Como Organizar o Roteiro de Viagem em Mendoza

Mendoza é um dos destinos mais completos da América do Sul para quem quer combinar vinho de qualidade excepcional, natureza em escala monumental e uma cidade que sabe receber bem sem fazer alarde.

Foto de Andres Alaniz: https://www.pexels.com/pt-br/foto/montanhas-andinas-cobertas-de-neve-em-potrerillos-33839971/

Quando se fala em Mendoza para um brasileiro, a primeira imagem que vem à cabeça é a taça de Malbec. E não é à toa. A região é responsável por mais de 70% da produção de vinho de toda a Argentina e abriga algumas das bodegas mais premiadas do planeta. Mas reduzir Mendoza a isso seria um erro que muita gente comete e depois se arrepende. A cidade tem uma energia urbana surpreendente, praças enormes cobertas de árvores, um mercado central cheio de vida e uma rua pedonal que funciona como termômetro do cotidiano local. E logo ali, a menos de duas horas de carro, ficam as Termas de Cacheuta, o Reservatório de Potrerillos, o Puente del Inca e o Parque Provincial do Aconcágua, a montanha mais alta das Américas.

Quatro dias bem distribuídos dão para sentir tudo isso sem correr. Abaixo está um roteiro que equilibra as principais experiências da cidade com o que há de mais marcante nos arredores.


Dia 1: Chegada e Primeiros Passos pelo Centro

O centro de Mendoza é muito mais agradável do que a maioria das pessoas espera. A cidade foi completamente reconstruída após um terremoto devastador em 1861, e o novo traçado urbano priorizou praças, jardins e calçadas largas com canais de água corrente. Chegar e caminhar por ali já é uma experiência em si.

A Plaza Independencia é o ponto de partida natural. Quadrada, imensa, com bancos à sombra de tipaneiras e plátanos centenários, ela concentra no subsolo um espaço cultural com exposições temporárias que vale ao menos uma espiada. Ao redor, há cafeterias e restaurantes que funcionam como boa porta de entrada para a gastronomia local.

Do centro, vale caminhar até o Parque General San Martín, que está a uns vinte minutos a pé ou pouco menos de táxi. É um dos maiores parques urbanos da Argentina, com lago, alamedas, rosedal e o acesso ao Cerro de la Gloria, onde fica o monumento ao general San Martín e os Andes aparecem em toda a sua extensão no horizonte. O fim de tarde ali, com o céu mudando de cor e as montanhas ao fundo, é o tipo de cena que nenhuma foto consegue capturar direito.

Para a noite, o Mercado Central é parada obrigatória. Não o tipo de mercado turístico e caricato que existe em outras cidades. O de Mendoza ainda tem cheiro de couro, ervas e queijo. As empanadas são excelentes, os vinhos vendidos a preços que fariam qualquer sommelier brasileiro suspirar, e a movimentação dos vendedores locais dá um clima muito mais autêntico do que qualquer restaurante com cardápio traduzido.

A Calle Arístides, a rua pedonal do centro, é o fechamento ideal da noite. Sorveterias, bares, bodegas de rua com taças por menos de dois dólares. O argentino não tem pressa para nada, e isso contamina qualquer um que chegue com a ansiedade urbana ainda ativa.


Dia 2: Vinícolas de Luján de Cuyo, o Berço do Malbec

Acordar cedo no segundo dia vale a pena, porque o melhor de Luján de Cuyo começa pela manhã, quando a luz bate de frente nos vinhedos e o ar ainda está fresco.

Luján de Cuyo fica a cerca de 20 quilômetros do centro de Mendoza pela Rodovia Nacional 40. Em menos de meia hora de carro, a paisagem urbana vai cedendo espaço para fileiras de videira que se estendem até onde a vista alcança, com a Cordilheira ao fundo. É o tipo de cenário que parece irreal na primeira vez.

A região é chamada de berço do Malbec não por marketing, mas porque foi aqui que essa uva francesa, que chegou à Argentina em meados do século XIX, encontrou o terroir que transformou seu perfil completamente. A altitude entre 900 e 1.100 metros, o solo pedregoso e a amplitude térmica entre o dia e a noite fazem com que o Malbec de Luján tenha uma estrutura, uma cor e uma profundidade que dificilmente se encontra em outro lugar.

