Descubra a Região dos Vinhos no Piemonte na Itália
Descubra o Piemonte, no noroeste da Itália, uma região onde vinhedos centenários, trufas brancas raras e castelos medievais se encontram aos pés dos Alpes para criar uma das experiências gastronômicas e culturais mais memoráveis da Europa.

Piemonte: a Itália que poucos conhecem, mas todo viajante deveria descobrir
O Piemonte fica encaixado no canto noroeste da Itália, protegido por três lados pelas montanhas, com os Alpes a oeste e os Apeninos ao sul. Essa geografia faz toda a diferença. O clima continental, os solos calcários e a altitude criam um terroir que poucas regiões do mundo conseguem igualar. Não é à toa que vinhos como Barolo e Barbaresco saem dali e viajam o planeta inteiro com fama de realeza.
Mas reduzir o Piemonte a vinho seria um erro. A região é também o berço da trufa branca de Alba, da avelã Tonda Gentile (a mesma que faz a Nutella ser o que é), de castelos medievais espalhados pelas colinas e de cidades pequenas onde a vida ainda corre num ritmo que o resto da Europa esqueceu há tempos.
Chegando e se locomovendo
O ponto de entrada natural é o aeroporto de Torino Caselle, a apenas 16 km do centro de Turim. Dali, o ideal é alugar um carro. Sem carro, o Piemonte perde metade da graça. As estradas que cortam as colinas são parte da experiência, e várias vinícolas e vilarejos ficam longe das linhas de trem.
De Turim, em cerca de uma hora você chega ao Alto Piemonte e a Novara, na parte norte da região. Descendo, são mais ou menos 1h30 até Monferrato, e dali outra hora até chegar em Asti. As distâncias parecem curtas no mapa, mas as estradas sinuosas, os cenários e a tentação constante de parar para um café ou uma taça acabam esticando qualquer trajeto.
Vale a pena dividir o Piemonte em quatro grandes áreas para entender melhor: Langhe e Roero, Monferrato, Asti e o Alto Piemonte. Cada uma tem personalidade própria, e é difícil dizer qual é a mais bonita. Eu diria que depende da época do ano e do humor do viajante.
Langhe: o coração pulsante do vinho italiano
Se o Piemonte tem um centro de gravidade, é Langhe. Patrimônio Mundial da UNESCO, a região é dominada por colinas onduladas cobertas de vinhedos até onde a vista alcança. Existe algo quase hipnótico em deixar os olhos correrem entre as fileiras de videiras. É um daqueles raros lugares onde a paisagem realmente parece uma pintura viva.
Aqui ficam as duas cidades que dão nome aos vinhos mais cobiçados da Itália: Barolo e Barbaresco. Ambas trabalham com a uva Nebbiolo, mas produzem perfis bem distintos. Barolo é encorpado, austero, pede tempo. Barbaresco tende a ser mais elegante e acessível na juventude. Os locais chamam essa dupla, junto com a Barbera, dos “Três Bs” do Piemonte, e quem passa alguns dias por ali entende rapidamente por quê.
Além dos tintos famosos, vale provar os brancos Arneis (do Roero), o Dolcetto de Dogliani e os Nebbiolos mais simples do Roero. São vinhos que raramente saem da Itália em grande volume, então a chance de provar direto na origem é ouro puro.
Alba é a base mais prática para explorar a região. É uma cidade pequena, charmosa, com ruas medievais e um mercado de sábado que merece a manhã inteira. Lá você encontra a famosa avelã IGP Tonda Gentile, queijos da região, embutidos e, na temporada certa, as benditas trufas.
A obsessão pela trufa branca
Entre outubro e novembro, Alba se transforma. É a época da trufa branca, e a cidade sedia uma feira anual que atrai entusiastas, chefs e turistas do mundo inteiro. Os preços são absurdos, mas a experiência é única.
Para mergulhar de verdade nesse universo, dá para fazer duas coisas. A primeira é acompanhar um trifolao (o caçador de trufas) com seu cão fiel numa busca pela floresta. É menos turístico do que parece e bem mais emocionante. A segunda é reservar uma degustação séria, com livros do Centro Nazionale Studi Tartufo orientando os caminhos. Esse mundo da trufa tem códigos próprios, e vale aprender pelo menos o básico antes de gastar bem.
