Lugares Imperdíveis Para Conhecer no Butão

Guia dos lugares imperdíveis do Butão: Paro e o Ninho do Tigre, Thimphu, Punakha, Trongsa, Bumthang, Vale do Haa e Phobjikha, com dicas de roteiro, custos e taxa diária.

Guia dos lugares imperdíveis do Butão: Paro e o Ninho do Tigre, Thimphu, Punakha, Trongsa, Bumthang, Vale do Haa e Phobjikha

O Butão é o único país do mundo que decidiu, oficialmente, que não quer turismo de massa. Isso não é frase de folheto. É política pública, escrita, com valor em dólar definido. E é exatamente por causa disso que o país continua parecido com o que era décadas atrás, enquanto boa parte do Himalaia virou fila de trekking e loja de souvenir.

Antes de falar dos lugares, é importante entender essa regra, porque ela define toda a viagem. O Butão cobra uma Taxa de Desenvolvimento Sustentável de 100 dólares por pessoa por noite, para a maioria dos visitantes internacionais. Isso é separado de hospedagem, comida, guia e transporte. Crianças de 6 a 12 anos pagam metade e menores de 6 anos são isentos. Existem descontos e incentivos que aparecem e desaparecem conforme a política do governo, então vale confirmar o valor vigente antes de fechar qualquer coisa.

O outro ponto: turistas internacionais precisam viajar com roteiro organizado por operadora licenciada butanesa, com guia credenciado e motorista. Não existe mochilão livre pelo Butão. Alguns acham isso limitante. Eu acho que, na prática, é o que torna a viagem tão tranquila, porque toda a logística de estrada de montanha, permissões internas e horário de templo já vem resolvida.

Feito esse aviso, vamos ao que realmente importa: onde ir.

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Paro: a porta de entrada e o mosteiro mais famoso do Himalaia

Todo mundo começa aqui, porque Paro tem o único aeroporto internacional do país. E a chegada já é história para contar: a pista fica encaixada num vale cercado por montanhas, e o pouso exige curvas manuais entre encostas. Só um número pequeno de pilotos no mundo é certificado para operar ali. Sente do lado esquerdo na chegada, se puder, porque a vista de montanha é melhor.

Paro é uma cidade pequena, com rua principal de casas de madeira pintada, e serve como base para o passeio mais icônico do país.

Mosteiro Taktsang, o Ninho do Tigre

Este é o cartão-postal do Butão. Um mosteiro construído no século dezessete, agarrado a um paredão vertical a cerca de novecentos metros acima do vale, a uns 3.120 metros de altitude. A lenda diz que Guru Rinpoche chegou ao local voando nas costas de uma tigresa.

A subida é a parte que ninguém conta direito. São aproximadamente quatro a cinco horas ida e volta, com desnível considerável. Não é trilha técnica, mas é puxada, e a altitude pesa mais do que a distância. Existe um ponto intermediário, o café, onde muita gente para e desiste. Depois dele vem o trecho de escadaria, com centenas de degraus descendo e depois subindo, porque o mosteiro fica no lado oposto da fenda.

Recomendações práticas que fazem diferença: comece às sete ou oito da manhã, leve água, protetor solar e uma blusa (a temperatura muda muito entre sol e sombra). Existe a opção de subir a cavalo até perto do café, mas o cavalo não desce com você e não vai até o mosteiro. Dentro do templo não se fotografa e é preciso deixar mochila, câmera e celular no guarda-volumes. Vá com roupa que cubra ombros e pernas.

Banho de pedra quente

Chamado hot stone bath, é uma tradição butanesa. Uma banheira de madeira, água aquecida por pedras de rio incandescentes e folhas de artemísia. Feito no fim do dia da subida ao Ninho do Tigre, é uma das melhores decisões possíveis do roteiro.

