Dicas de Viagem Para Aproveitar Lucerna

Lucerna: guia completo da cidade suíça do Kapellbrücke, com Rigi, Pilatus, Titlis, preços reais, o que fazer em um ou três dias e como fugir da multidão.

https://pixabay.com/photos/lucerne-switzerland-5168092/

Lucerna é uma cidade de cerca de 82 mil habitantes, com uns 220 mil na região metropolitana, plantada exatamente onde o rio Reuss sai do Lago dos Quatro Cantões, o Vierwaldstättersee. Fica no centro geográfico da Suíça, no cantão de Lucerna, e é provavelmente a cidade suíça que mais parece com a ideia que as pessoas têm da Suíça antes de chegar: ponte de madeira, montanha ao fundo, água verde-azulada, casa pintada.

E ela entrega isso mesmo. Só que com algumas ressalvas que valem ser ditas logo.

Primeiro, uma correção sobre o “castelo na colina”

Lucerna não tem um castelo com teleférico. Isso confunde muita gente, e a confusão tem origem em duas coisas diferentes.

A primeira é a Museggmauer, a muralha do século 14, com nove torres, que corre pela colina acima da cidade velha. Ela parece um castelo de longe e é o que aparece nas fotos com o rio ao fundo. Quatro dessas torres podem ser subidas de graça, e o horário costuma ser de abril a novembro, aproximadamente das 8h às 19h. A Zytturm guarda o relógio mais antigo da cidade, de 1535, que tem o privilégio de bater a hora um minuto antes de todos os outros relógios da cidade. É um detalhe bobo e eu acho encantador.

A segunda origem da confusão é o Château Gütsch, um hotel do século 19 construído em estilo de castelo numa colina a oeste do centro, que tem sim um funicular próprio, curtinho, o Gütschbahn. Não é um castelo medieval, é um hotel de aparência de castelo, e o funicular é basicamente o acesso dele. A vista do terraço é boa e o funicular é gratuito para hóspedes e clientes do restaurante.

Já os teleféricos de verdade, os grandes, não saem da cidade. Saem dos arredores, e é aí que Lucerna fica interessante.

Powered by GetYourGuide

Segunda correção: a “arquitetura medieval” tem uma pegadinha

A cidade velha de Lucerna é genuinamente antiga, com ruas estreitas, praças como a Weinmarkt e o Kornmarkt, fontes de pedra e fachadas cobertas de frescos pintados. Essas pinturas são o que dá o ar de “casas coloridas”, e a maioria delas é do século 19 e começo do 20, feitas no espírito do romantismo suíço, não da Idade Média. Não desmerece nada. Só é bom saber que a paleta pastel e as cenas pintadas nas paredes são, em boa parte, uma releitura romântica de um passado medieval, aplicada sobre construções que de fato são antigas.

E o símbolo máximo da cidade tem uma história parecida. O Kapellbrücke, a Ponte da Capela, foi construído por volta de 1333 e é a ponte de madeira coberta mais antiga da Europa. Mas em agosto de 1993 ela pegou fogo e foi quase toda destruída. Foi reconstruída em menos de um ano. Dos cerca de 147 painéis triangulares pintados no século 17 que ficavam sob o telhado, contando a história da cidade e dos santos padroeiros São Leodegar e São Maurício, restaram apenas uns 30 originais. Os outros são cópias, e alguns espaços foram deixados vazios de propósito, como lembrança. Quando você atravessar, olhe para cima: as tábuas escurecidas e um pouco tortas são as sobreviventes.

A Wasserturm, a torre de água octogonal ao lado, é anterior à ponte, de cerca de 1300, e não pegou fogo. Ela já foi prisão, sala de tortura, arquivo e tesouro da cidade. Hoje é fechada ao público na maior parte do tempo.

E existe uma segunda ponte de madeira que quase todo mundo ignora: a Spreuerbrücke, de 1408, um pouco rio abaixo. Ela tem uma série de painéis chamada Dança da Morte, pintada entre 1616 e 1637, com 45 cenas onde a morte aparece levando gente de todas as classes sociais. É macabro, é fascinante e não tem multidão nenhuma. Se eu tivesse que escolher uma das duas para atravessar com calma, escolheria essa.

O Leão Moribundo

A poucos minutos a pé do centro está o Löwendenkmal, o Monumento ao Leão, esculpido na rocha em 1821 por Lukas Ahorn a partir de um desenho de Bertel Thorvaldsen. Ele homenageia os mercenários suíços da Guarda Suíça mortos em Paris em 1792, durante o ataque ao Palácio das Tulherias na Revolução Francesa.

