Rota do Vinho e Gastronomia em Montreal

Montreal vai muito além do francês falado nas ruas e da arquitetura europeia: a cidade é hoje um dos polos gastronômicos mais ousados da América do Norte, com bistrôs premiados, bares de vinho natural e uma cena multicultural que mistura Haiti, Itália, Líbano e Quebec num só prato.

Fonte: Civitatis

Montreal pelo estômago: por que a maior cidade do Quebec virou destino obrigatório para quem ama comer e beber bem

Quem chega em Montreal pela primeira vez costuma se surpreender. A cidade tem aquele jeito europeu meio fora de lugar no mapa norte-americano, com placas em francês, padarias de esquina, gente sentada em terraços tomando vinho às quatro da tarde. Mas o que realmente prende o viajante, e isso vale dizer logo de cara, é a comida. Não é exagero afirmar que Montreal se tornou, nos últimos anos, um dos destinos gastronômicos mais interessantes de todo o continente.

A diversidade cultural da cidade tem muito a ver com isso. Influências de várias partes do mundo aterrissaram em Montreal e moldaram tanto o talento quanto a inventividade da cozinha local. O resultado é uma das cenas de restaurantes mais fortes do Canadá, com força suficiente para justificar mais de uma visita ao ano. Eu mesmo, se pudesse, voltaria umas duas vezes por ano só para acompanhar as novidades e revisitar os clássicos.

Chefs como Martin Picard, Marc de Canck, Normand Laprise, Marie-Fleur St-Pierre e Charles-Antoine Crête transformaram Montreal num dos endereços gastronômicos mais renomados do mundo. Não é frescura de revista especializada, é fato. A cidade respira essa cultura.

A poutine que ninguém deveria pular

Falar de Montreal e não falar de poutine seria meio injusto. A iguaria é uma espécie de meca para os fãs do prato: batatas fritas frescas cobertas com pedaços de queijo cheddar e o famoso gravy, aquele molho marrom que apareceu pela primeira vez nos anos 1950 no interior do Quebec. Hoje a poutine é amada no mundo inteiro, mas em Montreal ela ainda tem aquele sabor original, aquela coisa de prato que nasceu ali e nunca perdeu a identidade.

Quem nunca provou, precisa provar. Não tem meio termo. E se já provou em outros lugares, esqueça, prepare o paladar para uma versão diferente, mais autêntica, sem os exageros que viraram moda em food trucks por aí.

O boom dos vinhos naturais

Outra coisa que me chama atenção em Montreal é o quanto a cidade abraçou o movimento dos vinhos naturais. Em Nova York já existia certa curiosidade, claro, mas o entusiasmo dos sommeliers de Montreal é de outro nível. Eles foram precoces, ousados, abertos ao novo de um jeito que poucos lugares conseguiram acompanhar.

O grande responsável por boa parte desse movimento atende pelo nome de Le Salon VIP, uma agência de importação privada criada por Isabelle Legeron MW, com foco exclusivo em vinho natural. A edição de outubro, com mais de mil seleções do portfólio de cem produtores, virou referência. E em novembro acontece La Grande Dégustation de Montréal, o maior dos três grandes eventos do calendário do vinho na cidade.

Ainda em novembro, MTL à Table reúne alguns dos melhores restaurantes da cidade com menus de preço fixo, uma oportunidade que costuma agradar até quem normalmente não topa aventuras gastronômicas. Vale colocar na agenda. É o tipo de programa que faz a viagem render muito mais.

E tem mais. A SAQ, a rede estatal de varejo de álcool e vinho, opera lojas com seleções vastas vindas de inúmeras regiões, representando produtores de muitos países diferentes. Pouca cidade no mundo oferece esse leque de opções concentrado num só lugar. Para quem gosta de garimpar rótulos, é quase um esporte.

Onde comer em Montreal: dez endereços que valem a visita

Montagei aqui uma lista pessoal com lugares que considero indispensáveis. Não é ranking de melhor para pior, é mais uma divisão por momentos e ocasiões. Cada um tem seu charme.