Paro Dzong (Rinpung Dzong)

Fortaleza-mosteiro do século quinze, dominando a cidade. Dzong é a palavra central para entender o Butão: são construções que funcionam ao mesmo tempo como monastério e sede administrativa do distrito. Arquitetura sem uso de nenhum prego de metal na estrutura tradicional.

Chele La Pass

O passo de estrada mais alto acessível de carro no país, a cerca de 3.988 metros, a uma hora e meia de Paro. Bandeirinhas de oração ao vento, floresta de rododendro no caminho e, em dia limpo, vista do Monte Jomolhari.


Thimphu: a capital sem um único semáforo

Thimphu é a única capital do mundo que não tem semáforo. Instalaram um, uma vez, e a população achou impessoal demais. Voltaram a usar policiais de trânsito com luvas brancas fazendo gestos coreografados nos cruzamentos. Isso resume bastante o país.

É uma capital pequena, com cerca de cem mil habitantes, e uma cultura de café surpreendentemente boa, com torrefações, padarias e restaurantes modernos convivendo com monges de manto vermelho na calçada.

Buddha Dordenma é a primeira parada obrigatória. Uma estátua de Buda dourada de 51 metros sentada sobre um templo, olhando para o vale. Dentro dela há mais de cem mil pequenas estátuas de Buda. O tamanho da coisa só faz sentido quando você está embaixo.

Tashichho Dzong é a sede do governo e do corpo monástico central. Fica aberto a visitantes em horários específicos, geralmente no fim do dia em dias úteis.

Changangkha Lhakhang é um dos templos mais antigos de Thimphu, do século doze. É aqui que famílias butanesas levam recém-nascidos para receber bênção e nome. Tem vista bonita do vale.

Mercado de fim de semana funciona de sexta a domingo. Vale ir pelo cheiro e pela curiosidade: pimenta seca em montanha vermelha, queijo de iaque fermentado, arroz vermelho, betel. É o lugar onde você entende a comida local.

Dochula Pass fica a cerca de quarenta minutos de carro, a 3.100 metros, no caminho para Punakha. São 108 chortens (pequenos monumentos budistas) alinhados no alto do passo. Em dia claro, dá para ver a cadeia do Himalaia oriental. Aviso honesto: dia claro é raro, então se você tiver a sorte de pegar, aproveite mesmo com frio.

Vale também o Instituto Zorig Chusum, a escola de artes tradicionais, onde estudantes aprendem as treze artes butanesas, de pintura de thangka a escultura em argila. É visita curta e mais interessante do que parece.


Punakha: o vale mais bonito do país

Punakha foi a capital do Butão até 1955. Fica em altitude mais baixa, em torno de 1.200 metros, o que significa clima mais quente, vegetação subtropical, laranjeiras, bananeiras e arrozais.

Punakha Dzong é, para mim, a construção mais bonita do Butão. Está no encontro dos rios Pho Chhu e Mo Chhu, os rios pai e mãe. A ponte coberta de madeira que leva até ele, o pátio interno com uma jacarandá enorme que floresce lilás na primavera, os detalhes pintados: é o tipo de lugar em que você fica mais tempo do que o roteiro previa. Aqui acontecem as coroações reais e os casamentos da família real.

Chimi Lhakhang é o templo dedicado a Drukpa Kunley, o chamado Lama Louco, figura do século quinze que ensinava por meio de humor, provocação e comportamento nada convencional. É por causa dele que você vai ver falos pintados nas paredes de casas pelo Butão, como símbolo de proteção contra o mal e de fertilidade. O templo é procurado por casais que querem engravidar. A caminhada até lá atravessa arrozais e leva uns vinte minutos.

Ponte suspensa de Punakha, uma das mais longas do país, com cerca de 180 metros sobre o rio, coberta de bandeirinhas. Balança. É divertido.

Khamsum Yulley Namgyal Chorten exige uma caminhada de mais ou menos uma hora subindo por trilha e arrozal, e recompensa com um chorten de quatro andares e vista completa do vale.

