Guia dos 10 Trens Panorâmicos da Suíça
Guia dos 10 trens panorâmicos da Suíça: Glacier Express, Bernina Express, GoldenPass, Gotthard Panorama, Lucerne–Interlaken Express, Mont Blanc Express, Gornergrat, Jungfrau Railway, Brienz Rothorn e Voralpen Express, com preços reais, reservas obrigatórias e o que o Swiss Travel Pass realmente cobre.

A Suíça tem cerca de 5.300 quilômetros de ferrovia num território do tamanho do estado do Rio de Janeiro. Isso dá a maior densidade ferroviária do mundo. E a consequência prática disso é curiosa: nesse país o trem não é só transporte, é atração paga, com poltrona reclinável, teto de vidro e reserva marcada meses antes.
Só que existe uma confusão enorme em volta desses trens, e ela custa dinheiro. Muita gente compra passe achando que tudo está incluído, chega na estação e descobre uma taxa de reserva de 49 francos. Outros pegam o Glacier Express inteiro, oito horas sentados, e saem com dor nas costas e a sensação de que as três primeiras horas foram meio sem graça.
Vamos separar o que vale, o que é armadilha e o que realmente está no passe.
A correção mais importante de todas: o passe não cobre tudo
Existe a ideia de que o Swiss Travel Pass dá acesso livre a todos os trens cênicos. Não é assim, e essa é a informação que mais atrapalha o planejamento.
O que acontece de verdade é isto. Nos trens de longa distância panorâmicos, como Glacier Express, Bernina Express, GoldenPass Express e Gotthard Panorama Express, o passe cobre o trecho ferroviário, mas a reserva de assento é obrigatória e paga separadamente. No Glacier Express essa reserva custa entre CHF 39 e CHF 59 dependendo da temporada, e a Excellence Class é um produto totalmente à parte, com valor próprio de uns CHF 470. No Bernina Express a reserva fica em torno de CHF 20 a 32.
Nas ferrovias de montanha a história é outra. O passe não é gratuito ali, ele dá desconto. Na Jungfrau Railway o desconto é de cerca de 25% na parte final. No Gornergrat e no Brienz Rothorn, 50%. Ou seja, você ainda paga, e paga bem.
E há exceções generosas do outro lado: o Lucerne–Interlaken Express e o Voralpen Express são trens regulares com carros panorâmicos, cobertos integralmente pelo passe, sem reserva obrigatória. São, de longe, os melhores custo-benefício da lista.
1. Glacier Express: Zermatt a St. Moritz
É o mais famoso e o mais mal compreendido. Ele liga Zermatt a St. Moritz em cerca de 8 horas, atravessando 291 pontes e 91 túneis, e cruzando o Passo do Oberalp a 2.033 metros. Tem o apelido de trem expresso mais lento do mundo, o que é uma piada boa, porque a média fica em torno de 36 km/h.
O que ninguém conta: as primeiras horas, saindo de Zermatt pelo vale do Ródano, são bonitas mas não espetaculares. O que realmente impressiona vem no meio e no fim, no desfiladeiro do Reno, chamado de Grand Canyon suíço, e na linha da Albula com o Viaduto de Landwasser, aquela curva de 65 metros de altura que entra direto na parede da montanha.
Minha opinião honesta: oito horas em linha reta é muito para quase todo mundo. Se você tem só um dia, faça o trecho Chur a Andermatt ou Disentis a Chur. Se tem dois, quebre em Andermatt ou em Chur e dorma. Fica melhor e sai mais barato.
Preços na tarifa cheia: em torno de CHF 275 em segunda classe e CHF 475 em primeira, sem contar a reserva. Com Swiss Travel Pass você paga só a reserva. O almoço servido na mesa fica em torno de CHF 45. Vale? Vale pela cena, não pela comida.
Uma dica técnica: o trem circula o ano todo, mas o inverno, com neve fresca, é a versão mais cinematográfica. No verão você ganha verde e cachoeira.
2. Bernina Express: de Chur a Tirano
Para mim é o melhor trem cênico da Suíça, e é o que dá mais paisagem por hora de viagem. Cerca de 4 horas entre Chur e Tirano, na Itália, com um desnível que vai de 585 metros até 2.253 metros no Passo do Bernina e depois desce até 429 metros. Isso sem cremalheira, apenas por aderência, o que é uma façanha de engenharia.
