Tour de Vespa Pela Região do Chianti na Itália

Passeio de Vespa pelas estradas do Chianti, na Toscana, com paradas em vinícolas, vilarejos medievais e degustações de vinhos italianos. Roteiro prático, dicas reais e tudo o que você precisa saber antes de pegar a estrada.

Fonte: Civitatis

Pegar uma Vespa e sair rodando pelas estradinhas do Chianti é, sem exagero, uma das experiências mais autênticas que a Itália oferece. Não é só andar de scooter. É entrar no ritmo da Toscana, sentir o cheiro dos ciprestes batendo no rosto, parar em uma vinícola que não está em nenhum guia famoso e ser recebido por um senhor de avental sujo de mosto, que insiste em te servir mais um cálice antes de você ir embora.

A região do Chianti fica entre Florença e Siena. Em linha reta, são pouco mais de 70 quilômetros separando as duas cidades, mas a graça toda está em não andar em linha reta. Está em se perder de propósito. E a Vespa, com seu jeito lento, simpático e meio teimoso nas subidas, é o veículo perfeito para isso.

Por que escolher a Vespa e não um carro alugado

Carro alugado na Toscana funciona. Ninguém discute. Mas tem três problemas que a Vespa resolve de cara.

O primeiro é o estacionamento. Os vilarejos medievais do Chianti, como Greve, Radda, Castellina e Panzano, têm ruas estreitíssimas e zonas restritas ao tráfego, as famosas ZTL. Com uma Vespa, você passa por lugares onde o carro simplesmente não cabe, e estaciona em qualquer canto sem pagar nada.

O segundo é a sensação. Andar de Vespa pelas curvas da Chiantigiana, a SR222, é uma daquelas coisas que parecem clichê até você fazer. Aí entende. O vento, o cheiro do alecrim selvagem, o som dos sinos de alguma igrejinha ao longe. Nada disso chega até você dentro de um carro com ar-condicionado ligado.

O terceiro é a velocidade. Parece contraditório, mas a Vespa te obriga a ir devagar, e ir devagar no Chianti é exatamente o ponto. Você vê uma plaquinha escrita “Cantina” apontando para uma estradinha de terra, dá para parar, voltar, entrar. De carro, em uma comitiva de turistas com pressa, dificilmente isso acontece.

Como funciona o aluguel da Vespa

Existem basicamente duas formas de fazer esse passeio. Você pode alugar a Vespa por conta própria e montar seu próprio roteiro, ou contratar um tour guiado, que normalmente sai de Florença com um grupo pequeno e um guia liderando a comitiva.

Para quem nunca andou de scooter ou está inseguro com a mão inglesa, digo logo: a Itália dirige na mão direita, igual ao Brasil, então isso não é problema. Mas se você nunca pilotou nada com duas rodas motorizadas, o tour guiado é a opção mais sensata. Eles geralmente oferecem um treinamento de uns 30 minutos em um pátio antes de cair na estrada.

A Vespa exige Carteira Nacional de Habilitação categoria A, ou pelo menos a categoria B com permissão para ciclomotores até 125cc, dependendo do modelo. E o mais importante: você precisa da Permissão Internacional para Dirigir, a PID, emitida pelo Detran do seu estado antes da viagem. Sem ela, o seguro do veículo não cobre nada em caso de acidente.

Preços médios para se planejar

Os valores variam bastante conforme a temporada, o modelo da Vespa e se inclui guia ou não. Para você ter uma referência atual:

| Tipo de Passeio | Duração | Faixa de Preço (por pessoa) | |:—:|:—:|:—:| | Aluguel avulso da Vespa | 1 dia | € 70 a € 120 | | Tour guiado com almoço | 1 dia (8h) | € 180 a € 280 | | Tour guiado com degustação em vinícola | 1 dia (8h) | € 220 a € 320 | | Tour de 2 ou 3 dias com hospedagem | 2 a 3 dias | € 500 a € 900 |

Vale lembrar que esses valores costumam subir na alta temporada, entre maio e setembro, e nos finais de semana.