Além das taças
Uma das coisas que mais surpreende no Piemonte é a quantidade de coisas para fazer fora do circuito do vinho. O Alto Piemonte produz Nebbiolos mais frescos e estruturados, especialmente em Gattinara e Ghemme, considerados primos sofisticados dos Langhe. Vale uma visita a Novara, onde a Basílica de San Gaudenzio impressiona pela cúpula monumental de 121 metros, projetada por Alessandro Antonelli no final do século XIX. Subir até lá em cima e ver o Monte Rosa nos Alpes ao longe é o tipo de momento que fica.
Por perto, em Ghemme, está o Castello Visconteo Sforzesco, um dos castelos mais bonitos da região. Monferrato é a próxima parada, outra área classificada pela UNESCO, famosa pelos Infernot, salas subterrâneas escavadas na pedra para guardar vinho. Cada um é único, esculpido à mão pelos próprios proprietários ao longo de gerações.
E tem Asti, claro. Conhecida pelos espumantes, é uma cidade que mistura história, gastronomia e artesanato com leveza. Os Moscato d’Asti, Barbera d’Asti e Ruchè di Castagnole são pedidas certeiras para um almoço descontraído.
Para quem gosta de caminhar, a Mangialonga é uma experiência diferente: uma caminhada de 4 km pelos vinhedos de La Morra, com paradas para comida e vinho ao longo do trajeto. O Collisioni Festival, em Barolo, junta música, literatura, gastronomia e vinho num formato bem original, com artistas internacionais subindo ao palco. Já o WiMu, o museu do vinho instalado no castelo de Barolo, e o Corkscrew Museum (museu do saca-rolhas) são paradas culturais que valem a pena, mesmo para quem não é fanático por enologia.
Vinícolas que merecem o desvio
Visitar vinícolas no Piemonte é diferente do que acontece em outras regiões mais comerciais. Aqui, na maioria das vezes, quem recebe é a própria família. As estruturas costumam ser mais modestas, mais íntimas, e a conversa flui com naturalidade.
Antichi Vigneti di Cantalupo
Em Ghemme, no norte do Piemonte, Alberto Alunno comanda a Cantalupo desde 1981. O lugar tem uma alma especial. Os Ghemme Nebbiolos da casa têm finesse e elegância, com complexidade mineral marcante. O ponto alto é a cave subterrânea de 1.200 m², um anfiteatro construído na encosta com degraus largos onde os barris de diferentes safras descansam segundo o gradiente do terreno. Entrar ali é como visitar um teatro do envelhecimento. Pequenas celas guardam até 5.000 garrafas cada, divididas por cru. As garrafas mais antigas dormem há pelo menos um ano, encaixadas na rocha viva. Site: www.cantalupo.net.
Bera Valter
Se Neviglie virou parada obrigatória para os amantes do Moscato, é mérito da família Bera. Valter começou a engarrafar nos anos 1970 e hoje trabalha com os filhos Umberto e Riccardo. São referência em Moscato d’Asti, mas também avançaram com tintos à base de Nebbiolo. Site: www.bera.it.
Braida
Em Rocchetta Tanaro, a casa que Giacomo Bologna construiu é uma instituição. O apelido “Braida” virou a marca, e os Barberas dali são lendários, dos mais leves e descontraídos aos encorpados e complexos, envelhecidos em barricas. Hoje, com Raffaella e Giuseppe à frente, junto com os enólogos da casa, a filosofia continua a mesma: vinho como coisa viva, feito com amizade e energia. Site: www.braida.it.
