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Roteiro a pé Para Descobrir Berlim na Alemanha

Roteiro a pé em Berlim: como atravessar a cidade em 4 dias passando por Portão de Brandemburgo, Ilha dos Museus, restos do Muro e bairros como Kreuzberg e Prenzlauer Berg, com distâncias reais e paradas para descansar.

Roteiro a pé em Berlim: como atravessar a cidade em 4 dias passando por Portão de Brandemburgo, Ilha dos Museus, restos do Muro

Berlim é uma cidade que se entende melhor com os pés no chão. Não é a mais bonita da Europa, não tem o charme automático de Paris nem a moldura de Praga. Mas tem camadas. E camadas só aparecem quando você caminha devagar, olha para o chão, percebe uma linha dupla de paralelepípedos cortando a rua e entende que ali, até 1989, existia um muro.

O problema é que Berlim é enorme. São quase 892 km² de área, oito vezes Paris em extensão territorial. Isso significa que “fazer Berlim a pé” não é caminhar de ponta a ponta. É caminhar por setores, usar o transporte público entre eles e aceitar que algumas regiões ficam para outra viagem.

Este roteiro divide a cidade em blocos que fazem sentido geográfico. Cada bloco rende um dia de caminhada de 6 a 10 km, ritmo tranquilo, com paradas.

Antes de calçar o tênis: o básico que muda a viagem

Transporte: o bilhete AB resolve 95% dos casos

Berlim é dividida em zonas tarifárias A, B e C. A zona A é o centro, a B vai até os limites urbanos e a C alcança Potsdam e o aeroporto de Brandemburgo (BER). Para caminhar pela cidade, o bilhete AB cobre tudo o que este roteiro precisa. Só compre ABC se for ao aeroporto ou a Potsdam.

O sistema é integrado: U-Bahn (metrô), S-Bahn (trens urbanos), tram, ônibus e alguns barcos, tudo sob a BVG. Não existem catracas na entrada das estações. O sistema funciona por confiança e por fiscais à paisana que aparecem sem aviso, pedem o bilhete e aplicam multa de 60 euros em quem não tem. Valide o bilhete de papel na máquina amarela antes de embarcar. No app BVG Muva ou no Jelbi, o bilhete digital já sai validado.

Se você vai andar muito e usar transporte só entre bairros, vale comparar o bilhete diário com o bilhete de 7 dias. A partir de quatro dias na cidade, o semanal normalmente sai na frente.

Sapato, clima e a questão do calçamento

Berlim tem muito paralelepípedo irregular, especialmente no lado leste. Tênis com solado grosso faz diferença real depois do terceiro dia. O clima é continental: invernos que ficam abaixo de zero com frequência e escurecem às 16h, verões que passam dos 30 °C em ondas de calor e amanhecem às 4h30. Maio, junho e setembro são os melhores meses para caminhar.

Chuva em Berlim raramente é torrencial. É aquela garoa insistente. Capa de chuva leve funciona melhor que guarda-chuva por causa do vento.

Banheiros, água e pausas

Berlim tem bebedouros públicos instalados pela Berliner Wasserbetriebe espalhados por praças e parques. Vale levar garrafa. Banheiros públicos costumam ser pagos, entre 50 centavos e 1 euro. Nos museus e nos shoppings, de graça.

E um detalhe prático: muito estabelecimento pequeno ainda prefere dinheiro. Cartão é aceito na maioria dos lugares grandes, mas ter 30 ou 40 euros em espécie evita situação chata em padaria, feira e banheiro de estação.

Dia 1: o eixo histórico, do Reichstag à Alexanderplatz

Este é o dia mais denso. São aproximadamente 6 km de caminhada efetiva, mas com tantas paradas que consome o dia inteiro.

Comece no Reichstag, mas resolva isso com antecedência

O prédio do Parlamento alemão tem uma cúpula de vidro projetada por Norman Foster, aberta ao público de graça. O detalhe é que a visita exige registro prévio no site oficial do Bundestag, com nome e documento, e os horários esgotam rápido em alta temporada. Duas ou três semanas de antecedência é o razoável. Se esqueceu, existe um centro de atendimento perto do prédio onde às vezes sobram vagas para os dias seguintes.