A linha da Albula e do Bernina é Patrimônio Mundial da UNESCO desde 2008. Passa pelo Viaduto de Landwasser, pelo lago Lago Bianco, pelos glaciares do Bernina bem na janela e termina no viaduto helicoidal de Brusio, uma espiral aberta de nove arcos que o trem faz girando em cima de si mesmo. É o momento em que todo mundo no vagão levanta o celular ao mesmo tempo.
Detalhe importante: muitos serviços partem de St. Moritz e não de Chur, e alguns começam em Davos ou Landquart. Confira a origem na hora de reservar.
Preço em torno de CHF 66 em segunda classe mais a reserva. Existe também um ônibus de continuação de Tirano até Lugano, que atravessa o Lago de Como, e que exige reserva própria.
Um aviso prático que salva o dia: em Tirano você está na Itália, então leve o passaporte. E se a ideia é voltar no mesmo dia, o retorno é longo. Muita gente dorme em Tirano ou em Poschiavo e volta com calma.
3. GoldenPass Express: Montreux a Interlaken
3 horas e 15 minutos ligando o Lago Léman aos Alpes berneses. Sai de Montreux, entre vinhedos em terraços da região de Lavaux, sobe por Gstaad, passa por Zweisimmen e chega a Interlaken.
O que torna esse trem tecnicamente fascinante é o sistema de bitola variável, inaugurado em 2022. Historicamente havia troca obrigatória de trem em Zweisimmen, porque a bitola muda de 1 metro para 1,435 metro. Hoje os vagões ajustam a distância entre as rodas em movimento, e você faz o trajeto inteiro sentado no mesmo lugar. Foi o primeiro do mundo a fazer isso combinando também mudança de altura de piso.
Ele tem uma classe chamada Prestige, com poltronas que giram e uma vista frontal na cabine, atrás do condutor. É caro e é divertido.
A paisagem aqui é diferente das outras. Menos rocha e glaciar, mais pastagem, chalé de madeira escura, gado e vinhedo. É o retrato do interior suíço romântico.
Preço aproximado: CHF 78 em segunda classe. Coberto pelo passe, com reserva paga na Prestige e recomendada nas demais.
4. Gotthard Panorama Express: Lucerna a Lugano
Este é diferente de todos, porque é barco mais trem. Cerca de 5 horas e meia no total.
Começa com um cruzeiro num barco a vapor histórico no Lago dos Quatro Cantões, saindo de Lucerna até Flüelen, umas 3 horas de navegação passando por Rütli, o prado onde a Confederação Suíça foi fundada em 1291. Depois vem o trem pela linha histórica do Gotthard, aquela de 1882, com os famosos túneis helicoidais perto de Wassen, onde você vê a mesma igrejinha três vezes, em três alturas diferentes, enquanto o trem ganha altitude girando dentro da montanha.
Uma informação que precisa ser dita: essa linha antiga só existe como passeio hoje porque o tráfego pesado migrou para o Túnel de Base do Gotthard, aberto em 2016, com 57 quilômetros, o mais longo do mundo. O trem rápido moderno atravessa isso em 20 minutos vendo escuridão. O panorâmico faz o caminho velho por cima, e é justamente aí que está o encanto.
Detalhe crucial: ele é sazonal, roda apenas de abril a outubro, e não circula todos os dias. Muita gente planeja para o inverno e se frustra. Reserva obrigatória em torno de CHF 24 e classe única no vagão panorâmico.
Também é possível fazer o sentido inverso, de Lugano para Lucerna, terminando com o barco no fim da tarde. Se puder escolher, eu prefiro esse, porque a luz do lago no fim do dia é melhor.
5. Lucerne–Interlaken Express: o mais subestimado
Cerca de 2 horas entre Lucerna e Interlaken, passando pelo Passo do Brünig, a 1.008 metros. É o único trecho de cremalheira dessa lista integrado a um trem regular de longa distância.
A rota acompanha o Lago dos Quatro Cantões, sobe o passo, desce para Meiringen, região das quedas do Reichenbach onde Conan Doyle matou Sherlock Holmes, e depois corre pela margem do Lago de Brienz, que tem aquele azul-turquesa quase artificial.
Ele passa por vários lagos ao longo do caminho, com o Sarnersee e o Lungerersee entre os menos conhecidos e mais bonitos.
