Dicas do que o Viajante Precisa Evitar na Viagem na Bolívia
A Bolívia é um dos destinos mais fascinantes da América do Sul — e um dos mais exigentes. Não é um país que se visita sem preparo e sai ileso. Não é que seja perigoso demais ou difícil demais. É que ele tem peculiaridades que, se ignoradas, transformam o que poderia ser uma viagem inesquecível numa sequência de problemas evitáveis. A altitude que derruba. O táxi que não era táxi. A nota de dinheiro rasgada que a farmácia recusa. A excursão barata que termina no meio do nada sem gasolina.

Quem vai preparado enfrenta um país de uma beleza que beira o inverossímil — o deserto de sal mais extenso do mundo, lagoas que parecem pintadas à mão, cidades coloniais em altitudes que deixam qualquer recém-chegado sem ar, selva amazônica, Lago Titicaca. Quem vai no improviso costuma sair com uma boa história de perrengue e a sensação de que a Bolívia foi dura com ela.
Esse texto não é sobre o que fazer. É sobre o que evitar. E há bastante coisa para anotar.
1. Ignorar o Mal de Altitude — o Erro Mais Comum e o Mais Perigoso
Esse é o ponto de partida obrigatório de qualquer conversa sobre viajar à Bolívia, porque é o fator que mais derruba turistas — literalmente. A Bolívia é o país mais alto da América do Sul em termos de altitude média. La Paz, a capital administrativa, fica a 3.650 metros acima do nível do mar. O aeroporto de El Alto, que a serve, está a 4.061 metros. O Salar de Uyuni fica a aproximadamente 3.656 metros. Potosí, uma das cidades mais visitadas, está a quase 4.000 metros. Nessas altitudes, o oxigênio disponível no ar é cerca de 40% menor do que ao nível do mar.
O soroche — como os bolivianos chamam o mal de altitude — não escolhe condicionamento físico. Pode acontecer com um atleta de alto rendimento e poupar um sedentário de vida inteira. Os sintomas mais comuns são dor de cabeça intensa, náusea, tontura, falta de ar, cansaço excessivo e dificuldade para dormir. Nos casos mais graves — raros, mas reais — pode evoluir para edema pulmonar ou cerebral, que são emergências médicas sérias.
O que evitar:
Não chegue a La Paz ou Uyuni vindo diretamente de cidades no nível do mar e saia correndo para fazer passeios. O primeiro dia em altitude deve ser de descanso. Sério. Deitar, beber água, tomar chá de coca — que não é alucinógeno, é uma planta medicinal usada há séculos pelos povos andinos e disponível em qualquer hotel e restaurante do país. Não consumir álcool nas primeiras 24 a 48 horas. Não fazer esforço físico intenso logo na chegada.
O comprimido Soroche — vendido livremente em farmácias bolivianas — é amplamente recomendado por moradores locais e viajantes experientes. Alguns médicos indicam também a acetazolamida (Diamox), que requer receita no Brasil e deve ser consultada com antecedência. A automedicação sem orientação médica tem riscos próprios, mas a realidade é que quem vai à Bolívia sem qualquer estratégia para a altitude está apostando num conforto que pode não chegar.
A rota de chegada também importa. Se possível, comece por cidades de altitude intermediária — Sucre fica a 2.810 metros, bem mais fácil de aclimatar — antes de subir para La Paz ou Uyuni. Fazer a travessia de Santa Cruz de la Sierra (400 metros) diretamente para Potosí (3.967 metros) é um choque para o organismo que muita gente paga caro.
2. Pegar Táxi na Rua Sem Verificar
A Bolívia tem um golpe específico com taxis que funciona há anos e ainda pega muita gente desprevenida. Se chama “taxi pirata” — veículos que parecem táxis, às vezes até têm letreiro no teto, mas não são registrados e são usados por pessoas com intenções que vão do simples sobrepreço até assaltos mais elaborados.
O golpe mais sofisticado se chama “taxi secuestro” ou sequestro relâmpago: você entra no táxi, o motorista pega outros “passageiros” no caminho (que são cúmplices), e você é levado a um caixa eletrônico obrigado a sacar dinheiro. Acontece especialmente à noite e nas imediações do aeroporto de El Alto.
O que evitar:
Nunca entrar em táxis na rua sem verificação, especialmente à noite. Em La Paz e Santa Cruz de la Sierra, os aplicativos DiDi, InDrive e Maxim funcionam bem e oferecem segurança básica — você sabe a placa, o nome do motorista e o trajeto antes de entrar. Outra opção é pedir ao hotel ou pousada que chame um táxi de confiança. O valor pode ser um pouco maior, mas a segurança compensa.
Não compartilhe o taxi com estranhos que abordarem na rua, mesmo que pareçam turistas como você.
