Como Explorar a Região de Asakusa em Tóquio

Guia prático de Asakusa, em Tóquio: como visitar o templo Senso-ji, o que comer na Nakamise-dori, quando ir para fugir da multidão, passeio de riquixá, cruzeiro pelo rio Sumida, aluguel de quimono, cerimônia do chá e como emendar com a Tokyo Skytree.

Guia prático de Asakusa, em Tóquio: como visitar o templo Senso-ji, o que comer na Nakamise-dori, quando ir para fugir da multidão, passeio de riquixá

Como Explorar a Região de Asakusa em Tóquio

Asakusa é o bairro onde Tóquio parece mais antiga do que ela realmente é hoje. E digo “parece” com intenção, porque quase nada ali é original. O bairro foi arrasado duas vezes no século XX: no grande terremoto de Kanto, em 1923, e nos bombardeios incendiários de março de 1945, que devastaram a região leste da cidade. O que se vê hoje é reconstrução. Mas reconstrução feita com um cuidado obsessivo em manter a forma, o traçado das ruas, a proporção dos telhados e o ritmo de vida.

O resultado é curioso. Você anda por Asakusa e sente uma coisa que não sente em Shibuya ou em Shinjuku: as pessoas caminham mais devagar. Tem gente sentada em banco. Tem idoso com carrinho de compras. Tem loja de família na quarta geração vendendo a mesma escova de arroz.

Vale entender o mapa mental antes de começar, porque Asakusa é pequena e caminhável, mas fácil de fazer errado. Praticamente tudo gira em torno de um eixo: o portão Kaminarimon, a rua Nakamise, o templo Senso-ji e, atrás dele, o santuário Asakusa. A leste, a três minutos, o rio Sumida. Do outro lado do rio, a Tokyo Skytree. É isso. Cabe numa tarde, mas rende dois dias se você quiser.

Klook.com

O Senso-ji: o templo mais antigo de Tóquio

O Senso-ji é o coração de tudo. A lenda de fundação é de 628, quando dois irmãos pescadores, Hinokuma Hamanari e Hinokuma Takenari, teriam encontrado uma pequena estátua de Kannon, a divindade budista da compaixão, presa na rede no rio Sumida. O chefe da aldeia, Hajino Nakamoto, converteu a própria casa em templo para abrigá-la. A construção formal do templo é datada de 645.

A tal estátua nunca é exibida ao público. Ela está guardada no santuário interno, e mesmo os monges não a veem. Existe até um debate antigo sobre se ela realmente existe. O templo mantém uma cópia cerimonial que também não é mostrada. Achei isso uma das coisas mais interessantes sobre o lugar: o objeto central da devoção de milhões de pessoas por ano é, literalmente, invisível.

O portão Kaminarimon e a lanterna que todo mundo fotografa

A entrada oficial é pelo Kaminarimon, o Portão do Trovão. A lanterna vermelha gigante pendurada nele tem cerca de 3,9 metros de altura e pesa em torno de 700 quilos. É trocada periodicamente, e a manutenção é bancada há décadas pela Panasonic, cujo fundador, Konosuke Matsushita, fez a doação original em 1960 depois de atribuir a recuperação de uma doença grave a uma oração no templo. O nome dele está escrito na base da lanterna, se você olhar de baixo.

De cada lado do portão há duas estátuas: Fujin, o deus do vento, e Raijin, o deus do trovão. São eles que dão nome ao portão. A maioria das pessoas passa correndo por ali de tanto se concentrar na lanterna, o que é uma pena, porque as esculturas são impressionantes.

Detalhe prático: a foto na frente da lanterna é o maior gargalo de Asakusa. Em horário de pico, existe uma fila informal, e turistas ficam parados no meio do fluxo. Se você quer essa foto sem gente atrás, precisa estar ali antes das sete da manhã. Não tem outro jeito.

