10 Lugares Imperdíveis Para Conhecer no Japão
Os 10 lugares imperdíveis do Japão explicados sem enrolação: Monte Fuji, Kyoto, Tóquio, Okinawa, Osaka, Nara, Hokkaido, Hiroshima, Takayama e Nikko, com o que ver em cada um, quando ir, quanto tempo ficar e como se locomover entre eles.

10 Lugares Imperdíveis Para Conhecer no Japão
O Japão tem um jeito estranho de organizar as prioridades de quem viaja. Você chega com uma lista, e em três dias essa lista já mudou. Aconteceu com quase todo mundo que eu conheço que foi para lá. A pessoa jura que vai passar sete dias em Tóquio e volta dizendo que o que ficou na memória foi um templo em Nikko debaixo de chuva, ou o cheiro de missô numa manhã fria em Takayama.
Então vale começar por um alerta prático: o Japão é maior do que parece no mapa. O arquipélago tem mais de 3.000 quilômetros de extensão de ponta a ponta. Okinawa fica em clima subtropical, com praia de água turquesa. Hokkaido, no extremo norte, recebe uma das maiores quantidades de neve do mundo em áreas habitadas. É o mesmo país. Não é a mesma viagem.
Abaixo, os dez destinos que aparecem em praticamente toda lista séria sobre o país, com o que realmente importa em cada um.
Klook.com1. Monte Fuji: o símbolo que quase todo mundo vê pela metade
O Fuji tem 3.776 metros e é o ponto mais alto do Japão. É um vulcão ativo, embora a última erupção registrada tenha sido em 1707, o chamado evento Hōei. Desde 2013 é Patrimônio Mundial da UNESCO, e o reconhecimento veio na categoria de sítio cultural, não natural. Isso diz muito: o Fuji é menos uma montanha e mais um objeto de devoção, arte e literatura há séculos.
A parte que ninguém conta: a montanha se esconde
Aqui vai o detalhe que estraga planos. O Fuji fica encoberto por nuvens boa parte do ano. Nos meses de verão, quando o clima é mais quente e úmido, a visibilidade é péssima. A ironia é cruel: julho e agosto são justamente a única temporada oficial de escalada, e são também os piores meses para ver a montanha de longe.
Os meses de melhor visibilidade são os frios e secos, de dezembro a fevereiro, com boas chances também em novembro e março. Manhãs bem cedo, logo depois do amanhecer, costumam ser o melhor momento. O ar está mais limpo e o vento ainda não trouxe umidade.
De onde olhar
A região dos Cinco Lagos do Fuji, o Fuji Five Lakes, é a base clássica. O Lago Kawaguchi é o mais acessível e o mais fotografado. Tem barco, teleférico, mirante e uma boa quantidade de hospedagem. O Lago Motosu é o que aparece na nota de 1.000 ienes, com base numa foto famosa de Koyo Okada.
Hakone é a outra base tradicional, com onsen, o lago Ashi e a região vulcânica de Owakudani. A vista do Fuji de Hakone é linda quando o dia colabora, mas é menos garantida que a dos lagos.
Existe ainda o ponto mais viral da internet japonesa nos últimos anos: o Chureito Pagoda, no Arakurayama Sengen Park, em Fujiyoshida. São quase 400 degraus até o pagode de cinco andares, e dali o Fuji aparece enquadrado com a torre na frente. Na temporada das cerejeiras é loucura de gente. Vá cedo mesmo.
Escalar ou não escalar
A temporada oficial vai de começo de julho até começo de setembro, dependendo da trilha. Fora dela, as cabanas fecham, as trilhas ficam sem apoio e as autoridades desaconselham fortemente a subida. A trilha Yoshida é a mais popular e a mais estruturada.
Desde 2024 foram criadas novas regras na trilha Yoshida, no lado de Yamanashi, incluindo taxa de entrada e limite diário de subidas, além de restrição de acesso noturno para quem não tem reserva em cabana. A medida foi uma resposta ao excesso de visitantes e aos acidentes causados por gente subindo despreparada de madrugada só para ver o nascer do sol. Se a ideia é escalar, verifique as regras do ano no site oficial da prefeitura antes de comprar qualquer coisa.
