O que são as Galerias Pacífico em Buenos Aires?

As Galerias Pacífico são muito mais do que um shopping em Buenos Aires: é um edifício histórico declarado Monumento Nacional, com afrescos pintados por alguns dos maiores muralistas argentinos do século XX, localizado no coração da Calle Florida. Um lugar onde arquitetura, arte e compras se misturam num mesmo endereço, e que vale a visita mesmo para quem não pretende gastar um peso.

Foto de Matias: https://www.pexels.com/pt-br/foto/28702527/

Deixa eu te explicar por que esse lugar é tão especial, porque muita gente passa na porta achando que é só mais um centro comercial e perde o que tem de mais bonito.

Onde ficam e como chegar

As Galerias Pacífico ocupam um quarteirão inteiro no Microcentro porteño, entre as ruas Florida, Córdoba, San Martín e Viamonte. O endereço oficial é Calle Florida, 737, bem no pedaço mais movimentado da rua de pedestres mais famosa da cidade.

Chegar é fácil. A estação de metrô mais próxima é a San Martín (Linha C), a poucos passos da entrada principal. A Linha B, na estação Florida, também deixa você a uma caminhada curta. Se vier a pé de Plaza de Mayo, são uns quinze minutos pela Calle Florida, passando por lojas, cambistas gritando “cambio, cambio” e artistas de rua fazendo tango no meio da calçada.

Um prédio com quase 130 anos de história

A história do edifício começa em 1889. A ideia original era construir em Buenos Aires uma réplica do Bon Marché de Paris, aquele grande armazém parisiense que tinha revolucionado o conceito de loja de departamentos na Europa. Os arquitetos responsáveis pelo projeto foram Emilio Agrelo e Roland Le Vacher, e o estilo escolhido foi claramente inspirado na arquitetura francesa da época.

O projeto inicial, porém, não deu certo como loja. A crise econômica de 1890 atrapalhou tudo, e o prédio acabou sendo dividido e ocupado por outros usos ao longo das décadas seguintes. Parte dele virou sede da Ferrovia Buenos Aires ao Pacífico, o que acabou dando nome ao lugar: Pacífico, em referência à empresa ferroviária.

Só em 1992, depois de uma reforma grande, o edifício foi reinaugurado como o centro comercial que conhecemos hoje. Em 1989, aliás, foi declarado Monumento Histórico Nacional da Argentina, o que garante sua preservação.

A cúpula pintada: o grande motivo da visita

Se tem uma coisa que eu diria para qualquer pessoa que passa por Buenos Aires é: entre nas Galerias Pacífico, ande até o centro, e olhe para cima. A cúpula central do edifício é uma obra de arte literal.

Em 1945 e 1946, cinco dos mais importantes muralistas argentinos da época foram chamados para pintar os afrescos da cúpula. São eles:

  • Antonio Berni
  • Juan Carlos Castagnino
  • Manuel Colmeiro Guimarás
  • Lino Enea Spilimbergo
  • Demetrio Urruchúa

Esses nomes, para quem não é da área, talvez não digam muita coisa. Mas no contexto da arte argentina do século XX, é como se alguém juntasse Portinari, Di Cavalcanti e mais três gigantes para pintar juntos um mesmo teto. Cada um fez sua parte, e o conjunto trata de temas como o trabalho, a fraternidade, o amor, a família e a condição humana.

A estética é de inspiração no muralismo mexicano, com influência clara de Diego Rivera e Siqueiros, mas com um jeito argentino próprio. Os corpos são robustos, as cores são terrosas, as cenas têm um peso social evidente.

Nos anos 1990, durante a reforma que transformou o prédio em shopping, esses murais passaram por um processo cuidadoso de restauração. Hoje ficam iluminados, visíveis de vários ângulos das galerias internas, e são o principal cartão-postal artístico do lugar.

Como funciona o shopping hoje

Deixando a parte histórica de lado por um momento, é importante dizer: sim, as Galerias Pacífico são um shopping funcional, com lojas, praça de alimentação e serviços. Não é um museu.

A ocupação comercial inclui marcas internacionais e argentinas, das quais vale destacar algumas categorias:

CategoriaO que encontrar
Moda internacionalLacoste, Tommy Hilfiger, Nike, Adidas
Marcas argentinasRapsodia, Prüne, Akiabara, Kosiuko
Couro e acessóriosPrüne, Jazmín Chebar, lojas especializadas em couro argentino
Cosméticos e perfumariaL’Occitane, MAC, lojas locais
GastronomiaPraça de alimentação + cafés

O público é misto: turistas atraídos pela arquitetura, porteños que trabalham no Microcentro e vão almoçar ou comprar algo rápido, e moradores de outros bairros que passam ali quando vão à região.

Os preços, olhando com olhos brasileiros, variam muito conforme a cotação do peso no dia. Produtos de couro argentino costumam ser o bom negócio mais consistente. Roupas de marca internacional raramente valem a pena, porque têm imposto de importação pesado.

O Centro Cultural Borges

Dentro do mesmo edifício, no piso superior, funciona o Centro Cultural Borges, uma das instituições culturais mais interessantes de Buenos Aires. Ele foi inaugurado em 1995 e homenageia Jorge Luis Borges, o escritor argentino mais universal que já existiu.

