Dicas Para Conhecer o Glaciar Perito Moreno na Argentina
Visitar o Glaciar Perito Moreno exige planejamento real, não só encantamento — e quem chega sem se preparar perde muito do que esse lugar tem a oferecer.

A Patagônia argentina não é o tipo de destino que você improvisa. Não porque seja complicada — pelo contrário, o Perito Moreno é um dos glaciares mais acessíveis do mundo, o que é quase uma ironia dada a magnitude do lugar. Mas porque cada detalhe que você decide antes de embarcar muda substancialmente a qualidade da experiência. A cidade base, os passeios escolhidos, a época do ano, até o que você coloca na mochila naquele dia específico. Tudo isso pesa.
Então vamos por partes. O tipo de orientação que faz diferença de verdade.
El Calafate: a porta de entrada
Toda viagem ao Perito Moreno começa em El Calafate, uma cidade pequena na província de Santa Cruz, no sul da Argentina. É dali que saem todos os transfers, tours e carros alugados com destino ao Parque Nacional Los Glaciares. O glaciar fica a cerca de 80 quilômetros do centro da cidade — uma hora e meia de estrada, mais ou menos.
El Calafate tem aeroporto próprio, o Aeroporto Internacional Comandante Armando Tola (FTE). Os voos regulares chegam principalmente de Buenos Aires (Aeroparque Jorge Newbery ou Ezeiza), com duração de aproximadamente 3 horas. Companhias como Aerolíneas Argentinas e JetSMART operam essa rota com frequência razoável na temporada.
Do Brasil, não existe voo direto para El Calafate. O caminho mais comum é voar até Buenos Aires e pegar a conexão de lá. Dependendo da cidade de origem no Brasil, às vezes vale checar também conexões via Santiago do Chile, que eventualmente saem mais baratas ou com horários melhores.
Uma alternativa que vale considerar para quem quer explorar mais a Patagônia: voar até Bariloche ou Puerto Madryn e seguir de ônibus para El Calafate. O trajeto é longo — pode chegar a 20 horas —, mas a paisagem da Ruta 40 justifica para quem tem tempo e temperamento para isso.
Quantos dias reservar
A resposta mais honesta: mínimo quatro pernoites em El Calafate para aproveitar o destino sem pressa. Descontando chegada e saída, você tem três dias úteis. E os dias aqui costumam ser cheios.
Um dia inteiro nas passarelas do Perito Moreno. Um dia para navegação no Lago Argentino (a excursão Ríos de Hielo, que leva a outros glaciares como o Upsala e o Spegazzini). E um dia para o minitrekking sobre o gelo, se você for fazer.
Se der para adicionar um quarto dia de atividades, vale muito o bate-volta até El Chaltén, a cerca de três horas de estrada. Lá fica o Parque Nacional Los Glaciares na parte norte, com as trilhas ao Monte Fitz Roy e ao Cerro Torre. É outra paisagem completamente diferente, mas igualmente impressionante.
Como chegar ao glaciar saindo de El Calafate
Há basicamente três formas:
Tour organizado — é a opção mais comum e, para a maioria das pessoas, a mais prática. Diversas agências em El Calafate oferecem excursões diárias que incluem transfer do hotel ao parque e guia bilíngue. O ônibus sai geralmente às 9h, chega ao parque por volta das 10h30 e retorna no fim da tarde. Você tem horas nas passarelas, com tempo suficiente para comer alguma coisa no restaurante do parque.
Carro alugado — para quem prefere autonomia. A estrada é asfaltada e bem sinalizada, sem dificuldades técnicas. Você chega na hora que quiser, fica o tempo que precisar e volta no seu ritmo. O aluguel é feito em El Calafate; vale comparar preços com antecedência, especialmente na temporada alta, quando a procura sobe muito.
Ônibus público (El Calafate Glaciar Bus) — existe uma linha regular que faz o trajeto, com horários limitados. É a opção mais econômica, mas é preciso verificar os horários atualizados porque eles mudam conforme a temporada.
Uma dica que faz diferença: chegue cedo ao parque. Os ônibus de tour costumam desembarcar todos mais ou menos na mesma hora, e as passarelas ficam cheias no meio da manhã. Quem chega antes das 10h tem uma experiência bem mais tranquila — menos gente nas plataformas, mais silêncio para ouvir o gelo.