A cúpula abre até tarde da noite, e essa é a jogada mais inteligente: visitar no fim do dia, com a cidade iluminada, é bem melhor que ao meio-dia. Então, se conseguir, marque para a noite e comece o roteiro de manhã pela sequência abaixo.

A subida é uma rampa em espiral dupla. Você anda cerca de 230 metros em caracol enquanto vê o plenário lá embaixo, através do vidro. A ideia arquitetônica é literal: o povo fica acima dos políticos e pode olhar para dentro do parlamento. Funciona como símbolo e funciona como vista.

Portão de Brandemburgo: aceite que vai estar cheio

A cinco minutos a pé fica o Brandenburger Tor, concluído em 1791. Durante a divisão da cidade ele ficou na terra de ninguém, inacessível dos dois lados. Hoje é o ponto mais fotografado de Berlim e vive lotado, com pessoas fantasiadas cobrando por foto.

Dica: chegue antes das 9h ou vá depois das 21h. A luz é melhor e a praça respira. A Pariser Platz, do lado leste, tem a embaixada dos Estados Unidos, a francesa e o Hotel Adlon, aquele da sacada onde Michael Jackson segurou o filho em 2002.

Memorial aos Judeus Assassinados da Europa

Duas ruas ao sul, o campo de 2.711 blocos de concreto projetado por Peter Eisenman, inaugurado em 2005. Ocupa 19 mil m². Não há placas explicativas entre os blocos, não há nomes, não há indicação de caminho. Você entra, o terreno desce, os blocos crescem acima da sua cabeça e o som da cidade desaparece.

É um espaço que divide opiniões até hoje, inclusive dentro da Alemanha. Tem gente que acha abstrato demais. Tem gente que considera exatamente por isso a coisa mais forte da cidade. O fato é que quase ninguém sai de lá indiferente.

Embaixo, no subsolo, funciona o Ort der Information, centro de documentação gratuito com histórias individuais de famílias. É pequeno e devastador. Reserve uns 45 minutos e prepare-se emocionalmente. Se for com crianças, pense bem.

O estacionamento sobre o bunker de Hitler

Poucos minutos a leste, na esquina da In den Ministergärten com a Gertrud-Kolmar-Straße, existe um estacionamento residencial banal. Ali embaixo estava o Führerbunker, onde Hitler se matou em 30 de abril de 1945. O governo alemão nunca quis transformar aquilo em atração. Há apenas um painel informativo instalado em 2006.

É um anticlímax proposital, e talvez seja a decisão mais acertada da cidade em relação a esse passado.

Topografia do Terror: a parada que muita gente ignora

Caminhe pela Wilhelmstraße até a Niederkirchnerstraße. Ali ficava a sede da Gestapo e do SS-Reichssicherheitshauptamt. Os prédios foram destruídos e o terreno virou um centro de documentação ao ar livre e coberto, chamado Topographie des Terrors. Entrada gratuita.

Ao lado, sobrou um dos trechos mais longos do Muro de Berlim ainda de pé, com cerca de 200 metros, e as escavações das antigas celas de interrogatório.

Se você tem pouco tempo em Berlim e precisa escolher um único lugar para entender como a máquina nazista funcionava administrativamente, é este. A exposição mostra fotos de burocratas sorrindo em confraternizações, gente comum organizando o extermínio em planilhas. Impressiona mais que qualquer filme.

Checkpoint Charlie: vá, olhe e siga

Duas ruas adiante está o Checkpoint Charlie, antigo posto de fronteira entre o setor americano e o soviético. A guarita branca é uma réplica. O lugar hoje é cercado de lojinhas de souvenir, gente fantasiada de soldado e um McDonald’s.

Sendo direto: como experiência histórica é fraco. Como marco geográfico, faz sentido passar. O que salva a região é o museu Mauermuseum, denso e um pouco caótico, e a Black Box Kalter Krieg, bem mais organizada. Ambos pagos.

