O que Comer na Argentina: Guia Para Quem Quer Provar de Verdade

Quem vai à Argentina pensando que vai comer bem descobre logo nos primeiros dias que subestimou o país. A gastronomia argentina é uma das mais ricas da América do Sul e tem uma característica que poucos países conseguem: cada prato tem história, tem regionalidade, tem identidade. Não é comida genérica. É comida com personalidade.

Foto de Los Muertos Crew: https://www.pexels.com/pt-br/foto/prato-louca-delicioso-saboroso-8279976/

A imagem que serviu de base para esse guia reúne os doze itens que qualquer viajante precisa provar, do norte ao sul do país. Cada um deles merece ser explorado com calma, e alguns deles vão mudar sua referência sobre o que é comer bem.


Milanesa

A milanesa chegou à Argentina pelas mãos dos imigrantes italianos no século XIX e nunca mais foi embora. Virou obsessão nacional. Mas a versão argentina não é a mesma coisa que você conhece aqui. O bife é enorme, muitas vezes maior que o próprio prato, a massa de farinha de rosca é grossa e crocante, e a carne por dentro precisa ficar suculenta. Quando acerta esse ponto, é simplesmente imbatível.

A versão clássica é simples: bife de vaca empanado, frito ou assado, com purê de batata ou fritas. Mas aí começam as variações. A milanesa a la napolitana é coberta com molho de tomate, presunto e queijo gratinado, e ficou tão popular que praticamente todo cardápio de Buenos Aires a tem. Existe ainda a milanesa suprema, recheada de presunto e queijo antes de empanar, que é uma bomba calórica completamente justificada.

Nos restaurantes mais populares, a milanesa costuma vir em porções para duas pessoas mesmo quando você pede só para uma. Isso não é erro do garçom.


Choripán

O choripán é o lanche de rua mais democrático da Argentina. O nome já explica tudo: chorizo mais pan, um pão tipo baguete cortado ao meio, grelha e recebe um linguiça de porco suculenta. Por cima vai o chimichurri, aquele molho verde feito de salsa, alho, azeite, orégano e vinagre que os argentinos colocam em praticamente tudo.

O que faz o choripán especial não é a complexidade, é a simplicidade bem executada. O chorizo argentino tem textura firme, sabor defumado e um teor de gordura que, quando cai na brasa, cria uma crocância por fora que é irresistível. Você come de pé, na beira da parrilla, com a mão mesmo.

Em Buenos Aires, os carrinhos de choripán ficam espalhados pelos parques, nas saídas dos estádios de futebol e na orla do Puerto Madero. O preço é baixo, a fila costuma ser longa e vale cada minuto de espera.


Empanadas

As empanadas são a comida mais versátil da Argentina. Presentes em todo o país, elas mudam completamente de região para região, e essa variação é parte do que as torna fascinantes.

A massa é de trigo, aberta à mão ou com rolo, moldada em disco, recheada e fechada com uma dobra característica chamada repulgue, que os argentinos fazem com os dedos de um jeito que parece automático mas leva tempo para aprender. O recheio mais clássico é carne picada refogada com cebola, pimentão, ovo cozido, azeitona e especiarias. Mas tem de queijo, de frango, de presunto com queijo, de espinafre, de milho, de cebola, de cogumelos.

A diferença regional é fascinante: as empanadas de Mendoza são levemente picantes e costumam levar passas na carne. As de Tucumán têm massa mais fina e menos recheio. As de Salta são pequenas e fritas. As de Buenos Aires são assadas e maiores. Se você fizer o roteiro da Rota 40, vai provar versões completamente diferentes ao longo do caminho.


Medialunas

As medialunas são o croissant argentino, e quem achar que é a mesma coisa está enganado. A versão argentina tem uma massa mais densa, levemente adocicada, e é coberta com uma calda de açúcar que cria uma casquinha brilhante por fora. Por dentro é amanteigada, macia e tem um sabor que vai bem com tudo, do café preto ao mate.

Existem dois tipos: a medialuna de manteca, mais macia e doce, e a medialuna de grasa, feita com banha de porco, mais firme e levemente salgada. A de manteca é mais comum em Buenos Aires; a de grasa predomina no interior.

Na Argentina, o café da manhã é chamado de desayuno ou simplesmente desayuno porteño, e a combinação clássica é café com leite e uma cesta de medialunas. Em qualquer padaria ou confitería de Buenos Aires, essa combinação custa pouco e vale muito.


