Os Melhores Passeios Turísticos em Mendoza na Argentina
Quem vai a Mendoza pensando apenas em vinho acaba voltando para casa surpreso. Não porque o vinho decepcione — muito pelo contrário. Mas porque a cidade guarda um repertório de experiências que a maioria dos turistas não imagina antes de chegar. Montanhas que chegam a quase 7.000 metros de altitude, rios com corredeiras, termas dentro de um cânion, caminhos que o Exército Libertador atravessou nos Andes, estâncias com cavalos e fogo de chão. É muita coisa acontecendo num raio de poucas horas a partir do centro.

Mendoza fica no Oeste argentino, a cerca de 750 metros de altitude média, com a Cordilheira dos Andes ali, onipresente. Em dias claros — e são muitos, porque o clima é árido e o sol impera boa parte do ano — os picos cobertos de neve aparecem do centro da cidade como uma moldura que parece pintada. Esse cenário não é cenário: é o que organiza toda a lógica geográfica dos passeios que saem daqui.
O melhor jeito de entender Mendoza como destino turístico é dividir o que ela oferece em dois grandes universos: o universo da uva e do vinho, com suas bodegas, olivícolas e gastronomia de alto nível; e o universo da montanha, com aventura, altitude, história e paisagens que não têm similar fácil no hemisfério sul. Os melhores passeios transitam entre esses dois mundos — às vezes no mesmo dia.
1. Alta Montanha: o Passeio Mais Clássico e um dos Mais Impactantes
Se existe um passeio que define Mendoza para quem não é enófilo, é a excursão de Alta Montanha. É também o mais reservado da cidade, não por acaso.
O percurso sobe pela Ruta Nacional 7 — a mesma estrada que atravessa os Andes e chega ao Chile. Já a partir de Potrerillos, menos de uma hora da cidade, a paisagem muda de forma abrupta. Acabou a planície dos vinhedos. Começam as montanhas de pedra com tons de vermelho, roxo e ocre que mudam conforme a luz do dia.
As paradas ao longo do caminho constroem a experiência:
Potrerillos — um reservatório artificial envolto por montanhas que parece ter sido desenhado por alguém que entende de beleza cênica. A água azul-turquesa contrastando com o marrom da rocha é uma das primeiras imagens que param o ônibus de excursão e fazem todo mundo sacar o celular ao mesmo tempo.
Uspallata — uma vila entre montanhas com uma atmosfera que difícil de nomear. Isolada, pequena, rodeada por picos. Tem restaurantes simples, um posto de gasolina, e uma história que inclui passagem de tropas sanmartinianas e até as filmagens do filme Seven Years in Tibet nos anos 1990. Para quem for de carro, vale parar com mais calma.
Puente del Inca — uma ponte natural formada por depósitos de minerais sobre o Rio Vacas, colorida de amarelo e laranja pela composição química das águas termais que percolam a rocha. É um dos fenômenos geológicos mais singulares da Argentina. As ruínas de um hotel termal soterrado por uma avalanche em 1965 ainda aparecem parcialmente, dando ao local um ar de arqueologia acidental.
Parque Provincial Aconcágua — chegar ao mirante da Laguna Horcones e ver o Aconcágua — 6.961 metros, o pico mais alto das Américas — não é uma experiência que se descreve bem. A montanha é enorme de uma forma que o olho humano demora a processar. Não é necessário ser alpinista para entrar no parque e fazer a caminhada curta até o mirante. Qualquer pessoa em boa forma física consegue.
Cristo Redentor e Las Cuevas — no verão (de outubro a março, aproximadamente), a estrada alcança a fronteira com o Chile, onde fica o Cristo Redentor, a 3.854 metros de altitude. No inverno, a neve fecha a passagem antes disso. As operadoras de excursão informam até onde o passeio chega dependendo da época.
O passeio costuma durar entre 10 e 13 horas, saindo cedo da cidade. Almoço não está incluído na maioria dos pacotes — leve lanche ou compre em Las Cuevas. A altitude pode afetar quem tem sensibilidade: dor de cabeça e cansaço fácil são comuns acima dos 3.000 metros.
