Destinos de Antes e Agora na Bíblia

Guia dos lugares bíblicos e seus nomes atuais: Canaã virou Israel, Pérsia virou Irã, Babilônia está no Iraque, Arã é a Síria, Fenícia é o Líbano, Ásia Menor é a Turquia, além de Cuxe, Pute, Sabá, Edom e Moabe, com o que ainda se pode visitar hoje e o que mudou.

Guia dos lugares bíblicos e seus nomes atuais: Canaã virou Israel, Pérsia virou Irã, Babilônia está no Iraque, Arã é a Síria, Fenícia é o Líbano, Ásia Menor é a Turquia, além de Cuxe, Pute, Sabá, Edom e Moabe

Destinos de Antes e Agora na Bíblia

Existe um momento estranho que acontece com quem lê a Bíblia com um mapa do lado. Você percebe que praticamente nenhum dos nomes citados ali existe mais.

Canaã não está em nenhum atlas. Fenícia, Arã, Cuxe, Pute, Sabá, tudo desapareceu da nomenclatura. Ásia Menor sobreviveu como termo acadêmico, mas ninguém compra passagem para lá. E aí vem a pergunta óbvia: para onde foram esses lugares?

A resposta é que eles não foram para nenhum lugar. As terras continuam exatamente onde estavam. Foram os nomes que mudaram, e mudaram porque impérios caíram, línguas se substituíram, fronteiras foram desenhadas por gente que morava a milhares de quilômetros de distância e, em muitos casos, porque a identidade dos povos que viviam ali se transformou de forma tão profunda que o nome antigo perdeu sentido.

Vale um aviso de partida, porque isso é importante para ler o resto com honestidade intelectual: essas correspondências são aproximadas. Não existe equivalência exata entre um reino antigo e um Estado moderno. Os antigos não tinham fronteiras lineares como as de hoje. Tinham centros de poder, zonas de influência e periferias fluidas. Quando se diz que “Arã é a Síria”, está se dizendo que o núcleo territorial coincide em boa parte, não que os limites sejam os mesmos. Alguns casos são bem sólidos. Outros são debatidos por especialistas até hoje.

Vamos passar pelos dez, um por um, com o que se sabe de fato e o que se pode ver hoje quem for até lá.

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1. Canaã, que hoje é Israel e os territórios palestinos

Comecemos pelo mais central e pelo mais complicado.

Canaã é o nome antigo daquela faixa de terra entre o Mar Mediterrâneo e o rio Jordão. Aparece nos textos bíblicos como a terra prometida a Abraão e depois conquistada e ocupada pelas tribos de Israel. Mas Canaã não é uma invenção literária: o nome está documentado em fontes egípcias e mesopotâmicas do segundo milênio antes de Cristo, muito antes de qualquer texto bíblico ser escrito.

As cartas de Amarna, um arquivo diplomático egípcio do século 14 antes de Cristo encontrado no Egito, contêm correspondência de reis de cidades cananeias como Jerusalém, Megido e Gezer escrevendo ao faraó. Ou seja, temos os cananeus falando de si mesmos, em tabuletas de barro, e podemos ler.

O que Canaã era de fato

Não era um país unificado. Era um mosaico de cidades-estado, cada uma com seu rei, muralhas e território agrícola ao redor. Jericó, Hazor, Laquis, Megido, Siquém, Gezer, todas funcionavam de forma independente e frequentemente em conflito entre si.

A economia cananeia era baseada em agricultura de trigo, azeite, vinho e no comércio de passagem, porque aquela faixa é o corredor terrestre obrigatório entre o Egito e a Mesopotâmia. Isso explica muita coisa da história da região: quem controlava Canaã controlava a estrada mais importante do mundo antigo.

A religião cananeia é conhecida em detalhe graças aos textos de Ugarit, uma cidade na costa da atual Síria, descobertos em 1929. Ali estão os mitos de Baal, El, Asherá e Anat, as mesmas divindades que aparecem nos textos bíblicos como concorrência ao culto de Yahweh. Aquelas condenações a Baal na Bíblia não eram genéricas. Eram dirigidas a uma religião concreta, com templos, sacerdotes e um panteão organizado.

Como o nome mudou

A transição foi longa. Israel e Judá surgiram como reinos naquele espaço, depois vieram assírios, babilônios, persas e gregos. Sob domínio romano, a região virou província da Judeia. Após as revoltas judaicas dos séculos 1 e 2, Roma renomeou a província como Syria Palaestina, num movimento com carga política clara de apagar a associação com os judeus. O nome “Palestina” tem origem no termo que designava os filisteus, povo que ocupava a faixa costeira do sul.

