Roteiro de Viagem por Portugal de Carro
Planejar um roteiro de viagem por Portugal de carro exige entender as rotas cênicas, o sistema de pedágios e a logística de cidades históricas para aproveitar o país no seu próprio ritmo.

Roteiro de Viagem por Portugal de Carro
Explorar o território português através das estradas é uma das experiências turísticas mais gratificantes que você pode vivenciar na Europa. O país tem uma escala geográfica maravilhosa. A distância entre o extremo norte e a ponta sul do Algarve tem pouco mais de setecentos quilômetros, o que significa que as mudanças de paisagem acontecem de forma muito rápida e dinâmica. Em um mesmo dia, você pode acordar tomando café da manhã de frente para montanhas cobertas de neve, dirigir algumas horas por planícies ensolaradas e terminar a tarde assistindo ao pôr do sol em falésias gigantescas de frente para o Oceano Atlântico.
A liberdade de ter as chaves de um veículo nas mãos permite acessar vilarejos de pedra minúsculos, vinícolas familiares escondidas no fim de estradas de terra e praias selvagens que os trens ou ônibus de turismo simplesmente não alcançam. No entanto, dirigir em Portugal envolve regras próprias, desafios logísticos em cidades medievais e decisões financeiras que precisam ser tomadas muito antes de você pisar no acelerador. O sucesso de um roteiro rodoviário não depende apenas de um bom GPS, mas de uma estratégia impecável de deslocamento.
A Logística de Chegada e a Escolha dos Seus Vôos
O maior erro logístico que os viajantes cometem ao planejar uma viagem rodoviária é comprar passagens aéreas de ida e volta pelo mesmo aeroporto. Se o seu objetivo é cruzar o país do norte ao sul, chegar por Lisboa e ter o vôo de retorno também saindo de Lisboa obriga você a fazer uma viagem circular. Você perderá o seu último dia inteiro dirigindo centenas de quilômetros de volta à capital apenas para devolver o carro e embarcar.
A estratégia correta é usar a opção de múltiplas cidades nos buscadores de passagens. Você emite os seus vôos de forma que a ida tenha como destino o Aeroporto do Porto e o retorno parta do Aeroporto de Faro, no Algarve, ou vice-versa. Comprar vôos dessa maneira permite que o seu roteiro seja linear. Você avança sempre em frente, conhecendo novos lugares a cada dia, sem nunca precisar refazer o próprio caminho. As companhias aéreas tradicionais europeias permitem essa flexibilidade na emissão dos vôos com muita facilidade, e a diferença de preço para uma passagem circular costuma ser muito pequena quando comparada ao gasto com combustível e diárias extras de hotel que você teria no trajeto de retorno.
O Desafio do Aluguel de Carros e o Tamanho do Veículo
Na hora de reservar o seu carro nas locadoras, o instinto de muitos motoristas é buscar utilitários esportivos enormes ou sedans muito longos para garantir o máximo de espaço para as bagagens. Em Portugal, um carro grande rapidamente se transforma em um estorvo diário. As estradas principais são largas e modernas, mas o verdadeiro encanto do país está nos centros históricos. As vilas medievais foram desenhadas há séculos para a passagem de cavalos e carroças. As ruas são brutalmente estreitas, cheias de curvas fechadas e ladeadas por paredes de pedra calcária que não perdoam arranhões na lataria.
Optar por um carro compacto ou um hatch médio é a decisão mais sensata. Veículos como o Renault Clio, o Volkswagen Golf ou o Peugeot 208 oferecem conforto suficiente para dois ou três adultos com malas normais, mas têm a agilidade necessária para manobrar em ruelas apertadas e caber em vagas de estacionamento urbanas minúsculas. Além do tamanho, preste atenção no câmbio. A frota europeia ainda é dominada por carros com transmissão manual. Se você não tem prática com pedal de embreagem, especialmente porque Portugal é um país cheio de ladeiras muito íngremes, exija um carro automático no momento da reserva. Os modelos automáticos são mais escassos e ligeiramente mais caros, mas poupam o motorista de um cansaço físico extremo.
Em relação aos seguros oferecidos no balcão da locadora, a minha recomendação é sempre contratar a proteção máxima com isenção total de franquia. O trânsito urbano nas cidades mais antigas é caótico, os espelhos retrovisores frequentemente esbarram uns nos outros nas ruas estreitas e os pequenos danos são quase inevitáveis. Pagar a taxa diária do seguro total traz uma paz de espírito que não tem preço durante as suas férias.