3. Não Verificar o Estado das Notas de Dinheiro
A Bolívia é um país predominantemente em dinheiro. Cartões de crédito funcionam em alguns hotéis e restaurantes de La Paz, mas na maioria dos destinos turísticos — e especialmente em Uyuni, nas feiras, nos mercados, no transporte local — só cash funciona.
Mas há um detalhe que surpreende quem não sabe: cédulas rasgadas, amassadas, com marcas de caneta ou com pequenos buracos são recusadas em muitos estabelecimentos. O boliviano é extremamente criterioso com o estado físico das notas — tanto do boliviano (a moeda local) quanto do dólar americano, que é amplamente aceito.
Receber uma nota comprometida no troco de alguma compra e depois não conseguir usar em lugar nenhum é um problema mais comum do que parece. Acontece especialmente com dólares que estejam amassados, com escrita a caneta ou com rasgo mínimo.
O que evitar:
Verifique o estado das notas ao receber troco. Se identificar uma cédula danificada, devolva imediatamente — depois pode ser tarde. Ao sacar no caixa eletrônico, prefira os bancários ou de centros comerciais, que costumam fornecer notas em melhor estado. E leve dinheiro suficiente antes de partir para destinos remotos como Uyuni ou o Lago Titicaca — nem sempre há caixas eletrônicos disponíveis, e quando há, podem estar sem dinheiro.
4. Contratar Excursões Sem Pesquisar a Operadora
O Salar de Uyuni é um dos destinos mais fotografados do mundo e um dos mais remotos. Para chegar lá e fazer o tour pelas salinas, lagunas coloridas e géiseres, a maioria dos turistas contrata uma excursão — geralmente de 3 a 4 dias em 4×4 pelo Altiplano boliviano.
O problema é que há uma oferta enorme de operadoras, com preços que variam absurdamente, e as mais baratas às vezes entregam exatamente o que o preço promete: veículos sem manutenção adequada, guias sem preparo, acomodações péssimas nas paradas intermediárias, e em casos extremos, excursões que ficam sem combustível a centenas de quilômetros de qualquer cidade.
Não é exagero. Relatos de veículos quebrados no meio do Altiplano a 4.000 metros de altitude, sem cobertura de celular e longe de qualquer ajuda, são mais comuns do que deveriam. A região não é lugar para economizar na escolha da operadora.
O que evitar:
Não escolha excursão apenas pelo preço mais baixo. Pesquise avaliações no TripAdvisor, Hostelworld e grupos de viajantes. Pergunte no hostel em que você estiver hospedado — os funcionários costumam saber quais operadoras têm histórico confiável. Verifique se o veículo tem seguro, se o guia tem treinamento de primeiros socorros e se a operadora oferece suporte em caso de emergência.
O tour de 3 dias pelo Salar, lagunas coloridas e Reserva Eduardo Avaroa é um dos passeios mais espetaculares da América do Sul — mas exige um operador que esteja à altura do desafio logístico que envolve.
5. Beber Água da Torneira
Em toda a Bolívia — inclusive em hotéis de La Paz com aparência boa — a água da torneira não é potável para turistas. O organismo local está adaptado à flora bacteriana da água; o seu, provavelmente, não. Beber água sem purificação é um caminho rápido para turista’s revenge — aquela gastroenterite que derruba qualquer viagem.
O que evitar:
Beba sempre água mineral engarrafada ou água fervida. Isso inclui gelo nos drinks — em restaurantes populares, o gelo pode ser feito com água sem tratamento. Lave as mãos antes de comer. E, especialmente em mercados e comida de rua, prefira alimentos quentes e recém-preparados, evitando saladas cruas lavadas com água da torneira.
O lado bom: água mineral é barata na Bolívia. Leve uma garrafa maior sempre consigo — a altitude seca o ar e a desidratação é um fator que agrava o soroche.
6. Fotografar Pessoas Sem Pedir Permissão
A Bolívia tem uma das culturas indígenas mais vivas e preservadas da América do Sul. As mulheres bolivianas de origem aymará e quéchua, com suas saias coloridas, chapéus-coco e tranças compridas — as famosas cholitas — são presença constante nos mercados, feiras e ruas das cidades. São mulheres reais, com vida real, não cenário turístico.
Fotografar sem pedir permissão — e às vezes mesmo pedindo — é considerado invasivo e desrespeitoso em muitas comunidades. Não é incomum que a reação seja negativa, às vezes agressiva. Há casos de câmeras confiscadas momentaneamente em mercados onde a proibição é clara.
O que evitar:
Sempre pergunte antes de fotografar pessoas, especialmente em ambientes de mercado ou cerimônias. Se a pessoa pedir pagamento pela foto, isso é completamente válido e esperado em muitos contextos — é um costume enraizado. Recusar com educação também é uma opção, mas fotografar sem consentimento não é.
