente. Quem vai com carro próprio brasileiro ou de outro país europeu sem Via Verde deve verificar a possibilidade de pagar nas casas de pagamento disponíveis em alguns pontos ou usar o serviço de pagamento online do sistema EASYtoll, disponível no site da Infraestruturas de Portugal.

A velocidade máxima na A25 varia entre 100 e 120 km/h conforme o trecho, e a estrada tem radar fixo em vários pontos. Não é uma estrada para testar limites.

No inverno, quando há neve intensa nas altitudes mais altas da serra, a A25 em si permanece normalmente transitável — o problema começa nas estradas secundárias que sobem da Guarda ou da Covilhã em direção ao cume. Nesses trechos, pneus de neve ou correntes podem ser exigidos, e a sinalização avisa antes da subida.


O autocarro: a opção low cost que funciona com limitações

Para quem não tem carro ou prefere não dirigir, o autocarro é a alternativa mais acessível de sair do Porto em direção à Serra da Estrela. A Rede Expressos opera linhas regulares do Terminal de Campanhã — a principal estação rodoviária do Porto — com destino à Covilhã. A duração da viagem é de aproximadamente três horas e quinze minutos a três horas e meia, dependendo das paradas.

A saída mais cedo é às 8h da manhã, chegando à Covilhã por volta das 11h15. Para quem quer fazer um bate e volta no mesmo dia, esse horário funciona razoavelmente — ainda há tempo de subir à Torre antes do movimento máximo da tarde.

Ao chegar à Covilhã, o passo seguinte é o Serra Shuttle da Covilhã Mobilidade, que faz o trajeto Covilhã–Torre todos os dias, com saída ao meio-dia. A passagem de ida e volta custa em torno de 12 euros. O shuttle passa por Penhas da Saúde, que é uma das aldeias de altitude com mais infraestrutura para visitantes no inverno.

A volta funciona pegando o shuttle às 16h na Torre, chegando à Covilhã por volta das 16h45. O autocarro de regresso ao Porto sai às 17h15 com chegada prevista às 21h45. É um horário apertado, mas viável se tudo correr dentro do planejado.

O problema da opção autocarro é o mesmo que existe em qualquer destino de natureza espalhado por 90 mil hectares: você chega a uma cidade, não à serra. A Torre é acessível pelo shuttle. Manteigas, o Covão d’Ametade, a Lagoa Comprida, Linhares da Beira, Belmonte — nada disso está no trajeto do shuttle e nada disso tem transporte público regular. Para quem quer ir além da Torre e das Penhas da Saúde, a solução é alugar um carro na Covilhã ou contratar um tour local a partir dali.


O comboio: a rota mais longa, mas com charme próprio

Os Comboios de Portugal conectam o Porto à Covilhã pela Linha da Beira Baixa, mas o trajeto não é direto. É necessário fazer baldeação — geralmente em Pampilhosa ou Coimbra, dependendo do horário escolhido. O tempo total de viagem fica em torno de quatro horas, às vezes mais, o que torna o comboio a opção mais lenta de todas.

Dito isso, quem gosta de viajar de comboio em Portugal sabe que a experiência vale por si mesma. A Linha da Beira Baixa atravessa uma paisagem de interior que poucos turistas conhecem, com vales que abrem e fecham, rios que aparecem ao lado dos trilhos e aldeias que somem no vidro da janela antes que você tenha tempo de lembrar o nome. É uma viagem que exige paciência mas recompensa quem a faz com atenção.

A partir da estação de São Bento ou da Campanhã no Porto, o comboio parte em direção sul até Coimbra ou Pampilhosa, onde se faz a baldeação para a linha que vai em direção à Covilhã. Os horários variam conforme o dia da semana — o site dos CP (www.cp.pt) tem o planejamento completo com as combinações disponíveis.

Ao chegar na Covilhã de comboio, a situação é idêntica à do autocarro: é preciso um transporte adicional para entrar na serra de verdade. O shuttle da Covilhã Mobilidade resolve para a Torre. Para o restante da região, carro alugado ou tour organizado.


Uma rota alternativa: a entrada pela Guarda

Quem vem do Porto tem uma vantagem geográfica que quem vem de Lisboa não tem: a possibilidade de entrar na Serra da Estrela pela Guarda, que fica diretamente na rota da A25. A Guarda é a cidade mais alta de Portugal — fica a mais de 1.000 metros de altitude — e tem uma catedral gótica que domina o skyline com uma firmeza medieval que contrasta com a leveza das serras ao redor.

A partir da Guarda, a distância até Manteigas é de pouco menos de 40 quilômetros por estradas secundárias que descem pelo lado norte da serra. O percurso atravessa Celorico da Beira — uma cidade discreta com um castelo de pedra bem preservado e uma atmosfera de interior que parece parada no tempo — e depois segue por uma estrada que vai fechando conforme o vale do Zêzere começa a se abrir abaixo.

Entrar pela Guarda faz particular sentido para quem quer incluir Linhares da Beira no roteiro. Essa aldeia histórica fica a poucos quilômetros de Celorico da Beira e é uma das mais bem preservadas da rede de Aldeias Históricas de Portugal. O castelo do século XII, as ruelas de granito e o silêncio do lugar são coisas que ficam na memória de um jeito que poucos monumentos mais famosos conseguem.