Gendarmenmarkt e a virada estética do dia

Voltando ao norte pela Friedrichstraße, você chega à Gendarmenmarkt, praça com duas catedrais quase gêmeas, a alemã e a francesa, e a Konzerthaus no meio. É uma das praças mais harmoniosas da Europa e mostra o outro lado de Berlim: o da Prússia elegante, e não o do século 20 traumático.

Nos últimos anos a praça passou por obras de reforma, então vale checar o estado antes de esperar o cenário perfeito. No fim de novembro e em dezembro, ela recebe um dos mercados de Natal mais bonitos da cidade, esse com entrada paga.

Unter den Linden, Bebelplatz e a biblioteca invisível

Pegue a Unter den Linden, avenida arborizada com tílias que dá nome à rua. Na Bebelplatz, olhe para o chão: existe uma placa de vidro no pavimento e, embaixo, uma sala branca com estantes vazias. É o memorial de Micha Ullman à queima de livros de 10 de maio de 1933, quando estudantes nazistas incineraram cerca de 20 mil obras naquele exato lugar.

As estantes cabem justamente esse número de livros. É um dos memoriais mais silenciosos e mais inteligentes que já vi descritos em qualquer cidade, e a maioria dos turistas passa em cima sem notar.

Ao lado ficam a Universidade Humboldt, a Ópera Estatal e a catedral católica de Santa Edviges.

Ilha dos Museus: o dilema do tempo

Seguindo para leste, a Unter den Linden cruza o rio Spree e chega à Museumsinsel, Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1999. São cinco museus: Pergamonmuseum, Neues Museum, Altes Museum, Alte Nationalgalerie e Bode-Museum.

Um aviso importante para quem planeja: o Pergamonmuseum está fechado para uma reforma estrutural de longa duração, com reabertura parcial prevista para os próximos anos. Confira a situação no site dos Staatliche Museen zu Berlin antes de contar com ele.

O Neues Museum guarda o busto de Nefertiti, com cerca de 3.300 anos, e vale por si só. A Alte Nationalgalerie tem pintura alemã do século 19, incluindo Friedrich e Menzel.

Se a ideia é um roteiro a pé, escolha um museu por dia, no máximo. Museu bom cansa mais que caminhada. Existe o Museumspass Berlin, válido por três dias consecutivos em cerca de 30 museus, que costuma valer a pena para quem vai entrar em três ou mais.

Berliner Dom, Lustgarten e a esquina do palácio que virou fórum

A catedral protestante Berliner Dom, com sua cúpula de 98 metros, permite subida até a galeria externa. São 270 degraus e a vista dá o eixo inteiro que você acabou de caminhar.

Em frente fica o Humboldt Forum, reconstrução da fachada do antigo Palácio Real da Prússia, inaugurada em 2021 no lugar onde ficava o Palast der Republik da Alemanha Oriental. Tem coleções etnológicas, um terraço com vista gratuita e uma discussão política enorme por trás: reconstruir um palácio imperial em cima de um prédio comunista demolido não foi decisão pacífica.

Alexanderplatz e a torre de TV

Fechando o dia, a Alexanderplatz. Feia, ventosa, com o Relógio Mundial e o prédio da Galeria Kaufhof. E a Fernsehturm, torre de TV de 368 metros erguida pela Alemanha Oriental entre 1965 e 1969, o ponto mais alto da Alemanha aberto ao público.

O plataforma de observação fica a 203 metros e há um restaurante giratório logo acima. Ingresso com horário marcado, comprado online, evita fila longa. A fila sem reserva em dias movimentados passa de uma hora.

Uma curiosidade que os berlinenses adoram contar: quando o sol bate na esfera de aço, o reflexo desenha uma cruz. O apelido é “a vingança do papa”, já que o regime ateu construiu, sem querer, um crucifixo gigante no céu de Berlim.

Dia 2: o Muro de verdade, do lado leste

Este é o dia em que Berlim para de ser turística e começa a ser entendida. Cerca de 8 km, mas divididos em dois blocos com transporte no meio.

