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Road Trip Pelo Estado de Utah nos EUA

Roteiro de road trip por Utah com 7 paradas essenciais: Zion, Bryce Canyon, Capitol Reef, Arches, Canyonlands, Monument Valley e Bonneville Salt Flats, com distâncias, ingressos, melhor época e dicas práticas para dirigir no sudoeste americano.

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Road trip por Utah: o roteiro dos 7 cenários mais impressionantes do sudoeste americano

Existe um trecho de estrada em Utah, entre Torrey e Hanksville, em que você dirige por quase uma hora sem cruzar com outro carro. O rádio não pega. O celular perde sinal. E do lado de fora da janela a paisagem muda de cor a cada dez minutos, do vermelho tijolo ao cinza esverdeado, como se alguém estivesse trocando o filtro da câmera. É nesse tipo de momento que a ficha cai: Utah não é um destino de “ver atrações”. É um destino de atravessar.

O estado concentra cinco parques nacionais, o que rendeu o apelido de Mighty 5, criado pela própria agência de turismo local. Some a isso o Monument Valley, que fica na fronteira com o Arizona e é administrado pela Nação Navajo, e o Bonneville Salt Flats, no extremo oeste, e você tem sete cenários completamente diferentes dentro de um único roteiro de carro.

Vou destrinchar cada parada, com distâncias reais, custos, o que vale a pena e o que costuma decepcionar.

Por que road trip é praticamente a única forma de fazer isso

Não existe transporte público conectando esses parques. Nenhum. Não há trem, não há ônibus de linha decente, e os poucos tours saindo de Las Vegas ou Salt Lake City cobram caro para entregar pouco tempo em cada lugar.

A logística realista é: você voa para Las Vegas ou Salt Lake City, aluga um carro e roda. Las Vegas costuma ser mais barata em passagens e aluguel, e fica a cerca de 2h40 de Zion, que é o começo natural do circuito. Salt Lake City faz mais sentido se você quiser incluir o Bonneville Salt Flats no início, já que as salinas ficam a pouco mais de 1h30 da cidade, indo pela Interstate 80.

Sobre o carro: um sedã comum dá conta de tudo o que descrevo aqui. As estradas principais são asfaltadas e bem conservadas. Você só precisa de 4×4 se quiser encarar a Shafer Trail em Canyonlands, a White Rim Road ou as estradas de terra do Valley of the Gods. Alugar um SUV grande por vaidade é jogar dinheiro em combustível fora.

Uma coisa que muita gente ignora: o America the Beautiful Pass custa 80 dólares e dá acesso a todos os parques nacionais dos Estados Unidos por um ano. A entrada individual em Zion, Bryce, Capitol Reef, Arches e Canyonlands é de 20 a 35 dólares por veículo. Se você vai visitar três ou mais, o passe se paga sozinho. Monument Valley não está incluído, porque é parque tribal navajo e tem cobrança própria.

1. Zion National Park

Zion é o parque mais visitado de Utah e o segundo mais visitado dos Estados Unidos em algumas temporadas, com mais de 4,5 milhões de visitantes por ano. Isso significa duas coisas: é espetacular e é cheio.

O canyon principal tem paredes de arenito Navajo que sobem quase 800 metros a partir do rio Virgin. Você fica lá embaixo, olhando para cima, com o pescoço doendo. É o oposto do Grand Canyon, onde você olha de cima para baixo.

De março a novembro, a estrada do Zion Canyon é fechada para carros particulares. Você estaciona no visitor center ou na cidade de Springdale e usa o shuttle gratuito, que para em nove pontos ao longo do canyon. Parece limitante, mas na prática funciona bem, e evita o caos que seria com todos os carros lá dentro.

As trilhas que importam:

The Narrows é a caminhada dentro do rio, entre paredes que em alguns trechos têm menos de 10 metros de largura. A versão bottom-up, saindo do Temple of Sinawava, não precisa de permissão e você anda o quanto quiser antes de voltar. A água bate na canela, no joelho ou na cintura, depende da época. Alugue sapato de canyoneering e bastão em Springdale, custa em torno de 25 a 30 dólares o kit. E confira o fluxo do rio: acima de 150 pés cúbicos por segundo, os rangers fecham a trilha. Em época de chuva de monção, julho e agosto, existe risco real de flash flood.

Angels Landing é a trilha famosa das correntes, com o final numa crista estreita e queda de centenas de metros dos dois lados. Desde 2022, exige permissão obtida por loteria no recreation.gov, com sorteio sazonal e sorteio de última hora. Se você não tirou, não insista, os rangers checam.