E uma opinião: escalar o Fuji não é uma experiência bonita. É cansativo, empoeirado, com fila em trecho de rocha e frio de verdade no topo mesmo em agosto. A vista da montanha é muito mais impressionante de fora dela.
2. Kyoto: mil anos de capital e uma multidão de visitantes
Kyoto foi a capital imperial do Japão de 794 até 1868. Sobreviveu relativamente intacta aos bombardeios da Segunda Guerra, e é por isso que hoje concentra dezessete bens listados como Patrimônio Mundial pela UNESCO sob o registro dos “Monumentos Históricos da Antiga Kyoto”.
São mais de 1.600 templos budistas e cerca de 400 santuários xintoístas. Ninguém vê tudo. Nem em um mês.
O que vale mesmo a fila
O Fushimi Inari Taisha é o santuário dos milhares de portões vermelhos, os torii, subindo o monte Inari. É gratuito e abre 24 horas. Isso é uma informação de ouro: se você chegar às sete da manhã ou depois das nove da noite, vai andar por trechos praticamente vazios. Durante o dia, é uma multidão nos primeiros 300 metros. Sobe uns vinte minutos e a maioria desaparece, porque a maior parte das pessoas fotografa e volta.
O Kiyomizu-dera tem uma varanda de madeira gigante suspensa na encosta, construída sem pregos na estrutura principal. A vista da cidade de lá é excelente, especialmente no fim de tarde. A caminhada até ele, pelas ruas Sannenzaka e Ninenzaka, é parte da experiência.
O Kinkaku-ji, o Pavilhão Dourado, é pequeno e a visita é curta. Você basicamente anda por um circuito, olha o pavilhão refletido no lago e sai. Ainda assim, é uma das imagens mais fortes do Japão. Reconstruído em 1955 depois de um incêndio criminoso em 1950, o que virou romance nas mãos de Yukio Mishima.
O Ginkaku-ji, o Pavilhão Prateado, nunca foi prateado. E o jardim dele, com o musgo e o jardim de areia, é mais interessante que o próprio prédio. Sai dele pelo Caminho do Filósofo, uma trilha ao lado de um canal que fica absurda na época das cerejeiras.
Arashiyama tem o famoso bosque de bambu. Aviso: o trecho principal é curto, talvez 500 metros, e vive cheio. Mas o bairro em volta compensa, com o templo Tenryu-ji, o parque dos macacos Iwatayama e a Ponte Togetsukyo.
Gion e a questão das gueixas
Gion é o distrito histórico de entretenimento, com casas de madeira, as machiya, e as ochaya, casas de chá onde as gueixas atendem. Em Kyoto, elas se chamam geiko, e as aprendizes são as maiko.
Aqui é onde muito visitante erra feio. Existe uma cultura de perseguir maiko na rua para fotografar. A prefeitura chegou a instalar placas proibindo fotos em vielas privadas de Gion, com multa prevista. Elas estão indo trabalhar. Não é fantasia. Não é figurante. Se vier uma, dá espaço e segue o seu caminho.
Quando ir a Kyoto
Cerejeiras normalmente entre fim de março e primeira semana de abril. Folhagem de outono no fim de novembro. Esses dois períodos são os mais bonitos e também os mais caros e cheios do ano. Se você tem flexibilidade, maio e começo de outubro entregam clima agradável com menos gente.
Quanto tempo? Três dias inteiros é o mínimo razoável. Cinco é bom.
3. Tóquio: não é uma cidade, são várias grudadas
A área metropolitana de Tóquio é a maior aglomeração urbana do mundo, com mais de 37 milhões de pessoas. A cidade não tem um único centro. Tem vários, cada um em volta de uma estação de trem gigante.
Entender isso muda a viagem. Você não “visita Tóquio”. Você visita bairros.