Por que eu chamo de subestimado: está 100% incluído no Swiss Travel Pass, sem reserva obrigatória, roda o ano inteiro, várias vezes por dia, e entrega paisagem no mesmo nível de trens que custam 200 francos. Se você tem que escolher apenas um trem panorâmico com orçamento apertado, é este.
Sente no lado esquerdo saindo de Lucerna para pegar o lago.
6. Mont Blanc Express: Martigny a Chamonix
Cerca de 1 hora e 30 minutos, ligando Martigny, no Valais suíço, a Chamonix, na França. É um trenzinho pequeno, de bitola métrica, com trechos de cremalheira, subindo o vale do Trient por rampas de até 20%.
Passa por Salvan, Les Marécottes, o desfiladeiro de Trient e cruza a fronteira em Le Châtelard. Dali a paisagem muda para o maciço do Mont Blanc, com 4.806 metros, o ponto mais alto da Europa Ocidental.
Aqui há uma correção necessária sobre cobertura: o Swiss Travel Pass vale até a fronteira suíça, em Le Châtelard. O trecho francês até Chamonix é pago separadamente e costuma sair uns poucos euros. Não é caro, mas é bom não ser surpreendido.
Uma parada que quase ninguém faz e que vale muito: o Emosson, com uma represa e pegadas de dinossauro de 250 milhões de anos numa laje de rocha, acessível por funicular a partir de Le Châtelard.
7. Gornergrat Railway: Zermatt ao mirante do Matterhorn
33 minutos subindo de Zermatt, a 1.620 metros, até o Gornergrat, a 3.089 metros. Aberta em 1898, é a primeira ferrovia elétrica de cremalheira da Suíça e a segunda mais alta da Europa a céu aberto.
Lá em cima você vê o Matterhorn, com 4.478 metros, praticamente de frente, mais 28 outros picos acima de 4 mil metros e o glaciar Gorner esticado no vale. Não tem outro mirante na Suíça com essa concentração de montanha alta.
Preço na tarifa cheia: em torno de CHF 132 ida e volta no verão, com metade do valor para quem tem Swiss Travel Pass ou Half Fare Card. É caro, mas na relação vista por franco eu considero o melhor investimento em altitude do país, melhor até que o Jungfraujoch.
Sente do lado direito na subida. E se o dia estiver limpo, considere descer a pé um trecho, do Rotenboden até o Riffelsee, que é o lago onde o Matterhorn aparece refletido. São uns 20 minutos de caminhada fácil.
8. Jungfrau Railway: Kleine Scheidegg ao Jungfraujoch
Cerca de 35 minutos de Kleine Scheidegg até o Jungfraujoch, a 3.454 metros, a estação ferroviária mais alta da Europa. A obra levou 16 anos e foi concluída em 1912, escavada dentro das montanhas Eiger e Mönch. Sete quilômetros dos nove são túnel.
O trem para em Eismeer, uma janela aberta na parede de rocha com vista para o glaciar, e a maior parte do trajeto é escuridão. É importante saber disso: você não passa 35 minutos vendo paisagem, você passa dentro de uma montanha.
Lá em cima há o Palácio de Gelo, o platô de neve, o observatório Sphinx e a vista do glaciar Aletsch, o maior dos Alpes com 22 quilômetros de extensão, Patrimônio da UNESCO.
Aqui vai o alerta financeiro mais duro deste texto. O bilhete completo desde Interlaken custa entre CHF 210 e CHF 240 ida e volta na tarifa cheia, com desconto de cerca de 25% com passe. É o passeio mais caro da Suíça. E se o tempo estiver fechado, você paga isso para ver névoa branca de dentro de um túnel.
Regra que eu aplicaria sem hesitar: decida na véspera olhando a webcam ao vivo. Se estiver nublado, troque pelo Schilthorn ou pela First, em Grindelwald, que custam metade e são a céu aberto.
9. Brienz Rothorn Railway: o vapor de verdade
Cerca de 1 hora de Brienz, a 566 metros, até o Rothorn Kulm, a 2.244 metros. É a única ferrovia de cremalheira a vapor ainda em operação regular na Suíça, funcionando desde 1892, com locomotivas que sobem rampas de até 25%.
O cheiro de carvão, o barulho, a fumaça entrando pela janela: é uma experiência sensorial que nenhum trem moderno reproduz. Ainda usam locomotivas centenárias em parte da frota, ao lado de máquinas a vapor mais novas dos anos 90.