2. Enoturismo nas Bodegas: Luján de Cuyo, Maipú e Valle de Uco
Este já foi coberto em detalhes num roteiro anterior, mas merece estar nessa lista porque sem ele qualquer guia de Mendoza ficaria incompleto.
O enoturismo mendocino tem três epicentros com perfis muito diferentes entre si:
Luján de Cuyo é a região clássica, a de maior prestígio histórico. Aqui nasceu o Malbec argentino como vinho de caráter internacional. A Catena Zapata, com sua arquitetura de pirâmide maia, é a bodega mais fotografada do país e representa bem o nível de sofisticação que Luján alcançou. A Norton faz degustações ao ar livre com vista para os Andes. A Achaval Ferrer tem um foco técnico nos vinhos de terroir que impressiona quem gosta de entender o que está bebendo.
Maipú tem um perfil mais acessível e descolado. É a região das olivícolas, das bodegas artesanais e do famoso Wine Bike Tour — pedalar entre vinhedos com um mapa no bolso e parar em cada bodega que chamar atenção. É uma das experiências mais comentadas por quem visita Mendoza, com razão. A Trapiche, a maior exportadora de vinho da Argentina, tem uma estrutura impressionante e um tour bem produzido.
Valle de Uco é o capítulo de vanguarda. Fica a uma hora da cidade, numa altitude maior, e é onde os vinhos mais premiados e premiados da nova geração estão sendo produzidos. A Zuccardi foi eleita repetidamente a melhor vinícola do mundo por rankings especializados — a arquitetura integrada ao terroir e a experiência gastronômica são de um nível que poucas bodegas do mundo alcançam. A Salentein tem uma estrutura imponente e o restaurante Killka com uma das melhores vistas da região.
Uma dica que vale repetir: duas bodegas por dia é o ritmo ideal. Três já começa a misturar. E um almoço harmonizado — com menu degustação e cada prato acompanhado de um vinho diferente escolhido pelo sommelier — é uma das experiências gastronômicas mais completas que Mendoza oferece.
3. Termas de Cacheuta: Relaxamento Dentro de um Cânion
A 38 quilômetros de Mendoza, a Ruta Nacional 7 serpenteia pelo Cânion do Rio Mendoza até chegar a Cacheuta — um complexo termal encaixado entre paredes de rocha com o rio passando ao lado.
A água quente das termas vem de fontes naturais com propriedades medicinais. O complexo tem piscinas em diferentes temperaturas, desde as mais quentes (em torno de 40°C) até as temperadas, além de piscina com hidromassagem, área infantil e restaurante. Mas o que transforma isso numa experiência memorável não é apenas a infraestrutura — é o cenário. Você está dentro de um cânion de pedra, com o rio abaixo e as montanhas ao redor, mergulhado numa água quente enquanto olha para o nada. Em dias de semana com pouco movimento, o silêncio é quase absoluto.
É um passeio que combina muito bem com o que precede ou sucede: se for de manhã, pode chegar cedo, passar o dia nas termas e voltar ao fim da tarde para jantar em Mendoza. Se for mais aventureiro, algumas operadoras combinam trilha + rapel em Cacheuta + termas no mesmo dia — subindo as margens do cânion, fazendo três descidas de rapel (a maior com 30 metros) e terminando nas piscinas. É cansativo e muito bom.
4. Rafting no Rio Mendoza
O Rio Mendoza desce da Cordilheira com bastante força, especialmente entre setembro e março, quando o degelo alimenta as correntes. O trecho entre Potrerillos e Cacheuta é o mais usado para o rafting turístico e tem corredeiras classificadas entre grau II e IV — acessível para iniciantes com boa orientação, mas com emoção suficiente para quem já tem experiência.
As operadoras fornecem colete salva-vidas, capacete e remo. O guia, que vai no bote com o grupo, dá instruções básicas antes de entrar na água e coordena as remadas nas corredeiras. A maioria dos pacotes inclui transporte de Mendoza até o ponto de lançamento e de volta. A duração no rio varia entre 1h30 e 3h, dependendo do trecho escolhido.