Shibuya
O cruzamento de Shibuya é aquele que aparece em todo filme, com centenas de pessoas atravessando em todas as direções ao mesmo tempo. Funciona porque todos os semáforos de carro fecham juntos. Para ver de cima, o Shibuya Sky, no topo do edifício Scramble Square, tem um mirante aberto a 230 metros. Vale reservar horário e mirar o pôr do sol.
Ali perto está a estátua de Hachiko, o cão que esperou o dono morto na estação por anos. É o ponto de encontro mais tradicional da cidade.
Shinjuku
A estação de Shinjuku é a mais movimentada do planeta, com mais de 3 milhões de passageiros por dia e mais de 200 saídas. Você vai se perder. Todo mundo se perde.
Do lado oeste ficam os arranha-céus e o Edifício do Governo Metropolitano, que tem observatório gratuito. Do lado leste, Kabukicho, o distrito de vida noturna, e o Omoide Yokocho, um beco de barzinhos minúsculos com yakitori na grelha e fumaça no ar. Golden Gai é outro conjunto de becos com bares de seis lugares cada. Alguns cobram taxa de entrada. Nem todos aceitam estrangeiros, o que incomoda, mas é a realidade.
O Parque Shinjuku Gyoen é uma das melhores áreas verdes da cidade, com jardim japonês, francês e inglês. Cobra entrada barata e é um alívio depois do caos.
Asakusa e o lado antigo
O Senso-ji é o templo budista mais antigo de Tóquio, com fundação atribuída ao ano 645. A entrada é pelo portão Kaminarimon, com a lanterna vermelha enorme. Depois vem a rua Nakamise, com lojas de lembrança e comida de rua. É turístico, sim. Mas é bonito de noite, quando as lojas fecham e o templo fica iluminado e quase vazio.
De Asakusa você já vê a Tokyo Skytree, com 634 metros, a torre mais alta do Japão e uma das mais altas do mundo.
Outros pedaços que valem
Akihabara para eletrônicos, anime, mangá e fliperamas de vários andares. Harajuku e a rua Takeshita para moda jovem, com o Santuário Meiji ao lado, cercado por uma floresta de 100 mil árvores plantadas por doação. Ginza para compras caras e arquitetura. Yanaka para andar por um bairro que sobrou de outra época, com casas baixas e cemitério arborizado. Toyosu, para onde o mercado de peixe se mudou em 2018, com o leilão de atum visível de uma plataforma. E Tsukiji, onde o mercado externo continua funcionando com barracas de comida, mesmo depois da mudança do atacado.
Tóquio pede pelo menos quatro dias. Cinco a seis se você gosta de cidade.
4. Okinawa: o Japão que não parece Japão
Okinawa é um arquipélago no extremo sul, mais perto de Taipei que de Tóquio. Até 1879 foi o Reino de Ryukyu, um estado independente com língua, música, arquitetura e culinária próprias. Depois da Segunda Guerra ficou sob administração dos Estados Unidos e só voltou ao Japão em 1972. Ainda hoje concentra a maior parte das bases militares americanas no país.
Tudo isso se sente. A comida é diferente, com goya, carne de porco em muitas formas, o macarrão soba de Okinawa que não leva trigo sarraceno, e o awamori, destilado local feito de arroz longo tailandês.
Praias e mar
A água é genuinamente turquesa e há recifes de coral vivos. O mergulho é dos melhores da Ásia. As Ilhas Yaeyama, com Ishigaki e Iriomote, e o grupo de Miyako, têm as praias mais impressionantes. A Ponte Irabu, em Miyako, com quase 3,5 quilômetros, é uma das mais longas gratuitas do Japão e a travessia é linda.
Na ilha principal, o Aquário Churaumi de Okinawa é um dos maiores do mundo e mantém tubarões-baleia em exibição num tanque enorme. Vale mesmo, e não é só para quem tem criança.
História pesada
Okinawa foi palco de uma das batalhas mais sangrentas do Pacífico, em 1945, com mais de 100 mil mortes de civis locais. O Parque Memorial da Paz, em Itoman, e as galerias subterrâneas do antigo quartel da Marinha japonesa contam isso sem enfeite. É uma visita dura e importante.
