Curiosidades Sobre o Glaciar Perito Moreno na Argentina

Poucos lugares no mundo conseguem te deixar em silêncio só de olhar. O Glaciar Perito Moreno é um deles. Aquela parede de gelo azulado avançando sobre o Lago Argentino, com o barulho surdo dos blocos se desprendendo e caindo na água, é o tipo de coisa que você assiste e não encontra palavras imediatas. Simplesmente acontece diante de você, e você deixa.

Foto de Maximiliano Pezzali: https://www.pexels.com/pt-br/foto/frio-com-frio-panorama-vista-26988246/

Mas o Perito Moreno é muito mais do que um cenário bonito para foto. Por trás da imagem cartão-postal existe uma história geológica fascinante, um comportamento único entre os glaciares do planeta e, nos últimos anos, uma mudança que está chamando atenção de cientistas do mundo inteiro.


Um gigante no fim do mundo

O glaciar fica na Patagônia Argentina, dentro do Parque Nacional Los Glaciares, próximo à cidade de El Calafate, na província de Santa Cruz. O parque foi declarado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO em 1981 — e não é difícil entender o porquê.

O Perito Moreno tem aproximadamente 30 quilômetros de extensão e cobre uma área de cerca de 250 km². Para ter uma ideia de escala, isso é maior do que toda a cidade de Buenos Aires. A parede de gelo que fica visível ao visitante, chamada de frente do glaciar, chega a 70 metros de altura acima da superfície do lago — praticamente a mesma altura do Obelisco de Buenos Aires, para quem já esteve por lá.

Abaixo da linha d’água, o gelo se estende por mais de 160 metros de profundidade. Então quando você está na passarela olhando para aquela parede, está vendo apenas uma fração do que existe ali.

O glaciar faz parte do Campo de Hielo Patagónico Sur, a terceira maior reserva de gelo continental do planeta, atrás apenas da Antártida e da Groenlândia. É uma massa de gelo compartilhada entre Argentina e Chile, que se estende por mais de 12.500 km². O Perito Moreno é, talvez, o mais acessível e mais visitado dos glaciares que nascem dessa reserva imensa.


Por que o gelo é azul?

Essa é uma daquelas perguntas que todo mundo faz quando chega lá — e que poucos guias respondem com clareza.

O gelo comum, aquele do seu freezer, aparece branco porque contém bolhas de ar aprisionadas, que refletem a luz em todas as direções. No caso de uma geleira antiga e comprimida como o Perito Moreno, o peso das camadas superiores foi expulsando esse ar ao longo de milênios. O resultado é um gelo extraordinariamente denso, capaz de absorver as frequências vermelhas e amarelas da luz e refletir apenas o azul.

Aquele azul profundo que você vê nas rachaduras e nas partes mais expostas do glaciar não é filtro de fotografia. É física pura. Quanto mais velha e comprimida for a camada de gelo, mais intenso é o azul. Algumas partes parecem quase iluminadas por dentro, como se carregassem luz própria.

O gelo que forma o Perito Moreno levou séculos para ser comprimido a esse ponto. Quando um bloco cai no lago, ele pode ter centenas ou até milhares de anos de história acumulada ali.


O fenômeno da ruptura

O evento mais aguardado pelos visitantes é a ruptura do glaciar — quando o avanço do gelo bloqueia completamente o Braço Rico do Lago Argentino, criando uma barragem natural. A pressão da água aumenta gradualmente, às vezes criando um desnível de até 30 metros entre os dois lados do lago. Com o tempo, a água começa a filtrar por baixo do gelo, formando um túnel com uma abóbada que pode chegar a mais de 50 metros de altura.

Quando essa estrutura colapsa, o estrondo pode ser ouvido a quilômetros de distância. Blocos de gelo do tamanho de prédios inteiros caem no lago em questão de minutos. É um dos espetáculos naturais mais impressionantes do mundo, e acontecia tipicamente a cada dois a quatro anos.

A última ruptura documentada com grande repercussão ocorreu em 2016, com blocos de até 70 metros de altura se desprendendo de forma dramática.

Mas mesmo sem a ruptura do arco de gelo, os desprendimentos menores — chamados de calving — acontecem praticamente todos os dias. Um bloco de gelo soltando na beira da parede, primeiro um estalo seco, depois o barulhão. Quem fica em silêncio nas passarelas observando com paciência normalmente presencia um desses eventos em menos de meia hora.


O glaciar que avança — ou avançava

Durante décadas, o Perito Moreno foi a grande exceção entre os glaciares do mundo. Enquanto praticamente todos os outros estavam em retrocesso acelerado por causa do aquecimento global, ele parecia se manter em equilíbrio, avançando cerca de 2 metros por dia e compensando o gelo que perdia pelas bordas. Isso o tornou um símbolo — equivocado, como se descobriu depois — de resistência às mudanças climáticas.

Pesquisadores das universidades de Hokkaido e Nagoya, no Japão, em colaboração com cientistas argentinos, publicaram um estudo revelando que desde 2018 o glaciar entrou em um processo de perda dinâmica de massa. O adelgaçamento se estendeu pela parte inferior do glaciar, acompanhado de uma aceleração no fluxo de gelo. As temporadas de degelo entre 2020 e 2023 agravaram o processo.