1. Capsa

Como decidir se vai sair para um brunch ou tomar um drink antes do jantar quando o lugar oferece um copo de fino com a vista do seu prato? Capsa é de um chef quebequense com uma sommelier portuguesa, e a casa serve cozinha portuguesa com toque urbano e moderno. O resultado é delicioso e saboroso na medida.

Endereço útil: www.capsabox.com

2. Manitoba

O chef Simon Mathys ajuda os habitantes de Montreal a se reconectarem com a comida das Primeiras Nações canadenses. O prato principal vem preparado com foca, servido em um molho cremoso parecido com escabeche, como mandam as tradições das Primeiras Nações. É uma experiência intensa e curiosa, daquelas que ficam na memória depois da viagem.

Endereço útil: www.restaurantmanitoba.com

3. Taverne Square Dominion

Localizada no coração de Montreal desde 1927, a atmosfera dessa taverna é fancy e casual ao mesmo tempo. A carta de vinhos estendida puxa o melhor do borgonha e do bordeaux, com clássicos, alemães raros e quebequenses que harmonizam lindamente com a cozinha de bistrô francês. É um endereço para conhecedores.

Endereço útil: www.tavernedominion.com

4. Furco

Em uma atmosfera intimista perto da Place des Festivals, Furco recebe o cliente com um cardápio descomplicado mas pensado, pratos frescos, e uma cena perfeita para o primeiro copo de vinho do começo da noite. A carta tem descobertas como Xinomavro branco da Macedônia ou vinho laranja austríaco. Para quem curte sair do óbvio, é prato cheio.

Endereço útil: www.barfurco.com

5. Vinvinvin

Esse bar de vinho natural tem aquela atmosfera animada, perfeita para um happy hour com amigos provando rótulos de pequenos produtores. O cardápio inclui pratos pequenos de petiscos vegetais e opções de peixe, tudo combinando bem com a faísca e os vinhos brancos servidos. Quem gosta de vinhos alemães e austríacos sai feliz por encontrar uma vitrine tão dedicada a esses países.

Endereço útil: www.vinvinvin.ca

6. Moleskine

Facilmente uma das minhas escolhas de sexta à noite nos roteiros que costumo desenhar para Montreal. A melhor pizza da cidade, uma boa seleção de vinhos por taça, e a possibilidade de sentar no front do andar de cima de um restaurante de madeira ou subir para um ambiente mais fancy e semi-privado. Tem vinil tocando, então prepare os sapatos.

Endereço útil: www.moleskinerestaurant.com

7. Agrikol

Cozinha haitiana refinada para as noites frias de Montreal. A casa é de dois integrantes da banda Arcade Fire, e o restaurante oferece uma introdução à comida do Haiti dentro de uma atmosfera caribenha animada. A carta de vinhos é limitada, mas excêntrica. Vale provar um ti-punch, drink típico à base de rum.

Endereço útil: www.agrikol.ca

8. Le 409

A cozinha indiana é fácil de encontrar nos arredores de Montreal, mas raramente é oferecida em ambiência tão refinada e casual ao mesmo tempo. Localizado no antigo edifício da Northern Electric, este restaurante indiano é a escolha perfeita para um jantar antecipado antes de visitar um museu próximo. Os visitantes encontrarão deliciosa gastronomia indiana ao lado de uma ótima seleção de vinhos por taça.

Endereço útil: www.le409.ca

9. Moccione

Localizado na Rue Villeray, perto do Jarry Park, este restaurante italiano recentemente marcou seu primeiro aniversário, e já tem todo mundo falando. Os pratos clássicos transportam direto para o coração da Itália. O uso de ingredientes frescos e saborosos é o segredo do chef.

Endereço útil: www.moccione.com

10. Le Petit Alep

Nenhuma viagem a Montreal estaria completa sem uma volta pelo mercado ao ar livre mais popular da cidade, o Jean-Talon. Bem em frente ao mercado, o Le Petit Alep serve cozinha árabe ricamente temperada do Oriente Médio. Vale conversar com o sommelier, que tem competência e estórias para abrir um novo mundo de descobertas. É possível também visitar a impressiva adega subterrânea.