Nakamise-dori: a rua de compras mais antiga do Japão

Passando o Kaminarimon, você entra na Nakamise-dori. São cerca de 250 metros de rua reta, com aproximadamente 90 lojas dos dois lados, levando direto ao segundo portão.

A história aqui é ótima. No fim do século XVII, o governo do xogunato permitiu que moradores da vizinhança abrissem barracas na aproximação do templo, em troca da responsabilidade de limpar e manter o local. Ou seja, a Nakamise nasceu de um acordo de manutenção. É considerada uma das ruas comerciais mais antigas em funcionamento contínuo no país.

O que vende ali: leques, sandálias geta, yukatas, panos furoshiki, chaveiros, bonecas, espadas de brinquedo, camisetas, e muita comida.

Uma observação sincera: a Nakamise é turística de forma escancarada, e boa parte das lembrancinhas é genérica. Mas há lojas antigas de verdade misturadas no meio, especialmente as de artigos de papel, pentes de madeira, hashis artesanais e doces tradicionais. Vale entrar em duas ou três em vez de olhar todas de fora.

E uma regra de etiqueta que muita gente ignora: comer andando na Nakamise é malvisto, e algumas lojas colocam placa pedindo para você consumir ali na frente do balcão. Existe risco real de sujar o quimono alugado de outra pessoa com molho de takoyaki. Coma parado.

Hozomon, o pagode e o salão principal

O segundo portão é o Hozomon, maior que o Kaminarimon, com duas estátuas guardiãs Nio e, na parte de trás, duas sandálias de palha gigantes, os waraji, com mais de 4 metros. Elas são oferendas, trocadas de tempo em tempo por artesãos da província de Yamagata, e simbolizam a força que afasta o mal. Quase ninguém olha para trás e vê isso. Olhe.

À esquerda está o pagode de cinco andares, com pouco mais de 50 metros. O original era do século X, o atual é de 1973. Iluminado à noite, é uma das imagens mais bonitas do bairro.

O salão principal, o Kannon-do, foi reconstruído em 1958 em concreto armado, com telhado de telhas de titânio instaladas numa reforma concluída em 2010, o que reduziu drasticamente o peso da cobertura por questão sísmica. Detalhe curioso e bem pouco romântico, mas explica por que o templo aguenta terremoto.

Dentro, olhe para cima. O teto tem pinturas de dragão e de celestiais espalhando flores de lótus, feitas por artistas do século XX. Muita gente fotografa o altar e não vê o teto.

Como se comportar no templo (o básico que resolve)

Antes de entrar, tem um grande incensário, o jokoro, com fumaça saindo. A prática é puxar a fumaça com a mão em direção ao corpo, especialmente para a cabeça e para partes doloridas. É considerada purificação. Não é obrigatório e ninguém julga se você não fizer.

Tem também a bacia de água, o chozuya, para lavar as mãos. Pega a concha com a direita, lava a esquerda, troca, lava a direita, coloca um pouco de água na mão esquerda para enxaguar a boca, cospe ao lado, não de volta na bacia. Nunca beba direto da concha.

No salão, você joga uma moeda na caixa de oferendas, junta as mãos e faz uma prece em silêncio. No templo budista não se batem palmas. Isso é no santuário xintoísta. É uma confusão comum e vale saber a diferença, porque os dois estão praticamente colados em Asakusa.

Omikuji: a sorte escrita no papel

Perto do salão principal há caixas de metal com hastes numeradas. Você deposita uma moeda de 100 ienes, agita a caixa, tira uma haste, lê o número e pega o papel na gaveta correspondente.

O Senso-ji tem fama de ser um dos templos mais duros do Japão nesse quesito. A proporção de resultados ruins ali é notoriamente alta, algo em torno de 30% de daikyo, o “grande azar”, contra uma média muito menor em outros lugares. O motivo é que o templo mantém a distribuição tradicional em vez de suavizar para agradar visitante.