Nos mercados mais tradicionais de La Paz, como o Mercado de Las Brujas (Mercado das Bruxas) e a Feira 16 de Julho em El Alto, o comportamento de turistas com câmeras é um tema sensível. Sensibilidade cultural não é opcional — é parte do respeito que qualquer destino merece.
7. Usar Transporte Noturno de Ônibus Sem Preparação
A Bolívia é um país grande e com terreno acidentado. Muitas rotas entre cidades importantes são feitas de ônibus noturno — de La Paz a Uyuni, de Sucre a Potosí, de Copacabana a La Paz. Os ônibus existem em categorias muito diferentes: há os chamados “cama”, com assentos reclináveis amplos, cobertor e às vezes refeição; e há os populares, que são os ônibus comuns sem nenhum conforto adicional.
A temperatura nas rotas do Altiplano à noite pode chegar a negativo. Quem pega um ônibus popular sem roupa quente suficiente passa uma noite miserável. Além disso, as estradas bolivianas — especialmente as mais remotas — têm qualidade variável, e algumas rotas são genuinamente perigosas por causa de precipícios sem proteção lateral e condutores que dirigem acima do recomendável.
O que evitar:
Se possível, prefira voar nas rotas mais longas. A companhia BoA (Boliviana de Aviación) e a EcoJet conectam as principais cidades com tarifas que, para padrão boliviano, são acessíveis e poupam horas de estrada. Para quem optar pelo ônibus, escolha companhias reconhecidas como a Todo Turismo ou similares de boa reputação, verifique se o assento é do tipo cama e leve agasalho independentemente da época do ano.
Não embarque em ônibus sem verificar a empresa — a diferença de conforto e segurança entre as companhias é enorme.
8. Levar Folhas de Coca para Fora do País
O chá de coca e as folhas de coca são completamente legais na Bolívia — são usados para combater o mal de altitude, em rituais religiosos e no cotidiano de boa parte da população. Qualquer hotel ou restaurante oferece. É uma parte integral da cultura andina.
O problema começa na saída do país. A folha de coca é classificada como droga em muitos países — inclusive no Brasil — e tentar levá-las na bagagem ao cruzar a fronteira é uma infração que pode ter consequências sérias.
O que evitar:
Use o chá de coca e as folhas dentro da Bolívia sem preocupação — é permitido e recomendado. Mas não leve nada para além das fronteiras. Nem como “souvenir”, nem em pequena quantidade. A legislação de cada país sobre o tema varia, mas o risco não vale.
9. Subestimar as Distâncias e os Tempos de Deslocamento
O mapa da Bolívia engana. As distâncias parecem curtas até você perceber que uma estrada de 300 quilômetros pode levar 8 horas por causa do terreno montanhoso, das obras, dos bloqueios de rua ou simplesmente do estado da pavimentação.
Os bloqueios de estrada — chamados de “bloqueos” — são uma realidade política boliviana. Manifestações, protestos e greves frequentemente bloqueiam estradas por horas ou até dias. Não é raro um ônibus ficar parado esperando negociações entre manifestantes e autoridades.
O que evitar:
Não calcule deslocamentos bolivianos pela distância em quilômetros. Calcule pelo tempo estimado de viagem — e adicione uma margem. Evite fazer conexões apertadas entre transportes. Se houver greve ou manifestação anunciada (notícia que circula facilmente em grupos de viajantes e no hostel), planeje com antecedência uma alternativa ou espere a situação se resolver.
10. Não Contratar Seguro Viagem
A Bolívia não tem um sistema de saúde pública robusto acessível ao turista. Em caso de emergência médica — e com altitude acima de 3.500 metros, emergências podem acontecer — o atendimento hospitalar privado é o que vai funcionar. E em casos graves que exijam evacuação aérea — de Uyuni para La Paz, por exemplo — os custos são proibitivos sem seguro.
A maioria dos seguros viagem cobre atendimento médico emergencial, medicamentos, evacuação e repatriação. Para a Bolívia especialmente, esse é um serviço que não é luxo — é planejamento básico.
O que evitar:
Não viajar para a Bolívia sem seguro viagem ativo, com cobertura de altitude e evacuação médica. Verifique as condições da apólice antes de contratar — algumas têm limitações para altitudes acima de 3.000 metros em atividades de trekking.
Uma Perspectiva Honesta Sobre o País
Nada do que foi dito aqui deve ser lido como argumento para não ir à Bolívia. Pelo contrário.
A Bolívia é um destino que exige respeito — respeito pela altitude, pela cultura, pela logística e pelas suas próprias limitações como viajante. Mas quem vai preparado encontra um país de uma autenticidade rara. Não é um destino para quem quer conforto garantido em cada etapa. É para quem aceita o imprevisível como parte do programa — e entende que o imprevisível, quando acontece num contexto de beleza e humanidade como a boliviana, frequentemente se transforma na melhor história que vai contar depois que voltar para casa.