Endereço útil: www.petitalep.com

Como organizar a viagem para aproveitar tudo

Algumas observações práticas para quem está começando a planejar. Montreal é uma cidade que se caminha bem, mas as distâncias entre os bairros gastronômicos podem enganar. Se a ideia é jantar perto do Jarry Park e tomar um drink no centro depois, vale considerar o metrô ou um Uber. Não é Manhattan, mas também não é a vila do interior que muita gente imagina.

Melhor época para ir

Resumindo numa tabela simples:

PeríodoVantagemAtenção
Maio a JunhoClima ameno e terraços lotadosAlta demanda em bistrôs
Julho e AgostoFestivais e vida ao ar livreReservas difíceis
Setembro OutubroColheitas e início da temporada de vinhoNoites já frias
NovembroMTL à Table e La Grande DégustationFrio intenso começa
Dezembro a MarçoCidade enfeitada e cozyNeve pesada às vezes

A minha sugestão honesta é ir entre setembro e novembro se o foco for gastronomia e vinho. A cidade está em ritmo, os eventos acontecem, e o frio ainda não te obriga a correr de portaria em portaria.

Quantos dias ficar

Para conhecer bem a cena gastronômica, quatro noites já permitem fazer um bom recorte. Cinco ou seis é o ideal. Menos do que isso vira corrida, e Montreal merece um pouco mais de calma. Café da manhã num lugar, almoço noutro, café da tarde num bistrô francês, jantar num endereço autoral, drink no bar de vinho natural. O dia rende.

Reservas

Não dá para improvisar muito. Capsa, Manitoba, Moccione e Le Petit Alep costumam ter agenda apertada. Reserva com antecedência de duas a três semanas, principalmente para os fins de semana. Em novembro, durante o MTL à Table, planeje com pelo menos um mês de antecedência.

Bairros que valem o passeio

O Mile End é o coração descolado, com cafés, padarias e a famosa disputa entre os bagels de St-Viateur e Fairmount. Já o Plateau Mont-Royal é onde os bistrôs autorais se concentram, com aquela vibe de cidade francesa do norte. O Old Montreal puxa pela arquitetura colonial e pelos restaurantes mais clássicos. E o Little Italy abriga o Jean-Talon Market, parada obrigatória para quem ama um mercado de produtor.

Cada bairro tem seu ritmo. Caminhar sem pressa, entrar em padarias, sentar num banco de praça, deixar a tarde correr, esse é o tipo de programa que combina com a cidade. Não tente ver tudo em um dia. Montreal não funciona assim.

A cultura do vinho natural na prática

Vale dedicar mais um parágrafo a esse tema porque, para quem chega de fora, o movimento dos vinhos naturais pode parecer modismo. Não é. Montreal abraçou esses produtores quando a maioria das cidades grandes ainda olhava com desconfiança. Bares como Vinvinvin, Furco e Moleskine fizeram a base do movimento, e hoje é praticamente impossível andar pelo Plateau sem encontrar um endereço novo dedicado a esse tipo de garrafa.

O que isso muda na sua viagem? Muda a forma como você bebe. Em vez de pedir uma garrafa para acompanhar o jantar inteiro, faz mais sentido pedir taça por taça, conversar com o sommelier, experimentar vinhos de uvas que você nunca ouviu falar. Eu costumo dizer que o melhor jeito de descobrir um vinho novo é confiar no garçom de um bar de vinho natural em Montreal. Raramente decepciona.

Vale ou não vale a pena?

Vale, e muito. Montreal não é uma cidade que entrega tudo na primeira visita. É daqueles destinos que se revelam por camadas. Na primeira vez você vai pela poutine, pela arquitetura, pela ideia romântica de uma cidade francófona no Canadá. Na segunda você descobre o vinho natural, os bistrôs autorais, a cozinha haitiana, os mercados.

E aí, sem perceber, já está pensando na terceira viagem.

Para quem ama comer e beber bem, dificilmente existe um destino com melhor relação entre qualidade, diversidade e preço no continente americano. Os restaurantes não chegam a custar o que se paga em Nova York pelos mesmos pratos. A cena criativa é vibrante, os produtores locais são valorizados, e a cidade tem aquele jeito de quem não precisa provar nada para ninguém.

Montreal cozinha com identidade, bebe com curiosidade, e recebe com simplicidade. Não é todo destino que consegue ter as três coisas ao mesmo tempo.

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