Se der azar, não é problema. Você dobra o papel e amarra numa das barras de metal ao lado, deixando a má sorte ali. Se der sorte, leva com você.

E os omamori, os amuletos vendidos no balcão, são específicos: um para saúde, um para estudos, um para trânsito, um para parto. Não é para colecionar. A tradição diz que se devolve o amuleto ao templo depois de um ano.


O Santuário Asakusa: o vizinho que quase ninguém visita

Do lado direito do salão principal, atrás de um portão, está o Asakusa-jinja, também chamado de Sanja-sama. É xintoísta, não budista, e é dedicado exatamente às três pessoas da lenda de fundação: os dois pescadores e o chefe da aldeia.

Aqui está uma informação que muda a percepção do lugar: o Asakusa-jinja é uma das poucas construções da região que sobreviveu de verdade. Foi erguido em 1649, por ordem do xogum Tokugawa Iemitsu, e atravessou o terremoto de 1923 e os bombardeios de 1945. É Bem Cultural Importante do Japão. Ou seja, você está olhando madeira do século XVII no meio de um bairro reconstruído.

É calmo, muito menos movimentado, e o contraste de energia com o pátio principal é imediato. Se Asakusa te cansar, entre ali. É o único lugar do complexo onde dá para ficar sentado em paz num sábado de tarde.

O Sanja Matsuri, se você tiver a sorte de coincidir

O festival do santuário, o Sanja Matsuri, acontece no terceiro fim de semana de maio e é um dos três maiores de Tóquio. Estima-se que reúna cerca de um milhão e meio de pessoas em três dias. Cerca de cem mikoshi, os santuários portáteis, são carregados pelas ruas por grupos de bairro, aos gritos, aos empurrões, com gente subindo em cima.

É barulhento, apertado, suado e uma das coisas mais impressionantes de se ver no Japão. Também é quando historicamente aparecem membros de organizações criminosas exibindo tatuagens de corpo inteiro, algo que a polícia tenta coibir e que a imprensa japonesa cobre todo ano. Se você for, vá cedo, guarde os pertences com cuidado e aceite que não vai andar rápido.


Riquixá: vale o preço?

Os jinrikisha, os riquixás puxados por pessoas, ficam concentrados perto do Kaminarimon. Os condutores usam uniforme tradicional, e boa parte deles fala inglês razoável, alguns até em outros idiomas.

Os valores giram em torno de 4.000 a 5.000 ienes por pessoa para um trajeto curto de dez minutos, subindo bastante para roteiros de meia hora ou uma hora. Não é barato.

Minha opinião: para um trajeto de dez minutos, é dinheiro jogado fora. Para um de trinta minutos ou mais, muda de figura. O condutor não está só puxando o carrinho, ele está guiando. Ele leva você por vielas nos fundos, aponta prédios que sobraram da guerra, explica a história do bairro do entretenimento, mostra a antiga área do Rokku. São ruas que você não acharia sozinho porque parecem só ruas residenciais.

Se for fazer, negocie antes o tempo e o valor, e pergunte se o condutor fala inglês, porque metade do valor está na narração. Combine também se inclui fotos, porque eles costumam parar em pontos boas e fotografar você com seu celular.

Klook.com

A comida de Asakusa: o que realmente vale a fome

Asakusa é um dos melhores bairros de Tóquio para comer coisa tradicional, e isso não é marketing. Há uma concentração incomum de restaurantes centenários.

Doces e comida de rua

Ningyo-yaki são bolinhos de massa doce com pasta de feijão azuki dentro, assados em formas de metal com desenhos, geralmente figuras ligadas ao templo, como a lanterna, o pagode e os deuses do trovão. Compre quentes, saindo da forma. Frios, perdem metade da graça.

Senbei são biscoitos de arroz grelhados na hora, pincelados com shoyu. O barulho e o cheiro dominam parte da Nakamise. Existem versões com nori, com pimenta, com gergelim.