É um leão de dez metros de comprimento, deitado, com uma lança quebrada no flanco, morrendo. Mark Twain escreveu que era “o pedaço de pedra mais triste e mais comovente do mundo”, e ele não estava exagerando. A entrada é gratuita, o lugar é pequeno e fica cheio, então vá cedo ou no fim do dia.

Ao lado tem o Gletschergarten, o Jardim dos Glaciares, com marmitas glaciais escavadas na rocha por geleiras há uns 20 mil anos, fósseis de palmeiras de quando aqui era subtropical, um museu e um labirinto de espelhos de 1896. Custa em torno de CHF 22. É esquisito e divertido, e funciona muito bem com criança ou em dia de chuva.

As montanhas, que é o motivo real de Lucerna valer mais que um dia

Aqui está o ponto que a maioria dos roteiros de bate-volta perde. Lucerna é, na prática, a base mais bem conectada da Suíça central, e as montanhas em volta são acessíveis em uma manhã.

Rigi, a “Rainha das Montanhas”

A Rigi Kulm fica a 1.798 metros e é a minha recomendação número um para quem tem um dia livre. Sobe-se de Vitznau ou de Arth-Goldau na primeira ferrovia de montanha da Europa, inaugurada em 1871. É trem de cremalheira, vermelho, lento, com vista o tempo inteiro.

O roteiro clássico é uma volta completa: barco de Lucerna até Vitznau em cerca de uma hora, trem até o cume, descida do outro lado até Weggis pelo teleférico ou até Arth-Goldau pelo trem, e volta de trem para Lucerna. Leva o dia, custa em torno de CHF 78 a 90 na tarifa cheia com o barco, e é grátis com Swiss Travel Pass, o que é raro entre montanhas suíças. A Rigi também tem termas em Rigi Kaltbad, o Mineralbad & Spa, com piscina externa voltada para o lago.

Pilatus e a ferrovia mais inclinada do mundo

O Pilatus Kulm fica a 2.132 metros e tem a ferrovia de cremalheira mais inclinada do mundo, com até 48% de inclinação, saindo de Alpnachstad. Ela opera apenas de maio a novembro, porque na neve não dá.

O passeio famoso é a Golden Round Trip: barco de Lucerna até Alpnachstad, cremalheira até o topo, e descida por gôndola e teleférico até Kriens, já na borda de Lucerna, voltando de ônibus. Custa em torno de CHF 111 a 126 na tarifa cheia, com metade do preço para quem tem Swiss Travel Pass ou Half Fare Card. No inverno faz-se o caminho invertido, subindo e descendo de teleférico por Kriens.

Sobre o nome: a lenda diz que Pôncio Pilatos está enterrado num lago no alto da montanha e que seu espírito provoca tempestades. Durante séculos foi proibido subir lá. Provavelmente o nome vem de pileatus, “de chapéu”, pelas nuvens que se formam no cume.

Titlis, para ver neve no verão

O Titlis, a 3.020 metros, é o único da região com glaciar de verdade e neve o ano inteiro. Fica em Engelberg, a 45 minutos de trem de Lucerna. A subida final é feita no Rotair, a primeira gôndola rotativa do mundo, que gira 360 graus enquanto sobe.

Lá em cima existe a Titlis Cliff Walk, uma passarela suspensa a cerca de 3.000 metros, a mais alta da Europa, uma gruta de gelo escavada no glaciar e um trenó de neve. Ida e volta de Lucerna gira em torno de CHF 96 a 110, com desconto de metade com os passes. É o passeio mais caro e o único que garante neve em julho.

Stanserhorn e o teleférico sem teto

O Stanserhorn, a 1.898 metros, é o menos conhecido e o mais original. Sobe-se de Stans num funicular de madeira de 1893 e depois no CabriO, o único teleférico do mundo com deque superior aberto, sem teto, onde você viaja de pé no vento com vista de 360 graus. Cerca de CHF 82 ida e volta, metade com passe. A vista abrange dez lagos. Tem menos gente que Rigi e Pilatus, e para mim é o mais divertido dos quatro.

O lago, que é a melhor parte e a mais barata

O Vierwaldstättersee tem uma forma bizarra, cheia de braços e curvas entre paredes de montanha, e é o passeio que eu faria se tivesse apenas três horas em Lucerna.