A Armadilha dos Pedágios e o Sistema Via Verde
O asfalto das rodovias portuguesas é de uma qualidade invejável, mas essa manutenção custa caro e é cobrada através de um sistema de pedágios implacável. Existem dois tipos de rodovias pagas no país. As autoestradas tradicionais, onde você retira um bilhete de papel na cabine de entrada e paga o valor em dinheiro ou cartão na cabine de saída, e as antigas rodovias sem custo, conhecidas popularmente como SCUT.
As rodovias do tipo SCUT são o grande terror dos turistas desavisados. Elas não possuem cabines físicas de cobrança. Em vez disso, há pórticos de metal cruzando a rodovia equipados com câmeras e sensores. Ao passar por baixo desses pórticos a cento e vinte quilômetros por hora, o sistema lê a placa do seu carro e registra o valor do pedágio. Se você tentar pagar isso de forma avulsa depois, terá que enfrentar filas nos correios locais dias após a passagem, um processo altamente burocrático.
A solução obrigatória é exigir o aluguel do identificador da Via Verde na locadora de veículos. Trata-se de uma pequena caixa branca colada no vidro do carro, muito parecida com os sistemas de cobrança automática brasileiros. Com a Via Verde ativa, você não precisa se preocupar com absolutamente nada. Nas rodovias normais, você passa pelas faixas exclusivas sem precisar parar o carro. Nas rodovias de pórticos eletrônicos, o sistema registra tudo automaticamente. No momento de devolver o veículo, a locadora puxa o extrato total de passagens e debita o valor exato no seu cartão de crédito. É um serviço que custa cerca de dois euros por dia de aluguel e salva dezenas de horas da sua viagem.
Combustíveis e o Ritmo nos Postos de Abastecimento
Abastecer o carro na Europa tem particularidades que merecem atenção. As bombas possuem cores padronizadas. A mangueira verde é sempre para gasolina, enquanto a mangueira preta é destinada ao diesel, que em Portugal é chamado estritamente de gasóleo. Colocar gasolina em um motor a gasóleo destrói o veículo e a locadora cobrará danos imensos. Verifique sempre o adesivo na tampa do tanque do seu carro antes de pegar a mangueira.
O sistema de abastecimento é de autosserviço na grande maioria das vezes. Você mesmo estaciona, desce do carro, insere a mangueira, enche o tanque, memoriza o número da bomba e entra na loja de conveniência para pagar o valor ao funcionário no caixa. Em alguns postos rodoviários menores ou durante a madrugada, as bombas operam com terminais de pagamento automático que exigem cartão de crédito com chip e senha antes de liberar o combustível. O gasóleo costuma ser um pouco mais barato que a gasolina e os carros a diesel têm um rendimento por litro muito superior, sendo a escolha favorita de quem vai rodar milhares de quilômetros.
Estacionamento e os Parquímetros Urbanos
Estacionar de graça em áreas turísticas de Portugal é algo raro. As cidades operam com sistemas rigorosos de parquímetros nas ruas. O funcionamento exige atenção. Você estaciona o carro em uma vaga delimitada por linhas no chão, caminha até a máquina mais próxima na calçada, insere moedas estimando o tempo que vai ficar no local, aperta o botão verde e a máquina imprime um pequeno recibo de papel. Esse papel deve ser colocado no painel do carro, bem visível pelo lado de fora do vidro.
Ignorar o parquímetro resulta em multas pesadas e, dependendo da cidade, no bloqueio das rodas do carro por travas amarelas de metal instaladas pela fiscalização. Muitos desses parquímetros modernos já aceitam pagamento por aplicativos de celular, o que facilita a vida de quem não anda com os bolsos cheios de moedas de euro. O detalhe fundamental é entender que a maioria das vagas de rua tem um tempo limite máximo de permanência, frequentemente de apenas duas ou quatro horas. Para estadias longas ou pernoites, a alternativa mais segura é procurar os estacionamentos subterrâneos privados, que cobram diárias fechadas e evitam dores de cabeça com horários.
O Ponto de Partida: Retirando o Carro no Porto
Assumindo que o seu roteiro seja de norte a sul, a cidade do Porto é a base inicial perfeita. Um conselho valioso é não alugar o carro logo no momento do desembarque no aeroporto. A cidade do Porto é compacta, cheia de ladeiras e possui uma rede de metrô fabulosa. Usar um carro no centro do Porto é estressante e os estacionamentos cobram verdadeiras fortunas por dia.