Melonpan é um pão doce com casquinha craquelada, e o de Asakusa virou fenômeno por causa da loja Kagetsudo, que assa em fornadas e forma fila. Não tem melão na receita, o nome vem do formato e do padrão da casca. Existe a versão com sorvete no meio, que é excessiva e delicioso ao mesmo tempo.

Kibi dango são bolinhos de painço servidos em espetinho com kinako, farinha de soja torrada. Tem uma barraca tradicional dentro do complexo do templo que vende isso com chá gelado no verão. É simples e muito bom.

Age-manju são bolinhos de feijão fritos, uma especialidade local que soa estranha e funciona. E imo-yokan, doce de batata-doce em barra, é a lembrança que os próprios japoneses levam de Asakusa.

Os restaurantes de verdade

Tempura é a especialidade histórica do bairro. Casas como Daikokuya, aberta em 1887, servem tendon, uma tigela de arroz com tempura mergulhada em molho escuro e adocicado. A fila é longa no almoço de fim de semana. Vá às 11h na abertura ou depois das 14h.

Unagi, a enguia grelhada com molho kabayaki, é outra tradição forte. É caro, geralmente de 3.000 a 6.000 ienes o prato, e vale a experiência pelo menos uma vez. A enguia japonesa é espécie ameaçada, o que é um ponto ético legítimo a considerar.

Sukiyaki e shabu-shabu têm casas históricas na região, algumas de mais de cem anos, com salas de tatame e serviço tradicional. Reserve.

Monjayaki é o prato que mais divide opiniões. É parecido com o okonomiyaki, mas muito mais líquido, quase uma pasta que você cozinha na chapa e come raspando com espatulinhas pequenas direto do metal. A aparência é péssima, sejamos francos. O sabor é bom. É especialidade da região leste de Tóquio, e o bairro de Tsukishima é o templo do monja, mas Asakusa tem casas boas.

E tem a Hoppy Street, oficialmente Asakusa Kokusai-dori, uma rua com mesas na calçada e dezenas de izakayas baratas. Hoppy é uma bebida à base de malte com quase nenhum álcool, que se mistura com shochu. Era bebida de trabalhador no pós-guerra, quando cerveja era caríssima. Hoje é nostalgia. As porções ali são de comida de bar: motsuni, ensopado de miúdos, nikomi, gyoza. É barato, é bagunçado, é ótimo no fim de tarde.


O rio Sumida: a metade de Asakusa que as pessoas esquecem

Sai do templo, anda uns cinco minutos para leste e você chega no rio. Muita gente faz Asakusa só no eixo templo e Nakamise e vai embora. Erro.

Caminhar pela margem

O Sumida Park se estende pelas duas margens e é um dos pontos clássicos de cerejeiras em Tóquio, com centenas de árvores. A tradição de ver flores ali começa no período Edo, incentivada pelo próprio xogunato, que plantou cerejeiras na margem para atrair o público. Na temporada, geralmente entre o fim de março e o início de abril, o lugar fica cheio de gente sentada em lona azul fazendo hanami.

Fora da temporada, continua sendo o melhor lugar do bairro para ver a Tokyo Skytree, com 634 metros, ao lado da Ponte Azumabashi, vermelha, no primeiro plano. É o enquadramento em que o Japão antigo e o novo aparecem na mesma foto.

A Chama Dourada e o prédio esquisito

Do outro lado da Azumabashi está a sede da Asahi Beer, com dois prédios que são um caso à parte da arquitetura de Tóquio. Um é dourado, com faixa branca no topo, imitando um copo de cerveja com espuma. O outro, o Super Dry Hall, tem no topo uma escultura dourada e alongada projetada por Philippe Starck, inaugurada em 1989.

A intenção era representar uma chama, o espírito ardente da empresa. O apelado popular em Tóquio é bem menos elegante, e envolve a palavra japonesa para excremento. Os moradores nunca deixaram isso passar. Eu acho a coisa mais divertida do bairro, justamente pela ousadia de errar tão bonito.

