Navegação Pelo Parque Nacional Los Glaciares

O Parque Nacional Los Glaciares guarda muito mais do que o Perito Moreno — e quem se aventura pelo Lago Argentino de barco descobre que estava vendo apenas a capa de um livro imenso.

Foto de Jan Zakelj: https://www.pexels.com/pt-br/foto/clima-frio-com-frio-geleira-9224587/

Existe um momento específico que pouquíssimas pessoas descrevem quando falam do Parque Nacional Los Glaciares. Não é o estrondo do gelo caindo. Não é o azul absurdo do Perito Moreno. É aquele instante em que o catamarã dobra um canal, a névoa abre levemente, e de repente aparece diante de você uma parede de gelo com 135 metros de altura emergindo do lago — quase o dobro do Cristo Redentor — e você percebe, num silêncio súbito, que o Perito Moreno era só o começo.

O Parque Nacional Los Glaciares tem 47 glaciares. Quarenta e sete. O Perito Moreno, apesar de toda a sua fama justíssima, é apenas o mais acessível. Os outros existem, e são igualmente imponentes, cada um com uma personalidade própria. Para conhecê-los de verdade, é preciso entrar no lago.


O parque que poucos conhecem por inteiro

Declarado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO em 1981, o parque ocupa cerca de 726 mil hectares na província de Santa Cruz, no sul da Argentina, se estendendo por aproximadamente 170 quilômetros de norte a sul ao longo da fronteira com o Chile. É dividido em dois setores principais, com características e atrações completamente distintas.

O setor sul é o mais visitado. É de lá, usando El Calafate como base, que se acessa o Perito Moreno e se embarca para as navegações pelo Lago Argentino. Esse é o setor dos glaciares — o Upsala, o Spegazzini, o Seco, o Heim, o Peineta, entre outros. Cada um deles faz parte de uma rede de gelo que desce do Campo de Hielo Patagónico Sur, a terceira maior reserva de gelo continental do planeta.

O setor norte, acessado a partir de El Chaltén — um vilarejo a cerca de três horas de El Calafate pela Ruta 40 —, é um mundo completamente diferente. Ali o gelo dá lugar às montanhas de granito, às florestas de lenga e às trilhas que chegam ao pé do Monte Fitz Roy e do Cerro Torre. É a capital do trekking na Argentina, um destino que virou referência mundial entre quem gosta de caminhar em paisagens radicais.

Falar do parque sem falar dessas duas realidades é contar metade da história.


Lago Argentino: a rota dos glaciares que poucos fazem

O Lago Argentino é o maior lago de água doce da Argentina. Tem uma superfície de aproximadamente 1.466 km² e uma profundidade que chega a 500 metros em alguns pontos. Seus braços se estendem por dentro do parque, alcançando a borda de glaciares que seriam praticamente inacessíveis por terra.

É aí que entra a navegação.

Existem diferentes opções de passeio de barco saindo de El Calafate e do Porto de Punta Bandera, localizado a 47 quilômetros da cidade. O mais simples é o Safari Náutico, que faz um circuito de cerca de uma hora ao redor da frente do Perito Moreno, dentro do próprio braço sul do lago. É rápido, visualmente impactante e dá para encaixar no mesmo dia das passarelas.

A experiência mais completa, porém, é outra.


O Todo Glaciares: um dia inteiro no gelo

O passeio chamado Todo Glaciares — operado pela empresa Solo Patagonia e por outras agências locais — é o roteiro mais abrangente disponível no parque. A duração é de cerca de 9 horas e, no caminho, você passa por cinco glaciares diferentes antes de desembarcar em frente ao Spegazzini.

O barco sai de Punta Bandera cedo, geralmente às 9h, e navega pelo Braço Norte do Lago Argentino. O trajeto passa pela Boca del Diablo — uma passagem entre rochas onde o vento costuma ser forte e o lago pode ficar agitado — e entra no Canal Upsala.

É aqui que a paisagem muda de escala.


O Glaciar Upsala: o gigante esquecido

O Glaciar Upsala tem 765 km² de extensão. Para colocar em perspectiva: o Perito Moreno, que já parece imenso, tem 250 km². O Upsala é três vezes maior. É um dos maiores glaciares da América do Sul.