As passarelas: o que esperar
O sistema de passarelas e mirantes do parque tem quase 3 quilômetros de extensão total, distribuídos em diferentes níveis com perspectivas variadas do glaciar. Não é preciso ser um atleta para percorrer tudo — a maioria dos percursos é em rampa, acessível inclusive para cadeirantes, e há elevador em alguns trechos.
O que surpreende muita gente é a escala do que se vê. Mesmo quem já viu fotos fica sem referência quando está na passarela e percebe que aquele “detalhe” lá em cima da parede de gelo tem 70 metros de altura. É maior do que parece nas imagens, sempre.
E o som. Esse aspecto nenhuma foto transmite. O glaciar range, estala, emite barulhos contínuos de baixa frequência que parecem vir de dentro da terra. Às vezes é um rangido suave, às vezes um estrondo que faz todo mundo virar para o mesmo ponto ao mesmo tempo. Os desprendimentos menores — pedaços de gelo que se soltam e caem no lago — acontecem com frequência ao longo do dia. Quem fica em silêncio e observa com paciência costuma flagrar pelo menos um.
Guarde bateria no celular ou câmera para esse momento. Parece óbvio, mas num dia longo de passeio é fácil chegar ao fim da tarde com memória cheia e bateria no último suspiro.
O minitrekking: caminhar sobre o gelo
Esse é o passeio que divide opiniões — mas a maioria que faz não se arrepende.
O minitrekking começa com uma navegação pela face sul do glaciar, atravessando o lago de barco. Depois uma caminhada curta até a borda do gelo, onde um guia coloca os crampons nos seus sapatos (aqueles ganchos metálicos que fixam no gelo). E então você caminha pelo glaciar por cerca de uma hora, percorrendo aproximadamente 3 quilômetros sobre a superfície.
A duração total, contando deslocamentos, navegação e caminhada, é de cerca de 5 horas. O nível de dificuldade é moderado. Não é necessária experiência prévia em montanhismo — os guias ensinam como usar os crampons e como caminhar no gelo antes de começar.
O que torna o minitrekking diferente é a perspectiva. Das passarelas você olha para o glaciar. No minitrekking você está dentro dele. As rachaduras, o azul do gelo de perto, os sons que vêm de baixo dos seus pés — é uma experiência sensorial completamente diferente de observar de longe.
Para quem quiser ir além, existe o Big Ice, versão mais longa e exigente, com cerca de 4 horas sobre o gelo, chegando a partes menos exploradas do glaciar. Esse exige condicionamento físico um pouco melhor e reserva com bastante antecedência, já que as vagas são limitadas.
O passeio de barco
A navegação pelo Lago Argentino merece atenção especial. Há diferentes opções: o Safari Náutico, que é um passeio curto de aproximadamente uma hora ao redor da frente do glaciar, saindo do Porto Bajo Las Sombras dentro do próprio parque. E as navegações mais longas, como a Ríos de Hielo Express, que leva a outros glaciares e dura o dia inteiro.
Ver o Perito Moreno do barco é uma experiência distinta das passarelas. Do lago, a escala fica ainda mais absurda. Você flutua ao lado de blocos de gelo que se desprenderam e percebe que eles têm o tamanho de casas. A parede de gelo vista de baixo, da superfície do lago, impressiona de um jeito diferente — mais intimidador, talvez.
O Safari Náutico pode ser combinado com o minitrekking no mesmo dia, já que faz parte do percurso antes de chegar à borda do gelo.
Melhor época para visitar
O parque funciona o ano inteiro, mas a temporada alta vai de novembro a março — o verão austral. Dias mais longos, temperaturas menos extremas (variando entre 5°C e 20°C dependendo do dia), mais operações de tour disponíveis e maior movimentação geral.
É também nesse período que os desprendimentos de gelo tendem a ser mais frequentes, porque o calor acelera o processo natural de calving. Isso atrai mais gente, claro. El Calafate na temporada alta fica bastante movimentada, os hotéis esgotam com antecedência e as filas no parque podem ser longas.
O inverno (junho a setembro) tem um charme diferente. Menos turistas, preços de hospedagem menores, atmosfera mais solitária e dramática. O frio é sério — temperaturas abaixo de zero são normais e o vento patagônico amplifica tudo. Mas algumas pessoas preferem exatamente isso: o glaciar quase para si.