Aproveite os primeiros dias para conhecer a Ribeira, a Torre dos Clérigos e as famosas caves de vinho em Vila Nova de Gaia usando o transporte público ou caminhando. Deixe a reserva do carro apenas para a manhã em que você for efetivamente deixar a cidade rumo ao interior do país. Ao assinar o contrato na locadora localizada no centro do Porto e colocar as malas no porta-malas, a viagem de estrada verdadeiramente começa.
O seu primeiro destino não será o sul, mas sim uma breve incursão estratégica em direção ao nordeste. Pegue a rodovia rumo ao berço da fundação do país. Em menos de uma hora de pistas excelentes cortando a paisagem verde da região do Minho, você alcança Guimarães.
A Rota do Minho: Guimarães e Braga
Guimarães possui um dos centros históricos mais conservados de toda a Europa. A vantagem de estar de carro é poder chegar cedo, estacionar nos bolsões nos arredores do antigo Castelo de Guimarães e caminhar tranquilamente pela cidade antes que os ônibus de turismo cheguem. A cidade exala orgulho pelas suas origens medievais, com praças ladeadas por sacadas antigas de ferro forjado.
Logo após o almoço, o deslocamento de carro até a cidade vizinha de Braga dura apenas vinte e cinco minutos. A mobilidade do veículo próprio brilha intensamente aqui. Em vez de depender de ônibus urbanos demorados a partir do centro de Braga, você pode dirigir o seu carro diretamente até o alto da colina onde fica o Santuário do Bom Jesus do Monte. O estacionamento arborizado fica a poucos metros da monumental escadaria em zigue-zague. Explorar as igrejas de Braga, tomar um café tranquilo nas praças centrais e voltar para o conforto dos bancos do seu carro no fim da tarde demonstra o quão eficiente esse modo de viagem pode ser.
O Espetáculo do Vale do Douro e a Estrada N222
No dia seguinte, o roteiro exige abandonar o litoral provisoriamente e mergulhar em uma das regiões mais deslumbrantes da Península Ibérica. O destino é o Vale do Rio Douro, a região vinícola demarcada mais antiga do planeta. A viagem a partir do Porto, descendo em direção à cidade de Peso da Régua pela rodovia A4, é rápida, mas a verdadeira magia automotiva começa ao chegar nas margens do rio.
É a partir de Peso da Régua que você acessa um trecho icônico da Estrada Nacional 222, carinhosamente chamada de N222. O segmento que liga a Régua até a pequena vila do Pinhão tem vinte e sete quilômetros de extensão e exatas noventa e três curvas. Em 2015, esse trecho foi eleito por um estudo matemático de uma empresa de locação de veículos como a melhor estrada do mundo para se dirigir, avaliando o equilíbrio perfeito entre o ângulo das curvas, a extensão das retas e o visual ao redor.
Dirigir pela N222 exige calma e contemplação. A estrada serpenteia colada às águas espelhadas do rio Douro, enquanto as encostas ao seu redor formam paredões verticais forrados por terraços milenares construídos pelo homem, onde as vinhas crescem desafiando a gravidade. A vontade de parar o carro a cada quilômetro para tirar fotografias é imensa. Ao longo do caminho, inúmeras quintas produtoras de vinho abrem os seus pesados portões de ferro para degustações. Chegar a uma dessas propriedades no alto da montanha dirigindo o seu próprio carro por estradas sinuosas entre os vinhedos é uma memória que ficará gravada para sempre. Após um dia imerso no universo do vinho e nas paisagens bucólicas, o retorno em direção à costa marca o início da descida rumo ao sul.
A Costa de Prata e as Águas de Aveiro
Descendo pelo litoral, a primeira parada estratégica é Aveiro. A cidade é totalmente plana e repousa sobre as margens de uma imensa ria de águas salgadas. A facilidade de estacionar perto dos canais permite que você desembarque rapidamente e embarque em um passeio de quarenta minutos nos tradicionais barcos moliceiros, admirando as fachadas decoradas em estilo Art Nouveau.
Ter o carro aqui é essencial para a segunda parte da visita a Aveiro. O centro histórico não tem acesso ao mar aberto. Para ver o oceano, você precisa dirigir cerca de dez quilômetros até a península da Costa Nova. A avenida litorânea é margeada por casas tradicionais de pescadores construídas em madeira, cujas fachadas são pintadas com grossas listras verticais em cores muito vivas, como azul, vermelho e amarelo. É o lugar ideal para um almoço longo à base de mariscos frescos enquanto o vento frio característico da região ajuda a abrir o apetite.
