Roteiros Pela China Organizados por Duração de Viagem
Roteiros pela China organizados por duração de viagem: o que dá para ver em 4, 7, 8, 10, 12 ou 14 dias, com trens-bala, distâncias reais, custos aproximados e os erros mais comuns de quem monta o itinerário sozinho.

Roteiros pela China por tempo de viagem: como escolher sem se arrepender
A China quebra a cabeça de quem tenta planejar do jeito tradicional. O país tem quase o mesmo tamanho do Brasil em área, mas com uma diferença importante: a malha ferroviária de alta velocidade passa dos 45 mil quilômetros, a maior do mundo, e isso muda completamente a lógica do deslocamento. Distâncias que no Brasil exigiriam avião ou vinte horas de ônibus, na China se resolvem em quatro horas sentado num trem silencioso a 300 km/h.
Só que isso cria uma armadilho: a sensação de que dá para ver tudo. Não dá.
Quem monta roteiro de dez dias querendo encaixar Pequim, Xi’an, Xangai, Guilin, Chengdu e Hong Kong acaba passando metade da viagem em estação de trem e aeroporto. E volta para casa com a impressão de que a China é cansativa. O problema não é a China. É o roteiro.
A lógica que funciona é outra: escolher um eixo geográfico e respeitar ele. Abaixo vou destrinchar as combinações que fazem sentido de acordo com o tempo disponível, explicando por que cada uma funciona, quanto tempo se perde no trajeto e o que costuma dar errado.
Antes de tudo: as regras práticas que definem o roteiro
Existem quatro fatores que mandam mais no seu itinerário do que a sua vontade.
O visto e a isenção de 240 horas
Desde 2024, a China ampliou bastante a política de trânsito sem visto. Cidadãos de dezenas de países, incluindo o Brasil, podem entrar sem visto por até 240 horas (10 dias) desde que estejam em trânsito para um terceiro país e entrem por um dos portos habilitados, que já passam de 60 e cobrem 24 províncias. Isso significa, na prática, que uma viagem de até dez dias pode ser feita sem passar por consulado.
Vale checar as regras atualizadas antes de comprar passagem, porque a lista de portos e províncias vem sendo expandida com frequência. E atenção: o vôo de saída precisa ir para um terceiro país, não de volta para o país de origem. Muita gente escorrega nesse detalhe.
Além disso, o Brasil e a China assinaram em 2025 um acordo de isenção mútua de visto para turismo de curta duração, o que tende a simplificar ainda mais. Como regras migratórias mudam, confirme a situação vigente na embaixada antes de fechar qualquer coisa.
O trem-bala é o eixo, não o avião
A regra empírica que uso: até cinco horas de viagem, trem. Acima disso, avaliar avião. O trem te deixa no centro da cidade, não exige chegar duas horas antes e não sofre com atrasos climáticos na mesma proporção. Os bilhetes de alta velocidade (categorias G e D) abrem entre 14 e 15 dias antes da partida, e em feriados nacionais esgotam em minutos.
| Trecho | Distância aproximada | Trem-bala | Avião (vôo) |
| Xangai → Hangzhou | 170 km | 45 min a 1h | não faz sentido |
| Xangai → Suzhou | 85 km | 25 a 30 min | não faz sentido |
| Pequim → Xi’an | 1.100 km | 4h30 a 6h | 2h |
| Xi’an → Xangai | 1.500 km | 6h a 8h | 2h30 |
| Chengdu → Chongqing | 300 km | 1h15 a 2h | não faz sentido |
| Xi’an → Zhangjiajie | 1.000 km | 5h a 7h | 2h |
| Guilin → Xangai | 1.700 km | 8h a 10h | 2h30 |
| Kunming → Dali | 330 km | 2h | 1h |
| Dali → Lijiang | 150 km | 1h30 a 2h | não faz sentido |
O celular resolve ou destrói sua viagem
A China funciona por aplicativo. Pagamento no mercadinho, no táxi, no metrô, no ingresso do templo. Alipay e WeChat Pay já aceitam cartões internacionais (Visa e Mastercard) vinculados diretamente, o que resolveu um problema que era enorme até 2023. Ainda assim, leve algum dinheiro em espécie para emergências e para vendedores mais velhos em cidades pequenas.