Para quem chega do Porto e tem dois ou mais dias pela frente, entrar pela Guarda e descer até Manteigas é, provavelmente, a forma mais rica de começar o roteiro.


A rota completa de carro — passo a passo

Para quem vai de carro do Porto à Serra da Estrela pela rota principal:

Saia do Porto pela A1 em direção sul, em direção a Aveiro. São cerca de 70 quilômetros de autoestrada boa, sem grandes surpresas.

Em Aveiro, entre na A25 em direção leste — a sinalização para a Autoestrada das Beiras é clara. A partir daqui, você começa a entrar no interior. A paisagem muda gradualmente: o litoral fica para trás, os relevos aumentam, o verde da vegetação assume uma tonalidade diferente.

Passe por Viseu — outra cidade do interior que merece uma parada se o roteiro permitir. Viseu tem um centro histórico muito bem preservado e uma gastronomia que faz jus à região das Beiras.

Continue pela A25 em direção leste. A serra vai aparecendo no horizonte à medida que você se aproxima da Guarda. Já dá para ver a altitude das montanhas a partir de uma distância considerável, especialmente em dias limpos de inverno, quando a neve cobre os cumes.

A partir daqui, há dois caminhos:

Se o destino é Manteigas ou o lado norte da serra, saia pela Guarda e siga pelas estradas regionais em direção a Celorico da Beira e depois a Manteigas. Total: cerca de 190–200 km, aproximadamente 2h30 do Porto.

Se o destino é a Covilhã ou a Torre pelo lado leste, continue na A25 até o entroncamento com a A23 e desça em direção à Covilhã. Total: cerca de 230 km, aproximadamente 2h45–3h do Porto.


Inverno versus outras estações: o que muda na viagem do Porto

Dezembro, janeiro e fevereiro são os meses em que a Serra da Estrela recebe o maior volume de visitantes — e, paradoxalmente, os meses em que chegar até lá exige mais preparação.

A A25 entre Aveiro e a Guarda raramente apresenta problemas de inverno. É uma autoestrada bem mantida, em altitude moderada, que funciona mesmo com chuva intensa. O problema começa quando você sai da autoestrada e começa a subir. As estradas da serra acima de 1.200 metros podem acumular neve e gelo em poucos minutos, e a sinalização avisa quando pneus de neve ou correntes são obrigatórios.

Quem vai do Porto no inverno deve verificar as condições das estradas antes de partir — o site infraestruturasdeportugal.pt e as câmaras municipais de Manteigas e Covilhã publicam atualizações em tempo real. Há fins de semana em que a estrada para a Torre fica completamente bloqueada por horas, com carros enfileirados por quilômetros. Sair do Porto ainda de madrugada — antes das 6h — é a estratégia que funciona melhor para evitar esse cenário.

No verão e na primavera, a viagem do Porto à serra é mais simples. As estradas estão totalmente livres, a visibilidade é boa, e a temperatura no cume contrasta de forma agradável com o calor do litoral norte. Em julho e agosto, enquanto o Porto pode estar com 35°C, a Torre costuma ter entre 10°C e 18°C, o que por si só já é motivo para fazer a viagem.


Vale combinar com outras paradas no caminho?

Uma das vantagens de sair do Porto de carro é que a rota pela A25 passa por cidades e paisagens que merecem atenção por conta própria. Viseu é a mais óbvia — tem um centro histórico muito bem preservado, uma Sé catedral de fachada barroca e restaurantes de carne que os portuenses conhecem bem. Uma parada de uma hora e meia em Viseu no caminho para a serra é perfeitamente encaixável num roteiro de dois ou mais dias.

Celorico da Beira é outra parada que poucos fazem mas que deviam. A cidade fica diretamente no caminho de quem entra pela Guarda, tem um castelo medieval numa colina que domina a paisagem e um mercado mensal de queijo da serra que, quando coincide com o dia da visita, é uma das experiências gastronômicas mais autênticas de todo o interior português.

Para quem tem quatro ou mais dias e sai do Porto com o objetivo de explorar a região a fundo, uma lógica possível é entrar pela Guarda no primeiro dia, descer até Manteigas, passar dois dias no coração da serra e sair pela Covilhã rumo ao Porto. Esse trajeto circular evita voltar pelo mesmo caminho e ainda mostra faces diferentes da serra que a maioria dos visitantes nunca vê.


O resumo prático

A viagem do Porto à Serra da Estrela é, em muitos aspectos, mais favorável do que a de Lisboa. A distância é menor, a rota pela A25 tem qualidade paisagística própria, a entrada pela Guarda adiciona dimensão histórica ao percurso e o tempo total de viagem — em torno de duas horas e meia — permite uma flexibilidade que a distância maior de Lisboa não oferece.

Para quem vai de autocarro, a partida no Terminal de Campanhã às 8h, chegada à Covilhã ao meio-dia e shuttle até à Torre é um bate e volta possível. Para quem vai de comboio, são quatro horas com baldeação e a mesma limitação de mobilidade ao chegar. Para quem vai de carro — alugado ou próprio — a A25 está esperando, a Guarda fica no caminho e Manteigas fica do outro lado da montanha, num vale que quem chega do Porto pelo norte encontra de uma forma que quem vem de Lisboa, pelo sul, nunca consegue.

É essa entrada pelo vale, com as paredes rochosas do Zêzere subindo dos dois lados e o rio lá embaixo, que justifica, por si só, a escolha da rota pelo norte.

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