Bernauer Straße: aqui o Muro é explicado, não fotografado

Comece de S-Bahn ou U-Bahn na estação Nordbahnhof. Ali funciona a Gedenkstätte Berliner Mauer, o memorial oficial do Muro, que se estende por 1,4 km ao longo da Bernauer Straße. Entrada gratuita.

O que existe aqui é o conjunto que não existe em nenhum outro lugar: um trecho preservado com os dois muros, a faixa de morte no meio, a torre de vigilância e as luzes. Você entende fisicamente que não era um muro só, era um sistema de 155 km ao redor de Berlim Ocidental, com cerca de 300 torres de observação.

A Bernauer Straße é onde as fotos mais famosas de 1961 foram tiradas, com pessoas se jogando das janelas de prédios cuja fachada era a fronteira. Os prédios foram demolidos. As marcas no chão indicam onde estavam as portas.

Do outro lado, na Capela da Reconciliação, o altar está sobre as ruínas de uma igreja dinamitada em 1985 porque incomodava a linha de tiro. Há um centro de visitantes com uma torre de observação que permite ver o desenho da faixa de morte de cima.

Reserve duas horas. É denso, mas é ao ar livre e você caminha o tempo inteiro.

Mauerpark, se for domingo

A poucos minutos a pé, o Mauerpark ocupa parte do antigo território do Muro. Nos domingos, acontece um mercado de pulgas grande e, no anfiteatro, o Bearpit Karaoke, um karaokê ao ar livre que reúne centenas de pessoas quando o tempo ajuda. Gratuito, improvisado, muito berlinense.

É também uma boa entrada para o bairro de Prenzlauer Berg.

Prenzlauer Berg: o leste que virou caro

Este bairro era decadente na época da RDA, virou território de artistas e ocupações nos anos 1990 e hoje é a área mais gentrificada da cidade, cheia de famílias, cafés de especialidade e aluguéis absurdos. A Kollwitzplatz tem feira de produtores nos sábados. A Kastanienallee é a rua de vitrines e brunch.

Vale procurar a Wasserturm, antiga caixa d’água convertida em moradia, que foi usada como prisão improvisada da SA em 1933. A cidade mistura essas coisas sem aviso.

East Side Gallery: 1,3 km de muro pintado

Pegue o transporte até a estação Warschauer Straße ou Ostbahnhof. Entre elas, ao longo da Mühlenstraße, fica o trecho mais longo do Muro ainda de pé: 1,3 km transformados em galeria a céu aberto em 1990, com 118 artistas de 21 países.

As duas obras mais conhecidas são o beijo entre Brejnev e Honecker, de Dmitri Vrubel, e o Trabant atravessando o concreto, de Birgit Kinder. Muitas pinturas foram restauradas em 2009 pelos próprios autores, porque a poluição e as pichações destruíram os originais.

Atenção: este lado pintado é o lado leste do muro. Durante a divisão, esse lado era inacessível à população, então toda a pintura é posterior à queda. Quem grafitava de verdade nos anos 1980 pintava o lado ocidental.

Oberbaumbrücke e a travessia para Kreuzberg

No fim da galeria está a Oberbaumbrücke, ponte de tijolos vermelhos de 1896 com dois níveis, um para carros e pedestres e outro para o metrô. Ela liga Friedrichshain a Kreuzberg e era posto de fronteira até 1989. A vista do Spree no fim da tarde é uma das melhores da cidade e não custa nada.

Kreuzberg: comida, imigração e vida noturna

Kreuzberg é o bairro de maior presença turca em Berlim, fruto da imigração de trabalhadores a partir dos anos 1960. Ali nasceu a versão berlinense do döner kebab servido em pão, que se tornou a comida de rua mais popular da Alemanha.

Ao redor da Kottbusser Tor você encontra o caos real da cidade. Na Maybachufer, às terças e sextas, acontece o Türkischer Markt, mercado ao longo do canal Landwehrkanal, com tecidos, especiarias, queijos e frutas a preços de gente que mora ali.

A Bergmannstraße, um pouco mais ao sul, é a versão mais calma e arborizada de Kreuzberg, com o mercado coberto Marheineke.