O Castelo Shuri, em Naha, sede dos reis Ryukyu, sofreu um incêndio devastador em 2019 que destruiu o pavilhão principal. A reconstrução está em andamento e é possível visitar o sítio e acompanhar as obras, o que por si só tem seu interesse.
Quando ir: abril a junho e outubro a novembro. Julho e agosto são quentes, caros e coincidem com temporada de tufões, que vai mais ou menos de maio a outubro, com pico em agosto e setembro.
5. Osaka: a cidade que come
Osaka tem uma reputação clara dentro do Japão: é onde as pessoas são mais diretas, falam mais alto, riem mais fácil e comem melhor. Existe até uma expressão local, kuidaore, que significa mais ou menos “comer até falir”.
O que provar
Takoyaki, as bolinhas de massa com polvo dentro, servidas escaldantes. Espere um pouco antes da primeira mordida, sério.
Okonomiyaki, uma panqueca salgada de repolho com carne, frutos do mar ou queijo, grelhada na chapa e coberta com molho, maionese e katsuobushi. A versão de Osaka mistura tudo na massa. A de Hiroshima monta em camadas com yakisoba. São escolas diferentes e as duas cidades brigam por isso.
Kushikatsu, espetinhos empanados e fritos, típicos do bairro Shinsekai. Regra sagrada: mergulhar no molho comum uma vez só. Nada de segundo mergulho.
Onde andar
Dotonbori é o canal com os letreiros gigantes, incluindo o famoso corredor da Glico. De noite é um espetáculo de luz e barulho. Shinsekai é mais retrô, com a Torre Tsutenkaku no meio. Kuromon Ichiba é o mercado coberto onde você come caminhando.
O Castelo de Osaka, originalmente construído por Toyotomi Hideyoshi no fim do século XVI, é uma reconstrução de concreto de 1931, com museu dentro e elevador. Os fundamentos e as muralhas de pedra originais, no entanto, são impressionantes de verdade.
Osaka também funciona muito bem como base. Kyoto fica a menos de trinta minutos de trem. Nara, cerca de quarenta. Kobe, meia hora. Muita gente dorme em Osaka porque sai mais barato e a comida é melhor, e usa o trem para o resto.
Klook.com6. Nara: cervos, um Buda gigante e a capital esquecida
Antes de Kyoto, a capital foi Nara, entre 710 e 784. É de lá que vem uma das construções mais impressionantes do país.
O Todai-ji abriga o Daibutsu, uma estátua de bronze do Buda Vairocana com cerca de 15 metros de altura. O salão que a guarda, o Daibutsuden, é um dos maiores prédios de madeira do mundo, e o atual, de 1709, é menor que o original. Dentro dele há um pilar com um buraco na base do tamanho da narina da estátua. Dizem que quem passa por ele conquista a iluminação. Crianças passam rindo, adultos passam com dificuldade.
Os cervos
O Parque de Nara tem mais de mil cervos-sika soltos. Eles são considerados mensageiros divinos no xintoísmo local e por séculos foram protegidos. Aprenderam a se curvar quando querem biscoito, o que é engraçado nos primeiros dez segundos e depois vira uma negociação.
Aviso real: eles mordem, empurram e roubam. Papel, mapa, sacola, tudo vira comida. Compre só os biscoitos oficiais, os shika senbei, vendidos por ali. Não guarde no bolso. E se você tem criança pequena, segure firme, porque um cervo adulto tem força.
Perto dali, o Kasuga Taisha é um santuário com centenas de lanternas de pedra alinhadas na floresta. Se der para ir no fim da tarde, vá.
Nara se faz em um dia inteiro tranquilamente, saindo de Osaka ou Kyoto.
7. Hokkaido: a ilha grande onde o Japão respira
Hokkaido é a ilha mais ao norte e ocupa mais de 20% do território do país, com menos de 5% da população. A colonização em larga escala é recente, do fim do século XIX, e isso explica a arquitetura diferente, as fazendas, o urbanismo em grade de Sapporo. É a terra original do povo Ainu, cuja cultura foi historicamente reprimida e só em 2019 recebeu reconhecimento oficial como povo indígena do Japão.