Palestina foi o nome usado por gregos, romanos, bizantinos, árabes, cruzados, otomanos e pelo Mandato Britânico. Em 1948, com a criação do Estado de Israel, o mapa político da região passou a ser o que é hoje, com Israel, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, e uma disputa territorial que segue sem solução.

O que se visita hoje

Este é o destino bíblico mais visitado do mundo, e não por pouco.

Jerusalém concentra o Muro das Lamentações, resto da estrutura de contenção do Segundo Templo ampliada por Herodes; o Monte do Templo com o Domo da Rocha e a Mesquita de Al-Aqsa; a Igreja do Santo Sepulcro; a Via Dolorosa; o Monte das Oliveiras e o Jardim do Getsêmani.

Fora da capital: Belém, na Cisjordânia, com a Basílica da Natividade, uma das igrejas em funcionamento mais antigas do mundo. Nazaré, na Galileia. O Mar da Galileia, com Cafarnaum, onde ainda se vê a sinagoga de calcário branco construída sobre uma anterior, do período de Jesus. Cesareia Marítima, o porto de Herodes no Mediterrâneo, com teatro e aqueduto. Masada, a fortaleza no deserto onde os rebeldes judeus resistiram a Roma. Qumran, onde os Manuscritos do Mar Morto foram encontrados a partir de 1947, o achado arqueológico mais importante já feito para o estudo dos textos bíblicos.

E Jericó, que é normalmente citada como uma das cidades continuamente habitadas mais antigas do mundo, com camadas de ocupação que descem a milhares de anos.

Nota prática necessária: o acesso a locais na Cisjordânia e em Gaza depende diretamente da situação de segurança do momento, que muda rápido. Qualquer roteiro na região tem que ser confirmado com informação atualizada antes da viagem.


2. Pérsia, que hoje é o Irã

Esta é uma das correspondências mais limpas da lista, e também a que envolve a mudança de nome mais recente e mais deliberada.

O império que muda o rumo da história bíblica

A Pérsia entra nos textos bíblicos num momento decisivo. Depois de os babilônios destruírem Jerusalém e o Templo em 586 antes de Cristo e levarem a elite judaica para o exílio, foi Ciro o Grande quem, após conquistar a Babilônia em 539 antes de Cristo, permitiu o retorno dos exilados e a reconstrução do Templo.

Isso está registrado na Bíblia e também num objeto físico que se pode ver no Museu Britânico: o Cilindro de Ciro, um cilindro de barro com inscrição em acádio no qual o rei descreve sua política de restaurar santuários e devolver povos deslocados às suas terras. É frequentemente citado como um dos primeiros documentos de tolerância religiosa estatal, com o cuidado de lembrar que também era propaganda real.

Os livros de Esdras e Neemias se passam sob administração persa. O livro de Ester se desenrola na corte persa, em Susa. E Daniel tem episódios sob reis medos e persas.

O Império Aquemênida, fundado por Ciro, chegou a ser o maior império que o mundo havia visto, indo do Egito e da Ásia Menor até o vale do Indo. Foi derrubado por Alexandre o Grande no século 4 antes de Cristo. Depois vieram partas e sassânidas, e depois a conquista árabe no século 7, que trouxe o islã.

De Pérsia para Irã

O nome “Pérsia” era o que os gregos usavam, derivado de Pars ou Fars, a província que era o berço da dinastia aquemênida. Internamente, o país se chamava algo próximo de Irã, palavra que vem de “Aryanam”, terra dos arianos, num sentido étnico-linguístico antigo, sem relação com o uso que o século 20 europeu deu ao termo.

Em 1935, o governo de Reza Shah Pahlavi solicitou formalmente que os países estrangeiros passassem a usar Irã nas comunicações oficiais. Não foi criação de nome novo, foi a adoção internacional do nome que os próprios habitantes sempre usaram.

O que se visita hoje

O Irã tem um patrimônio arqueológico de primeira grandeza mundial.

Persépolis, perto de Shiraz, é a capital cerimonial aquemênida, com o Portal de Todas as Nações, os relevos das delegações tributárias subindo a escadaria, e as colunas do Apadana. Foi incendiada pelas tropas de Alexandre. É patrimônio da UNESCO e uma das ruínas mais impressionantes do planeta.

Pasárgada, também na região de Shiraz, tem o túmulo de Ciro o Grande, uma estrutura de pedra austera e surpreendentemente simples para o fundador de um império.