Dia 3: oeste, parque, Potsdamer Platz e Charlottenburg

Cerca de 9 km se você encarar o Tiergarten a pé de ponta a ponta.

Potsdamer Platz: a praça que foi apagada e refeita

Antes da guerra, este era um dos cruzamentos mais movimentados da Europa, com o primeiro semáforo da Alemanha, instalado em 1924, cuja réplica está lá. Depois de 1945, virou terra arrasada e depois faixa de morte do Muro. Ficou vazio por décadas.

Nos anos 1990 se tornou a maior obra da Europa, com projetos de Renzo Piano e Helmut Jahn. Hoje é uma praça de arranha-céus, cinemas e o Sony Center. Alguns segmentos do Muro estão expostos em pé, na calçada.

Opinião pessoal e não muito popular: Potsdamer Platz é corporativa e sem alma. Mas é uma aula sobre como uma cidade decide o que fazer com um vazio histórico. Vale meia hora, não mais.

Perto dali fica o Kulturforum, com a Gemäldegalerie, que tem uma coleção de pintura europeia antiga muito superior à fama que carrega, e a Neue Nationalgalerie de Mies van der Rohe, reaberta em 2021 depois de uma reforma conduzida por David Chipperfield.

Tiergarten: 210 hectares no meio da cidade

O Tiergarten era coutada de caça dos príncipes e hoje é o grande parque central de Berlim. Atravessá-lo de leste a oeste dá uns 3 km por caminhos de terra e asfalto, com lagos, pontes e áreas onde os berlinenses fazem churrasco no verão, em zonas sinalizadas.

No meio, na rotatória Großer Stern, está a Siegessäule, a Coluna da Vitória de 1873. São 285 degraus em espiral apertada até a plataforma, ingresso barato, e a vista aponta direto para o Portão de Brandemburgo pela Straße des 17. Juni. Quem viu Asas do Desejo, de Wim Wenders, reconhece o anjo no topo.

Dentro do parque, vale localizar o Memorial Soviético da Straße des 17. Juni e o memorial às vítimas homossexuais do nazismo, próximo à borda leste.

Kurfürstendamm e a igreja que ficou quebrada de propósito

Saindo do parque pela estação Zoologischer Garten, você entra no oeste comercial. A Kaiser-Wilhelm-Gedächtniskirche teve a torre destruída num bombardeio de 1943 e foi mantida em ruínas, com uma nova nave octogonal de vitrais azuis construída ao lado nos anos 1960. Entrada gratuita, e o interior azul é uma experiência sensorial forte em dias de sol.

O apelido berlinense para o conjunto é “o batom e a caixa de pó”. Diz muito sobre o humor da cidade.

Dali segue a Kurfürstendamm, a avenida de compras do lado ocidental, com 3,5 km. Um pouco adiante, na Tauentzienstraße, está a KaDeWe, maior loja de departamentos da Europa continental, aberta em 1907. O andar de alimentação, no sexto piso, vale a visita mesmo sem comprar nada.

Palácio de Charlottenburg, se o dia render

De U-Bahn ou ônibus até Richard-Wagner-Platz, chega-se ao Schloss Charlottenburg, o maior palácio de Berlim, construído a partir de 1699 para Sophie Charlotte. O jardim barroco atrás é gratuito e enorme, com o Mausoléu e o Belvedere. O interior é pago e costuma exigir horário.

Se cansar, fique só no jardim. É um dos melhores lugares da cidade para sentar e não fazer nada.

Dia 4: Berlim que os moradores usam

Aqui o roteiro solta a mão do circuito clássico.

Tempelhofer Feld: o aeroporto que virou parque

O antigo aeroporto de Tempelhof foi fechado em 2008 e transformado em parque público em 2010. São cerca de 300 hectares com as duas pistas de pouso intactas, usadas hoje por ciclistas, patinadores, gente com pipa e piquenique.

Tempelhof foi o centro da Ponte Aérea de Berlim, entre junho de 1948 e maio de 1949, quando aviões aliados fizeram mais de 275 mil vôos para abastecer a cidade bloqueada pela União Soviética. Os vôos pousavam a cada poucos minutos. O monumento em forma de garfo na Platz der Luftbrücke, com três hastes representando os corredores aéreos, é chamado pelos moradores de “o garfo da fome”.