Tem restaurante e bar no prédio, com vista para o rio, e o Asahi Beer Hall é um bom lugar para uma cerveja com panorama.

Cruzeiro pelo rio

Os barcos da Tokyo Cruise partem do terminal em Asakusa, ao lado da ponte. As rotas mais usadas vão até Hama-rikyu, um jardim histórico com lago de água salgada ligado à baía, e até Odaiba, a ilha artificial com shoppings e vista da Rainbow Bridge.

A viagem passa por uma sequência de pontes, cada uma de cor e desenho diferentes, e o guia gravado explica sobre elas. Dura entre 40 minutos e uma hora, dependendo do destino.

Existe também o Himiko e o Hotaluna, embarcações futuristas desenhadas por Leiji Matsumoto, autor de mangás clássicos. Parecem naves. Crianças amam. Os horários são mais restritos e vale checar no site antes.

Uma dica que salva tempo: use o barco como transporte real, não como passeio isolado. Faça Asakusa de manhã, pegue o barco no meio da tarde até Hama-rikyu, ande pelo jardim e termine o dia em Ginza, que fica a poucos minutos a pé de lá. O trajeto rende mais assim.


O mirante gratuito que quase ninguém usa

Em frente ao Kaminarimon, do outro lado da avenida, tem um prédio moderno de madeira em camadas, projetado por Kengo Kuma, o mesmo arquiteto do Estádio Nacional de Tóquio. É o Centro de Informação Turística e Cultural de Asakusa.

No oitavo andar existe um terraço com vista aberta. Você vê a Nakamise-dori em linha reta terminando no templo, e a Skytree ao lado. E é de graça.

Tem elevador. Tem banheiro. Tem café. Tem wi-fi. E tem gente do turismo que fala inglês e entrega mapa bom em papel. É, para mim, a melhor relação custo-benefício do bairro inteiro. E ainda assim a maioria das pessoas passa na frente sem entrar, porque de fora parece só um prédio de escritório.

Vá no fim da tarde. A luz na Nakamise por volta do pôr do sol é a melhor do dia.


Cerimônia do chá: como fazer sem cair em armadilha

Asakusa tem várias casas de chá que oferecem experiências para visitantes, com duração de 45 minutos a uma hora e meia, e valores que variam bastante, geralmente de 3.000 a 8.000 ienes por pessoa.

Vale entender o que você está comprando. Uma cerimônia formal, o chanoyu, é um ritual codificado com séculos de tradição, ligado a escolas como Urasenke e Omotesenke. Envolve movimento preciso, posição das mãos, ordem de manipulação dos utensílios, e leva anos para se aprender. O que se oferece ao visitante é uma versão reduzida e explicada, quase sempre com a chance de você mesmo bater o matcha com o chasen, o batedor de bambu.

Isso não desmerece nada. Só ajuda a calibrar a expectativa.

O que costuma acontecer: você tira os sapatos, senta em tatame, recebe um doce wagashi primeiro, come ele antes do chá, porque o doce prepara o paladar para o amargor. Depois vem o matcha em uma tigela, a chawan. Você gira a tigela um pouco antes de beber, bebe em três sorvos aproximados e limpa a borda.

O matcha é genuinamente amargo. Se você espera algo parecido com aquele latte doce de cafeteria, vai levar um susto. É outro produto.

Procure casas que expliquem a filosofia por trás, especialmente o conceito de ichigo ichie, “uma vez, um encontro”, a ideia de que aquele momento específico com aquelas pessoas nunca vai se repetir. Sem isso, a experiência vira só um chá caro.


Aluguel de quimono: o que ninguém avisa antes

Asakusa é o lugar de Tóquio com mais lojas de aluguel de quimono, e isso não é acidente. As ruas de madeira, os telhados curvos e o pagode formam o cenário mais fotogênico da cidade nesse contexto.