Canyon Overlook é a alternativa inteligente. São cerca de 1,6 km ida e volta, uma hora tranquila, e a vista final abre para o Pine Creek Canyon com os switchbacks da estrada lá embaixo. Fica logo depois do túnel Zion-Mount Carmel, e o estacionamento é minúsculo, então vá cedo.

Onde ficar: Springdale é colado no parque e cara. Hurricane e La Verkin ficam 30 a 40 minutos e custam bem menos.

2. Bryce Canyon National Park

De Zion a Bryce são cerca de 115 km, entre 1h30 e 2h, pela rodovia 9 e depois a 89. O caminho passa pelo túnel de 1,7 km escavado nos anos 1920, e veículos muito largos ou altos precisam de escolta paga.

Bryce, tecnicamente, não é um cânion. É uma série de anfiteatros naturais escavados na borda do Paunsaugunt Plateau, cheios de hoodoos, aquelas colunas de rocha finas e alaranjadas. Elas se formam por um processo de congelamento e degelo que acontece cerca de duas centenas de vezes por ano ali, quebrando a rocha de dentro para fora.

O detalhe que pega muita gente de surpresa: Bryce fica alto. A borda varia de 2.400 a 2.700 metros de altitude, e o ponto mais alto do parque, Rainbow Point, passa de 2.700 metros. Isso quer dizer frio. Mesmo em junho, o amanhecer pode estar perto de zero grau. Em novembro já pode nevar, e neve sobre hoodoos laranja é uma das imagens mais bonitas do sudoeste americano.

Sunrise Point e Sunset Point são os mirantes clássicos, e os nomes enganam: os dois ficam virados para o leste, então o nascer do sol é bom em ambos. Entre eles corre o Rim Trail, plano e curto.

A trilha que eu recomendaria acima de todas é a combinação Navajo Loop com Queen’s Garden, cerca de 4,6 km em circuito. Você desce pelo Wall Street, um corredor estreitíssimo com pinheiros Douglas crescendo no fundo, caminha entre os hoodoos e sobe pelo Queen’s Garden, que é a subida mais suave. Fazer no sentido contrário é castigo desnecessário.

Se sobrar tempo, dirija até Rainbow Point e volte parando nos mirantes. São 29 km de estrada só de ida.

Bryce também é uma das melhores áreas de céu escuro dos Estados Unidos. Em noites sem lua, dá para ver a Via Láctea a olho nu com clareza absurda.

3. Capitol Reef National Park

De Bryce a Torrey, a cidade base de Capitol Reef, são cerca de 180 km e 2h15, pela Scenic Byway 12. Essa estrada, por si só, justifica o trajeto. Ela atravessa o Grand Staircase-Escalante, sobe o Boulder Mountain e passa pelo Hogback, um trecho com precipício dos dois lados da pista e sem guard rail. Dirija com atenção e pare nos mirantes, não no meio da faixa.

Capitol Reef é o parque menos visitado dos cinco e, na minha opinião, o mais subestimado. O centro dele é o Waterpocket Fold, uma dobra na crosta terrestre de quase 160 km de extensão, formada há dezenas de milhões de anos. É um degrau geológico gigante, e o parque inteiro se organiza em volta dele.

A parte mais charmosa é Fruita, um antigo assentamento mórmon fundado no fim do século 19. Os pomares plantados pelos colonos continuam vivos e são mantidos pelo National Park Service. Em época de colheita, você pode entrar, colher fruta e pagar por peso numa caixinha de honestidade. Damasco e cereja saem em junho, pêssego e pera em agosto, maçã em setembro. As datas variam com o clima, então confira no visitor center.

A Gifford House vende tortas caseiras de fruta em tamanho individual. Elas costumam acabar antes do meio-dia na alta temporada. É simples, é meio turístico, e ainda assim vale.

Trilhas boas: Hickman Bridge, 3 km ida e volta até um arco natural de 40 metros de vão, e Cassidy Arch, mais exigente, cerca de 5,4 km, onde você caminha por cima do arco. O nome vem de Butch Cassidy, que usava a região como esconderijo.

A Scenic Drive tem 12,8 km e é onde a taxa de entrada é efetivamente cobrada. Vale pela Capitol Gorge, um leito de rio seco onde ainda se lê o Pioneer Register, nomes gravados na rocha por viajantes do século 19.