A frota da SGV tem cinco navios históricos a vapor de pás, construídos entre 1901 e 1928, ainda em operação, com salões de madeira e latão polido. Os cruzeiros curtos de uma hora saem do cais em frente à estação e custam em torno de CHF 30 a 35. Os longos, até Flüelen, na ponta sul, levam quase três horas e passam pela parte mais dramática do lago, onde a montanha cai direto na água.

E aqui está o detalhe que muda tudo: todos os barcos são gratuitos com o Swiss Travel Pass, porque são considerados transporte público. Se você tem o passe, um cruzeiro de vapor de três horas custa zero.

O Rütli, prado onde por tradição a Confederação Suíça foi fundada em 1291, fica na margem do lago e é acessível só por barco ou a pé. Do lado de Flüelen sai o Weg der Schweiz, o Caminho da Suíça, uma trilha de 35 quilômetros ao redor do braço de Urner, dividida em trechos, onde cada cantão recebeu um comprimento proporcional à sua população. Dá para fazer só um pedaço e voltar de barco.

A orla, o KKL e o lado moderno

O calçadão à beira do lago, o Schweizerhofquai e o Nationalquai, é largo, com plátanos, bancos e vista para Rigi e Pilatus. É onde a cidade caminha à noite. Tem uma coisa que quase ninguém percebe: a linha de hotéis grandiosos ali, o Schweizerhof, o Palace, o National, é herança do turismo do século 19, quando os ingleses ricos vinham passar temporadas. Lucerna vive de turismo há mais de 150 anos, e isso explica o quanto ela é boa nisso e o quanto ela é lotada.

Ao lado da estação está o KKL, o Centro de Cultura e Congressos projetado por Jean Nouvel, com aquele teto de metal enorme que se estende 45 metros sobre a água. É uma das melhores salas de concerto acústicas da Europa e sede do Lucerne Festival, em agosto. Dentro funciona o Kunstmuseum Luzern. Vale ver por fora mesmo sem entrar, e o contraste com a cidade velha é bem forte.

E existe o Verkehrshaus, o Museu Suíço dos Transportes, que é o museu mais visitado do país. Trens, aviões, locomotivas, planetário, cinema em tela gigante e uma seção de chocolate. Fica a 15 minutos de barco ou ônibus do centro, custa em torno de CHF 35, e é onde eu levaria uma família com crianças sem pensar duas vezes.

Caminhadas, sem precisar de montanha grande

Não é preciso subir a 2 mil metros para caminhar. O Bürgenstock, na margem do lago, tem o Hammetschwand, o elevador ao ar livre mais alto da Europa, com 152 metros de rocha vertical, e um caminho de penhasco com vista sobre o lago inteiro. Chega-se de barco até Kehrsiten e funicular.

Perto do centro tem o Dietschiberg e o Sonnenberg, colinas com trilhas de uma ou duas horas, e o caminho ao longo da muralha Musegg dá uma volta curta e bonita. E a travessia de Rigi Kaltbad a Rigi Kulm, umas duas horas de caminho fácil em altitude, é uma das mais gratificantes da Suíça para o esforço que exige.

A língua

Lucerna está na região de língua alemã, e na rua se fala Lozärnerdütsch, uma variante do alemão suíço da região central. Não é sotaque, é um dialeto que soa bem diferente do alemão padrão e que alemães nativos às vezes não entendem.

Na prática, isso não é problema nenhum. Lucerna é a cidade mais turística da Suíça em proporção ao tamanho, e inglês funciona em absolutamente tudo: hotel, restaurante, loja, bilheteria, ônibus. Alemão padrão também é entendido por todos.

Chegar e circular

Lucerna tem uma estação central com conexões muito frequentes.

OrigemTempo aproximado de trem
Zurique45 min a 1h
Aeroporto de Zurique1h10
Berna1h
Interlaken Ost2h (Golden Pass)
Basileia1h05
Engelberg (Titlis)45 min
Milão3h a 3h30

O trecho Lucerna a Interlaken é feito pelo Luzern-Interlaken Express, um dos trens panorâmicos mais bonitos da Suíça, passando por Brünig, pelo lago Brienz e por Meiringen. Não precisa de reserva na maioria dos horários e está incluído no Swiss Travel Pass, o que o torna o trem cênico com melhor relação custo-benefício do país, na minha opinião.