Susa, ou Shush, no Khuzistão, é o cenário do livro de Ester. Perto dela está Chogha Zanbil, um zigurate elamita do segundo milênio antes de Cristo, dos melhores preservados que existem.

Hamadã, a antiga Ecbátana, capital dos medos, tem um mausoléu tradicionalmente atribuído a Ester e Mordecai, local de peregrinação judaica histórica.

Visitar o Irã requer atenção redobrada às orientações consulares vigentes, que variam conforme o cenário político. Turismo ali é possível e o país tem estrutura receptiva, mas a informação atualizada é indispensável.


3. Babilônia, que hoje é o Iraque

A cidade que virou símbolo

Babilônia é, na Bíblia, mais que um lugar. É um conceito. Aparece como o lugar do exílio, como a arrogância humana na história da Torre de Babel, e depois no Apocalipse como imagem do poder opressor.

Mas Babilônia foi uma cidade real, às margens do Eufrates, no que hoje é o centro-sul do Iraque, perto da cidade de Hillah, cerca de oitenta quilômetros ao sul de Bagdá.

Sob Hamurabi, no século 18 antes de Cristo, foi a potência da Mesopotâmia, e o código legal que leva seu nome, gravado numa estela de basalto hoje no Louvre, é um dos documentos jurídicos mais antigos preservados.

Seu segundo grande momento foi sob Nabucodonosor II, no século 6 antes de Cristo. Foi ele quem destruiu Jerusalém, arrasou o Templo de Salomão e deportou a população judaica, o evento conhecido como Cativeiro Babilônico. Nabucodonosor também reconstruiu Babilônia em escala monumental, com muralhas gigantescas, o zigurate Etemenanki, geralmente associado à tradição da Torre de Babel, e a Porta de Ishtar, revestida de tijolo esmaltado azul com touros e dragões em relevo. A reconstrução dessa porta está no Museu de Pérgamo, em Berlim, e é uma das peças mais visitadas de museu no mundo.

Os famosos Jardins Suspensos, atribuídos a Babilônia pelos autores gregos, nunca foram localizados arqueologicamente, e há especialistas que defendem que estariam em Nínive, no norte. É um mistério em aberto.

A região é o berço da escrita

Vale dizer isso, porque muda a percepção do lugar. Aquele território, entre o Tigre e o Eufrates, é onde a escrita cuneiforme foi inventada pelos sumérios por volta do quarto milênio antes de Cristo. É onde surgiram as primeiras cidades, os primeiros códigos de lei, os primeiros registros astronômicos sistemáticos.

Também é ali que estão Ur, mencionada como cidade de origem de Abraão, com seu zigurate parcialmente restaurado, e Nínive, capital assíria perto da atual Mossul, cidade do livro de Jonas.

De Babilônia para Iraque

A cidade decaiu após a conquista persa e foi progressivamente abandonada nos séculos seguintes. A região passou por persas, gregos, partas, sassânidas e, no século 7, pela conquista árabe. Bagdá foi fundada em 762 pelos abássidas e virou o centro intelectual do mundo islâmico por séculos.

O nome “Iraque” tem uso árabe medieval para designar aquela planície aluvial. O Estado moderno nasceu do desmembramento do Império Otomano depois da Primeira Guerra Mundial, sob mandato britânico, tornando-se independente em 1932.

O que sobrou para visitar

Babilônia foi inscrita como patrimônio da UNESCO em 2019, tardiamente, e o sítio é problemático. Nos anos 1980, sob Saddam Hussein, houve uma reconstrução com tijolos novos sobre as fundações originais, com o nome do próprio Saddam inscrito nos tijolos, imitando Nabucodonosor. Isso danificou o registro arqueológico de forma irreversível. Depois, durante a ocupação de 2003, forças militares instalaram base no sítio, causando mais destruição.

O que se vê hoje é uma mistura de ruína autêntica e reconstrução questionável, o leão de basalto de Babilônia, restos de muralha e a Via Processional.

O norte do país tem Nimrud, Hatra e o sítio de Nínive, todos alvos de destruição deliberada pelo Estado Islâmico entre 2014 e 2017, com perdas patrimoniais imensas.

O Iraque reabriu ao turismo de forma gradual nos últimos anos e existem operadores trabalhando ali, mas é um destino que exige avaliação séria de segurança e acompanhamento local.


4. Arã, que hoje é a Síria

Os arameus e a língua que atravessou tudo

Arã é o nome bíblico da região ao norte e nordeste de Israel, com centro em Damasco. Os arameus eram um conjunto de povos semíticos que formaram reinos naquela área a partir do fim do segundo milênio antes de Cristo, e o principal deles é chamado nos textos de Arã-Damasco.