A Força do Oceano na Nazaré e o Charme de Óbidos
Continuando a rota pela Costa de Prata, o mar assume o protagonismo na cidade da Nazaré. O desvio a partir da rodovia principal é rápido. A vila pesqueira tem duas partes. A parte baixa, com a extensa praia de areia branca forrada com as tradicionais tendas listradas no verão, e a parte alta, chamada de Sítio da Nazaré, localizada no topo de um penhasco imenso. Você pode dirigir o seu veículo até o farol no topo do penhasco. É exatamente ali, devido a um profundo desfiladeiro submarino conhecido como Canhão da Nazaré, que se formam as maiores ondas surfadas do mundo durante os violentos meses de inverno. O som do vento e a violência do mar quebrando contra as pedras oferecem um espetáculo natural brutal.
Avançando mais um pouco na rota, a vila de Óbidos surge no horizonte. É uma cidade medieval inteiramente cercada por muralhas de pedra altíssimas. Aqui, a regra de ouro do roteiro rodoviário se aplica novamente. A entrada de veículos de não residentes dentro das muralhas é proibida e, francamente, fisicamente impossível devido à largura das ruas de pedras tortas. Existe um estacionamento gigantesco de terra e asfalto bem aos pés do portal de entrada. Você estaciona, paga o parquímetro e caminha para dentro da vila. As ruas são tomadas por casas pintadas de branco com barrados azuis e amarelos, janelas repletas de flores e dezenas de portas vendendo a clássica ginjinha, um licor de cereja selvagem servido em um pequeno copo feito de chocolate comestível.
O Desvio Estratégico pela Serra da Estrela
Se o seu calendário permitir mais dias de estrada, recomendo fortemente um desvio em direção ao leste, cortando o centro de Portugal para alcançar a Serra da Estrela. É a maior cadeia de montanhas do território continental e o único lugar do país onde a neve cai com frequência durante o inverno.
A estrada que sobe até o topo da montanha, conhecido como a Torre, é um desafio formidável para quem gosta de dirigir. As curvas em formato de cotovelo, os precipícios gigantescos sem grades de proteção e as rochas expostas criam uma atmosfera alpina no meio de um país famoso pelas suas praias quentes. O uso do freio motor na descida é vital para não superaquecer os freios do carro. As pequenas vilas espalhadas pela encosta, como Manteigas e Seia, produzem o famoso Queijo da Serra da Estrela, um queijo de ovelha curado de forma artesanal, com um interior tão cremoso que precisa ser comido com uma colher. É um mergulho profundo no Portugal rural que a maioria dos turistas ignora completamente.
O Caos e a Beleza de Sintra
Voltando para o litoral e se aproximando de Lisboa, o roteiro chega a Sintra. É a joia da coroa da realeza portuguesa, uma serra coberta por florestas densas que esconde palácios de proporções monumentais. É também o lugar mais problemático do país para quem viaja de carro.
Durante os meses de pico turístico, as estradas estreitas que sobem a montanha de Sintra ficam intransitáveis. Os moradores sofrem com engarrafamentos quilométricos gerados por turistas tentando dirigir até a porta do Palácio Nacional da Pena. Para evitar acidentes e poluição, a prefeitura instituiu regras severas. Atualmente, o acesso de carros particulares às partes mais altas da serra é proibido durante boa parte do ano.
O segredo para visitar Sintra sem perder a sanidade é usar o carro apenas para chegar até o centro moderno da cidade ou aos grandes estacionamentos periféricos. Deixe o veículo estacionado lá embaixo e compre o bilhete dos ônibus circulares turísticos, como o 434, que sobem e descem a serra o dia inteiro com motoristas treinados para lidar com aquelas curvas impossíveis. A visita ao colorido Palácio da Pena e às grutas sombrias da Quinta da Regaleira exige dezenas de quilômetros de caminhada a pé, e saber que o seu carro está bem estacionado lá embaixo permite aproveitar o dia sem estresse.
Lisboa: A Devolução Temporária ou o Estacionamento Subterrâneo
Assim como no Porto, manter o carro circulando dentro de Lisboa é uma péssima ideia. A capital portuguesa é famosa pelas suas sete colinas e pelas ruas apertadas de bairros como Alfama e Bairro Alto, frequentadas quase exclusivamente pelos bondes elétricos amarelos, tuk-tuks e pedestres. O estacionamento na rua é caro e gerido de forma muito rigorosa pela empresa municipal, que guincha dezenas de carros mal parados todos os dias.