O roteiro clássico saindo de Florença

A maioria dos tours começa na região de Impruneta, a uns 15 quilômetros ao sul de Florença. Faz sentido, porque sair de Vespa do centro histórico de Florença, no meio do trânsito caótico e dos turistas atravessando a rua sem olhar, não é exatamente uma experiência agradável. Geralmente a empresa te leva de van até o ponto de encontro, e ali começa a aventura de verdade.

O caminho mais tradicional é seguir pela SR222, a chamada Strada Chiantigiana. Essa estrada é a espinha dorsal do Chianti. Ela liga Florença a Siena passando exatamente pelos pontos mais bonitos da região. Mas a graça está em sair dela várias vezes, pegar estradinhas secundárias, voltar, pegar de novo.

Greve in Chianti

A primeira parada quase obrigatória é Greve in Chianti. A cidade tem uma praça central triangular, a Piazza Matteotti, cercada por arcadas e lojinhas de produtos locais. Tem uma estátua de Giovanni da Verrazzano no meio, o navegador italiano que descobriu a baía de Nova York muito antes dos ingleses chegarem por lá.

Em Greve, vale parar no Antica Macelleria Falorni, um açougue que funciona desde 1729. Não é só açougue, é uma espécie de templo dos embutidos toscanos. Eles fazem degustação de salames, finocchiona, lardo di colonnata e prosciutto. Combina perfeitamente com um cálice de Chianti que eles servem ali mesmo.

Montefioralle

Subindo uma colina logo acima de Greve, fica Montefioralle. É um vilarejo medieval minúsculo, fortificado, com talvez umas 50 casas em volta de uma rua circular. A maioria dos turistas que vai para Greve nem sabe que Montefioralle existe, o que é um erro. O lugar parece ter parado no século XIV. Não tem trânsito, não tem lojinha de imã de geladeira, não tem nada. Só pedras, gatos dormindo nas janelas e uma vista absurda do vale.

Panzano in Chianti

Continuando para o sul, a próxima parada é Panzano. A cidade ficou famosa por causa do açougueiro Dario Cecchini, dono da Antica Macelleria Cecchini. Dario virou uma espécie de celebridade gastronômica, aparece em documentários da Netflix, tem fila na porta. Ele recita Dante Alighieri enquanto corta a bistecca. É folclórico, é caro, mas vale ver pelo menos uma vez.

Quem quiser uma alternativa mais tranquila e barata pode comer no Officina della Bistecca, do próprio Dario, mas em formato mais informal, ou procurar uma das trattorias da região, que servem a bistecca alla fiorentina por preços bem mais civis.

Castellina in Chianti

Castellina é uma das cidades mais antigas do Chianti. Tem uma rua subterrânea medieval, a Via delle Volte, que era originalmente uma passagem militar e hoje virou um corredor coberto cheio de restaurantes e lojinhas. Caminhar por ali no fim da tarde, com o cheiro de risoto vindo das cozinhas, é uma experiência à parte.

Radda in Chianti

Radda fica um pouco fora da SR222, é preciso pegar a SR429. Mas o desvio compensa. A cidade é pequena, calma, com uma muralha medieval inteira preservada. É o tipo de lugar onde você senta na praça, pede um espresso, fica olhando o tempo passar e percebe que faz uns 40 minutos que ninguém passou na sua frente.

As vinícolas: onde realmente acontece a mágica

Falar de Chianti sem falar de vinho é impossível. A região produz o Chianti Classico, identificado pelo selo do galo preto, o Gallo Nero, em todas as garrafas. Esse selo é uma denominação de origem controlada e garantida, a DOCG, e só pode ser usado por vinícolas dentro da área geográfica delimitada entre Florença e Siena.

Algumas vinícolas que costumam fazer parte dos roteiros de Vespa, ou que valem uma parada se você está fazendo por conta própria:

A Castello di Verrazzano fica em Greti, perto de Greve. Tem o nome ligado ao mesmo Verrazzano da estátua de Greve. O castelo é do século XII, as visitas guiadas levam você pelas adegas subterrâneas e terminam com degustação de quatro ou cinco vinhos acompanhados de embutidos e queijos da casa.

A Castello di Brolio, da família Ricasoli, é praticamente o berço do Chianti como conhecemos hoje. Foi o barão Bettino Ricasoli quem, no século XIX, definiu a fórmula clássica do Chianti, com base na uva Sangiovese. O castelo está aberto a visitas e a vista do alto das torres é uma das mais bonitas da região.