4. Arches National Park

De Torrey a Moab são cerca de 235 km e 2h30, pela rodovia 24 e depois a Interstate 70. Passe em Goblin Valley State Park se tiver duas horas sobrando, é um vale de formações rochosas em forma de cogumelo que crianças adoram.

Arches tem mais de 2.000 arcos naturais catalogados, a maior concentração conhecida do planeta. O critério do parque é simples: precisa ter uma abertura de pelo menos 90 centímetros.

Atenção máxima aqui, porque isso muda o planejamento: entre o começo de abril e o fim de outubro, Arches opera com sistema de reserva de horário de entrada. Você precisa comprar um timed entry ticket no recreation.gov, com preço baixo, mas oferta limitada. As reservas abrem com meses de antecedência e há uma leva liberada na véspera, às 19h no horário local. Sem ele, você só entra antes das 7h ou depois das 16h, dependendo da janela vigente naquele ano. Confira o site oficial do parque antes de viajar, porque as regras foram ajustadas várias vezes desde 2022.

Delicate Arch é o símbolo do estado, aquele que aparece na placa dos carros de Utah. A trilha tem 4,8 km ida e volta, sem sombra, com uma subida longa em laje de arenito. Para o pôr do sol é lotada e vale cada minuto: a luz bate direto no arco e ele fica incandescente. Leve lanterna de cabeça para a volta.

Outros pontos: Landscape Arch, com 88 metros de vão, um dos maiores do mundo, alcançado por trilha fácil e plana no Devils Garden. Windows Section, onde três arcos gigantes ficam a poucos minutos de caminhada do estacionamento, ótimo para quem tem pouco tempo ou anda com dificuldade. E Balanced Rock, uma pedra de 3.500 toneladas equilibrada num pedestal fino, visível da estrada.

Moab é a base para Arches e Canyonlands. É uma cidade pequena e completamente voltada a turismo de aventura, com aluguel de bike, jipe, rafting no Colorado. Hospedagem lá é caríssima na alta temporada e esgota cedo.

5. Canyonlands National Park

Canyonlands fica a 40 minutos de Moab, mas só se você for para o distrito certo. O parque é dividido em quatro áreas separadas pelos rios Colorado e Green, e não há estrada ligando uma à outra dentro do parque.

Island in the Sky é o distrito que 80% dos visitantes escolhem, e com razão para quem tem pouco tempo. É um mesa alto, com mirantes que abrem para 300 metros de queda e um labirinto de cânions abaixo.

Mesa Arch é a trilha mais curta e mais fotografada: cerca de 800 metros em circuito. No nascer do sol, a luz reflete na parede de arenito abaixo do arco e acende a parte de baixo dele em laranja, com La Sal Mountains ao fundo. Chegue com pelo menos 40 minutos de antecedência porque tem fila de tripés, literalmente.

Grand View Point entrega a vista mais ampla do parque. Shafer Canyon Overlook mostra a estrada de terra descendo em zigue-zague pela parede, e ali dá para entender a escala do lugar.

The Needles é o segundo distrito, a cerca de 1h30 de Moab por outro acesso, e é para quem quer caminhadas longas e menos gente. The Maze é território de expedição, exige 4×4 sério e autossuficiência. Horseshoe Canyon guarda pinturas rupestres de milhares de anos.

Aproveitando que você está na região: Dead Horse Point State Park fica no caminho de Island in the Sky, custa 20 dólares por veículo e tem uma curva do rio Colorado que é, honestamente, uma das vistas mais bonitas de todo o roteiro.

6. Monument Valley Navajo Tribal Park

De Moab a Monument Valley são cerca de 240 km e 2h30, descendo pela rodovia 191 e depois a 163. O trecho final é aquele que aparece em Forrest Gump, com a estrada reta cortando o deserto e os buttes crescendo no horizonte. O ponto exato tem até nome informal, Forrest Gump Point, no marcador 13 da 163. Cuidado ao parar, é rodovia ativa e as pessoas fazem loucura para tirar foto.

Aqui não vale o passe dos parques nacionais. Monument Valley é administrado pela Nação Navajo e a entrada custa em torno de 8 dólares por pessoa, com política própria de horários. O parque já fechou por longos períodos durante a pandemia e mantém regras próprias, então confira antes.

O que você faz lá é rodar a Valley Drive, um circuito de 27 km em estrada de terra, com 11 mirantes numerados. Um carro comum consegue, mas é esburacado, empoeirado e lento. Reserve umas duas horas.