Lá de cima a vista abre para o Lago de Brienz inteiro, com aquele azul leitoso de água glacial, e para o maciço do Jungfrau do outro lado.
Funciona só de junho a outubro, aproximadamente. Preço em torno de CHF 96 ida e volta, com 50% de desconto para quem tem passe. Reserva é bem recomendada porque a capacidade é pequena.
Uma combinação que funciona muito bem: subir de trem a vapor e voltar de barco pelo Lago de Brienz até Interlaken.
10. Voralpen Express: o que ninguém pega
Cerca de 2 horas e 15 minutos ligando Lucerna a St. Gallen, atravessando a região dos pré-Alpes suíços. Passa pelo Lago de Zug, sobe o Sattel, corre por Rapperswil na beira do Lago de Zurique, cruza o impressionante Viaduto de Sitter, o mais alto da Suíça com 99 metros, e chega a St. Gallen, que tem uma biblioteca abacial barroca que é Patrimônio da UNESCO e uma das mais bonitas do mundo.
É paisagem de colina verde, vaca, campanário e vila arrumada. Não tem glaciar. E é exatamente por isso que está sempre vazio.
Está totalmente incluído no Swiss Travel Pass, sem reserva, e roda de hora em hora o ano inteiro. Se você já viu montanha alta o suficiente e quer um dia tranquilo, é uma escolha ótima.
Resumo prático de tempos e valores
| Trem | Trecho | Duração | Tarifa cheia 2ª classe | Passe cobre? |
|---|---|---|---|---|
| Glacier Express | Zermatt–St. Moritz | 8h | CHF 275 | Sim + reserva CHF 39–59 |
| Bernina Express | Chur–Tirano | 4h | CHF 66 | Sim + reserva CHF 20–32 |
| GoldenPass Express | Montreux–Interlaken | 3h15 | CHF 78 | Sim, reserva opcional |
| Gotthard Panorama | Lucerna–Lugano | 5h30 | CHF 90 aprox. | Sim + reserva CHF 24 |
| Lucerne–Interlaken | Lucerna–Interlaken | 2h | CHF 32 | Sim, sem reserva |
| Mont Blanc Express | Martigny–Chamonix | 1h30 | CHF 30 aprox. | Só até a fronteira |
| Gornergrat | Zermatt–Gornergrat | 33 min | CHF 132 | 50% desconto |
| Jungfrau Railway | Interlaken–Jungfraujoch | 2h no total | CHF 210–240 | 25% desconto |
| Brienz Rothorn | Brienz–Rothorn Kulm | 1h | CHF 96 | 50% desconto |
| Voralpen Express | Lucerna–St. Gallen | 2h15 | CHF 42 | Sim, sem reserva |
Onde sentar, e a verdade sobre isso
A recomendação genérica de sentar do lado direito não funciona. Depende do sentido.
No Bernina Express de Chur para Tirano, o lado direito pega o Landwasser e o Brusio. No Gornergrat subindo, direito. No Lucerne–Interlaken saindo de Lucerna, esquerdo. No GoldenPass saindo de Montreux, direito, para o Léman.
Mas aqui vai a observação mais útil: nos vagões panorâmicos as janelas curvam sobre o teto e você vê os dois lados razoavelmente bem. Além disso, o vidro é fixo e reflete muito, o que atrapalha foto. Nos trens regionais comuns as janelas abrem. Não é raro a foto do trem regional sair melhor que a do trem caro.
Como eu montaria o roteiro de trens
Se você tem uma semana, escolha dois trens panorâmicos longos, não mais. Sério. Passar quatro dias sentado vendo paisagem pela janela cansa mais do que parece, e depois do terceiro glaciar o cérebro para de registrar.
A combinação que rende mais: Bernina Express para o drama de engenharia, mais Gornergrat para o Matterhorn de perto, mais o Lucerne–Interlaken Express como deslocamento útil que já é passeio. Isso cobre engenharia, alta montanha e lago, com um custo bem menor do que fazer Glacier Express e Jungfraujoch no mesmo roteiro.
E uma coisa que aprendi observando quem viaja bem por lá: os suíços não usam esses trens. Eles pegam o regional, descem numa estação qualquer no meio da montanha e caminham. Reservas são obrigatórias em alta temporada e abrem com meses de antecedência, então compre cedo, sim. Mas guarde pelo menos um dia sem trem marcado. É nele que costuma acontecer a melhor parte.

