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Patagônia na Rota 40: Roteiro de Viagem de Quase 4.000 km

Percorrer a Rota 40 da Argentina de Mendoza a Ushuaia é uma das experiências mais intensas e libertadoras que existe para quem viaja de carro pela América do Sul.

Foto de Antonio Lombardo: https://www.pexels.com/pt-br/foto/estrada-via-panorama-vista-13588346/

Não tem como falar disso com neutralidade. A estrada paralela à Cordilheira dos Andes, com mais de 5.000 km de extensão total e um trecho patagônico que sozinho já passa dos 1.400 km, é daquelas rotas que você planeja por meses, sonha antes de dormir e lembra o resto da vida. O recorte de Mendoza a Ushuaia, com aproximadamente 3.949 km pelas principais paradas, é o mais procurado pelos viajantes brasileiros e, sem dúvida, o mais cinematográfico de todos.

Mas tem um ponto que precisa ficar claro antes de qualquer coisa: essa não é uma viagem para quem quer conforto garantido em todo trecho. É para quem aceita dirigir horas sem ver um posto de gasolina, para quem abraça o vento que chacoalha o carro na estepe aberta e para quem encontra beleza justamente nessa imprevisibilidade toda.


O que você precisa entender antes de sair

A Rota 40 não é uma rodovia uniforme. Tem trechos asfaltados em ótimo estado e trechos de ripio, que é como os argentinos chamam a estrada de cascalho compactado. Na Patagônia, especialmente entre El Bolsón e El Calafate, o ripio ainda aparece em alguns pontos. O vento é outro personagem da viagem. Na região entre El Calafate e Rio Gallegos, por exemplo, rajadas de 80 km/h não são incomuns em pleno verão.

O período ideal para fazer esse roteiro é entre outubro e abril, com novembro, dezembro e março sendo os meses mais equilibrados entre clima, movimento e preços. Janeiro e fevereiro são os meses de alta temporada e podem triplicar o valor das acomodações em Bariloche e El Calafate.

O carro ideal é um SUV ou veículo de tração, preferencialmente com pneu reserva sobressalente. Muitas locadoras em Mendoza já oferecem esse tipo de veículo com a possibilidade de devolução em Ushuaia, o que elimina a necessidade de fazer o percurso de volta.


O roteiro parada a parada

1. Mendoza – km 0

Mendoza não é apenas ponto de partida. É uma cidade que merece pelo menos dois ou três dias antes de você colocar o pé no acelerador. A região produz alguns dos melhores vinhos Malbec do mundo, e percorrer a Rota do Vinho pelo Vale de Luján de Cuyo ou pelo Vale de Uco é uma experiência à parte.

A Cordilheira dos Andes já aparece ao fundo desde a cidade, com o Aconcágua no horizonte. Antes de sair, vale encher o tanque, carregar água e snacks porque o primeiro trecho, de Mendoza a Chos Malal, tem serviços escassos em vários pontos.


2. Chos Malal – km 658

Cidade pequena, mas estratégica. É aqui que a Patagônia começa de verdade, tanto na paisagem quanto na atmosfera. As construções mais baixas, as ruas mais vazias, o silêncio diferente. Chos Malal tem história ligada à época dos índios Mapuche e às primeiras fronteiras da Argentina independente.

É uma parada para abastecer, comer bem num restaurante local e dormir com tranquilidade antes de um dos trechos mais bonitos da rota.


3. San Martín de los Andes – km 1.115

Aqui a paisagem muda radicalmente. A estepe vai cedendo espaço para florestas de araucárias, o Lago Lácar aparece com uma cor que parece irreal e San Martín se apresenta como um dos vilarejos mais charmosos de toda a Patagônia.

Diferente de Bariloche, que ficou mais turístico com o tempo, San Martín ainda guarda uma escala humana. As ruas do centro são agradáveis para caminhar, os restaurantes são bons sem ser exagerados e as trilhas ao redor do lago oferecem desde caminhadas leves até expedições de um dia inteiro até o mirante com vista para o Chile.

Reservar dois dias aqui é a decisão certa. Um dia para explorar o lago de barco ou caiaque, outro para fazer a estrada dos 7 Lagos, que conecta San Martín a Villa La Angostura por 110 km de uma das paisagens mais fotogênicas da América do Sul.


4. Villa La Angostura – km 1.223

Pequena, com cara de aldeia europeia encravada entre lagos e florestas. Villa La Angostura é daqueles lugares onde você chega planejando ficar uma noite e acaba ficando três.