O outro ponto é o acesso à internet. Google, WhatsApp, Instagram e boa parte dos serviços ocidentais são bloqueados dentro do país. Duas soluções: contratar um plano de roaming internacional da sua operadora brasileira (o tráfego sai pelo servidor de origem e escapa do bloqueio) ou instalar uma VPN paga antes de embarcar. Depois de pousar, baixar VPN fica bem mais difícil.
Baixe também o Amap ou o Baidu Maps, porque o Google Maps é inútil por lá. E o DiDi, que é o Uber chinês e tem versão em inglês.
Reserva antecipada de atrações não é frescura
Museu Nacional da China, Cidade Proibida, Museu de Xangai, Exército de Terracota: quase tudo exige reserva online com passaporte, feita com dias de antecedência. A Cidade Proibida limita visitantes diários e fecha às segundas (exceto em feriados). Isso já arruinou o dia de muita gente que chegou na porta esperando comprar ingresso.
4 a 5 dias: Xangai, Hangzhou e Suzhou
Esse é o roteiro que eu recomendaria para quem tem uma escala longa, uma viagem de trabalho com dias sobrando ou simplesmente quer sentir o gostinho do país sem se comprometer.
O triângulo funciona porque as três cidades ficam colado uma na outra. Suzhou está a menos de meia hora de trem de Xangai. Hangzhou, a menos de uma hora. Você pode dormir sempre em Xangai e fazer as outras duas como bate-volta, o que economiza duas arrumações de mala.
Xangai (2 a 3 dias)
Xangai é a China que não parece China para quem chega do Ocidente, e ao mesmo tempo é a mais fácil de digerir. O Bund, aquela avenida à beira do rio Huangpu com prédios coloniais de mármore de um lado e os arranha-céus de Pudong do outro, é o cartão postal óbvio. Vale ir duas vezes: de dia, para ver a arquitetura dos anos 1920, e depois das 19h, quando as torres acendem.
Do outro lado do rio está a Shanghai Tower, o prédio mais alto da China com 632 metros. O elevador sobe ao observatório do 118º andar em menos de um minuto, o que é uma sensação estranha nos ouvidos. Em dias de neblina, e são muitos, não compensa pagar. Olhe o céu antes.
O Jardim Yuyu, na cidade velha, é um jardim clássico do século XVI encaixado no meio de um bazar turístico bastante barulhento. O jardim em si é bonito. O bazar em volta é caro e cansativo, mas é ali que se come xiaolongbao, aquele pastelzinho cozido no vapor com caldo dentro. Cuidado ao morder, o caldo sai fervendo.
Para equilibrar, reserve uma manhã para a antiga Concessão Francesa, no distrito de Xuhui. Ruas arborizadas com plátanos, casas art déco, cafés. É a área mais agradável de caminhar sem rumo em Xangai. O Museu de Xangai, na Praça do Povo, tem uma coleção de bronzes e cerâmicas que é uma das melhores do país e a entrada é gratuita, com reserva.
Suzhou (1 dia)
Suzhou é conhecida como a Veneza do Oriente, apelido que sempre me pareceu preguiçoso, mas os canais existem e o Grande Canal passa por ali. A cidade é famosa pelos jardins clássicos, nove deles reconhecidos como Patrimônio Mundial pela UNESCO.
Se você só puder ver um, veja o Jardim do Administrador Humilde, o maior deles, com cerca de cinco hectares de lagos, pavilhões e pontes. O Jardim Retiro do Casal é bem menor e muito menos visitado, o que às vezes vale mais. Jardim chinês clássico não é sobre flores, é sobre enquadramento: cada janela, cada abertura de parede está posicionada para criar uma cena específica. Quando você entende isso, a visita muda de sentido.
À noite, a Rua Pingjiang, um canal com casas antigas restauradas, fica bonita e movimentada.
Hangzhou (1 dia)
Hangzhou é a cidade do Lago Oeste, que também é Patrimônio Mundial e que aparece em poesia chinesa há mais de mil anos. O lago tem cerca de 6,4 km² e um perímetro de aproximadamente 15 km. A melhor forma de conhecer é alugar bicicleta ou pegar um barco até a ilha central.