O contexto visual é o que torna o rafting em Mendoza diferente de outros destinos: você está num rio de montanha, rodeado por paredes de rocha que mudam de cor conforme o sol se move. Entre uma corredeira e outra, o rio fica mais calmo e você tem tempo de olhar para os picos ao redor com a perspectiva de quem está dentro do cânion, não de cima.
Para quem tem crianças maiores de 10 anos ou prefere algo menos radical, algumas operadoras oferecem o kayak no lago de Potrerillos — mais tranquilo, mas igualmente bonito.
5. Cavalgada nos Andes com Asado
Este é o passeio que mais tem a ver com a identidade da Argentina profunda — não a Buenos Aires cosmopolita, nem a Mendoza das vinícolas sofisticadas. É a Argentina da estância, do cavalo, do fogo lento e do silêncio de montanha.
As operadoras de cavalgada saem de ranchos nos arredores de Mendoza — alguns em direção às pré-Cordilheiras, outros com vistas diretas para os vinhedos. Os roteiros variam de 2 horas (uma volta rápida pelo campo) a passeios de dia inteiro que sobem até mirantes com vista panorâmica dos Andes.
O mais completo combina o passeio a cavalo ao entardecer com um asado preparado pelos próprios proprietários da estância. Carne no fogo de chão, chimichurri, pão de campo, vinho tinto local — tudo num ambiente que mistura a familiaridade de uma mesa de fazenda com a grandiosidade dos Andes ao fundo. É o tipo de experiência que não tem equivalente em nenhum outro destino da América do Sul.
Algumas estâncias em Luján de Cuyo oferecem versões combinadas: cavalgada pelos vinhedos, parada para degustação numa bodega à beira do caminho e jantar com asado. Para grupos, é talvez o programa mais memorável que Mendoza tem a oferecer.
6. City Tour: Mendoza a Pé e de Olhos Abertos
A cidade de Mendoza é mais bonita do que a maioria dos turistas imagina. Existe uma tendência de usar o centro apenas como base de operações — dormir, comer, partir para os passeios externos. Mas a cidade merece pelo menos meio dia de atenção própria.
O motivo do traçado urbano peculiar é histórico. Em 1861, um terremoto destruiu a cidade praticamente por inteiro. A reconstrução foi planejada com avenidas largas, praças a cada poucos quarteirões e espaços abertos que funcionariam como áreas de segurança em caso de novos sismos. O resultado é uma cidade que respira — com aquele sistema de canais de irrigação nas calçadas, as alamedas com plátanos enormes que fazem sombra generosa e uma escala humana que poucas capitais de província argentina conservam.
A Plaza Independencia é o centro de tudo — com fontes, jardins e o Museu Municipal de Arte Moderna integrado à praça. Dali, caminhar até a Área Fundacional leva a um ponto arqueológico onde a Mendoza pré-terremoto foi escavada e exibida atrás de vidro — uma janela literalmente aberta para a cidade que existia antes de 1861.
O Parque General San Martín, maior parque urbano da Argentina, tem lagos, jardins, o hipódromo e o Cerro de la Gloria — um morro com o monumento ao Exército dos Andes e uma vista da cidade e da Cordilheira que compensa a subida. Num fim de tarde de outono, com a luz dourada e os Andes nevados ao fundo, é uma das imagens mais bonitas que Mendoza oferece — e não custa nada.
7. Parapente sobre os Andes
Para quem quer ver os Andes de cima sem precisar escalar nada, o parapente em Mendoza é uma das experiências mais intensas que a cidade oferece.
Os voos saem de pontos nas pré-cordilheiras e duram em média 20 a 30 minutos no ar — mas a sensação do tempo é outra quando você está planando sobre vales de vinhedo com a Cordilheira diante dos olhos. Os instrutores são certificados e fazem o voo tandem (você vai atrelado ao instrutor), então não é necessária nenhuma experiência prévia.