Aparecem constantemente na narrativa bíblica, muitas vezes em guerra com Israel. Há reis arameus nomeados, como Ben-Hadade e Hazael, e este último é personagem documentado também em fontes assírias e possivelmente na Estela de Tel Dan, uma inscrição em aramaico do século 9 antes de Cristo encontrada no norte de Israel, que contém a menção mais antiga conhecida à “Casa de Davi” fora da Bíblia. É um dos achados epigráficos mais discutidos da arqueologia bíblica.

O legado maior dos arameus, porém, não é militar. É a língua aramaica. Ela se espalhou como idioma de comércio e administração pelo Oriente Médio, foi adotada como língua administrativa do Império Persa, e acabou substituindo o hebraico como língua falada cotidiana entre os judeus. Partes dos livros de Daniel e Esdras estão em aramaico. E é bastante aceito que Jesus falava aramaico como língua materna. Frases aramaicas aparecem preservadas nos Evangelhos.

Existem ainda hoje comunidades que falam variedades de aramaico, incluindo a vila de Maalula, na Síria, e comunidades cristãs assírias e caldeias na região e na diáspora.

De Arã para Síria

O nome Síria vem do grego, ligado à designação da região, e foi consolidado pelos romanos como nome de província. Depois vieram bizantinos, a conquista árabe no século 7, os omíadas com capital em Damasco, cruzados, mamelucos e otomanos. A Síria moderna nasceu do mandato francês pós-Primeira Guerra e ficou independente em 1946.

Patrimônio sob perda severa

Precisa ser dito com clareza: a guerra civil síria, iniciada em 2011, causou destruição patrimonial de dimensão histórica.

Palmira, a cidade caravaneira no deserto, patrimônio da UNESCO, teve o Templo de Bel, o Templo de Baalshamin e o Arco Monumental destruídos por explosivos pelo Estado Islâmico em 2015. O diretor de antiguidades do sítio, Khaled al-Asaad, foi executado.

Alepo, uma das cidades habitadas mais antigas do mundo, teve sua cidade antiga e o souq medieval devastados nos combates, incluindo o minarete da Mesquita Omíada.

Damasco preserva a Mesquita Omíada, uma das mais antigas e importantes do islã, construída no início do século 8 sobre uma basílica cristã anterior. E preserva a Rua Reta, a Via Recta mencionada em Atos no episódio da conversão de Saulo, que ali passou a ser chamado Paulo. Damasco é o cenário de um dos momentos mais decisivos do Novo Testamento.

O Crac dos Cavaleiros, castelo cruzado no oeste do país, também sofreu danos.

A Síria não é hoje um destino de turismo convencional, e o cenário de segurança e de acesso muda de forma imprevisível.


5. Fenícia, que hoje é o Líbano

Os marinheiros e o alfabeto

Fenícia é o nome grego dado às cidades-estado da faixa costeira ao norte de Israel: Tiro, Sídon, Biblos, Berito e outras. Os próprios habitantes eram, culturalmente, cananeus. A distinção entre cananeu e fenício é em boa parte uma questão de vocabulário grego e de período histórico.

Os fenícios foram a maior potência marítima do Mediterrâneo antigo. Navegavam até a Espanha e talvez além, fundaram colônias, e a mais famosa delas, Cartago, no atual norte da Tunísia, virou rival de Roma. Eles não construíram um império territorial. Construíram uma rede comercial.

O contributo deles à história é gigantesco e todo mundo o usa neste exato momento: o alfabeto fenício. Um sistema de escrita alfabético, com pouco mais de vinte sinais consonantais, muito mais simples que o cuneiforme ou os hieróglifos. Os gregos o adaptaram, acrescentaram vogais, e daí saiu o alfabeto latino que você está lendo. A escrita deixou de ser monopólio de escribas profissionais por causa disso.

O outro produto famoso era o corante púrpura, extraído de moluscos marinhos, laborioso e caríssimo, que virou sinônimo de realeza. O nome “Fenícia” está provavelmente ligado a esse tom vermelho-púrpura em grego.

Fenícia nos textos bíblicos

Aparece de forma bastante concreta. Hirão, rei de Tiro, forneceu cedro do Líbano e artesãos para a construção do Templo de Salomão em Jerusalém, num acordo comercial descrito com detalhe. Jezabel, a rainha que se torna figura central de conflito religioso nos livros dos Reis, era filha do rei de Sídon. E o profeta Elias é acolhido por uma viúva em Sarepta, na costa fenícia.

No Novo Testamento, Jesus atua na região de Tiro e Sídon.