Entre as bodegas que valem a visita, algumas se destacam por razões bem distintas.

VinícolaPerfil da visitaDestaque
Catena ZapataPremium, com reserva antecipadaArquitetura piramidal única e vinhos de referência mundial
Luigi BoscaTradicional e acolhedoraTour histórico e degustação bem estruturada
LagardeCharme históricoUma das mais antigas de Mendoza, com restaurante excelente
NortonBoa para iniciantesInfraestrutura ampla, ótimo custo-benefício
VistalbaMenor e mais íntimaFoco em vinho boutique com qualidade altíssima

A dica é visitar no máximo duas bodegas por dia, com almoço harmonizado em uma delas. Tentar fazer três ou quatro num único dia parece tentador no planejamento, mas na prática significa não aproveitar nenhuma direito. O almoço harmonizado na Ruca Malen ou na própria Lagarde é uma experiência gastronômica completa, com pratos elaborados e cada taça pensada para complementar o prato. Não é barato para os padrões locais, mas fica muito aquém do que custaria algo equivalente no Brasil ou na Europa.

À tarde, se houver energia, ainda dá para passar pelo vilarejo de Chacras de Coria, distrito de Luján que tem cafés, lojas de arte e uma atmosfera de interior próspero que contrasta bem com o agito do centro de Mendoza.


Dia 3: Alta Montanha, Potrerillos, Termas de Cacheuta e Puente del Inca

Esse é o dia mais longo do roteiro e o que mais exige organização. A rota segue pela Rota Nacional 7 em direção à fronteira com o Chile, subindo pelo vale do Rio Mendoza em direção à Cordilheira. O cenário muda de forma quase violenta: a cidade fica para trás, a vegetação vai desaparecendo e o que resta são paredões de rocha, canyons de cor ocre e o céu azul-escuro de altitude que Mendoza tem como marca registrada.

Termas de Cacheuta fica a apenas 38 quilômetros do centro, à beira do Rio Mendoza. O complexo tem piscinas termais em diferentes temperaturas, duas opções de uso: o hotel e spa, voltado para adultos que querem descanso mesmo, e o parque termal, mais animado e indicado para grupos e famílias. Para quem está no roteiro de quatro dias, encaixar uma parada de duas a três horas nas termas antes de continuar a subida é uma boa pedida. Especialmente se o dia anterior tiver sido intenso nas vinícolas.

Continuando pela rota, Potrerillos aparece como uma pausa inesperada. O reservatório artificial formado pelo Rio Mendoza é grande, de águas verde-turquesa, com o reflexo dos Andes criando um cartão-postal que parece editado digitalmente. Para quem quer mais adrenalina, a região oferece rafting no Rio Mendoza, que neste trecho tem corredeiras de bom nível. Para quem prefere só contemplar, o mirante já compensa.

Dali até o Puente del Inca são aproximadamente mais 100 quilômetros de subida. A paisagem vai ficando mais árida e mais imponente a cada curva. O Puente del Inca é uma ponte natural formada pelo enxofre das águas termais que emerge do solo e vai calcificando ao longo dos séculos. A cor amarelo-laranja intensa da pedra contrasta com o rio cinzento que corre abaixo e com as montanhas de neve ao redor. É um dos lugares mais estranhos e belos que existem na Argentina, e a maioria das pessoas que visita pela primeira vez demora alguns minutos para entender o que está olhando.

O Parque Provincial do Aconcágua fica a poucos quilômetros dali, e dependendo do tempo disponível, dá para entrar no parque e caminhar até o ponto de Vista Horcones, de onde o Aconcágua, com seus 6.962 metros, aparece na sua totalidade. Não é necessário nenhum preparo especial para esse trecho de visitação. A altitude já é em torno de 2.800 metros, o que pode causar algum cansaço, mas nada que um ritmo tranquilo não resolva.