Inverno
Hokkaido recebe uma neve seca e leve que faz dela um dos melhores destinos de esqui do planeta. Niseko é a estação mais internacional, com muita gente da Austrália e do sudeste asiático. Furano e Rusutsu são alternativas com menos fila.
O Festival da Neve de Sapporo, em fevereiro, monta esculturas de gelo e neve em escala gigante no Parque Odori e atrai milhões de visitantes. Em Otaru, o festival de lanternas de neve acontece por volta da mesma época e é bem mais intimista.
Verão
De meados de julho a começo de agosto, os campos de lavanda de Furano e Biei ficam roxos até o horizonte, com o mais famoso deles na Farm Tomita. Nessa mesma época, enquanto o resto do Japão derrete de calor e umidade, Hokkaido fica agradável. É um dos segredos mal guardados do verão japonês.
O Parque Nacional Daisetsuzan é o maior do país, com trilhas sérias e vulcões. Shiretoko, no leste, é Patrimônio Mundial pela biodiversidade, com ursos-pardos de verdade, população significativa. Lago Mashu e Lago Akan têm águas de cor estranha de tão limpas.
Comida
Hokkaido é a melhor região do Japão para frutos do mar. Caranguejo, ouriço, ovas de salmão, vieiras. O mercado Nijo, em Sapporo, e o Hakodate Morning Market servem tigelas de arroz cobertas com isso tudo no café da manhã, e faz sentido. O ramen também tem escolas locais: miso em Sapporo, shio em Hakodate, shoyu em Asahikawa. E os lácteos são excelentes, coisa rara no Japão.
Hokkaido não é destino de bate e volta. Reserve pelo menos quatro a cinco dias, e prefira alugar carro no verão. O transporte público entre as áreas rurais é escasso.
8. Hiroshima: memória sem espetáculo
Em 6 de agosto de 1945, às 8h15, uma bomba atômica foi lançada sobre Hiroshima. As estimativas de mortes até o fim daquele ano variam, mas passam de 140 mil pessoas, considerando os efeitos da radiação.
O Parque Memorial da Paz foi construído sobre o antigo bairro comercial que ficava próximo ao hipocentro. O Genbaku Dome, a cúpula do antigo Salão de Promoção Industrial, foi mantido em ruínas exatamente como ficou. É Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1996.
O Museu Memorial da Paz é a parte mais difícil. Tem objetos pessoais, relatos, fotografias e reconstituições. Não é sensacionalista, é o oposto: é sóbrio a ponto de ser devastador. Leve tempo. Reserve umas duas horas e não marque nada emocionalmente exigente depois.
Perto do parque há o Monumento à Paz das Crianças, cercado de milhares de tsurus de papel enviados do mundo inteiro, em memória de Sadako Sasaki, menina que morreu de leucemia em 1955 e dobrava tsurus acreditando na lenda de que mil deles trariam um desejo.
Miyajima, do outro lado da baía
A meia hora de Hiroshima, entre trem e barca, está a ilha de Itsukushima, conhecida como Miyajima. O Santuário Itsukushima tem o torii vermelho plantado dentro do mar, uma das imagens mais reproduzidas do Japão. Na maré alta ele parece flutuar. Na maré baixa você caminha até a base dele. Consulte a tabela de marés antes de ir, muda completamente a experiência.
A ilha tem cervos também, mais tranquilos que os de Nara, e o Monte Misen, com teleférico e trilhas. A especialidade local é a ostra grelhada e o momiji manju, um bolinho em forma de folha de bordo.
E, olha, é comum juntar Hiroshima com Miyajima em um único dia. Dá, mas fica corrido. Se puder dormir na ilha, a noite lá sem os visitantes de bate e volta é outra coisa.
9. Takayama: madeira, saquê e montanha
Takayama fica na província de Gifu, no meio dos Alpes Japoneses. Ficou isolada por muito tempo, e esse isolamento preservou um centro histórico de casas de madeira dos períodos Edo e Meiji.