Perto do lago está o Templo Lingyin, um dos mais antigos e importantes templos budistas da China, fundado no século IV. Nas encostas ao redor há centenas de esculturas budistas talhadas na rocha, algumas do século X. É um lugar que impressiona pela idade, não pelo tamanho.
Se der tempo, as plantações de chá de Longjing, o chá verde mais famoso do país, ficam a poucos quilômetros e as colinas verdes valem a meia manhã.
O que dá errado nesse roteiro: tentar encaixar Nanjing ou Huangshan. Nanjing é uma cidade que merece dois dias inteiros pelo peso histórico. Huangshan, as montanhas amarelas, exige uma noite no topo para valer a pena. Encaixar de qualquer jeito só estraga.
7 dias: Chengdu e Chongqing
Esse par é para quem já foi à China antes ou para quem simplesmente não liga muito para monumentos e quer comida, gente e atmosfera urbana.
As duas cidades ficam a pouco mais de 300 km uma da outra, ligadas por trem-bala em cerca de 1h15 nos serviços mais rápidos. Ambas ficam na bacia do Sichuan e compartilham a tradição da pimenta de Sichuan, aquela que não queima, adormece a língua. A sensação se chama málà: a combinação de pimenta ardida com a pimenta-de-sichuan anestesiante. É desconcertante na primeira vez.
Chengdu (3 a 4 dias)
A Base de Pesquisa de Chengdu para Criação de Pandas Gigantes é o motivo principal pelo qual a maioria vai. Abriga dezenas de pandas e é um centro real de pesquisa e reprodução, não um zoológico decorativo. Uma dica prática que faz muita diferença: chegue na abertura, entre 7h30 e 8h. Os pandas são mais ativos na hora da alimentação matinal e depois das 10h eles dormem e o parque enche. Existe também a Base de Dujiangyan, a cerca de uma hora da cidade, mais tranquila e com menos gente.
Chengdu tem um ritmo diferente do resto da China. É uma cidade de casa de chá, de gente jogando mahjong na rua, de pé-de-moleque de sombrinha em parque público. O Parque do Povo com a casa de chá Heming é o retrato disso: você senta, paga um chá barato, e pode ficar horas. Tem até serviço de limpeza de ouvido com diapasão, uma tradição local que parece bizarra e é.
Para comida, o hotpot de Sichuan é a experiência definidora, e a versão local é mais pesada em óleo e pimenta do que qualquer coisa que se coma no Brasil sob esse nome. Se não aguentar, peça a panela dividida, com um lado suave. Ninguém vai te julgar. Outros pratos que valem: mapo tofu, dan dan mian, e o frango kung pao de verdade, que é bem diferente da versão adaptada.
Como bate-volta de Chengdu, dois destinos são fortes. O Buda Gigante de Leshan, esculpido na rocha no século VIII, tem 71 metros de altura e é a maior estátua de Buda em pedra do mundo. Fica a cerca de uma hora de trem. E o Monte Qingcheng com o sistema de irrigação de Dujiangyan, obra de engenharia do século III a.C. que ainda funciona, ambos Patrimônio Mundial.
Chongqing (2 a 3 dias)
Chongqing é uma das cidades mais estranhas e fotogênicas que existem. Está construída sobre morros, na confluência dos rios Yangtzé e Jialing, e o relevo criou situações urbanas que parecem cenário: o monotrilho da Linha 2 atravessa literalmente o meio de um prédio residencial na estação Liziba. Uma escada rolante que sobe o equivalente a vários andares. Ruas onde o térreo de um lado é o décimo andar do outro.
O município de Chongqing tem mais de 30 milhões de habitantes, embora a área urbana central seja bem menor. É gigantesca de qualquer forma.
O bairro de Hongya Dong, com aquele conjunto de construções em madeira empilhadas na encosta e iluminadas de amarelo à noite, virou fenômeno de rede social. É bonito mesmo, mas esteja preparado para multidão pesada. Vista melhor: do outro lado do rio ou da ponte Qiansimen.
O hotpot de Chongqing é ainda mais agressivo que o de Chengdu, tradicionalmente feito com sebo de boi e uma quantidade indecente de pimenta. É a cidade que reivindica a invenção do prato.
Observação prática: essa dupla combina bem com um cruzeiro pelas Três Gargantas do Yangtzé, que parte de Chongqing e leva de três a quatro noites até Yichang. Se você quer isso, precisa de 10 dias, não 7.