E está desaparecendo.

O Upsala entrou em retrocesso acelerado décadas atrás, muito antes do Perito Moreno mostrar sinais de recuo. Hoje, ele já recuou tanto que o barco não consegue mais se aproximar diretamente da sua frente — o canal está tomado por icebergs desprendidos, pedaços de gelo que flutuam à deriva em tamanhos que vão de um carro até um prédio de cinco andares.

Navegar pelo Canal Upsala é atravessar um labirinto de gelo. O barco reduz a velocidade, muda de rota para contornar os blocos, e você percebe que aquele campo azul e branco ao redor é, literalmente, o Upsala se fragmentando. É bonito e inquietante ao mesmo tempo. Há algo de melancolia genuína nessa paisagem — você sabe que está vendo o que resta de algo que estava intacto há menos de um século.

O guia geralmente para o motor em algum ponto do canal. Silêncio quase total, só o rangido do gelo ao redor. Alguns blocos viram quando você menos espera, criando pequenas ondas. É um dos momentos mais estranhos e bonitos que a Patagônia pode oferecer.


O Glaciar Spegazzini: o mais alto do parque

Depois do Upsala, o barco navega pelo Canal Spegazzini, passando por outros glaciares menores — o Seco, o Heim Sur, o Peineta — que aparecem nas encostas das montanhas como cascatas de gelo congeladas no tempo.

E então aparece o Spegazzini.

Com 135 metros de altura acima do nível do lago, ele é o glaciar mais elevado do Parque Nacional Los Glaciares. Quando o barco se aproxima, a escala é desorientadora. A parede de gelo sobe verticalmente do lago e some nas nuvens, com tons que vão do branco opaco ao azul quase elétrico nas fissuras mais profundas.

Em dezembro de 2024, foi inaugurado o Mirante Alberto de Agostini — batizado em homenagem ao geógrafo italiano que explorou essa região no começo do século XX —, uma estrutura de passarelas que permite observar o Spegazzini do alto, de um ângulo que antes só era possível de barco. O mirante fica na Base Spegazzini, onde os passeios fazem o desembarque.

O desembarque é parte importante da experiência. Da Base Spegazzini é possível caminhar por uma trilha interpretativa curta — cerca de 300 a 600 metros, de baixa dificuldade — entre a floresta andino-patagônica, com vistas para o glaciar em diferentes ângulos. Há um refúgio com restaurante no local, com janelões panorâmicos voltados para o Spegazzini e opções de gastronomia patagônica. Comer cordeiro ou truta com aquela parede de gelo na frente é, admitidamente, uma das experiências mais absurdas e deliciosas que o sul da Argentina oferece.


O Glaciares Gourmet: quando o passeio vira experiência gastronômica

Para quem quer ir além, existe o Glaciares Gourmet, uma versão do passeio de navegação que inclui refeição servida a bordo — com almoço completo, bebidas e sobremesa — enquanto o barco navega entre os glaciares. A rota é ainda mais abrangente: passa pelo Upsala, pelo Spegazzini, e ainda inclui uma aproximação ao Perito Moreno pelo lago, além de uma caminhada na floresta patagônica no Canal Spegazzini.

Não é o passeio mais barato. Mas é difícil imaginar cenário mais improvável e memorável para um almoço: vinho argentino, comida quente e uma parede de gelo de 70 metros do lado de fora da janela.

Algumas versões desse passeio podem ser combinadas com a visita às passarelas do Perito Moreno no mesmo dia, tornando possível ver o glaciar dos dois ângulos — de cima, nas plataformas, e de baixo, pelo lago — numa sequência que muda completamente a percepção de escala.


El Chaltén e o setor norte: outro planeta, mesmo parque

A três horas de estrada de El Calafate, pela Ruta 40, o cenário muda completamente. El Chaltén é um vilarejo pequeno que existe basicamente por causa do trekking. E as trilhas que saem dali são, para muita gente, o melhor que a Patagônia tem a oferecer.