O Parque Nacional Los Arrayanes fica aqui, acessível por trilha a pé ou de bicicleta pela Península Quetrihué, e guarda um dos bosques mais inusitados que existem: centenas de árvores de arrayán, com tronco cor de canela e casca que descama como pergaminho, criando um corredor natural surreal.

O pôr do sol sobre o Lago Nahuel Huapi visto de Villa La Angostura é um daqueles momentos que dispensam filtro de câmera.


5. San Carlos de Bariloche – km 1.306

Bariloche é inevitável e justificada. Mesmo que a cidade tenha crescido e virado destino de massa, ela ainda entrega o que promete: lagos com água turquesa, montanhas nevadas ao fundo, chocolate artesanal em cada esquina e o famoso Circuito Chico.

O Circuito Chico é um passeio de cerca de 60 km de carro (ou bicicleta para os mais corajosos) que passa pelo Cerro Campanario, com um dos panoramas mais fotografados da Argentina, pela Península San Pedro e pela Llao Llao. Vale fazer de manhã cedo, quando a luz bate nas montanhas e os lagos ainda refletem o céu limpo.

Bariloche também tem boa infraestrutura de locadoras, farmácias, supermercados e tudo que você precisar para reorganizar a mala antes de seguir para o sul, onde os serviços vão ficando mais raros.


6. El Bolsón – km 1.427

A menos de duas horas ao sul de Bariloche, El Bolsón tem personalidade completamente diferente. É cidade de hippies, artesãos e produtores orgânicos. A feira artesanal que acontece às quartas, quintas, sábados e domingos na praça central é uma das melhores da Patagônia: cerâmicas, tecidos em lã de ovelha, queijos regionais, cervejas artesanais e comida de rua boa de verdade.

El Bolsón fica no fundo de um vale protegido pelos Andes, o que cria um microclima surpreendentemente ameno para a Patagônia. As montanhas ao redor oferecem trilhas para todos os níveis, incluindo a clássica subida ao Cajón del Azul, com um rio de cor impossível de acreditar até você ver pessoalmente.


7. Perito Moreno (cidade) – km 2.105

Não confunda com a geleira. Perito Moreno, a cidade, fica na Província de Santa Cruz e é basicamente uma parada estratégica para dormir e abastecer em meio à estepe infinita. O trecho entre El Bolsón e aqui, passando por Esquel e pelo Parque Nacional Los Alerces, é longo e exige planejamento cuidadoso com combustível.

O Parque Nacional Los Alerces, que fica nesse caminho, guarda a Floresta de Alerces Milenários, com árvores de mais de 2.600 anos. É Patrimônio da Humanidade pela Unesco e merece uma parada de ao menos meio dia.


8. El Calafate – km 2.733

El Calafate existe para servir de base para o Glaciar Perito Moreno, e isso já seria suficiente para justificar qualquer viagem à Patagônia. A geleira tem 30 km de comprimento, 5 km de largura e uma parede de gelo de até 74 metros de altura sobre o Lago Argentino.

Ver pedaços de gelo se desprendendo da parede e desabando na água com um estrondo que ecoa pelo vale é uma dessas experiências que não têm comparação. O Parque Nacional Los Glaciares oferece passarelas de madeira em diferentes níveis que permitem se aproximar da geleira com segurança, e a visita pode durar de duas a quatro horas sem que você se canse.

Mas El Calafate guarda outro segredo que muita gente ignora: El Chaltén fica a 220 km daqui e é a capital do trekking da Argentina. O Monte Fitz Roy, que aparece nas fotos da North Face e de mil marcas de outdoor, é avistado diretamente da cidade. As trilhas de lá estão entre as mais bonitas do planeta, sem exagero.


9. Rio Gallegos – km 3.361

Capital da Província de Santa Cruz, Rio Gallegos fica na costa do Oceano Atlântico e tem mais função logística do que turística. É cidade de passagem, mas tem seu charme próprio para quem gosta de observar como vivem as cidades do extremo sul da Argentina, longe do circuito turístico convencional.

Daqui em diante a paisagem muda novamente: a estepe se abre numa planície quase lunar, o vento fica mais intenso e a sensação de estar chegando ao fim do mundo começa a tomar conta.


10. Ushuaia – km 3.949

Ushuaia é mais do que um destino. É uma sensação. A cidade mais austral do mundo, encravada entre o Canal de Beagle e as montanhas do Parque Nacional Tierra del Fuego, tem aquele peso simbólico de ser o ponto final de algo grande.