8 dias: Kunming, Dali, Lijiang e Shangri-La
Essa é a rota de Yunnan, e é a minha favorita para quem já viu o básico da China ou para quem prefere paisagem a monumento. Yunnan é a província com maior diversidade étnica do país, com 25 grupos minoritários reconhecidos, e a paisagem muda drasticamente conforme você sobe em altitude.
O eixo é uma linha reta para o noroeste, subindo do platô até a borda do Himalaia. E existe agora uma ferrovia que liga Kunming a Lijiang, o que tornou o percurso muito mais confortável do que era há dez anos.
Kunming (1 dia)
Kunming é chamada de cidade da primavera eterna porque fica a cerca de 1.900 metros de altitude e tem clima ameno o ano inteiro. É funcional mais do que encantadora, mas serve como porta de entrada e aclimatação.
O que realmente vale por ali é a Floresta de Pedra de Shilin, a cerca de 90 km, um campo de formações cársticas de calcário que se erguem como lâminas do chão. Tem cerca de 270 milhões de anos e é Patrimônio Mundial. Ocupa uma manhã inteira mais deslocamento.
Dali (2 dias)
Dali fica na margem do Lago Erhai, com a Cordilheira Cangshan atrás. A cidade antiga é murada, com portões preservados, e é território do povo Bai, cuja arquitetura de paredes brancas com detalhes azuis e cinza é bem distinta.
A melhor coisa a fazer em Dali é alugar uma bicicleta elétrica e dar a volta parcial no lago Erhai, que tem cerca de 250 km² de área e 116 km de perímetro. Não dá para fazer tudo em um dia, mas o trecho leste, com os vilarejos de Xizhou e Shuanglang, rende bastante. Os campos de plantio na beira da água com as montanhas ao fundo são a imagem que fica.
As Três Pagodes do Templo Chongsheng são do século IX e sobreviveram a vários terremotos, o que já diz algo sobre como foram construídas.
Lijiang (2 dias)
A cidade antiga de Lijiang é Patrimônio Mundial e é território do povo Naxi, que tem uma cultura própria bastante documentada, incluindo o único sistema de escrita pictográfica ainda em uso no mundo, o dongba.
O centro histórico é um labirinto de canais e ruas de pedra. É lindo e é turístico ao extremo. Muitas lojas vendendo a mesma coisa, muita música alta à noite. Meu conselho: use Lijiang como base e saia dela.
O que vale de verdade nos arredores: a Montanha do Dragão de Jade, com pico a 5.596 metros, e o Desfiladeiro do Salto do Tigre, uma das gargantas mais profundas do mundo, com paredões que chegam a mais de 3.000 metros acima do rio Yangtzé. O trekking do desfiladeiro, na trilha alta, é de dificuldade moderada a alta e leva dois dias se feito integralmente, ou pode ser encurtado.
Também vale a cidade antiga de Shuhe, a poucos quilômetros de Lijiang, bem mais calma.
Shangri-La (1 a 2 dias)
Shangri-La, cujo nome oficial anterior era Zhongdian, foi rebatizada em 2001 para associar a cidade ao romance de James Hilton. Marketing puro, mas o lugar entrega. Fica a cerca de 3.200 metros de altitude e a cultura já é claramente tibetana.
O Mosteiro de Songzanlin é o maior mosteiro budista tibetano de Yunnan, com estrutura que remete ao Palácio Potala em escala reduzida. E o Parque Nacional de Pudacuo tem lagos alpinos e pradarias que em julho e agosto ficam cobertas de flores.
Aviso sério sobre altitude: subir de Lijiang (2.400 m) para Shangri-La (3.200 m) num dia pode causar dor de cabeça, náusea e insônia. Beba muita água, evite álcool na primeira noite e não planeje esforço físico no dia da chegada. Se você tem condição cardíaca ou respiratória, converse com médico antes.
10 dias: Pequim, Xi’an e Xangai
Esse é o roteiro clássico de primeira viagem, e ele é clássico porque funciona. Cobre a China imperial, a China arqueológica e a China contemporânea, com três cidades que têm infraestrutura turística madura e vôos internacionais diretos.
A ordem mais eficiente é entrar por Pequim e sair por Xangai, ou o contrário, com Xi’an no meio. Nunca fazer ida e volta.