Punakha também é onde acontece rafting tranquilo no Mo Chhu, opção boa para quem quer um dia diferente.


Trongsa: a fortaleza que controlava o país

Trongsa é cidade de passagem para muita gente, e isso é um desperdício. Aqui está o Trongsa Dzong, o maior dzong do Butão, esticado ao longo de uma crista com uma queda vertiginosa para o desfiladeiro do rio Mangde.

A importância é histórica e estratégica: por séculos, a única estrada leste-oeste do país passava literalmente dentro do dzong. Quem controlava Trongsa controlava o Butão. Por tradição, o príncipe herdeiro do trono recebe o título de Trongsa Penlop, governador de Trongsa, antes de se tornar rei.

Acima da fortaleza está o Ta Dzong, a torre de vigia circular, hoje transformada em Museu Real de Herança Monárquica. É um dos museus melhor montados do país e explica a história da dinastia Wangchuck de forma clara.

O trajeto até Trongsa passa pelo Pele La Pass, a cerca de 3.400 metros, com florestas de bambu-anão e, com sorte, iaques na estrada.


Bumthang: o coração espiritual

Bumthang é o distrito mais sagrado do Butão, e não é força de expressão. É onde o budismo entrou no país. São quatro vales, com Jakar como centro, tudo em altitude alta, ar seco e paisagem de campo aberto com pinheiros.

Jambay Lhakhang é do século sétimo, um dos templos mais antigos do Butão, atribuído ao rei tibetano Songtsen Gampo. Em outubro ou novembro acontece o Jambay Lhakhang Drup, festival que inclui a famosa dança do fogo realizada de madrugada.

Kurjey Lhakhang guarda, segundo a tradição, a impressão do corpo de Guru Rinpoche na rocha. São três templos lado a lado, com um bosque de 108 chortens.

Tamshing Lhakhang foi fundado em 1501 por Pema Lingpa, e mantém pinturas murais originais. Existe ali uma cota de malha pesada que os fiéis carregam nas costas dando três voltas no templo, como purificação. Levante e você entende o esforço.

Mebar Tsho, o Lago Flamejante, é uma poça funda de rio em um desfiladeiro estreito, coberta de bandeirinhas e oferendas. É considerado um dos lugares mais sagrados do país.

E o lado prático e prazeroso: Bumthang tem a Cervejaria Red Panda, produzindo cerveja de trigo não filtrada, além de queijos suíços produzidos localmente e mel. É a comida mais inesperada de todo o roteiro.


Vale do Haa: o Butão que quase ninguém visita

O Haa só abriu ao turismo em 2002. Isso já diz muito. É um vale estreito, tradicional, com casas de fazenda espalhadas, campos de trigo e mostarda, e quase nenhum ônibus de excursão.

Lhakhang Karpo, o Templo Branco, e Lhakhang Nagpo, o Templo Negro, são os dois pontos centrais. A lenda de fundação envolve uma pomba branca e uma pomba negra soltas para escolher onde os templos seriam construídos.

Wangchulo Dzong é a fortaleza local, mais discreta que as outras, do começo do século vinte.

O acesso ao Haa é pelo Chele La Pass, saindo de Paro, o que permite fazer os dois no mesmo dia. É o destino que eu sugeriria para quem já visitou o circuito clássico ou para quem quer sentir o Butão rural sem filtro.


Vale de Phobjikha: os grous de pescoço negro

Phobjikha é um vale glacial largo, em U, a cerca de 3.000 metros, dentro do Parque Nacional Jigme Singye Wangchuck. Não tem pico nevado dramático. Tem outra coisa: espaço, silêncio e pastagem aberta com riacho serpenteando no meio.

Mosteiro de Gangtey, do século dezessete, no alto de uma colina, é o principal monastério Nyingma da região ocidental.

