Golpes Comuns Aplicados em Turistas em Londres na Inglaterra

Londres recebe cerca de 30 milhões de turistas por ano e, nesse volume todo, existe um mercado paralelo muito bem organizado de pessoas que vivem às custas de quem não conhece a cidade — e os golpes estão cada vez mais sofisticados, migrando das ruas para o ambiente digital.

Foto de Pedro Roberto Guerra: https://www.pexels.com/pt-br/foto/36501901/

Não é exagero dizer que Londres é uma das capitais do mundo com os esquemas mais variados e criativos contra visitantes. Isso não significa que a cidade seja perigosa — longe disso. A violência física é rara, especialmente nas áreas centrais onde os turistas circulam. Mas a habilidade de separar o viajante distraído do seu dinheiro, de formas que muitas vezes parecem completamente normais, é refinada ali há décadas.

O problema maior é que muita gente só descobre que foi enganada depois que o prejuízo já está feito. Entender como esses golpes funcionam antes de chegar é o único antídoto real.


O rickshaw que cobra o que bem entender

Nenhum outro golpe londrinoo gerou tanto barulho nos últimos anos quanto os pedicabs — aqueles triciclos coloridos com caixinha de som, iluminação chamativa e motorista simpático que fica parado na saída dos teatros do West End convidando turistas para uma “volta rápida e barata pela cidade”.

O problema não é o veículo em si. É o que acontece no final da corrida.

Durante muito tempo, esses pedicabs operaram sem qualquer regulamentação em Londres — eram o único tipo de transporte na cidade completamente fora da fiscalização do Transport for London (TfL). Sem taxímetro obrigatório, sem tabela de preço fixo, sem licença formal. O motorista combinava um valor de forma vaga no início, e na chegada apresentava uma conta que misturava cobrança por pessoa, por milha percorrida e às vezes por “tempo de espera” que você nem sabia que estava acumulando.

Os registros são assustadores. Uma turista pagou £1.278 — mais de R$ 8.000 — por uma corrida de poucos minutos entre a Abadia de Westminster e o Palácio de Buckingham. Outra acreditava estar pagando £33 por um trecho em Mayfair e foi debitada em £336. A Câmara de Westminster distribuiu mais de £70.000 em multas a operadores ilegais só em dezembro de 2024, em uma operação pré-natal chamada de “crackdown natalino”.

O mecanismo do golpe inclui também manipulação de maquininha: alguns motoristas alteram casas decimais na hora de inserir o valor, transformando £15 em £150 num toque de dedo. Com o cansaço de um dia inteiro de turismo, num bairro desconhecido, à noite, é muito difícil perceber na hora.

A solução é simples e definitiva: não use pedicab em Londres. Use o Uber com preço fixo antes de entrar no carro, o black cab com taxímetro visível, ou o metrô.


Ingressos falsos e o mercado de £9,7 milhões em fraudes

Leicester Square é o coração do teatro londrino. É bonito, é animado e é exatamente o lugar onde você precisa ter mais cuidado com quem se aproxima sorrindo e dizendo que tem “ingressos sobrando” para algum musical.

Em 2024 e 2025, autoridades britânicas documentaram que fraudes com ingressos falsos no West End causaram um prejuízo de mais de £9,7 milhões aos turistas. Os esquemas evoluíram muito. Antes eram cambistas físicos na porta dos teatros. Hoje incluem sites sofisticados com visual idêntico ao das bilheterias oficiais, QR codes falsificados que funcionam apenas para o primeiro a escanear (deixando todos os outros que compraram o mesmo código para fora), e vendas por redes sociais com capturas de tela convincentes.

O golpe do “ticket screenshot” é especialmente cruel: o viajante compra com dias de antecedência, paga um valor que parece razoável, recebe uma imagem de ingresso que parece legítima — e só descobre o problema na porta, quando o bilhete não é aceito. O mesmo QR code pode ter sido vendido para dezenas de pessoas. O primeiro que chegar entra. Os outros ficam do lado de fora.