De Fenícia para Líbano

O nome Líbano é muito antigo, aparece nos próprios textos bíblicos referindo-se à cadeia de montanhas, e é ligado a uma raiz semítica de branco, associada à neve nos cumes. Ele nunca desapareceu.

A região passou por persas, gregos, romanos, bizantinos, a conquista árabe, cruzados, mamelucos e otomanos. O Líbano moderno nasceu como Grande Líbano sob mandato francês e ficou independente em 1943, com um sistema político de reparto entre comunidades religiosas que ainda define sua vida pública.

O que se visita hoje

Biblos, ou Jbeil, é apontada entre as cidades continuamente habitadas mais antigas do mundo, com camadas que vão do neolítico ao período otomano, castelo cruzado, ruínas fenícias e um porto pequeno e bonito. Patrimônio da UNESCO.

Baalbek, no vale do Beca, tem o maior conjunto de templos romanos preservados do mundo, com o Templo de Baco quase inteiro e as colunas colossais do Templo de Júpiter. É visualmente esmagador e menos conhecido do que deveria.

Tiro e Sídon conservam ruínas, hipódromo romano e castelos do mar cruzados. E os Cedros do Líbano, em Bcharre, são o remanescente daquelas florestas que abasteceram os templos e as frotas do mundo antigo, hoje protegidos em bosques pequenos, com árvores milenares.

Beirute, apesar de tudo o que passou, é uma cidade de energia cultural forte, com ruínas romanas expostas no centro e um museu nacional de acervo excelente.


6. Ásia Menor, que hoje é a Turquia

O território onde o cristianismo se organizou

Ásia Menor, também chamada Anatólia, é a grande península entre o Mar Negro, o Egeu e o Mediterrâneo. E é o palco de boa parte do Novo Testamento fora da Judeia.

Antes disso, a região teve o Império Hitita, potência do segundo milênio antes de Cristo, com capital em Hattusa, e depois lídios, frígios, gregos jônios, persas, o mundo helenístico e Roma.

Nos textos bíblicos, é onde Paulo faz a maior parte de suas viagens missionárias. Tarso, na Cilícia, era sua cidade natal. Antioquia, hoje Antáquia, no sul da Turquia, é onde, segundo Atos, os seguidores de Jesus foram chamados cristãos pela primeira vez, e foi a base de operações das missões.

E é onde estão as sete igrejas do Apocalipse: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia. Todas em território turco atual.

Também foi na Ásia Menor que se realizaram concílios que definiram a doutrina cristã. O Primeiro Concílio de Niceia, em 325, aconteceu na atual Iznik. O de Calcedônia, em 451, num subúrbio da atual Istambul.

De Ásia Menor para Turquia

“Ásia” era originalmente o nome de uma província romana no oeste da península, e o termo depois se expandiu para nomear o continente, o que obrigou os europeus a chamar a península de Ásia Menor para distinguir.

A mudança de identidade veio com a chegada dos turcos seldjúcidas no século 11, após a batalha de Manzikert em 1071, e depois com a ascensão dos otomanos, que tomaram Constantinopla em 1453 e mantiveram um império por séculos. A República da Turquia foi proclamada em 1923, após a Primeira Guerra e a guerra de independência, sob Mustafa Kemal Atatürk.

O que se visita hoje, e é muito

A Turquia é, na prática, o país mais fácil de percorrer em roteiro bíblico, com boa infraestrutura, estradas e voos internos.

Éfeso, perto de Selçuk, é um dos sítios romanos mais bem preservados do Mediterrâneo, com a fachada da Biblioteca de Celso, o grande teatro onde Atos situa o tumulto contra Paulo, e a rua de mármore. Ali perto estão a Basílica de São João e a chamada Casa da Virgem Maria, local de devoção.

Pérgamo, em Bergama, tem a acrópole no alto do morro, o teatro mais inclinado do mundo antigo e o santuário de Asclépio. Laodiceia, Sardes e Hierápolis, esta última junto às piscinas brancas de travertino de Pamukkale, completam o circuito das cidades do Apocalipse.

Capadócia, na Anatólia central, tem centenas de igrejas escavadas na rocha com frescos bizantinos, no Museu ao Ar Livre de Göreme, e cidades subterrâneas como Derinkuyu, usadas por comunidades cristãs. É também o lugar dos balões ao amanhecer, que é a foto que todo mundo conhece.

Istambul guarda a Hagia Sophia, construída no século 6 por Justiniano, que foi por quase mil anos a maior catedral cristã do mundo, depois mesquita, depois museu, e desde 2020 novamente mesquita em funcionamento.