O melhor período é no verão e outono, quando as térmicas são mais estáveis e o céu mais limpo. No inverno, o vento forte dos Andes pode cancelar os voos com frequência — vale confirmar condições com a operadora antes de marcar.
8. Estação de Esqui: Vallecitos e Las Leñas
No inverno mendocino — de junho a setembro, em geral — duas estações de esqui entram no mapa turístico da região.
Vallecitos fica a cerca de 80 km de Mendoza, numa altitude entre 2.200 e 3.400 metros. É a opção mais acessível, indicada para famílias e iniciantes. Tem pistas para quem está aprendendo, aulas de esqui e snowboard, e o charme de ser pequena o suficiente para não ter a superlotação das grandes estações do Chile ou do Sul do Brasil.
Las Leñas é diferente — fica a 450 km de Mendoza, numa região mais remota da Patagônia andina, e é considerada uma das melhores estações de esqui da América do Sul. As pistas chegam a altitudes acima de 3.000 metros, com neve de boa qualidade e uma infraestrutura de resort completo. Para quem vai especificamente pelo esqui e tem mais tempo disponível, Las Leñas merece a viagem separada.
Mesmo quem não esquia pode fazer o passeio de Alta Montanha no inverno para ver a neve de perto, passear de trenó ou simplesmente experimentar o que significa estar num ambiente de neve a 3.000 metros de altitude — uma experiência que a maioria dos brasileiros nunca teve.
9. Represa e Lago de Potrerillos
A Represa Potrerillos é um reservatório artificial construído no início dos anos 2000 para controle de cheias e geração de energia. O resultado paisagístico foi inesperado: um lago de cor azul-esverdeada cercado por montanhas vermelhas e ocres que parece ter sido projetado por um cenógrafo.
O local funciona como ponto de parada no passeio de Alta Montanha, mas também pode ser visitado separadamente para atividades como kayak, windsurf e trekking pelas margens. No verão, os acampamentos ao redor do lago recebem mendocinos e turistas que passam fins de semana à beira da água. Fora de temporada, a tranquilidade é quase absoluta.
10. Gastronomia e Vida Noturna: Mendoza Depois das 8 da Noite
Mendoza tem uma cena gastronômica que reflete a seriedade com que a cidade leva o assunto vinho — porque um bom vinho precisa de boa comida, e os mendocinos sabem disso.
A Calle Aristides Villanueva concentra bares, restaurantes e bodeguitas urbanas num trecho que vai ganhando movimento conforme a noite avança. Para quem quer ficar na região central, é o ponto de partida natural para a noite.
O Bairro Chacras de Coria, a cerca de 15 km do centro, tem uma concentração de restaurantes de nível gastronômico alto — alguns dentro de vinícolas ou com vistas para vinhedos iluminados à noite. É onde Mendoza mostra sua face mais sofisticada, longe do turismo de massa do centro.
Os mercados de artesanato e a Feria de los Artesanos na Plaza Independencia funcionam especialmente nos fins de semana e têm produtos locais que vale levar na mala: azeite de oliva mendocino, geleias de uva, chocolates com vinho Malbec, artesanato de couro.
Uma Nota Sobre o Ritmo de Mendoza
Há uma tendência — muito argentina, aliás — de não apressar as coisas. Um almoço em Mendoza raramente termina antes das 15h. Um jantar começa às 21h no mínimo, e a mesa fica ocupada até meia-noite sem que ninguém se sinta mal com isso. Os passeios externos costumam durar o dia inteiro. A cidade não é feita para quem quer fazer tudo em dois dias.
Quem vai com essa mentalidade de apertar o máximo no menor tempo possível geralmente não aproveita o que Mendoza tem de melhor. Os melhores momentos daqui — um almoço harmonizado que se estende por três horas numa bodega do Valle de Uco, uma cavalgada que termina com asado ao entardecer, um café na Plaza Independencia enquanto os Andes mudam de cor — não cabem em agenda apertada.
Mendoza recompensa quem tem tempo. E para quem não tem, já serve de motivo suficiente para voltar.