Vale muito contratar um guia navajo. Existem áreas do vale que só podem ser acessadas com acompanhamento, incluindo Mystery Valley e a Ear of the Wind. Além do acesso, você ouve a história do lugar por quem vive nele, e não pela versão de folheto. Os buttes têm nomes, significados e uma relação cultural que não aparece em nenhuma placa.

O hotel The View fica dentro do parque, com quartos virados para os Mittens. É caro e precisa reservar com meses de antecedência. Kayenta e Mexican Hat são alternativas mais em conta.

Detalhe importante: a Nação Navajo observa horário de verão, enquanto o resto do Arizona não. Se você estiver cruzando a fronteira estadual, seu celular pode mostrar horários conflitantes. Confirme o horário do tour com o operador.

7. Bonneville Salt Flats

Essa é a parada geograficamente fora de mão, e você precisa decidir se ela entra. As salinas ficam perto de Wendover, na fronteira com Nevada, a cerca de 1h50 de Salt Lake City pela Interstate 80. De Monument Valley até lá são mais de 700 km.

A solução prática é rearranjar o roteiro: comece ou termine em Salt Lake City e encaixe Bonneville como primeiro ou último dia.

O que é aquilo: o fundo seco do antigo Lago Bonneville, um lago pré-histórico que cobria boa parte do oeste de Utah e desapareceu há cerca de 13 mil anos. Sobrou uma crosta de sal de mais de 100 quilômetros quadrados, plana ao ponto de você conseguir ver a curvatura do horizonte sem obstáculo nenhum.

É lá que se quebram recordes de velocidade terrestre desde a década de 1910. A Bonneville Speed Week acontece normalmente em agosto e reúne carros caseiros e máquinas absurdas.

Depois de chuva, uma lâmina fina de água cobre o sal e transforma tudo em espelho. É a foto que você viu na internet. Só que essa mesma água amolece a crosta, e carro atolado em salina é problema sério, porque o sal corrói a parte de baixo do veículo. Fique na área de acesso público perto do rest stop da I-80, não avance para a superfície molhada, e lave o carro depois. Empresas de aluguel não gostam nem um pouco disso.

Leve óculos de sol escuros de verdade. O reflexo do sal branco é ofuscante e queima a pele por baixo, inclusive no rosto.

Distâncias e tempos reais

TrechoDistância aprox.Tempo de direção
Las Vegas a Zion260 km2h40
Zion a Bryce Canyon115 km1h30
Bryce a Torrey (Capitol Reef)180 km2h15
Capitol Reef a Moab235 km2h30
Moab a Canyonlands50 km40 min
Moab a Monument Valley240 km2h30
Salt Lake City a Bonneville190 km1h50

Os tempos são de direção pura, sem paradas. Na prática, some 50% por causa de mirantes, banheiro, fotos e almoço.

Melhor época para ir

PeríodoClimaObservação
Abril a maioAmeno, 15 a 25 °CMelhor equilíbrio, água alta em The Narrows
Junho a agosto35 a 40 °C nos parques baixosMonções em julho e agosto, risco de flash flood
Setembro a outubroAmeno, noites friasExcelente, menos gente, cores de outono
Novembro a marçoFrio, neve em BryceVazio e barato, algumas estradas fechadas

Abril e maio ou setembro e outubro são realmente as janelas certas. Julho em Moab passa dos 38 graus com facilidade, e trilha sem sombra nesse calor não é aventura, é imprudência.

O que eu faria diferente se fosse planejar hoje

Menos parques, mais dias. O erro clássico é tentar fazer os cinco parques em cinco dias, o que significa dirigir todo dia e passar duas horas em cada lugar. Se você tem uma semana, corte Capitol Reef ou Canyonlands e dê dois dias inteiros para Zion e dois para Moab.

Reserve hospedagem com muita antecedência. Springdale, Moab e Torrey têm oferta limitada e preços que dobram na alta temporada.

Leve mais água do que parece razoável. A recomendação dos parques é cerca de 4 litros por pessoa por dia em caminhada de verão. Não existe água nas trilhas.

E cheque o site oficial de cada parque na semana da viagem. Sistemas de reserva, fechamento de estradas e loteria de permissão mudam com frequência, e informação de blog velho já enganou muita gente.

O que fica dessa viagem não é a foto do Delicate Arch, que todo mundo tem. É a sensação estranha de estar num lugar onde a rocha conta 300 milhões de anos de história e você é um detalhe de passagem. Utah faz isso com quem chega.

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