Pequim (4 dias)
Pequim é densa de coisa para ver e as distâncias internas são grandes. Quatro dias é o mínimo razoável.
A Cidade Proibida foi o palácio imperial das dinastias Ming e Qing por quase 500 anos, tem 72 hectares e algo em torno de 980 edificações. Reserve online com antecedência, chegue cedo, entre pelo portão sul (Meridiano) e saia pelo norte, e depois suba o Parque Jingshan, que fica logo atrás e oferece a vista aérea do conjunto de telhados dourados. Essa vista é o que faz a ficha cair sobre o tamanho da coisa.
O Templo do Céu é onde os imperadores faziam os sacrifícios anuais pela boa colheita. A construção principal é toda de madeira, sem um único prego. O parque em volta, de manhã cedo, se enche de gente fazendo taichi, dançando e cantando ópera. Isso vale mais que o templo, na minha opinião.
O Palácio de Verão é um complexo enorme de lago e jardins, era o refúgio da corte no calor. Precisa de meio dia inteiro e sapato confortável.
A Grande Muralha é a razão pela qual muita gente vai à China, e a escolha do trecho importa muito.
| Trecho | Distância de Pequim | Perfil | Multidão |
| Badaling | 70 km | restaurado, fácil acesso, teleférico | muito alta |
| Mutianyu | 70 km | restaurado, torres, tobogã de descida | média |
| Jinshanling | 130 km | parcialmente selvagem, trilha longa | baixa |
| Simatai / Gubeikou | 120 km | selvagem, íngreme, visita noturna em Simatai | baixa |
| Jiankou | 80 km | não restaurado, perigoso, sem estrutura | quase nenhuma |
Se você tem um dia só, vá a Mutianyu. Badaling é o mais fácil e o mais lotado, com trechos onde você anda em fila indiana. Jinshanling é onde estão as fotos de muralha vazia serpenteando pelas montanhas, e exige um dia inteiro com transporte contratado.
E reserve pelo menos uma tarde para os hutongs, os becos das casas tradicionais de pátio. A área de Nanluoguxiang é a mais famosa e a mais comercial. Dongsi e Wudaoying são mais autênticas. Pato laqueado de Pequim é obrigatório, e as casas históricas como a Quanjude e a Bianyifang têm mais tradição, embora tenham ficado turísticas. A Siji Minfu costuma agradar mais quem quer qualidade sem circo.
Xi’an (2 dias)
Xi’an foi capital de treze dinastias e o ponto de partida oriental da Rota da Seda. É a cidade mais historicamente carregada da China.
O Exército de Terracota, descoberto em 1974 por camponeses que cavavam um poço, guarda mais de 8.000 soldados em tamanho real, cada um com feições distintas, além de cavalos e carruagens. Foram enterrados junto ao mausoléu do imperador Qin Shi Huang no século III a.C. A Fossa 1 é a que todos conhecem das fotos e ainda assim impressiona ao vivo, porque a escala não cabe em imagem.
Contrate um guia local ali, mesmo que seja por hora. Sem contexto, você vê estátuas. Com contexto, você entende o que aquilo significa sobre poder, medo da morte e organização estatal.
A muralha da cidade de Xi’an é uma das mais bem preservadas da China, com cerca de 14 km de perímetro. Você pode alugar bicicleta e dar a volta completa em duas horas. Faça no fim da tarde.
O Bairro Muçulmano, ligado à comunidade Hui, é o melhor lugar da cidade para comida de rua. Roujiamo, o sanduíche de carne cozida que às vezes chamam de hambúrguer chinês, e os biang biang noodles, macarrão largo cortado à mão, são os destaques. O nome do prato tem um dos caracteres chineses mais complexos que existem, com dezenas de traços.
Xangai (3 dias)
Aqui vale o que descrevi no roteiro curto, com mais folga. Com três dias você consegue encaixar um bate-volta a Suzhou ou a uma das vilas de canal como Zhujiajiao, que fica dentro do município de Xangai e a menos de uma hora de ônibus.
12 dias: Pequim, Xi’an, Guilin e Xangai
Esse é o roteiro de dez dias com uma parada que muda o caráter da viagem inteira. Guilin e a região de Yangshuo entregam a paisagem cársica que aparece nos rolos de pintura chinesa e na nota de vinte yuans.