Dulce de Leche

O dulce de leche merece uma categoria própria porque na Argentina ele não é apenas um produto: é uma filosofia. Está no café da manhã, no lanche da tarde, no recheio do alfajor, dentro do sorvete, cobrindo tortas, dentro de crepes, misturado ao chantilly. Os argentinos colocam dulce de leche em praticamente tudo que tem espaço para isso.

A versão argentina é mais espessa, mais cremosa e mais intensa do que qualquer coisa que você encontra no Brasil. O teor de leite reduzido cria uma textura que gruda no paladar de um jeito agradável e um sabor de caramelo que não é excessivamente doce.

Existem tipos diferentes no mercado: o clásico, o repostero (mais firme, usado em confeitaria) e o light, que os argentinos compram mas ninguém acredita muito que funciona. Levar um ou dois potes na mala de volta é quase obrigatório.


Alfajor

O alfajor argentino e o alfajor brasileiro são parentes distantes que cresceram em casas muito diferentes. O argentino é uma obra de engenharia do prazer: dois biscoitos de maizena, delicados e que literalmente se desfazem na boca, unidos por uma camada generosa de dulce de leche e cobertos com chocolate ao leite, chocolate branco ou coco ralado.

A marca mais famosa é a Havanna, de Mar del Plata, que tem lojas em todo o país e aeroportos. Mas a discussão sobre o melhor alfajor argentino é religiosa. A Jorgito, a Cachafaz, a Guaymallén e dezenas de marcas regionais têm seguidores apaixonados.

O alfajor também aparece em versões tripladas, com três camadas de biscoito e dois recheios, que são para os mais dedicados. Come-se em qualquer horário, sem culpa aparente, com mate ou com café.


Malbec

Tecnicamente não é comida, mas não dá para separar a gastronomia argentina do Malbec. A uva chegou da França no século XIX, achou na Argentina, especialmente em Mendoza e na Patagônia, um terroir que superou o original e nunca mais largou.

O Malbec argentino tem uma cor violeta profunda, aroma de ameixa e frutas vermelhas maduras, taninos presentes mas macios e um corpo que combina perfeitamente com carnes na brasa. A altitude dos vinhedos, que em Mendoza chega a mais de 1.000 metros acima do mar, cria uma diferença de temperatura entre o dia e a noite que concentra os aromas da uva de um jeito que regiões mais quentes não conseguem.

Fazer uma visita a pelo menos uma vinícola em Mendoza é experiência obrigatória. As principais estão nos arredores da cidade, nos vales de Luján de Cuyo e de Uco, e muitas oferecem degustação com harmonização com queijos e frios locais.


Asado

O asado argentino não é churrasco. Essa é a primeira coisa que precisa ficar clara. O churrasco brasileiro é espeto e brasa alta. O asado é parrilla, brasa baixa, fogo controlado e tempo. Muito tempo.

O asado começa com o encendido do fogo, que em famílias tradicionais acontece horas antes da carne ir para a grelha. A brasa precisa estar madura, uniforme, sem chama direta. Daí começa o ritual: primeiro vão as entranhas e os miúdos, as achuras, que servem de entrada. Rins, morcilla, chinchulines (intestino delgado), molleja (timo). Depois chegam os cortes principais.

Os cortes-estrela do asado argentino são o bife de chorizo (contrafilé), o vacío (fraldinha), o asado de tira (costela cortada em tiras transversais, o corte mais emblemático) e a entraña (fraldão). Cada um pede um tempo diferente na grelha, e quem sabe assar respeita esse tempo com quase devoção.

O chimichurri e a salsa criolla (tomate, cebola e pimentão em vinagrete) são os acompanhamentos clássicos. Salada verde, pão e vinho completam o cenário. O asado não tem pressa e não tem horário fixo para terminar.


Parrillada

A parrillada é o asado servido em restaurante, e a diferença prática é que você recebe tudo junto numa grelha pequena que vem à mesa ainda com brasa embaixo para manter a temperatura. É a forma de provar todos os cortes e achuras sem precisar organizar um asado inteiro.

Nos restaurantes tradicionais de Buenos Aires, uma parrillada para duas pessoas vem com chinchulines, morcilla, chorizos, costela, vacío e entraña. É farta, é carnívora e é uma das experiências mais características da gastronomia portenha.