Castello di Neive
No alto de uma colina coberta de vinhedos, esse castelo do século XVIII tem uma das vistas mais bonitas da região. Perto de Barbaresco, Neive é um dos vilarejos mais charmosos do Piemonte. A história do lugar é fascinante: no século XIX, o enólogo Louis Oudart (depois contratado pela realeza Savoia para ajudar a criar o primeiro Barolo) já produzia tintos finos ali. A família Stupino comprou a propriedade nos anos 1960, e Italo Stupino liderou o retorno da uva Arneis em 1982, salvando uma variedade que estava sumindo. A cave abobadada com tonéis de madeira é um espetáculo, e o Barbaresco do monopólio Santo Stefano é dos vinhos mais importantes das Langhe. Site: www.castellodineive.it.
Ceretto
Com sede em Tenuta Monsordo Bernardina, em Alba, a Ceretto comanda três outras vinícolas (em Castiglione Falletto, Barbaresco e Santo Stefano Belbo), totalizando 160 hectares espalhados pelos crus mais prestigiados. Eles são apaixonados por gastronomia também: têm dois restaurantes e uma patisserie, onde a avelã do Piemonte é estrela absoluta. Não dá para falar da Ceretto sem mencionar as instalações artísticas. O “cacho de uva” gigante em Alba, o cubo de vidro transparente no topo da colina de Bricco Rocche, a Capela de Barolo reinterpretada pelos artistas Sol LeWitt e David Tremlett no vinhedo Brunate. Alessandro Ceretto, da terceira geração, começou a conversão dos vinhedos para orgânico em 2010 e obteve a certificação em 2016. Hoje, todos os vinhedos próprios são cultivados em biodinâmica. Os vinhos são elegantes e tremendamente prazerosos. Site: www.ceretto.com.
La Raia
Um microcosmo de bem-estar e biodiversidade. A propriedade pertence à família Rossi Cairo e oferece uma seleção impressionante de vinhos Gavi. Tem certificação Demeter de biodinâmica, fazenda com restaurante, spa, piscina, jardim italiano renovado, parque com arte contemporânea e programação cultural. Os 180 hectares incluem 45 de vinhedos, mais terras aráveis, pastos de gado, plantação de avelãs e bosques de carvalho, castanheiro, acácia, salgueiro. A adega pisé, construída em terra socada, é um marco da arquitetura ecossustentável. Site: www.la-raia.it.
Malvirà
Fundada em 1974 com apenas 2 hectares, hoje cobre 42 ha em dialeto piemontês, “malvirà” significa “mal virado”, uma referência irônica à orientação original dos vinhedos, ao contrário do sul, voltada para o norte. A propriedade é uma das melhores referências do Roero. Roberto e Massimo, da segunda geração, dividem trabalho entre vinhedos e adega, flanqueados pelos filhos Giacomo e Francesco. O Arneis dali é dos melhores da Itália. Certificada orgânica desde 2014, a propriedade fica no coração do vinhedo Trinità e abriga uma pousada com restaurante e piscina. Sites: www.malvira.com e www.villatiboldi.it.
Marziano Abbona
Celso Abbona é uma daquelas figuras que acreditam piamente na uva Dolcetto, especialmente nas colinas de Dogliani. Não surpreende, então, que o filho se chame Marziano e a vinícola carrega o nome do avô Papà Celso. Com mais de 50 safras nas costas, Marziano é uma figura maior que a vida no universo do vinho piemontês, conversador, cheio de fatos e curiosidades sobre a região. Visita obrigatória para quem quer entender o Dolcetto a sério. Bonus: a 10 minutos de carro fica a inspiradora Villa Tiboldi.
Michele Chiarlo
Poucos nomes formaram a história do terroir como o de Michele Chiarlo. Com raízes plantadas nas colinas de Asti, a família sempre foi apaixonada por Barbera, mas com o tempo passou a trabalhar também os crus de Langhe, Monferrato e Gavi. A novidade que rouba os holofotes é o Art Park La Court, o maior museu a céu aberto instalado num vinhedo, com obras de artistas e escultores de renome mundial dispostas ao longo de uma caminhada imersiva e mágica. Em Cerequio, Palás Cerequio (a 50 minutos da vinícola) é o primeiro resort dedicado ao Barolo: a adega de Chiarlo é um tesouro. Site: www.michelchiarlo.it.