Os preços vão de cerca de 3.000 ienes num pacote simples até 10.000 ou mais com penteado, acessórios e quimono de tecido melhor. O aluguel normalmente é por dia, com devolução no fim da tarde, geralmente entre 17h e 18h.

Yukata ou quimono?

Não é a mesma coisa. O yukata é de algodão, leve, sem forro, usado no verão e em festivais. O quimono propriamente tem forro, é de tecido mais pesado, tem mais camadas e é mais formal. No verão de Tóquio, com calor e umidade altos, o quimono é sofrível. Vá de yukata sem culpa.

As partes desconfortáveis

O obi, a faixa larga da cintura, é apertado. Precisa ser, porque é ele que sustenta a estrutura. Você vai respirar de forma mais superficial e vai comer menos do que planejou. Isso é normal.

As geta ou zori, as sandálias, machucam. A tira entre os dedos causa bolha em quem não está acostumado, e você vai andar muito. Leve um curativo no bolso, sério.

Você anda mais devagar. Muito mais devagar. Passos curtos, escadas com cuidado, banheiro complicado. Ajuste o roteiro do dia para caber metade do que faria de tênis.

Etiqueta e respeito

O lado esquerdo sempre por cima do direito ao fechar na frente. O contrário é como se veste um falecido em funeral, e as atendentes das lojas vão corrigir você. É a única regra que realmente não se negocia.

Sobre a questão de estrangeiro usar quimono: no Japão isso é amplamente visto como positivo, não como apropriação. Existe uma indústria local inteira baseada nisso, e japoneses costumam reagir com simpatia. O que incomoda de verdade não é a roupa, é comportamento: bloquear caminho de templo para fazer sessão de fotos, subir em estrutura, ou usar quimono aberto e desalinhado como fantasia.


Asakusa depois que escurece

Essa é a parte que mais gente perde, porque a maioria visita Asakusa entre dez da manhã e três da tarde, junto com os ônibus de excursão.

O pátio do templo é aberto 24 horas. O salão principal fecha a portada por volta das 17h, e as lojas da Nakamise fecham entre 17h e 19h, mas a área continua acessível para caminhada.

O que muda: o pagode fica iluminado, o Hozomon fica iluminado, o Kannon-do fica iluminado, as persianas da Nakamise se fecham e revelam pinturas nas portas metálicas, obras que só aparecem quando as lojas dormem. E não tem quase ninguém.

Andar pelo Senso-ji às nove da noite é uma experiência completamente diferente da mesma visita ao meio-dia. Silêncio, luz âmbar, o cheiro do incenso apagado. Se eu tivesse que recomendar um único horário para conhecer Asakusa, seria esse.

Depois, atravesse para o rio. A Skytree tem iluminação que muda de cor conforme o dia e a estação, alternando entre tons de azul, o Iki, e roxo, o Miyabi. Refletida na água do Sumida, com a ponte no meio, é uma das melhores vistas noturnas gratuitas de Tóquio.

E se quiser esticar, a Hoppy Street funciona bem à noite, com as izakayas cheias de gente saindo do trabalho.


Emendando com a Tokyo Skytree

A Skytree fica a cerca de 20 minutos a pé de Asakusa, atravessando o rio, ou uma estação de metrô pela linha Tobu Skytree. Caminhar é bom, porque você passa pela ponte e pelo parque.

A torre tem dois níveis de observatório: o Tembo Deck, a 350 metros, com piso de vidro em um trecho, e o Tembo Galleria, a 450 metros, uma rampa em espiral que sobe até um ponto chamado Sorakara. Os ingressos são separados ou combinados, com valores que mudam entre semana e fim de semana, e é mais barato comprar antecipado online.

Na base, o complexo Tokyo Solamachi tem mais de 300 lojas e restaurantes, um aquário e um planetário. Em dia de chuva, é a salvação do roteiro.