O Centro Cultural abriga:

  • Exposições temporárias de arte contemporânea e histórica
  • Apresentações de tango (o Escenario Borges tem shows com frequência)
  • A Escuela Argentina de Tango, que dá aulas para iniciantes e avançados
  • Concertos, palestras, atividades culturais variadas

Essa parte do prédio é menos conhecida pelos turistas, mas rende visita própria. Ver um show de tango dentro das Galerias Pacífico, com os murais por perto, é uma experiência bem diferente dos shows típicos das casas de tango de San Telmo.

O que comer por lá

A praça de alimentação fica no subsolo e tem o esperado de qualquer shopping: redes de fast food, opções rápidas, algumas parrillas mais despachadas. Nada de extraordinário.

Mas no mesmo edifício, e nas ruas que o cercam, você tem opções bem melhores. Uma caminhada de dois minutos resolve:

  • Café Tortoni, na Avenida de Mayo, um dos cafés mais famosos de Buenos Aires (espere fila).
  • Güerrín, na Corrientes, para uma pizza portenha tradicional.
  • Broccolino, massas italianas clássicas, ali perto.
  • La Estancia, parrilla turística mas decente, na Lavalle.

Minha sugestão honesta: use a praça de alimentação das Galerias Pacífico só se estiver sem tempo. Caso contrário, saia e coma em algum lugar do entorno, porque o Microcentro tem opções melhores a poucos passos.

Horário de funcionamento e dicas práticas

O shopping costuma abrir de segunda a sábado das 10h às 21h, e aos domingos das 12h às 21h. O Centro Cultural Borges tem horários próprios, que variam conforme a programação. Vale checar o site antes de ir, principalmente se o interesse for uma exposição ou show específico.

Algumas coisas que ajudam a aproveitar melhor a visita:

  • Vá de dia para ver a cúpula. A iluminação natural somada à artificial faz os murais ganharem uma dimensão diferente.
  • Dedique pelo menos uma hora só para caminhar pelo interior, olhar a arquitetura, subir pelas escadarias antigas e apreciar os detalhes.
  • Leve o celular com bateria cheia, porque você vai tirar mais fotos do que imagina.
  • Não precisa comprar nada. Entrar nas Galerias é gratuito, e muita gente visita só pelo prédio.
  • Combine com a Calle Florida inteira. Fazer o trajeto desde a Plaza San Martín até a Plaza de Mayo, passando pelo shopping, rende uma tarde inteira bem aproveitada.

Comparação com outros shoppings de Buenos Aires

Buenos Aires tem outros shoppings que valem menção, e faz sentido entender onde as Galerias Pacífico se encaixam nesse panorama.

ShoppingPerfilDiferencial
Galerias PacíficoHistórico/turísticoArquitetura e murais
Patio BullrichAlto padrãoMarcas caras, clientela tradicional
Alto PalermoPopular e amploVariedade e movimento
AbastoTemáticoPrédio histórico, ligação com Gardel
Distrito ArcosOutlet a céu abertoMarcas com desconto em Palermo

Se o interesse é só comprar com bom preço, Distrito Arcos ou Alto Palermo rendem mais. Se é ver um prédio histórico funcionando como shopping, Galerias Pacífico e Abasto são as duas referências. O Abasto, aliás, tem uma carga histórica ligada a Carlos Gardel que vale um capítulo à parte.

Uma observação sobre o entorno

A região das Galerias Pacífico é segura durante o dia, movimentada, cheia de turistas e trabalhadores. De noite, depois das 21h ou 22h, o Microcentro esvazia, e o entorno do shopping fica menos convidativo. Não é uma área perigosa como se fala de outras partes da cidade, mas perde completamente o charme sem o movimento.

Uma dica que vale para toda a Calle Florida: fique atento com bolsas, celular no bolso de trás e carteira. Não é pior que qualquer grande centro turístico do mundo, mas merece a mesma atenção que você teria no centro de São Paulo ou em Times Square.

Por que vale a visita mesmo sem comprar nada

Acho que esse é o ponto mais importante. Existe uma tendência de listar shoppings como “coisas para fazer” em uma viagem, e quase sempre isso soa vazio. Com as Galerias Pacífico é diferente.

Você está entrando num prédio de mais de 130 anos, projetado para ser uma réplica do grande armazém que inspirou toda uma geração de lojas de departamento no mundo. Você caminha por corredores com pé-direito altíssimo, olha para cima e vê um dos maiores conjuntos de murais da arte argentina do século XX. Passa por um centro cultural que leva o nome de Jorge Luis Borges. Ouve, às vezes, bandoneón vindo de algum ensaio de tango lá em cima.

Tudo isso, de graça, enquanto lá fora a Calle Florida segue sua vida frenética de cambistas, turistas, vendedores de empanadas e músicos de rua.

Buenos Aires tem vários endereços que contam a história da cidade. As Galerias Pacífico é um deles, e tem a vantagem de contar essa história com arte boa, arquitetura bonita e um ar de cotidiano que museu nenhum consegue reproduzir. Entre, olhe para cima, demore um pouco. Vale muito mais do que parece pela fachada.

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