A área de Sanmachi Suji tem três ruas estreitas com casas de comerciante, lojas antigas e destilarias de saquê. Você reconhece as destilarias por uma bola de folhas de cedro pendurada na entrada, o sugidama. Muitas oferecem degustação por um valor simbólico. A água da região é excelente e isso aparece no saquê.
O Takayama Jinya é o único escritório de governo do período Edo que sobrou no Japão inteiro. Vale a visita: tem sala de audiências, depósito de arroz e, sem eufemismo, uma sala de interrogatório com instrumentos de tortura expostos.
Os festivais de Takayama, em abril e outubro, envolvem carros alegóricos elaborados, os yatai, alguns com bonecos mecânicos do século XVIII. Estão na lista de Patrimônio Cultural Imaterial da UNESCO. Se coincidir com sua viagem, a cidade lota, mas é o tipo de coisa que se vê uma vez na vida.
A carne e a vizinhança
O Hida-gyu é a carne bovina da região, do mesmo padrão de qualidade do wagyu de renome. Tem em espetinho na rua, em sushi de nigiri e em restaurante formal. O espetinho de rua é a melhor relação custo-benefício.
De Takayama, dois passeios se impõem. Shirakawa-go fica a cerca de cinquenta minutos de ônibus e é Patrimônio Mundial: um vilarejo de casas com telhado de palha em ângulo agudo, o estilo gassho-zukuri, feito para suportar neve pesada. No inverno, com iluminação noturna em datas específicas, é irreal. Mas exige reserva com muita antecedência.
Kamikochi, no Parque Nacional Chubu-Sangaku, é um vale alpino aberto de meados de abril a meados de novembro, com rio de água transparente e montanhas de mais de 3.000 metros. Carro particular não entra, só ônibus. A trilha até a Ponte Kappa é fácil e recompensa demais.
10. Nikko: floresta, laca dourada e cachoeira
Nikko fica na província de Tochigi, umas duas horas ao norte de Tóquio. É o contraponto perfeito à cidade, e dá para fazer em bate e volta, embora dormir uma noite renda muito mais.
O conjunto de templos e santuários de Nikko é Patrimônio Mundial desde 1999. O centro dele é o Toshogu, mausoléu de Tokugawa Ieyasu, o xogum que unificou o Japão e fundou a dinastia que governou por mais de 250 anos.
O Toshogu contraria tudo que se espera da estética japonesa de contenção. É exuberante, dourado, coberto de entalhes coloridos, com mais de 5.000 esculturas. Duas delas são célebres: os três macacos sábios, o que não vê, não ouve e não fala, e o gato adormecido, o Nemuri-neko. O portão Yomeimon é tão detalhado que ganhou o apelido de “portão do dia inteiro”, porque as pessoas ficavam paradas olhando até anoitecer.
Perto dele, o Rinno-ji e o Futarasan-jinja completam o conjunto. A caminhada entre eles atravessa uma floresta de cedros gigantes que faz metade do efeito.
Subindo a serra
A estrada de Irohazaka sobe a montanha com quase trinta curvas fechadas, cada uma nomeada com uma sílaba de um poema silábico antigo. É via de mão única no sentido da subida, com outra pista para descida. No outono, é um dos pontos mais fotografados do Japão.
Lá em cima está o Lago Chuzenji, formado por uma erupção do Monte Nantai, e a Cachoeira Kegon, com 97 metros de queda, uma das três mais famosas do país. Um elevador leva a uma plataforma na base. No inverno ela congela parcialmente.
A área de Senjogahara é um pantanal de altitude com passarelas de madeira e caminhada fácil de algumas horas. E Yumoto Onsen, no fim da estrada, tem águas sulfurosas e bem menos gente.
O outono em Nikko, geralmente de meados de outubro a começo de novembro nas partes altas, é espetacular. Também é quando o trânsito na Irohazaka trava. Saia de Tóquio no primeiro trem.
Como encaixar tudo isso numa viagem só
A resposta prática: não encaixa. Esses dez destinos, bem feitos, pedem umas três semanas. Quem tem dez ou doze dias precisa escolher.