Isso acontece com shows comuns, mas explode em datas específicas. Para o réveillon de 2025 em Londres, a Prefeitura e o TfL emitiram alertas formais sobre a venda de ingressos falsos para a queima de fogos do Tamisa — um evento que só vende ingressos via Ticketmaster, o único canal oficial.

A regra aqui é absoluta: ingresso de teatro, show ou evento em Londres se compra exclusivamente na bilheteria oficial do local ou em plataformas autorizadas. O único guichê legítimo de desconto em Leicester Square é o TKTS, que fica fisicamente na praça, tem fila real e preços transparentes.


O ETA falso que já está custando uma fortuna antes da viagem começar

Esse golpe nem exige que você esteja em Londres — começa no Brasil, na frente do computador, enquanto você tenta organizar a documentação da viagem.

O Reino Unido passou a exigir a Autorização Eletrônica de Viagem (ETA, Electronic Travel Authorization) de turistas de dezenas de países, incluindo o Brasil. O processo oficial é feito exclusivamente pelo site do governo britânico (gov.uk) ou pelo aplicativo oficial “UK ETA”, e custa £16.

O problema é que sites fraudulentos copiaram o visual do processo oficial com extrema fidelidade e aparecem nos primeiros resultados do Google quando o viajante busca por “ETA Reino Unido” ou “visto Inglaterra turismo”. Nesses sites, o mesmo documento é cobrado por valores que chegam a cinco vezes o preço oficial — entre £50 e £80. Alguns cobram “taxas de processamento” adicionais que não existem na versão legítima.

A Washington Post e o Tripadvisor já documentaram casos em série. O turista paga, recebe um comprovante que parece válido, e só descobre na imigração — ou antes, se tiver sorte — que o documento foi emitido por um intermediário não autorizado.

O endereço oficial é um só: gov.uk/apply-uk-visa. Qualquer variação — ETAUK.co.uk, UK-ETA.net, UKvisas.com ou qualquer outra — é fraude. Sem exceção.


Os batedores de carteira não são o que você imagina

Falar de batedor de carteira em Londres pode parecer um alerta óbvio demais. Mas a sofisticação com que operam na cidade merece mais do que uma menção rápida.

Não é uma pessoa nervosa que arranca sua bolsa e sai correndo. É um trabalho silencioso, em equipe, quase cirúrgico — e muitas vezes completamente invisível para a vítima. O metrô londrino registra mais de 4.000 roubos por ano só nas plataformas e vagões. As cinco estações com maior incidência são exatamente aquelas que todo turista vai passar: King’s Cross St Pancras, Oxford Circus, Victoria, Liverpool Street e Stratford.

O método mais documentado é o chamado bottleneck — ou engarrafamento humano. Um grupo bloqueia a saída de um vagão ou o fim de uma escada rolante, cria uma aglomeração breve e controlada, e enquanto as pessoas se esbarram tentando passar, bolsos e mochilas são esvaziados com calma. Leva segundos. A vítima percebe minutos depois, já em outro lugar.

Tem também a distração deliberada: alguém derrama um líquido nas suas costas — às vezes até cuspe — e aparece imediatamente com papel para ajudar a limpar. Enquanto você processa o que aconteceu e aceita a ajuda, um segundo operador já estava de olho na sua bolsa.

Em 2025, Londres virou notícia também por se tornar um hub global de roubo de celulares — não só o furto em si, mas toda uma rede de lojas de revenda que recebia os aparatos roubados. A Polícia Metropolitana realizou dezenas de operações em outubro de 2025, invadindo lojas de celulares usados no norte da cidade como parte de um esforço para desmontar o esquema.

O Palácio de Buckingham na hora da troca da guarda continua sendo ponto crítico. A multidão é tão compacta que qualquer coisa pode sair do bolso sem que você sinta.

Bolsa na frente, zíper fechado, celular no bolso interno do casaco. Parece básico. É o que funciona.


O jogo dos três copos — que nunca vai mudar

Na região de Oxford Street e nas áreas mais movimentadas do centro, especialmente nos fins de semana e em dias de sol, você pode se deparar com uma mesa improvisada de papelão, três copos virados e uma boinha. Um operador faz movimentos rápidos. Uma pequena multidão observa. Um “apostador” ganha com facilidade, animando quem está em volta.