O grande atrativo, porém, é sazonal. Entre o fim de outubro e o começo de março, algumas centenas de grous de pescoço negro migram do Tibete para passar o inverno no vale. É uma espécie ameaçada, e os moradores tratam a chegada delas como acontecimento. Existe até um festival anual em novembro no mosteiro. Há um centro de informação da Royal Society for Protection of Nature com telescópios e material educativo.

Um detalhe que diz muito sobre a mentalidade do país: por muito tempo Phobjikha não teve eletricidade convencional para não instalar postes que ferissem o voo das aves. A solução foi enterrar os cabos.

Faça a Gangtey Nature Trail, uma caminhada leve de cerca de uma hora e meia descendo do mosteiro pelo vale. É plana, fácil e provavelmente o passeio mais relaxante da viagem.


Quando ir, com sinceridade

ÉpocaClimaVantagensPontos negativos
Mar a MaiAmeno, primaveraRododendros, céu limpo, festivaisMais movimento
Jun a AgoMonção, quenteVerde intenso, menos gente, preço menorChuva, nuvem cobrindo montanha
Set a NovSeco, frescoMelhor visibilidade do Himalaia, festivaisAlta temporada, reservar cedo
Dez a FevFrio, secoGrous em Phobjikha, céu nítido, vazioFrio forte, passos podem fechar

Se a prioridade é ver montanha, vá em outubro ou novembro. Se é ver os grous, vá em novembro ou dezembro. Se é economizar e ver o país verde, junho e julho funcionam, aceitando a chuva.


Roteiro que faz sentido

7 noites, o clássico: Paro (2), Thimphu (2), Punakha (2), Paro (1). Cobre Ninho do Tigre, Buddha Dordenma, Punakha Dzong e Dochula sem correr.

10 noites, o completo: acrescente Phobjikha (2) e o Vale do Haa (1).

14 noites, o profundo: siga até Trongsa (1) e Bumthang (3). As estradas são sinuosas, então conte com quatro a sete horas de carro entre distritos. Não é distância, é curva.


O que ninguém avisa antes

Altitude é assunto real. Boa parte do roteiro fica entre 2.200 e 3.400 metros. Suba devagar, beba muita água, evite álcool nas primeiras noites e deixe o Ninho do Tigre para o segundo ou terceiro dia, não para o dia da chegada.

Comida é apimentada de verdade. O prato nacional, ema datshi, é literalmente pimenta com queijo. Pimenta é vegetal ali, não condimento. Peça “less spicy” se você não tem costume, e não fique com vergonha disso.

Voos são o gargalo. Só Drukair e Bhutan Airlines operam para Paro, e os assentos são limitados. Emita cedo. As conexões mais usadas por brasileiros passam por Délhi, Katmandu, Bangkok ou Cingapura, então a viagem total costuma passar de trinta horas.

Dinheiro: cartão internacional funciona mal fora de Thimphu e Paro. Leve dólar em espécie para trocar e para gorjetas. Guia e motorista trabalham dias inteiros com você, e gorjeta é esperada e justa.

Etiqueta em templos: ombros e joelhos cobertos, tirar chapéu, tirar sapato onde indicado, andar sempre no sentido horário ao redor de estupas e rodas de oração. Fotografia interna geralmente proibida. O guia orienta, mas chegar sabendo é melhor.

Cigarro: a venda de tabaco foi historicamente restrita e o país é rígido quanto a fumar em espaço público. Não tente contornar isso.

Não existe pressa aqui, e isso é o ponto. O Butão não tem uma atração que se vê em quinze minutos e se posta. O que ele oferece é ritmo: uma bandeirinha de oração batendo no vento a quatro mil metros, um monge de dezesseis anos rindo no pátio de um dzong, o cheiro de manteiga de iaque queimando numa lamparina de templo do século sétimo.

Quem chega com planilha e checklist volta achando que viu pouco. Quem chega disposto a andar devagar volta entendendo por que esse país mede o próprio progresso em felicidade, e não em produto interno bruto.

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