Se você planeja ficar três ou quatro dias hospedado em Lisboa para explorar a Torre de Belém, o Mosteiro dos Jerónimos e a Praça do Comércio, você tem duas opções logísticas. A primeira é escolher um hotel fora do miolo histórico, em bairros mais amplos como as Avenidas Novas ou o Parque das Nações, que ofereçam garagem subterrânea inclusa na diária ou a preços justos, usando o excelente metrô local para ir e voltar dos passeios. A segunda opção, dependendo da tarifa do aluguel, é simplesmente devolver o veículo em uma agência no centro de Lisboa assim que chegar, fazer turismo a pé pela capital e alugar um carro novo no dia de retomar a viagem para o sul. Essa decisão depende puramente da matemática do seu contrato com a locadora.
O Encantamento das Planícies do Alentejo
Após os dias urbanos intensos em Lisboa, o roteiro retoma a estrada cruzando a icônica Ponte Vasco da Gama ou a Ponte 25 de Abril em direção à imensidão do Alentejo. Esta é a maior região de Portugal e a menos habitada. O contraste com o trânsito da capital é imediato.
Dirigir pelo Alentejo é uma experiência de tranquilidade profunda. As estradas são retas, longas e ladeadas por milhões de sobreiros, as árvores de cujas cascas se extrai a cortiça, e extensos campos de oliveiras e videiras. O ritmo de vida aqui é ditado pelo sol ardente. O calor no verão é implacável, passando facilmente dos quarenta graus, o que obriga um planejamento cuidadoso dos horários de passeio e a garantia de que o ar condicionado do seu carro está funcionando perfeitamente.
A base principal deve ser Évora, a capital da região. O seu centro histórico é Patrimônio da Humanidade e guarda a impressionante estrutura do Templo Romano, com as suas colunas de mármore sobrevivendo ao longo dos milênios. A poucos minutos de caminhada fica a sinistra Capela dos Ossos, onde as paredes são inteiramente forradas com milhares de ossos humanos, uma reflexão silenciosa e macabra sobre a efemeridade da vida.
Deixando Évora e dirigindo em direção à fronteira com a Espanha, a vila de Monsaraz surge no horizonte como uma miragem brilhante. Construída no topo de uma montanha escarpada, Monsaraz é uma vila murada de um branco cegante. Você estaciona o carro fora das muralhas e entra em um cenário que parece ter parado no tempo há vários séculos. As ruas de xisto irregulares levam até um pequeno castelo. A vista lá do alto revela o imenso Lago de Alqueva, o maior lago artificial da Europa. A região é protegida como uma reserva Dark Sky, possuindo índices de poluição luminosa tão baixos que, durante a noite, a observação das estrelas e da Via Láctea a olho nu atrai astrônomos do mundo inteiro.
A Aventura pela Rota Vicentina
Enquanto a maioria dos motoristas prefere acelerar pela rodovia rápida A2 cruzando o interior direto para o Algarve, o motorista sábio escolhe fazer o caminho da costa sudoeste, descendo pelo litoral alentejano. Essa área é englobada pelo Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina. É o litoral mais bem preservado, selvagem e dramático do sul europeu, blindado contra a especulação imobiliária de grandes resorts.
A condução aqui muda de perfil. Muitas praias são acessadas por estradas de terra batida que cortam vastos campos agrícolas e terminam repentinamente em falésias gigantescas de pedra escura. A poeira levanta e cobre a lataria do carro, mas a recompensa é indescritível. Praias como Zambujeira do Mar e Praia de Odeceixe ficam escondidas no fundo de vales profundos ou na foz de rios que encontram o mar gelado e bravio do Atlântico.
É o paraíso dos surfistas e dos trilheiros que percorrem centenas de quilômetros a pé pelos caminhos desenhados no alto dos penhascos. O vento é uma constante nesta rota, varrendo a costa incessantemente. Parar o carro em pequenos vilarejos pesqueiros no meio do dia para saborear um peixe fresco pescado naquela madrugada, acompanhado de um vinho branco alentejano muito gelado, é o suprassumo da experiência turística portuguesa focada na autenticidade.