E Antáquia, a antiga Antioquia, tem o Museu de Mosaicos com um dos maiores acervos de mosaico romano do mundo, além da gruta de São Pedro. A cidade foi severamente atingida pelo terremoto de fevereiro de 2023, e a situação de acesso a monumentos ali segue em recuperação.

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7. Cuxe, que hoje corresponde ao Sudão e ao sul do Egito

Aqui a correspondência exige mais cuidado do que a imagem simplificada sugere.

O reino do sul do Nilo

Cuxe é o nome bíblico e egípcio para a região ao sul do Egito, ao longo do Nilo, na área conhecida como Núbia. Isso corresponde principalmente ao norte do Sudão atual e ao extremo sul do Egito. Não é o Sudão inteiro, e não é a Etiópia, embora traduções antigas tenham usado “Etiópia” para verter Cuxe, o que gerou muita confusão que persiste.

Cuxe não era periferia. Foi um reino poderoso, com capitais sucessivas em Kerma, Napata e Meroé. E no século 8 antes de Cristo, os reis cuxitas conquistaram o Egito e governaram como a 25ª dinastia, os chamados faraós negros. O rei Taharqa dessa dinastia é mencionado nos textos bíblicos, na forma Tirhaca, em conexão com o conflito entre Egito e a Assíria de Senaqueribe, e é figura amplamente documentada na arqueologia egípcia.

Meroé desenvolveu depois uma cultura própria com escrita meroítica, ainda parcialmente indecifrada, e construiu centenas de pirâmides, mais numerosas que as do Egito, embora menores e mais íngremes.

Cuxe nos textos

No Novo Testamento, Atos narra o encontro de Filipe com um oficial etíope, funcionário da corte de Candace, no caminho de Gaza. “Candace” não é nome pessoal: era o título das rainhas-mãe de Meroé, o que ancora o episódio numa realidade histórica verificável do reino cuxita.

Existe também a tradição etíope do encontro entre Salomão e a rainha de Sabá, que a tradição da Etiópia reivindica como origem de sua dinastia imperial, tema do texto Kebra Nagast. Isso pertence ao campo da tradição religiosa e nacional, não do registro arqueológico.

De Cuxe para Sudão

O nome Sudão vem do árabe “bilad as-sudan”, terra dos negros, usado no período medieval islâmico para a faixa ao sul do Saara. A região passou por reinos cristãos núbios que duraram séculos, depois pela islamização, pelo domínio turco-egípcio, pelo Estado mahdista, pelo condomínio anglo-egípcio, e ficou independente em 1956. O Sudão do Sul se separou em 2011, tornando-se o país mais novo do mundo.

O que existe para ver

Meroé, patrimônio da UNESCO, tem seus campos de pirâmides em meio a dunas, e a ausência quase total de visitantes torna a imagem ainda mais forte. Jebel Barkal, a montanha sagrada perto de Karima, com templos dedicados a Amon, também é patrimônio da UNESCO. E os sítios de Naga e Musawwarat completam o conjunto.

O Sudão vive desde 2023 um conflito armado grave, com crise humanitária de larga escala. Turismo ali não é viável no cenário atual, e o patrimônio corre risco.


8. Pute, que hoje corresponde à Líbia

O nome mais debatido da lista

Pute, ou Fute em algumas traduções, aparece nas listas de povos e nas profecias bíblicas, com frequência ao lado de Cuxe, e é geralmente associado à região a oeste do Egito, no norte da África, o que corresponde à Líbia atual e áreas vizinhas.

Vale dizer que essa identificação não é unânime. Alguns especialistas propõem localizações na costa do Mar Vermelho ou na região do Chifre da África, em parte por causa da associação com o Punt egípcio, que era uma terra de comércio ao sul, provavelmente na região do atual Eritreia, Etiópia ou Somália. Punt e Pute são coisas discutidas separadamente, e misturá-las é um erro comum. A tradução grega dos Setenta verteu Pute como Líbia em vários trechos, e é dessa tradição que vem a associação mais difundida.

Ou seja: esta é uma das entradas mais aproximadas da lista, e é justo apresentá-la assim.

A Líbia antiga

A região tem uma história antiga rica. Cirene, na Cirenaica, no leste, foi uma importante cidade grega e depois romana, com uma comunidade judaica numerosa. Isso aparece nos textos: Simão de Cirene é o homem que carrega a cruz nos Evangelhos, e judeus de Cirene são citados em Atos no episódio de Pentecostes.