A volta para Mendoza pela mesma rota, com o sol caindo sobre o vale, tem uma qualidade de luz dourada que faz a paisagem parecer ainda mais cinematográfica do que de manhã.


Dia 4: Maipú, Vinho de Bicicleta e Despedida com Sabor

O quarto e último dia tem um ritmo completamente diferente. Maipú é o outro grande polo vinícola de Mendoza, mais próximo do centro do que Luján de Cuyo e com uma tradição que remonta ao início do século XX. A região tem algo que Luján não tem na mesma proporção: é possível percorrer várias vinícolas de bicicleta.

Alugar uma bicicleta em Maipú virou uma das experiências mais emblemáticas de Mendoza para o turista. As locadoras ficam perto da parada do ônibus vindo do centro, e a partir daí abre-se uma rede de estradas de paralelepípedo entre vinhedos onde estão dezenas de bodegas, olivais e adegas de azeite. O ritmo é completamente diferente de Luján: menos imponente, mais informal, com produtores menores que recebem os visitantes com uma hospitalidade quase de interior de Minas Gerais.

A Bodega La Rural, que abriga o Museo del Vino, é uma das paradas mais interessantes para quem quer entender a história da viticultura argentina. O acervo tem prensas do século XIX, barricas de madeira antigas e uma narrativa sobre como o vinho argentino foi moldado por imigrantes italianos e espanhóis que chegaram ao país entre 1880 e 1930. É o tipo de museu que não entedia nem quem não tem nenhuma intimidade com o tema.

Para fechar o roteiro como merece, o almoço do último dia pede um restaurante com menu harmonizado e tempo de sobra para não precisar olhar para o relógio. Em Mendoza isso não é difícil de encontrar. O ritmo da cidade favorece refeições longas, e os garçons argentinos raramente pressionam para liberar a mesa.


Informações Práticas

Algumas coisas que fazem diferença real no planejamento de qualquer viagem a Mendoza:

Como chegar: Voos diretos de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte para o Aeroporto Internacional El Plumerillo, em Mendoza. O aeroporto fica a cerca de 8 quilômetros do centro. Remis (táxi local) ou aplicativos como Cabify funcionam bem.

Melhor época para visitar: A primavera (setembro a novembro) e o outono (março a maio) são os períodos mais agradáveis. O outono coincide com a colheita, o que dá uma dinâmica extra nas vinícolas. O verão pode ser bastante quente, com temperaturas acima de 35 graus, e o inverno fecha algumas atrações de montanha por neve nas estradas.

Moeda e câmbio: O peso argentino tem oscilado bastante. Sempre vale pesquisar as taxas atualizadas antes da viagem. Em 2025 e 2026, o câmbio favorável ao brasileiro torna Mendoza um destino com excelente custo-benefício: jantares em restaurantes bons saem por um valor que seria considerado barato até no interior do Brasil.

Transporte interno: Para as vinícolas e a Alta Montanha, alugar um carro facilita muito. Para Maipú, o ônibus urbano funciona e a bicicleta resolve o restante. Para quem não quer dirigir, as agências de turismo locais oferecem excursões de dia inteiro para cada um dos circuitos.

Onde ficar: O centro de Mendoza tem boas opções em todas as faixas de preço, e a localização facilita a caminhada pelas praças e o acesso ao transporte. Para quem prefere algo mais imersivo no universo do vinho, existem hotéis boutique dentro de vinícolas, principalmente em Luján de Cuyo e no Vale do Uco, que oferecem uma experiência completamente diferente.

Reservas: Almoços harmonizados nas vinícolas mais badaladas, como Catena Zapata e Ruca Malen, precisam de reserva com pelo menos duas a três semanas de antecedência. O mesmo vale para as Termas de Cacheuta no período de alta temporada.


Mendoza é o tipo de destino que parece pequeno no mapa e enorme quando você está lá dentro. Quatro dias são suficientes para uma boa introdução, mas quase todo mundo que conhece a cidade sai planejando a volta. Às vezes com mais tempo. Às vezes com a lista de vinícolas que ficaram de fora. Sempre com pelo menos uma garrafa de Malbec na mala.

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