Guilin e Yangshuo (3 dias)
Guilin em si é uma cidade agradável mas pouco extraordinária. O que importa está no rio Li e em Yangshuo, a cerca de 65 km ao sul.
O cruzeiro pelo rio Li, de Guilin a Yangshuo, leva cerca de quatro horas e atravessa o trecho mais fotografado de morros calcários da China. Existem duas versões: o barco grande com almoço incluído, que faz o percurso completo, e o bambu raft nos trechos menores, mais próximo da água e mais barato. Se o tempo estiver fechado com neblina, muita gente reclama, mas na verdade a neblina baixa é justamente o que dá o efeito de pintura clássica.
Yangshuo é a base ideal. É uma cidade pequena com escalada em rocha de nível mundial, ciclismo entre plantações de arroz e o rio Yulong, onde os rafts de bambu descem entre pequenas barragens. Alugar uma bicicleta e sumir na zona rural por um dia é a melhor coisa a fazer ali.
Também na região estão os terraços de arroz de Longji, ou Espinha do Dragão, a cerca de duas horas de Guilin. São terraços construídos ao longo de séculos pelos povos Zhuang e Yao nas encostas. As duas melhores épocas: maio e junho, quando os terraços estão inundados e refletem o céu, e setembro e outubro, quando o arroz está dourado antes da colheita.
Sobre logística: Guilin tem aeroporto com vôos para Xangai e Pequim, e estação de trem-bala. O trem de Xi’an para Guilin leva de 8 a 11 horas, então nesse trecho eu voaria. Guilin para Xangai também é longo de trem. Aqui o avião ganha.
14 dias: Pequim, Xi’an, Zhangjiajie, Guilin e Xangai
Com duas semanas você consegue a versão mais variada, adicionando Zhangjiajie, na província de Hunan.
Zhangjiajie (2 a 3 dias)
O Parque Florestal Nacional de Zhangjiajie foi o primeiro parque nacional da China, criado em 1982, e faz parte da área de Wulingyuan, Patrimônio Mundial da UNESCO. É famoso pelos pilares de quartzo arenito que se erguem centenas de metros do chão da floresta, alguns com mais de 300 metros de altura.
Ficou mundialmente conhecido depois de Avatar, e o pilar mais famoso foi oficialmente renomeado como Montanha Aleluia de Avatar, decisão que sempre me pareceu meio triste, considerando que a formação existia muito antes do filme.
O parque é enorme e tem uma quantidade absurda de infraestrutura: o Elevador Bailong, cravado na parede de rocha, sobe 326 metros e é o elevador externo mais alto do mundo. Há teleféricos, ônibus internos e trilhas. Duas coisas para saber: o parque é imenso e você precisa planejar qual setor visitar em qual dia, e há muita gente. Muita.
A Montanha Tianmen, mais próxima da cidade, é uma visita separada com ingresso próprio. Tem o teleférico de passageiros mais longo do mundo, uma estrada com 99 curvas fechadas e o Portão do Céu, um arco natural na rocha com 131 metros de altura. Também tem passarelas de vidro na beira do abismo, se isso te interessa ou te aterroriza.
O Grande Cânion de Zhangjiajie tem a ponte de vidro, com 430 metros de comprimento e 300 metros de altura. Sinceramente, é mais atração de parque temático que natureza, mas as pessoas gostam.
Zhangjiajie tem aeroporto e estação de trem-bala. O trem de Zhangjiajie para Guilin leva em torno de 4 a 5 horas, o que encaixa razoavelmente bem no roteiro.
Onde ficar: a vila de Wulingyuan, na entrada do parque, é mais prática que a cidade de Zhangjiajie, que fica a cerca de 40 km.