Dentro da cidade, quase nada é necessário. A cidade velha, o Leão, a estação, o KKL e a orla estão todos a 15 ou 20 minutos de caminhada um do outro. É de fato uma cidade compacta, o que é raro e muito bem-vindo. Existe uma rede de ônibus e trólebus, e o Lucerne Visitor Card, que você recebe ao se hospedar na cidade, dá transporte público gratuito na zona central. Peça no check-in, porque muitos hotéis não oferecem espontaneamente.

Carro é dispensável e mais atrapalha, com pouco estacionamento e caro no centro.

Preços

ItemFaixa aproximada
Hotel 3 estrelas na altaCHF 180 a 300
Hotel 4 estrelasCHF 300 a 500
Albergue ou dormitórioCHF 45 a 90
Cruzeiro curto no lagoCHF 30 a 35
Rigi ida e volta com barcoCHF 78 a 90
Pilatus Golden Round TripCHF 111 a 126
Titlis desde LucernaCHF 96 a 110
StanserhornCHF 82 aprox.
VerkehrshausCHF 35 aprox.
GletschergartenCHF 22 aprox.
Prato principal médioCHF 28 a 50
CervejaCHF 7 a 10
Café expressoCHF 4,50 a 6

O Swiss Travel Pass é onde Lucerna brilha. Ele cobre os barcos inteiros, cobre a Rigi por completo, cobre o trem panorâmico até Interlaken, e dá metade do preço em Pilatus, Titlis e Stanserhorn. Existe também o Tell-Pass, específico da Suíça central, válido de 2 a 10 dias, que inclui barcos e a maioria das montanhas da região. Se o plano é subir duas ou três montanhas em dias seguidos, o Tell-Pass costuma ganhar. Vale fazer a conta antes.

Para economizar em comida: tem Coop e Migros perto da estação, e comprar pão, queijo e fruta para comer na orla é o que os locais fazem. Um almoço assim sai por CHF 12 a 18 em vez de CHF 40. E quase todo restaurante tem o Tagesmenü, o menu do dia no almoço, que sai bem mais barato que o mesmo prato à noite.

A multidão, e por que dormir na cidade muda tudo

Lucerna é o bate-volta mais popular a partir de Zurique, e isso tem uma consequência muito visível. Entre mais ou menos 10h e 17h, a cidade velha e o Kapellbrücke ficam tomados por grupos de excursão e por passageiros de ônibus de turismo. Em julho e agosto é intenso.

Depois das 18h, isso simplesmente esvazia. Os grupos voltam para Zurique, os restaurantes ficam com mesa livre, a luz do fim do dia bate na muralha e no rio, e a cidade fica quieta de um jeito completamente diferente. E de manhã, antes das 9h, a ponte fica vazia.

Então sim, dormir em Lucerna vale muito a pena, e não é só pela multidão. É porque as montanhas exigem uma manhã inteira, e quem chega de Zurique às 10h e sai às 17h consegue ver a cidade velha e mais nada. Fica com a sensação de que Lucerna é “bonitinha e pequena”, quando na verdade ela é uma base para uma semana.

Quanto tempo ficar

Meio dia dá para a cidade velha, as duas pontes, o Leão e um café na orla. É o bate-volta padrão e é raso.

Um dia inteiro permite a cidade velha pela manhã e um cruzeiro no lago à tarde, ou a cidade velha e o Verkehrshaus.

Dois dias é o mínimo honesto: um dia de cidade e lago, um dia de montanha, sendo Rigi a melhor escolha se você tem Swiss Travel Pass, ou Pilatus se quer a experiência mais espetacular.

Três a quatro dias transforma Lucerna em base para a Suíça central inteira: Rigi, Pilatus, Titlis em Engelberg com o mosteiro beneditino de 1120 e a fábrica de queijo Schaukäserei, Stanserhorn, o Bürgenstock, e um cruzeiro longo até Flüelen com trecho do Caminho da Suíça.

Uma última observação prática que faz diferença real: decida a montanha na véspera, olhando a previsão, e não meses antes. Todas essas montanhas têm webcam ao vivo nos sites oficiais. Pilatus e Rigi ficam dentro de nuvem com frequência, e subir num dia fechado é jogar dinheiro fora. O lago, ao contrário, é bonito até na chuva, com a névoa descendo pelas encostas. Guarde o dia nublado para o barco, o museu e a cidade velha, e o dia limpo para o alto. É a decisão mais simples e a que mais melhora uma viagem aqui.

Artigos Relacionados

Deixe um comentário