Para quem não tem estômago treinado para as achuras, não tem problema pedir a parrillada só com os cortes de carne. Mas provar ao menos uma morcilla argentina, que é mais suave e temperada do que a versão brasileira, vale o risco.


Cordeiro Patagônico

O cordeiro patagônico tem indicação geográfica registrada pelo governo argentino, o que é um sinal de que o produto é levado muito a sério. Os animais são criados soltos nas estepes da Patagônia, alimentados com leite materno e com a vegetação rasteira da região: gramíneas, coirões e arbustos nativos. Esse modo de vida livre e essa dieta específica criam uma carne magra, de sabor levemente herbáceo e textura muito mais macia do que o cordeiro criado de forma intensiva.

A preparação mais tradicional é o cordeiro ao espeto, assado inteiro sobre brasa durante horas no estilo al asador, com o animal aberto e fixado numa estrutura de ferro inclinada sobre o fogo. O resultado é uma carne que se desprende do osso com pressão leve e tem um sabor que não precisa de molho, de condimento elaborado, de nada além de sal grosso.

Em Ushuaia, El Calafate e Bariloche, praticamente todo restaurante regional tem cordeiro no cardápio. A melhor experiência costuma ser nos restaurantes mais simples, de família, longe dos menus em quatro idiomas.


Centolla

A centolla é o caranguejo gigante das águas geladas do Atlântico Sul e do Canal de Beagle. É o marisco mais valorizado da gastronomia patagônica e um dos crustáceos mais disputados da gastronomia mundial. Vive em profundidades de até 150 metros nas águas que chegam a 4°C, e é exatamente essa temperatura extrema que cria uma carne branca, firme e com sabor que é ao mesmo tempo delicado e intenso.

Uma centolla adulta pode chegar a 5 kg, com pernas longas e cheias de carne. A forma mais simples de servir, e muitas vezes a mais honesta, é cozida na água do mar com alho e limão, aberta à mesa. A carne vem em pedaços grandes, quase se desfazendo, e o sabor é levemente adocicado com um fundo mineral que vem direto do oceano.

Em Ushuaia, a centolla está em todo lugar, desde os restaurantes mais simples até os mais sofisticados. O preço não é baixo, mas é completamente justificado. Quem vai ao fim do mundo e não come centolla perdeu o prato principal da viagem.


Chocolate de Bariloche

A história do chocolate de Bariloche começa em 1948 com um casal de imigrantes italianos. Aldo Fenoglio e sua esposa Inés Secco chegaram de Turim fugindo da guerra na Europa. Ele era confeiteiro e chocolateiro, aprendeu o ofício no Piemonte, e quando chegou a Bariloche e viu as montanhas nevadas, sentiu que estava de volta à sua terra. Abriu uma casa de chá na rua San Martín e começou a fazer chocolate artesanal.

Conta a lenda que certa vez Fenoglio derrubou uma panela de chocolate quente sobre a bancada. Quando o chocolate esfriou e ele tentou removê-lo com a espátula, formou-se involuntariamente uma barra de chocolate em rama, irregular e rústica, que se tornaria o símbolo visual do chocolate de Bariloche.

Hoje a rua Mitre, a principal de Bariloche, é um corredor de chocolaterias que compete entre si em qualidade e criatividade. As mais famosas são a Rapa Nui, a Mamuschka, a Fanoglio e a Del Turista. Os bombons recheados com licores patagônicos, as trufas de calafate (a fruta silvestre da região), o chocolate amargo com especiarias andinas e as barras em rama são os produtos mais característicos.

A qualidade do chocolate de Bariloche é reconhecida internacionalmente. Não é souvenir. É produto gastronômico de verdade.


Uma última observação sobre como comer na Argentina

A Argentina não é um país de fast food, mesmo quando serve rápido. O ritmo das refeições é diferente do brasileiro. O almoço começa depois do meio-dia e pode durar até as três da tarde. O jantar raramente começa antes das nove, e às onze o restaurante ainda está cheio.

Tentar jantar às sete da tarde na Argentina é uma experiência solitária. O salão vai estar praticamente vazio e o garçom vai te olhar com aquela mistura de simpatia e pena reservada para turistas que ainda não entenderam o país. Coma no horário certo e a comida vai ter outro sabor.

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