A mais famosa é a Laguna de los Tres, que termina com o Monte Fitz Roy refletido em uma lagoa de água gelada a quase 1.200 metros de altitude. O trajeto tem cerca de 22 quilômetros de ida e volta, com ganho de elevação significativo no trecho final. Não é para qualquer nível de preparo físico, mas quem consegue chegar ao topo costuma dizer que é uma das vistas mais impactantes da vida.

Há alternativas mais acessíveis, como a trilha até a Laguna Torre, que passa por uma floresta de lengas e termina com a vista do Cerro Torre — uma agulha de granito que parece impossível, literalmente vertical, coroada de gelo no topo. Ou os mirantes Los Cóndores e Las Águilas, trilhas curtas com vistas panorâmicas do vilarejo e do Lago Viedma, ideais para quem tem menos tempo ou energia.

O que distingue El Chaltén de El Calafate não é só a paisagem. É o ritmo. El Calafate tem a infraestrutura de um destino turístico estabelecido — hotéis, restaurantes, agências, movimento. El Chaltén ainda tem alguma coisa de vila de aventureiros: trilhas gratuitas (o parque não cobra ingresso pelo setor norte), hostels aconchegantes, cervejarias artesanais que abrem cedo porque os trilheiros chegam famintos de manhã.

Vale pelo menos um dia ali, de preferência dois.


Como organizar o roteiro sem desperdiçar dias

A Patagônia exige uma lógica de roteiro que nem todo destino exige. O vento muda, as nuvens fecham, os passeios dependem do clima. Não é incomum que alguém planeje o minitrekking para uma segunda-feira e acorde com vento de 100 km/h que suspende tudo.

A orientação prática é sempre reservar os passeios mais sensíveis ao clima — trekking no gelo, navegação longa — para os primeiros dias da estadia. Você tem mais dias de reserva para remanejar se precisar. Deixar para o último dia o que você mais quer fazer é um risco desnecessário.

Para quem passa quatro noites em El Calafate, um roteiro razoável seria: primeiro dia nas passarelas do Perito Moreno, segundo dia na navegação Todo Glaciares ou Ríos de Hielo, terceiro dia em El Chaltén (bate-volta ou pernoite lá), quarto dia livre para minitrekking ou repetição do que mais gostou.

Para quem tem mais tempo, pernoitar em El Chaltén faz toda a diferença. O Fitz Roy ao amanhecer, com a luz rosada batendo no granito, é uma daquelas imagens que não cabem em câmera nenhuma.


Uma observação sobre o tempo e a urgência

O Parque Nacional Los Glaciares está mudando. O Upsala recuou décadas antes dos alertas mais recentes. O Perito Moreno, que parecia imune, começou a mostrar sinais de retrocesso desde 2018 e perdeu 80 hectares em apenas 97 dias entre novembro de 2025 e fevereiro de 2026, segundo o monitoramento oficial do parque.

Não existe prazo estabelecido. Não há como dizer com precisão o que esses glaciares parecerão daqui a vinte anos. Mas o ritmo está se acelerando, e os cientistas que monitoram o Campo de Hielo Patagónico Sul não estão tranquilos.

Isso não é argumento de venda. É fato documentado por pesquisadores de universidades japonesas e argentinas, publicado em revistas científicas, confirmado pelo próprio Parque Nacional. A natureza que existe ali hoje, nessa configuração, nesse tamanho, não é garantida para sempre.


O parque como experiência total

O que torna o Parque Nacional Los Glaciares diferente de quase qualquer outro destino natural é a variedade dentro de um mesmo território. Você pode passar um dia inteiro em silêncio numa passarela assistindo o gelo se desprender. Outro dia navegando entre icebergs do tamanho de casas. Outro caminhando por floresta patagônica até o pé de uma montanha que parece saída de um livro de fantasia.

Não é um destino de passagem. Não é o tipo de lugar que você resolve em dois dias e risca da lista. É o tipo de lugar que as pessoas visitam, voltam para casa pensando, e começam a planejar a próxima visita antes de desfazer a mala.

E isso, no fundo, é o que define uma viagem que valeu a pena.

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