Leptis Magna, na costa oeste, é um dos conjuntos romanos mais espetaculares do Mediterrâneo, cidade natal do imperador Septímio Severo, que a ampliou de forma monumental. O arco, as termas, o teatro e o mercado estão em estado notável de preservação por causa da areia que os cobriu por séculos.

De Pute para Líbia

O nome Líbia vem do termo usado por gregos e egípcios para os povos berberes a oeste do Egito. Roma criou províncias ali, depois vieram vândalos, bizantinos, a conquista árabe, os otomanos, a colonização italiana no início do século 20 e a independência em 1951.

O país entrou em instabilidade profunda após 2011, com conflito interno e divisão de poder, e o turismo é praticamente inexistente hoje. Leptis Magna, Sabratha e Cirene são patrimônios da UNESCO e figuram em listas de patrimônio em perigo.


9. Sabá, que hoje corresponde ao Iêmen

O reino do incenso

Sabá é a terra da rainha que, segundo os textos, visitou Salomão em Jerusalém levando ouro, pedras preciosas e uma quantidade extraordinária de especiarias.

O reino de Sabá é historicamente documentado no sul da Península Arábica, no que hoje é o Iêmen, com capital em Marib. Inscrições em escrita sul-arábica antiga, templos e obras de engenharia confirmam sua existência e sua riqueza.

A base econômica era o comércio de incenso e mirra, resinas produzidas por árvores que crescem no sul da Arábia e no Chifre da África, e que eram bens de altíssimo valor no mundo antigo, usados em templos, medicina e funerais. Sabá controlava o começo da rota do incenso, que atravessava a península por caravana até o Mediterrâneo. Isso explica de onde vinha aquela riqueza descrita nos textos.

Aliás, os presentes dos magos nos Evangelhos, ouro, incenso e mirra, são exatamente os produtos dessa rota comercial.

A grande represa de Marib

O feito de engenharia sabeu mais impressionante é a represa de Marib, construída por volta do primeiro milênio antes de Cristo, que permitia irrigar uma área agrícola extensa em pleno ambiente árido. Ela foi mantida por mais de mil anos, com reparos sucessivos, e seu colapso final, por volta do século 6 depois de Cristo, é lembrado na tradição árabe e no Corão como marco de declínio e de migração de tribos.

Restos das estruturas de eclusa e das muralhas da represa antiga ainda existem no local.

De Sabá para Iêmen

Depois de Sabá vieram os reinos de Ma’in, Qataban, Hadramaut e Himyar, este último tendo adotado o judaísmo como religião de corte antes da chegada do islã no século 7. A região passou por diversos poderes e o Iêmen moderno resultou da unificação, em 1990, do norte e do sul, que tinham trajetórias políticas distintas.

O que existe, e a situação atual

O Iêmen tem um patrimônio arquitetônico impressionante e pouco conhecido. Sanaa antiga, patrimônio da UNESCO, com suas casas-torre de tijolo e gesso decorado em padrões brancos, é uma das cidades mais singulares do mundo. Shibam, no Hadramaut, é chamada de Manhattan do deserto por seus edifícios altos de adobe. Socotra, o arquipélago no Índico, tem biodiversidade endêmica única, com as árvores dragoeiro.

O país vive desde 2014 uma guerra com uma das piores crises humanitárias do mundo. Não é destino de viagem, e o patrimônio sofreu danos por combates.


10. Edom e Moabe, que hoje correspondem à Jordânia

Os vizinhos do outro lado do Jordão

Edom e Moabe eram reinos a leste e sudeste do Mar Morto, no que hoje é o território da Jordânia. Junto com Amom, ao norte deles, formam o trio de vizinhos com quem Israel tem relação constante nos textos, alternando parentesco, aliança e guerra.

Edom aparece associado a Esaú, irmão de Jacó, na narrativa de origem. Moabe aparece na história de Rute, a moabita que se torna bisavó de Davi segundo a genealogia bíblica, o que é uma nota interessante: uma estrangeira de um povo rival integrada à linhagem real.

E existe evidência material excelente para Moabe. A Estela de Mesa, ou Pedra Moabita, encontrada em 1868 em Dhiban, na Jordânia, é uma inscrição do século 9 antes de Cristo na qual o rei Mesa de Moabe descreve suas vitórias sobre Israel e cita o nome de Yahweh e a casa de Omri. É um dos documentos epigráficos mais valiosos para o estudo daquele período e está no Louvre.

O que a Jordânia guarda de bíblico

Muito, e em condições de visitação boas.

O Monte Nebo, de onde a narrativa diz que Moisés viu a terra prometida antes de morrer. Em dia claro, a vista alcança o vale do Jordão e chega até as colinas de Jerusalém.