A Antinori nel Chianti Classico é uma vinícola moderníssima, projetada para se integrar à paisagem. Quase toda ela fica enterrada na colina. As visitas são caras, na casa dos € 50 ou mais por pessoa, mas a experiência arquitetônica e enológica vale o investimento para quem gosta de vinho de verdade.

Para visitas em vinícolas, principalmente as mais conhecidas, é fundamental agendar com antecedência. Aparecer sem reserva, especialmente no verão, dá frustração na certa.

A hora do almoço: o ritual sagrado

Almoçar no Chianti não é parar para comer. É um ritual. Os toscanos levam o almoço a sério, e os horários são rígidos. A maioria das trattorias serve almoço das 12h30 às 14h30, e depois fecha até as 19h30. Se você chegar às 15h faminto procurando comida, vai encontrar tudo fechado.

Algumas sugestões testadas que valem o desvio na estrada:

A Trattoria del Montagliari, em Panzano, fica numa fazenda antiga, com vista para os vinhedos. O cardápio é simples e curto, sinal de qualidade. Os pici cacio e pepe, uma massa grossa e rústica típica da Toscana, costumam ser excelentes.

O Ristoro di Lamole, perto de Lamole, fica em um terraço com uma vista panorâmica que parece pintura. Os preços não são baixos, mas a comida e o lugar justificam.

A Osteria di Passignano, em Tavarnelle Val di Pesa, é mais sofisticada, tem estrela Michelin. Para quem quer fazer uma refeição especial em algum dia da viagem, é uma opção.

Para quem prefere algo mais econômico, qualquer trattoria de beira de estrada do Chianti vai servir bem. Procure por placas escritas “cucina casalinga” ou “cucina toscana”. Evite restaurantes com cardápio traduzido em cinco línguas e foto das pratos do lado de fora. Isso é praticamente uma regra universal de viagem.

Quando ir: melhor época para o tour de Vespa

O Chianti tem personalidade diferente em cada estação. E a Vespa, sendo um veículo aberto, sofre bastante com clima ruim.

A primavera, especialmente entre abril e início de junho, é provavelmente a melhor época. As temperaturas ficam entre 15 e 25 graus, os campos estão floridos, as papoulas vermelhas tomam conta dos vinhedos, e ainda não chegou a multidão do verão.

O verão, entre junho e agosto, é a alta temporada. Tem mais turistas, os preços sobem, e o calor pode passar dos 35 graus em alguns dias. Andar de Vespa com capacete sob esse sol não é exatamente confortável. Mas as paisagens estão no auge e os dias são longos, o que ajuda a fazer roteiros maiores.

O outono, entre setembro e meados de outubro, é a época da vindima, a colheita das uvas. Os vinhedos ficam dourados, vermelhos, cor de vinho mesmo. Muitas vinícolas fazem eventos abertos ao público. É a minha época preferida para indicar, sinceramente.

O inverno desencoraja. Frio, dias curtos, muita vinícola fechada para visitação, restaurantes em horários reduzidos. Não recomendo a Vespa nesse período, mesmo que tecnicamente seja possível.

O que levar e o que esquecer em casa

A bagagem na Vespa é limitada. Geralmente o veículo tem um pequeno baú traseiro e talvez um espaço sob o assento. Esqueça mala. Leve uma mochila pequena.

Itens essenciais para o passeio:

  • Capacete (geralmente fornecido pela locadora)
  • Jaqueta leve, mesmo no verão, por causa do vento na estrada
  • Óculos de sol bons, daqueles que vedam dos lados
  • Protetor solar
  • Sapato fechado, nada de sandália ou rasteira
  • Calça comprida ou bermuda longa, para proteger das pernas em caso de queda
  • Garrafa de água
  • Carregador de celular ou bateria portátil, porque você vai tirar muita foto

Documento importante: leve sempre com você a CNH original, a PID e o passaporte. A polícia rodoviária italiana, os carabinieri, fazem fiscalização e a multa por documentação irregular não é brincadeira.