O mais recente monitoramento com drones, realizado entre novembro de 2025 e fevereiro de 2026 pelo Parque Nacional Los Glaciares e pelo Glaciarium (o Centro de Interpretação de Glaciares em El Calafate), revelou números que deixaram os especialistas em alerta: o Perito Moreno perdeu 0,8 km² — 80 hectares — em apenas 97 dias. Para comparar, nos 15 anos anteriores inteiros ele havia perdido 2,4 km². Em três meses, foi 25% disso.

O cientista Pedro Skvarca, do Glaciarium, classificou essa redução como inédita nos registros recentes. As imagens dos voos mostraram que a distância entre a frente do glaciar e a Península de Magallanes passou de 233 metros em novembro para 420 metros em fevereiro. O gelo está recuando, e o ritmo preocupa.

Se esse processo continuar, um dos fenômenos mais famosos do parque — a ruptura do gelo que bloqueia o Braço Rico do lago — pode se tornar cada vez mais raro. Para que a barragem se forme, o glaciar precisa alcançar a península. Se o frente se afastar definitivamente, esse espetáculo simplesmente deixará de existir.


O nome que poucas pessoas conhecem

O glaciar foi batizado em homenagem a Francisco Pascasio Moreno, um naturalista e explorador argentino do século XIX, que ficou conhecido como “Perito” — título honorífico dado a especialistas reconhecidos. Moreno foi um dos mais importantes exploradores da Patagônia, tendo percorrido e mapeado essa região em uma época em que isso era literalmente uma aventura de sobrevivência.

Curiosamente, Moreno nunca chegou a ver a geleira que leva seu nome. O glaciar foi oficialmente nomeado após sua morte, como reconhecimento póstumo ao seu legado científico e à sua contribuição para a demarcação das fronteiras argentinas na região austral.


O que há para fazer lá

Chegar ao Perito Moreno é mais simples do que parece. El Calafate tem aeroporto com voos regulares a partir de Buenos Aires, e a distância até o glaciar é de cerca de 80 quilômetros pela rota 11. Dá para ir de carro alugado, de ônibus ou em tour organizado.

O parque tem um sistema de passarelas e mirantes que permite observar o glaciar de diferentes ângulos, incluindo partes que ficam bem próximas da frente de gelo. Parte dessas estruturas é em rampa, acessível para cadeirantes. Há inclusive um elevador em alguns trechos. Em 15 minutos depois da entrada você já está com o glaciar na frente.

Para quem quer algo além de olhar, existe o minitrekking — caminhada guiada sobre o próprio gelo, com crampons nos pés. A sensação de caminhar sobre uma geleira de centenas de anos é indescritível. O gelo range, a paisagem é completamente irreal, e você vai entender porque tanta gente volta querendo fazer de novo.

Há também passeios de barco que se aproximam da frente do glaciar pelo lago. Essa perspectiva muda tudo. Do barco, a escala do gelo parece ainda mais absurda. Você vê as rachaduras, as torres de gelo azul, os blocos que flutuam ao redor — e fica claro que você está diante de algo que existia muito antes de você nascer e, espera-se, continuará existindo depois.

O ingresso para o parque custa em pesos argentinos, com valores que variam para estrangeiros e residentes. Confirmar os preços atualizados diretamente no site do Parque Nacional Los Glaciares é sempre recomendável, já que os reajustes na Argentina são frequentes.

Em 2024, o parque vendeu 706 mil ingressos. Os brasileiros são a maioria entre os visitantes estrangeiros — um dado que não surpreende tanto assim, porque a Patagônia argentina tem sido um destino cada vez mais procurado por quem sai do Brasil em busca de algo realmente diferente.


A melhor época para visitar

O parque funciona o ano todo, mas o verão austral — de novembro a março — oferece dias mais longos, temperaturas menos extremas e maior chance de presenciar os desprendimentos de gelo, que tendem a ser mais frequentes com o calor. O inverno tem charme próprio, com menos gente e uma atmosfera mais sombria e dramática, mas as temperaturas podem ser severas e alguns serviços funcionam de forma reduzida.

Se a ideia é combinar o glaciar com outras atrações da Patagônia — como o Parque Nacional Torres del Paine, no lado chileno, ou o Glaciar Upsala — o verão facilita muito a logística.


Uma maravilha com prazo

Existe uma urgência que antes não havia. O Perito Moreno foi, por muito tempo, o glaciar que os cientistas usavam como exemplo de estabilidade. Agora ele está seguindo o caminho de outros glaciares da Patagônia, como o Upsala e o Viedma, que recuaram de forma significativa nas últimas décadas.

Isso não significa que ele vai desaparecer amanhã. A massa de gelo ainda é imensa, e os cientistas são cuidadosos em não fazer previsões alarmistas sem dados suficientes. Mas o equilíbrio que o manteve intacto por quase cem anos foi rompido. O que vem depois ainda é incerto.

O que não é incerto é que ele ainda está lá, ainda é grandioso, ainda impressiona qualquer pessoa que chega de El Calafate pela primeira vez e dobra aquela última curva da estrada. A parede de gelo aparece de repente, azul e branca e enorme, e o tempo para por um instante.

Se você está pensando em ir, esse talvez seja um bom momento para parar de pensar e comprar a passagem.

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