Betânia além do Jordão, ou Al-Maghtas, patrimônio da UNESCO, identificada como local do batismo de Jesus por João, com restos de igrejas bizantinas e estruturas batismais.

Madaba, com o famoso mosaico do século 6 no chão da Igreja de São Jorge, que é o mapa mais antigo conhecido da Terra Santa, mostrando Jerusalém em detalhe. É uma peça que arqueólogos usam até hoje como referência.

Jerash, uma das cidades romanas mais bem preservadas fora da Itália, com o Oval Plaza, o cardo colunado e dois teatros.

Maqueronte, a fortaleza de Herodes onde a tradição situa a execução de João Batista.

E, claro, Petra, a capital dos nabateus esculpida em rocha rosada, patrimônio da UNESCO e uma das visitas mais impactantes que existem. Os nabateus vieram depois dos edomitas na região, e enriqueceram controlando trechos das rotas de caravana, incluindo a do incenso que subia de Sabá.

A Jordânia é, entre todos os destinos desta lista fora de Israel, o mais acessível e estruturado para turismo hoje, com boa rede hoteleira, estradas em ordem e o Jordan Pass, que combina visto e entradas de sítios.


O que essa lista de nomes na verdade ensina

Tem uma coisa que fica evidente quando se coloca os dez lado a lado, e não é geográfica.

Todos esses lugares estão numa faixa que vai do norte da África à Ásia Central, passando pelo Levante e pela Arábia. E essa faixa é o corredor pelo qual passavam todas as rotas comerciais que ligavam o Mediterrâneo à Índia e à África. Incenso do Iêmen, cedro do Líbano, marfim da Núbia, especiarias do oriente, grão do Egito.

Os textos bíblicos não descrevem um povo isolado num canto do mundo. Descrevem um povo pequeno morando exatamente no meio do cruzamento de tráfego mais movimentado da Antiguidade, cercado por impérios que passavam por ali para chegar um no outro. Isso explica a quantidade de invasões, deportações, alianças e negociações que aparecem nas narrativas.

E explica também por que os nomes mudaram tanto. Territórios de passagem trocam de dono com mais frequência que territórios isolados. Cada império que passou deixou uma camada de língua, religião e nomenclatura sobre a anterior.

Sobre visitar esses lugares hoje

Se alguém quiser montar um roteiro realista com base nessa lista, a situação atual divide os dez em grupos bem distintos.

Acessíveis e estruturados: Israel, com atenção ao momento; Jordânia; Turquia. Estes três formam o eixo clássico de viagem bíblica e concentram uma quantidade enorme dos locais mais citados nos textos.

Possíveis com preparação e operador especializado: Irã, Egito no que toca à fronteira núbia, e Iraque em partes, sempre com informação atualizada de segurança.

Fora de viabilidade no cenário atual: Síria, Líbia, Sudão e Iêmen, todos por conflito ou instabilidade grave. Muito do patrimônio desses quatro países está em risco real de perda, e parte já foi perdida.

Essa é uma constatação incômoda. Alguns dos lugares mais antigos da história humana estão hoje entre os menos visitáveis, e alguns sofreram nas últimas duas décadas danos maiores que em séculos anteriores.

Uma observação sobre precisão

Já disse no começo, mas vale repetir no fim porque é o ponto que mais gera discussão. Nenhuma dessas equivalências é matemática.

Canaã cobria também partes da atual Jordânia, do Líbano e da Síria. Arã ia além da Síria moderna. Cuxe cruzava a fronteira Egito-Sudão. Pute é objeto de debate legítimo entre especialistas. Ásia Menor não é a Turquia inteira, já que parte da Turquia está na Europa. Edom e Moabe eram dois reinos distintos, e havia também Amom no mesmo espaço hoje jordaniano.

Correspondências assim funcionam como orientação de leitura, para que quem lê os textos consiga localizar mentalmente o que está acontecendo num mapa contemporâneo. Servem bem para isso. Não servem como demarcação histórica precisa, e quem as apresenta como tal está simplificando demais.

O que é mais interessante, no fim, é notar que a maior parte desses nomes antigos não desapareceu por acidente. Foi substituída porque houve conquista, deslocamento de população, mudança de religião dominante ou decisão política deliberada, como no caso de Roma renomeando a Judeia ou do Irã pedindo o abandono de “Pérsia”. Nomes de lugares são registros de poder. Ler um mapa antigo ao lado de um mapa atual é ler, em resumo, quem venceu quem ao longo de três mil anos.

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