Custos totais aproximados para planejamento

Para você ter uma noção realista do investimento total em um tour de Vespa de um dia pelo Chianti, saindo de Florença:

| Item | Valor médio em Euro | |:—:|:—:| | Tour guiado de Vespa (dia inteiro) | € 220 | | Almoço em trattoria | € 35 a € 50 | | Degustação extra em vinícola | € 25 a € 40 | | Garrafa de vinho para levar | € 15 a € 50 | | Pedágios e estacionamento | mínimo | | Café e gelato durante o dia | € 10 |

Considerando tudo isso, é razoável reservar entre € 300 e € 400 por pessoa para um dia bem aproveitado, sem economizar nem exagerar.

Alternativas para quem não quer pilotar

Se a ideia de pilotar uma Vespa em estradas estrangeiras te dá um frio na barriga, existem opções. Algumas empresas oferecem o passeio em Vespa com sidecar, onde um guia experiente pilota e você vai como passageiro no carrinho lateral. É bem menos comum, mais caro, mas resolve a questão.

Outra alternativa é o tour em FIAT 500 vintage, aquele carrinho clássico italiano. Não é a mesma experiência, mas mantém a estética italiana e a possibilidade de parar onde quiser. Existem também tours em Ape Calessino, aquele triciclo motorizado da Piaggio que vira praticamente um táxi panorâmico.

Onde se hospedar para fazer o tour com calma

Quem quer fazer o passeio de Vespa com tranquilidade, sem o estresse de voltar correndo para Florença no fim do dia, faz bem em dormir uma ou duas noites em algum agriturismo da região. Os agriturismos são pousadas rurais, geralmente em fazendas em funcionamento, que servem café da manhã com produtos da casa e às vezes oferecem jantar mediante reserva.

Algumas regiões boas para se hospedar:

Greve in Chianti é boa para quem quer ficar perto da ação, com restaurantes e lojas a pé. Radda in Chianti é mais isolada e tranquila, ideal para descansar de verdade. Castellina in Chianti fica em uma posição estratégica entre Florença e Siena, facilitando passeios para os dois lados.

Os preços de agriturismos variam muito. Para um lugar simples mas charmoso, dá para encontrar diárias na faixa de € 90 a € 150. Para algo mais sofisticado, com piscina, vista privilegiada e restaurante próprio, os preços passam fácil dos € 250.

Pequenos detalhes que fazem diferença

Um aviso que poucos guias dão: as estradas do Chianti têm bastante curva fechada, e em algumas seções existem ciclistas e pedestres. A regra de ouro é nunca cortar curva, mesmo que pareça que não vem nada do outro lado. Já vi mais de um turista se assustar com um grupo de ciclistas surgindo do nada na contramão.

Outra coisa: combustível. As Vespas modernas são econômicas, mas postos de gasolina no interior do Chianti são raros e fecham cedo, geralmente às 19h, e muitos não abrem aos domingos. Encha o tanque antes de sair para passeios mais longos.

E os banheiros. Não conte com banheiros disponíveis nas estradas. Aproveite cada parada em vinícola, restaurante ou café para resolver essa questão. As cidadezinhas têm banheiros públicos, mas nem sempre limpos e quase sempre pagos, em torno de € 1.

Vale mesmo a pena?

Depende do que você procura na viagem. Se a sua ideia de Itália é riscar monumentos famosos da lista, entrar em museus, ver Coliseu, Vaticano e Torre de Pisa, talvez um dia inteiro de Vespa no Chianti não seja a melhor escolha. Você vai voltar com poucas fotos de monumentos.

Mas se você quer entender por que tanta gente fica obcecada pela Toscana, por que escritores e cineastas voltam de lá com livros e filmes inteiros na cabeça, então sim. Vale completamente. É a diferença entre visitar a Itália e sentir a Itália.

O Chianti não se entrega para quem passa rápido. Ele se revela aos poucos, em uma curva, em uma conversa com um proprietário de vinícola que oferece um copo extra, em um pôr do sol entre os ciprestes que te faz parar a Vespa no acostamento só para olhar. Esse tipo de momento não cabe em roteiro, não tem em pacote, não compra com euro. Tem que ir, pegar a estrada, e deixar acontecer.

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