A primavera (outubro a novembro) e o início do outono (março a abril) costumam ser o meio-termo ideal: clima razoável, movimento menor do que no pico do verão e preços mais equilibrados.
O que levar no dia da visita
A Patagônia tem um clima imprevisível e particular. Pode começar o dia ensolarado, virar frio, vento e chuva em questão de horas — e voltar ao sol antes do almoço. Preparar-se para isso não é exagero, é o básico.
Camadas são a chave. Um casaco impermeável por cima, uma segunda camada de lã ou fleece por baixo. Cachecol e luvas, mesmo no verão, porque o vento no lago pode ser cortante. Chapéu ou boné, porque quando o sol aparece, reflete no gelo e pega forte.
Calçado confortável para caminhada é fundamental. Para o minitrekking especificamente, recomenda-se calçados com sola firme — os crampons são colocados por cima, mas uma sola muito lisa ou borracha muito mole dificulta a fixação.
Água e algum lanche. Há um restaurante e lanchonete dentro do parque, mas os preços são salgados (é literalmente o único lugar para comer por ali). Uma garrafa d’água e algo para comer enquanto espera nas passarelas faz diferença no conforto do dia.
Câmera ou celular com bateria cheia e cartão de memória com espaço disponível. Isso também parece óbvio até você perceber que usou metade da bateria tirando fotos da estrada.
Hospedagem em El Calafate
A cidade tem uma oferta razoável de hospedagem, desde hostels simples até hotéis mais confortáveis. A região central, próxima à Avenida del Libertador San Martín — a rua principal —, concentra a maioria dos restaurantes, agências e serviços. Ficar nessa área facilita a logística: você acorda, reserva o tour no dia, come bem e sai.
Para quem prefere mais tranquilidade, há pousadas menores nas margens do Lago Argentino, com vistas bonitas. A distância do centro é pequena, mas vale checar se o local oferece transfer ou se você terá carro.
Reservar hospedagem com antecedência na temporada alta (dezembro a fevereiro) é quase obrigatório. El Calafate não é enorme e a procura supera a oferta nos meses de pico. Quem deixa para comprar chegando pode encontrar poucas opções ou preços muito acima do que pagaria com reserva prévia.
Uma nota sobre o momento atual
Quem planeja ir ao Perito Moreno nos próximos meses encontrará o glaciar em um momento historicamente relevante — e não apenas pelo espetáculo visual. Como foi documentado por cientistas argentinos e japoneses em estudos recentes, e confirmado pelo monitoramento do Parque Nacional Los Glaciares entre novembro de 2025 e fevereiro de 2026, o glaciar está passando por um processo de recuo inédito nos registros recentes.
Isso não significa que o que você vai ver seja decepcionante. O Perito Moreno ainda é imenso, ainda impressiona, ainda solta blocos de gelo com aquele barulho de trovão que paralisa tudo. Mas significa que o espetáculo que existe hoje não é eterno — e os fenômenos mais raros, como a ruptura completa que cria uma barragem natural no lago, podem se tornar cada vez menos frequentes.
Há algo de urgência genuína nisso. Não o tipo de urgência artificial que os guias de viagem às vezes fabricam para vender tour. O tipo que os cientistas documentam e publicam em revistas especializadas. Quem puder ir, que vá logo.
Sobre o ingresso
O ingresso para o Parque Nacional Los Glaciares é cobrado na entrada e os valores são diferenciados para residentes argentinos e estrangeiros. Em 2024 foram vendidos mais de 706 mil ingressos no parque — uma demanda que cresce a cada ano. O ingresso não inclui os passeios adicionais como minitrekking ou navegação, que têm valores próprios.
Os preços em pesos argentinos mudam com frequência dado o contexto econômico do país. A recomendação é sempre verificar os valores atualizados no site oficial do Parque Nacional Los Glaciares ou diretamente com agências locais antes da viagem, para não ter surpresas no planejamento financeiro.
O que se pode dizer com segurança é que, comparado a outros destinos naturais do mesmo nível de impacto, o Perito Moreno ainda é acessível. Não é uma viagem barata no geral — os voos e a hospedagem em El Calafate pesam —, mas o parque em si, com tudo o que oferece, entrega muito mais do que cobra.