O Misticismo da Estrada Nacional 2
Se o seu desejo é cruzar o país de forma ainda mais romântica, Portugal possui a sua própria versão da Rota 66. Trata-se da Estrada Nacional 2, carinhosamente chamada de N2. É a estrada mais longa do país e uma das poucas do mundo que corta uma nação inteira de ponta a ponta sem interrupções. Ela começa lá em cima, na cidade de Chaves, junto à fronteira norte com a Espanha, e desce cortando todo o interior esquecido de Portugal até terminar exatos setecentos e trinta e oito quilômetros depois, em frente ao mar, na cidade de Faro, no Algarve.
Percorrer a N2 é mergulhar em um Portugal que não aparece nos catálogos de turismo das agências de viagens. O traçado foge propositalmente do litoral povoado e atravessa cadeias montanhosas, serras de pinheiros, dezenas de pontes seculares de pedra, rios caudalosos e vilarejos onde a população se resume a poucas dezenas de pessoas idosas que mantêm as tradições rurais vivas. Há um passaporte oficial da rota que você pode comprar e ir carimbando nas pequenas prefeituras, padarias e postos de turismo ao longo dos distritos. É uma jornada que exige dias de dedicação focada apenas no prazer de conduzir e na descoberta gastronômica das pequenas tascas de beira de estrada.
A Chegada Triunfal ao Sul e as Falésias do Algarve
O trecho final do roteiro rodoviário deságua inevitavelmente no Algarve, a região sul que forma a orla turística mais desejada do país. A via expressa A22 corta a região de oeste a leste, funcionando com o mesmo sistema de pórticos de pedágio eletrônico da Via Verde. Se você chegar pela costa oeste e descer a Rota Vicentina, o primeiro grande marco algarvio será o Cabo de São Vicente, na cidade de Sagres.
Dirigir até o farol do Cabo de São Vicente no fim da tarde é um rito de passagem para quem viaja de carro. É a ponta mais a sudoeste do continente europeu. Os ventos são violentíssimos e as falésias escuras despencam quase cem metros em linha reta até o oceano revolto. Assistir ao sol mergulhar na água gelada enquanto se senta no capô do carro encerra o dia de forma magistral.
Avançando para a região do Barlavento Algarvio, você encontra a base ideal para explorar o litoral: a cidade de Lagos. Tendo o carro, a logística de visitar as praias famosas fica fácil, mas exige disciplina com o relógio durante o verão. As praias de falésias douradas, como a Praia do Camilo e a icônica Praia da Marinha, possuem estacionamentos muito pequenos no topo das pedras. Quem tenta chegar de carro após as dez horas da manhã nos meses de julho e agosto encontra um caos de trânsito intransitável e filas de quilômetros formadas por motoristas buzinando e disputando centímetros de terra batida. A liberdade do carro exige a responsabilidade de acordar cedo.
A poucos minutos da Praia da Marinha, você pode estacionar perto da praia de Benagil. Ali, as famosas grutas marinhas escondem visuais magníficos. Como o acesso é restrito ao mar, o carro fica estacionado no alto e o viajante aluga um caiaque ou compra passeios de pequenos barcos na areia para visitar o algar encravado nas rochas.
As estradas do Algarve são ensolaradas, ladeadas por amendoeiras e alfarrobeiras. A flexibilidade do veículo permite que, quando o cansaço do sol forte e a superlotação das praias do oeste baterem, você simplesmente ligue o motor, pegue a Via do Infante e dirija por quarenta minutos em direção à fronteira espanhola para encontrar o Sotavento Algarvio.
Ao chegar a cidades como Tavira ou Cacela Velha, o cenário de rochas pontiagudas dá lugar a quilômetros de areias rasas, lagoas salgadas e um ritmo de vida deliciosamente lento. Você deixa o carro em pequenos cais, pega pequenos barcos locais e passa a tarde comendo conquilhas colhidas na hora com azeite e alho.
O encerramento do seu roteiro se aproxima no Aeroporto de Faro. No dia do vôo de partida, a devolução do carro é um processo trivial e rápido, já que o polo de locadoras fica colado ao terminal de embarque de passageiros. Enquanto você caminha para despachar a bagagem e embarcar nos seus vôos de retorno para casa, a percepção final que domina a mente é a certeza matemática de que grande parte das memórias formidáveis, dos sabores provados nas estradas perdidas e dos lugares secretos que enriqueceram as suas férias só aconteceram porque você teve a coragem e a inteligência de assumir a direção da sua própria jornada pelo deslumbrante território português.