Renato Ratti
Um dos pais fundadores do Barolo moderno. Renato Ratti foi pioneiro em vinificar Barolo de um único vinhedo, traçando o mapa de vinhedos históricos da região e inventando a famosa garrafa Albeisa. Como presidente do consórcio do Barolo, ajudou a redigir as regras DOCG. Começou a produzir nos anos 1960 na Abadia de L’Annunziata, um mosteiro beneditino. O complexo combina ferramentas de vinificação antigas e modernas. O filho Pietro deu continuidade ao trabalho, redesenhando a adega para respeitar a região. A construção se mistura à paisagem das colinas, com linhas que ecoam as ondulações ao redor. Admire a área de Conca e o Monferrato pelas janelas panorâmicas. Site: www.renatoratti.com.
Onde dormir, comer e tomar café
O Piemonte sabe receber. A oferta de hospedagem vai de resorts grandes a B&Bs íntimos em casas históricas. Algumas indicações que merecem destaque:
| Categoria | Local | Diferencial |
|---|---|---|
| Resort esportivo | Bogogno Golf Resort | Campo de golfe, futebol 5, ginásio e spa |
| B&B com charme | Langhe Country House | Suítes rústicas, vista para vinhedos, bagna cauda |
| Agriturismo refinado | Locanda del Pilone | Estrela Michelin, quartos amplos, fazenda restaurada |
| Café da manhã | Pasticceria Barbero | Berço dos Baci di Cherasco, pralinas históricas |
| Almoço casual | La Piola | Osteria do chef Enrico Crippa (3 estrelas Michelin) |
| Almoço refinado | Repubblica di Perno | Bagna cauda, vegetais sazonais, ambiente acolhedor |
| Jantar gastronômico | La Ciau del Tornavento | 65 mil garrafas na adega, vista para vinhedos, estrela Michelin |
| Alta gastronomia | La Madernassa | Duas estrelas Michelin, ervas da horta própria |
O B&B Langhe Country House merece um parágrafo à parte. Fica num jardim lindo, e o que parece uma estalagem rústica esconde detalhes refinados. As suítes são bem decoradas, com toques modernos.
Pasticceria Barbero, em Cherasco, tem como especialidade os Baci di Cherasco, pralinas de chocolate e avelã criadas por Marco Barbero em 1881. As janelas da pasticceria revelam o coração de Cherasco.
E para fechar com chave de ouro, La Madernassa, comandada pelo chef Michelangelo Mammoliti, é considerada um dos talentos mais brilhantes da cozinha italiana. Duas estrelas Michelin, cozinha criativa, ervas e legumes vindos diretamente da horta do próprio resort. É o tipo de jantar que se planeja com antecedência e se lembra por muito tempo.
Quando ir e quanto tempo ficar
A região recebe bem em qualquer época, mas tem janelas mágicas. Outubro e novembro são imbatíveis para quem busca trufa branca, vindima tardia, folhagem dourada e festivais. Maio e junho trazem clima ameno, flores nas colinas e menos turistas. Setembro pega o início da colheita e ainda mantém dias longos. Inverno é tranquilo, mais frio, mas com a vantagem de pequenos restaurantes vazios e atendimento sem pressa.
Quanto ao tempo ideal: três dias resolvem uma introdução básica em Langhe. Cinco dias permitem incluir Monferrato e Asti. Dez dias dão para explorar o Piemonte com calma, incluindo o Alto Piemonte e até uma escapada para a beira do Lago Maggiore.
Algumas observações
O Piemonte não é a Itália dos cartões-postais óbvios. Não tem Coliseu, não tem gôndolas, não tem a praia da Amalfitana. O que tem é uma profundidade rara, uma autenticidade que sobrevive apesar do turismo crescente. As famílias que produzem vinho ali estão há gerações fazendo a mesma coisa, com paciência e teimosia, e isso se sente em cada garrafa, em cada conversa, em cada almoço que se estende até o meio da tarde.
Quem chega esperando “só vinho” sai com a sensação de ter descoberto uma camada da Itália que poucos conhecem. E é difícil voltar para casa sem já estar planejando a próxima visita.