Roteiros que funcionam
Para uma primeira viagem de dez a doze dias, o caminho mais eficiente é Tóquio, com bate e volta a Nikko ou aos lagos do Fuji, depois trem-bala para Kyoto, usando Nara como um dia extra, e Osaka como base final, com Hiroshima e Miyajima em um ou dois dias. Isso cobre sete dos dez, com deslocamentos curtos e boa densidade de coisas para ver.
Hokkaido, Okinawa e Takayama pedem desvios. Takayama é o mais fácil de emendar: entra bem entre Tóquio e Kyoto, via Nagoya ou Toyama, e quebra o ritmo urbano de um jeito muito bem-vindo. Hokkaido e Okinawa quase sempre exigem voo doméstico e três a quatro dias cada. São ótimos, mas geralmente ficam para a segunda viagem.
Transporte
O Japan Rail Pass cobre a maior parte da rede JR, incluindo shinkansen, com exceção dos trens Nozomi e Mizuho, os mais rápidos, que só podem ser usados pagando uma taxa adicional desde a mudança de regras de 2023. Naquele ano o preço do passe subiu de forma significativa, e por isso ele deixou de valer a pena automaticamente. Vale fazer a conta: some os trechos avulsos no site da Japan Rail e compare. Para um roteiro Tóquio, Kyoto, Hiroshima e volta, ainda costuma compensar. Para roteiros mais curtos ou concentrados, quase nunca.
Existem também passes regionais, como o JR East, o JR West Kansai, o Hokkaido Rail Pass e o Hokuriku Arch Pass. Esses continuam bem vantajosos.
Nas cidades, use um cartão IC recarregável, o Suica, Pasmo ou Icoca. Funcionam em metrô, ônibus, máquinas de venda e lojas de conveniência. Houve uma limitação na venda de cartões físicos comuns em algumas regiões por causa de escassez de chips, mas versões para visitante e versões digitais no celular resolvem.
Dinheiro e conectividade
O Japão avançou muito em pagamento por cartão, mas ainda há templos, mercados pequenos, restaurantes de bairro e ônibus rurais que só aceitam dinheiro vivo. Ande com ienes em espécie. Os caixas eletrônicos das lojas 7-Eleven e das agências dos Correios aceitam cartões estrangeiros de forma confiável.
Alugue um pocket wifi ou use um eSIM. Wi-fi público existe, mas é irregular, e você vai depender de mapa e horário de trem no celular o tempo todo.
Etiqueta que evita constrangimento
Não se come andando na rua na maior parte do Japão, exceto em áreas de comida de rua como Nakamise ou Kuromon. Não se fala alto no trem, e ligação telefônica no vagão é malvista. Tire os sapatos onde houver degrau na entrada e chinelos disponíveis. Não deixe gorjeta, causa confusão. Em onsen, você entra sem roupa, lava o corpo antes na ducha sentada e não põe a toalha na água. Tatuagens ainda são barradas em vários estabelecimentos, embora isso esteja mudando aos poucos, e existem casas que aceitam ou fornecem adesivos de cobertura.
Quando ir, resumindo o essencial
Cerejeiras: fim de março a início de abril no centro do país, mais tarde ao norte, mais cedo ao sul. Outono colorido: novembro no centro e sul, outubro nas montanhas e em Hokkaido. Evite a Golden Week, no começo de maio, o Obon, em meados de agosto, e o Ano Novo, quando os japoneses viajam em massa e tudo fica caro e cheio. Verão é quente e úmido de um jeito difícil de explicar para quem não sentiu, com risco de tufão. Inverno é seco e ensolarado no lado do Pacífico, e nevado do lado do Mar do Japão.
Um último pensamento
O que impressiona no Japão não é nenhum dos dez lugares acima isoladamente. É a distância entre eles. Você toma um trem que parte no segundo exato, cruza arrozal, cidade, túnel de montanha, e desce num vilarejo de casas de madeira onde alguém está fervendo água para o chá. Duas horas antes você estava numa estação com três milhões de pessoas por dia.
Essa amplitude é a coisa mais interessante de lá. E é por isso que quase todo mundo que vai uma vez começa, no voo de volta, a planejar a segunda.