Aqui vai uma opinião que talvez contrarie o folheto: se você já vai ao Shibuya Sky ou ao observatório gratuito do Governo Metropolitano em Shinjuku, a Skytree é dispensável. É mais alta, sim, mas justamente por ser tão alta a cidade fica distante e chapada. Os mirantes intermediários dão uma sensação melhor de estar dentro de Tóquio. A Skytree é mais interessante vista de fora, de Asakusa, do que de dentro.


Detalhes práticos que fazem diferença

Como chegar. A estação Asakusa é servida pela linha Ginza do metrô de Tóquio, pela linha Asakusa da Toei, pela Tobu Skytree Line, que vai para Nikko, e pelo Tsukuba Express, numa estação um pouco separada. A linha Ginza é a mais antiga do Japão, aberta em 1927, e o trecho Asakusa e Ueno foi o primeiro do país.

Cartão IC. Use Suica, Pasmo ou Icoca para tudo no transporte. Mas ande com dinheiro vivo, porque barracas da Nakamise, ofertas no templo e omikuji são só em espécie, e você precisa de moedas de 100 ienes.

Bagagem. Os armários da estação enchem cedo. Se estiver com mala, existe serviço pago de guarda no Centro de Informação Turística e em lojas da região.

Banheiro. Tem banheiro público bom e limpo dentro do complexo do templo e no Centro de Informação. É informação chata e ninguém escreve, mas resolve o dia.

Sapato. É pedra, asfalto e calçada. Você vai andar de seis a dez quilômetros sem perceber. Tênis.

Quando ir no dia. Antes das 8h para foto e silêncio. Depois das 18h para atmosfera. Entre 10h e 15h é o pior intervalo, com pico absoluto no fim de semana.

Quando ir no ano. Cerejeiras no fim de março e início de abril. O Hozuki-ichi, feira das plantas de lanterna-chinesa, em 9 e 10 de julho, quando uma única visita ao templo vale, segundo a tradição, por 46 mil dias de orações. O Sanja Matsuri em maio. O Hagoita-ichi, feira de raquetes decoradas de badminton tradicional, entre 17 e 19 de dezembro. E o Hatsumode, a primeira visita do ano, quando o Senso-ji recebe milhões de pessoas nos primeiros dias de janeiro, algo espetacular e absolutamente impraticável se você tem pressa.

O Rokku e a Asakusa que sobrou. Nos fundos, na antiga sexta área de entretenimento, ainda existe o Asakusa Engei Hall, casa de rakugo, o teatro narrativo japonês em que um contador sentado no palco interpreta várias personagens. Não tem tradução, e mesmo assim é interessante ver. Há também salões de fliperama antigos, como o Hanayashiki-dori, e o Hanayashiki, considerado o parque de diversões mais antigo do Japão, aberto em 1853 como jardim de flores. Os brinquedos são pequenos e datados, e é exatamente esse o charme.


Quanto tempo reservar

Meio dia dá para o essencial: portão, Nakamise, templo, santuário e uma refeição.

Um dia inteiro dá para tudo isso mais o rio, o mirante gratuito, uma experiência de chá ou quimono, e a volta à noite.

Dois dias faz sentido se você quiser incluir cruzeiro até Hama-rikyu, subir na Skytree, andar pelos bairros vizinhos como Kappabashi, a rua dos utensílios de cozinha e das comidas de plástico usadas em vitrines de restaurante, e esticar até Ueno, com museus e o parque, a duas estações de metrô.

O que Asakusa ensina, e isso não é coisa de folheto, é que os bairros que valem a pena não se atravessam de uma vez. A parte boa acontece quando você já viu o templo, já comeu, já se cansou, senta num banco no Sumida Park e simplesmente fica olhando o rio passar com a torre atrás. É nesse intervalo, quando o roteiro acaba, que o lugar começa a fazer sentido.

Artigos Relacionados

Deixe um comentário