Chegar aqui depois de quase 4.000 km é uma experiência diferente de simplesmente visitar a cidade. Você chegou até o fim do mundo e sente isso na pele. O ar é diferente, o silêncio é diferente, e a placa no porto com a inscrição “Fin del Mundo” tem outro significado quando você a vê depois de dias de estrada.

O Parque Nacional Tierra del Fuego oferece trilhas à beira do Canal de Beagle, avistamento de pinguins e castores (uma praga trazida por acidente no século XX) e a estação do Trem do Fim do Mundo, que percorre alguns quilômetros de floresta subantártica dentro do parque.

A navegação pelo Canal de Beagle ao pôr do sol, com as ilhas e os leões-marinhos ao redor, é o ponto final perfeito para esse roteiro.


Quantos dias são necessários?

Fazer esse roteiro com pressa é desperdiçá-lo. O mínimo recomendável, sem abrir mão das experiências principais, é 21 dias. Com 25 a 30 dias, você consegue explorar os parques nacionais, fazer as trilhas maiores e não ter aquela sensação de que deixou coisas para trás.

TrechoDistânciaDias Recomendados
Mendozakm 02 a 3 dias
Chos Malalkm 6581 dia
San Martín de los Andeskm 1.1152 dias
Villa La Angosturakm 1.2231 a 2 dias
Barilochekm 1.3063 dias
El Bolsónkm 1.4271 a 2 dias
Esquel / Los Alercescaminho1 dia
Perito Moreno (cidade)km 2.1051 dia
El Calafate + El Chalténkm 2.7334 a 5 dias
Rio Gallegoskm 3.3611 dia
Ushuaiakm 3.9493 dias

O que ninguém te conta sobre a Rota 40

Combustível é uma questão de sobrevivência. Entre El Bolsón e Perito Moreno há trechos de mais de 200 km sem posto. A regra não oficial da Rota 40 é simples: nunca passe por um posto sem encher o tanque, mesmo que ainda esteja com metade. Isso vale em qualquer ponto da rota, mas na Patagônia central é literalmente questão de ficar ou não ficar parado no meio da estepe.

As distâncias enganam. No mapa, 300 km parece uma hora de carro. Na Patagônia, com vento forte, ripio e paradas para fotografar guanacos no meio da estrada, esses mesmos 300 km podem facilmente virar cinco horas. Planejar com folga não é frescura, é necessidade.

O vento é real e é intenso. O vento patagônico não é um detalhe climático. Ele assobia dentro do carro, dificulta abrir a porta, derruba ciclistas e empurra veículos grandes na pista. Nada disso impede a viagem, mas exige atenção ao volante, especialmente nos trechos abertos entre El Calafate e Rio Gallegos.

As noites são longas no verão. No solstício de dezembro, Ushuaia tem quase 17 horas de luz solar. Isso muda completamente a dinâmica do dia: você pode sair para uma trilha às 18h e voltar com luz do dia às 21h. Aproveitar essa característica para redistribuir as atividades ao longo do dia é uma das vantagens de viajar na temporada certa.

O silêncio tem textura diferente. Em alguns pontos da Rota 40, especialmente entre Perito Moreno e El Calafate, você pode parar o carro no acostamento e não ouvir absolutamente nada além do vento. Nenhum motor, nenhuma voz, nenhum sinal de vida além da estepe e das montanhas ao fundo. Para quem vive em cidade grande, isso é desconcertante no começo e absolutamente necessário depois.


Documentação, câmbio e dinheiro

Cidadãos brasileiros não precisam de visto para a Argentina. O passaporte válido ou a carteira de identidade são suficientes. Se for cruzar para o Chile em algum trecho, o que é possível em alguns pontos da Rota 40, vale verificar se o contrato da locadora permite saída do país.

Quanto ao dinheiro, a Argentina tem um histórico de variações cambiais intensas. Antes de viajar, vale pesquisar as condições atuais do câmbio e como estão as opções de pagamento nas cidades menores, onde o cartão internacional nem sempre é aceito com facilidade.


A Rota 40 de Mendoza a Ushuaia não é uma viagem que você termina e arquiva na memória como mais um destino visitado. Ela muda o referencial. Depois de passar pela estepe patagônica, pelos lagos da Lake District e chegar ao Canal de Beagle com o carro empoeirado e a cabeça cheia de paisagens, qualquer outra viagem vai ser medida de alguma forma por essa régua. É esse tipo de experiência que vale cada hora de planejamento.

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