Como escolher a época do ano
Isso importa mais do que parece, porque a China tem extremos climáticos.
| Época | Vantagens | Problemas |
| Abril e maio | clima ameno, verde, flores | preços médios |
| Junho a agosto | Yunnan e Zhangjiajie na melhor forma | calor sufocante em Xangai e Xi’an, chuvas no sul |
| Setembro e outubro | melhor clima geral do ano | feriado nacional de 1 a 7 de outubro, evite |
| Novembro | cores de outono em Pequim, pouca gente | frio começando |
| Dezembro a fevereiro | preços baixos, sem filas | frio severo no norte, Ano Novo Chinês trava o país |
Dois períodos para riscar do calendário se você puder: a Semana Dourada, de 1 a 7 de outubro, quando centenas de milhões de chineses viajam ao mesmo tempo, e o Ano Novo Chinês, que cai entre fim de janeiro e meados de fevereiro e provoca a maior migração humana anual do planeta. Trem lotado, preço alto, muitos negócios fechados.
Orçamento aproximado
Valores por pessoa, por dia, excluindo passagem internacional. A China é mais barata do que a Europa e mais cara do que o sudeste asiático.
| Perfil | Hospedagem | Comida | Transporte interno | Total diário |
| Econômico | R$ 100 a 180 | R$ 60 a 100 | R$ 40 a 80 | R$ 220 a 360 |
| Intermediário | R$ 300 a 500 | R$ 130 a 220 | R$ 80 a 150 | R$ 520 a 870 |
| Confortável | R$ 700+ | R$ 300+ | R$ 200+ | R$ 1.200+ |
Os trens de alta velocidade em segunda classe custam algo em torno de R$ 250 a R$ 450 nos trechos longos como Pequim a Xi’an. Metrô é muito barato, geralmente menos de R$ 5 por viagem. Comer em restaurante local sai por R$ 25 a R$ 50. Ingressos das grandes atrações ficam entre R$ 30 e R$ 100, com Zhangjiajie sendo bem mais caro pelos passes múltiplos.
Passagem aérea do Brasil costuma ficar entre R$ 5.000 e R$ 9.000 dependendo da época e da companhia. As conexões mais comuns passam por Adis Abeba, Doha, Dubai, Istambul ou Joanesburgo. Vôos diretos entre São Paulo e Xangai foram anunciados pela China Eastern, então vale checar disponibilidade atual.
Os erros que eu vejo repetidamente
Roteiro com cidade a mais. Se você está com dúvida entre cortar uma cidade ou dormir menos, corte a cidade. Sempre.
Ignorar o tempo de deslocamento urbano. Pequim tem 16 mil km² de área municipal. Ir do centro ao Palácio de Verão pode levar uma hora de metrô. Chongqing, com o relevo, engole tempo de forma imprevisível.
Não instalar VPN antes de embarcar. Repito porque é o erro mais frequente e o mais irreversível.
Confiar em cartão de crédito no balcão. A China é uma sociedade de pagamento por QR code. Vincule o cartão ao Alipay antes de viajar e teste.
Não reservar atrações. Cidade Proibida, Exército de Terracota, museus grandes. Sem reserva, sem entrada.
Achar que inglês resolve. Fora dos hotéis e das áreas turísticas centrais, praticamente ninguém fala inglês. O tradutor do Baidu ou o Google Translate offline com chinês baixado salva o dia. Peça sempre o endereço do hotel escrito em caracteres chineses para mostrar a taxista.
Subestimar a altitude em Yunnan e no Tibete. Já falei, mas vale de novo.
Qual desses roteiros escolher
Se é sua primeira vez e você tem dez dias, faça Pequim, Xi’an e Xangai. Não invente. Esse eixo existe porque funciona e porque cobre três camadas completamente diferentes do país.
Se você tem doze ou catorze dias, acrescente Guilin, e depois Zhangjiajie. A natureza equilibra o cansaço de museu e monumento, que é real depois de quatro dias em Pequim.
Se é sua segunda viagem, ou se você tem pouco interesse em fila de turista, vá para Yunnan. É onde a China deixa de ser aquela ideia monolítica que a gente carrega e se revela um mosaico de povos, altitudes e línguas.
E se você só tem cinco dias por causa de uma escala ou de um compromisso de trabalho, o triângulo Xangai, Suzhou e Hangzhou é a melhor relação entre esforço e retorno que existe no país.
A China é um daqueles destinos onde a diferença entre uma viagem boa e uma viagem exaustiva está quase inteiramente na fase de planejamento. Não é sobre gastar mais. É sobre aceitar que você não vai ver tudo, escolher bem o que vai ver, e deixar espaço na agenda para as coisas que não estavam na lista. Costuma ser delas que a gente lembra depois.