Andar numa pista de aeroporto vazia, com horizonte plano e prédio dos anos 1930 ao fundo, é uma das sensações mais estranhas e boas que Berlim oferece. Gratuito. Em 2014, a população votou num referendo contra a construção de moradias no terreno, e o campo ficou como está.

Neukölln e a Klunkerkranich

Vizinho de Tempelhof, Neukölln é o bairro que assumiu o papel que Kreuzberg tinha há vinte anos. Bares pequenos, muita gente jovem, aluguel subindo. No topo do estacionamento do shopping Neukölln Arcaden funciona o bar Klunkerkranich, com jardim e vista aberta da cidade, um dos melhores lugares para o pôr do sol. Costuma cobrar uma entrada pequena e fecha em certos períodos do inverno.

Sachsenhausen, se você tiver um dia extra

Fora da cidade, a 35 km ao norte, em Oranienburg, está o antigo campo de concentração de Sachsenhausen, aberto em 1936 e usado pela SS também como centro de treinamento de comandantes. Entrada gratuita, audioguia pago. Chega-se em cerca de 45 minutos de S-Bahn linha S1 até Oranienburg, com bilhete ABC, e depois 20 minutos a pé ou ônibus.

É uma visita difícil e que consome um dia inteiro. Se você só tem quatro dias, a Topografia do Terror já cumpre parte da função. Se tem cinco ou mais, faça.

Comida durante a caminhada, sem cair em armadilha

Berlim é barata para padrões de Europa Ocidental, mas o centro turístico cobra caro por comida ruim. Algumas orientações práticas.

Currywurst é salsicha com ketchup curry e existe desde 1949, atribuída a Herta Heuwer. Barracas espalhadas por toda a cidade servem bem. Não precisa procurar a “melhor”, a diferença é pequena.

Döner de Kreuzberg e Neukölln custa em torno de 6 a 8 euros hoje e alimenta como refeição. As filas grandes da internet nem sempre valem a espera.

Padarias alemãs são o melhor café da manhã e o mais barato. Brötchen com queijo, laugenstange, café. Alguns euros resolvem.

Em restaurantes, água não vem de graça e não se serve de jarra. Pede-se com gás ou sem. Gorjeta é de 5 a 10%, entregue em mão ao pagar, dizendo o valor total, e não deixada na mesa.

Muitos cafés não aceitam cartão. Já mencionei, mas repito porque é o erro mais comum de brasileiro em Berlim.

Quantos dias, na prática

Quatro dias cheios cobrem o eixo histórico, o Muro no lado leste, o oeste com Tiergarten e um dia de bairros. Cinco ou seis permitem Sachsenhausen, Potsdam com o Palácio de Sanssouci e dois museus com calma em vez de um.

Três dias dá, mas corta Charlottenburg e provavelmente Tempelhof.

Menos de três é escolher entre o passado nazista e o passado da Guerra Fria. Se for o caso, minha sugestão é ficar com o segundo, porque é mais visível na paisagem e a cidade o explica melhor.

Uma última observação sobre a cidade

Berlim não tenta agradar. Tem obras eternas, grafite em quase tudo, gente mal-humorada no balcão e um jeito seco de responder que assusta quem vem do Brasil. Não é grosseria, é economia de palavras.

Em troca, ela oferece algo raro: uma cidade que decidiu não esconder as próprias piores partes. Os memoriais não são bonitos por acaso, são incômodos por decisão. As Stolpersteine, aquelas pequenas placas douradas de latão no chão em frente a prédios, marcam onde moraram pessoas deportadas e mortas. Existem mais de 100 mil delas na Europa, e milhares em Berlim. Você tropeça nelas sem procurar, o que é exatamente o objetivo do artista Gunter Demnig.

Caminhar por Berlim é isso: uma rua normal, um mercado, um bar, e de repente o chão te conta algo que você não estava pronto para ler. Nenhum ônibus turístico entrega essa sensação. Só o pé no paralelepípedo.

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