Já sabe o final: a bolinha nunca está onde você pensa, porque o operador a esconde na palma da mão entre um movimento e outro. O apostador animado é parte do esquema. Pelo menos dois ou três dos “espectadores” ao redor também são — e enquanto você fica de olho nos copos, eles estão de olho nos seus pertences.

É um golpe que existe há séculos e continua funcionando porque mistura entretenimento com apostas e pressão social. Ninguém deveria parar nem por curiosidade.


As lojas de “doces americanos” com preços absurdos

No West End, especialmente próximo de Oxford Street e Carnaby Street, existem lojas coloridas e chamativas que vendem refrigerantes, salgadinhos e doces importados dos Estados Unidos — o tipo de produto que não se encontra facilmente nos supermercados locais. A decoração é caprichada, as prateleiras parecem saídas de um filme americano dos anos 90, e as crianças adoram.

O problema está no preço. Uma garrafa de refrigerante que custa £1,50 em qualquer Tesco pode estar marcada a £8. Um pacote de batata chips americana que um mercado comum vende por £2 aparece ali por £12. Tecnicamente não é um golpe ilegal — o preço está marcado e você está comprando o que está vendo. Mas é uma exploração deliberada de quem não conhece os valores de mercado locais.

A Frommer’s e outros guias sérios já documentaram o fenômeno como um dos “golpes com cara de loja” mais ativos de Londres nos últimos anos. A dica é sempre olhar o preço antes de pegar qualquer coisa. E se parecer muito caro — é porque é.


As máquinas de boxe e cabines de foto 360° nas calçadas

Em dezembro de 2024, a Câmara de Westminster emitiu um alerta formal sobre máquinas de boxe e cabines de foto 360 graus instaladas ilegalmente nas calçadas do centro da cidade. A operação resultou em cinco processos formais, mais de £6.000 em multas e apreensão de todos os equipamentos identificados.

O esquema funciona assim: as máquinas têm visual de entretenimento de shopping, parecem divertidas, e os operadores convidam os passantes com entusiasmo. Mas sem regulamentação, os preços são cobrados de forma opaca, e algumas cabines simplesmente não entregam o produto — tiram as fotos, cobram antecipadamente, e o material nunca é disponibilizado.

A câmara continuou as operações de fiscalização em 2025, mas novos equipamentos aparecem constantemente em pontos diferentes da cidade.


Os “falsos policiais” que pedem para ver seu dinheiro

Esse é mais raro, mas acontece — e é especialmente eficiente com turistas de países onde a polícia tem autoridade inquestionável.

A abordagem é direta: duas pessoas se identificam como policiais à paisana, mostram algo que parece uma carteira de identificação, e informam que estão investigando circulação de notas falsas. Pedem para ver seu dinheiro — notas, carteiras, tudo. A situação parece oficial. Você está num país estranho, com leis que não conhece, e a pressão é grande.

O resultado: quando o dinheiro volta para as suas mãos, parte dele ficou para trás. O golpe é executado com tal naturalidade que muitas vítimas só percebem horas depois.

Ponto fundamental: a polícia britânica real nunca pede para ver ou manusear o dinheiro de turistas na rua. Se isso acontecer, peça identificação formal com número de registro, anote o nome e informe que vai ligar para o 101 — o número não emergencial da polícia — para confirmar a operação. Qualquer pessoa legítima vai entender. Qualquer golpista vai desaparecer.


A pulseira “de presente” que não é de presente

Esse golpe viaja o mundo inteiro e tem endereço fixo em Londres, especialmente nas áreas turísticas mais densas.

A abordagem começa amigável: uma pessoa sorri, puxa assunto, elogia algo em você, e num momento de distração amarra uma trança colorida no seu pulso. É rápido, parece um gesto simpático. Aí vem o pedido de pagamento — geralmente um valor acima do razoável, cobrado com insistência crescente.

O detalhe que piora: enquanto a pulseira está sendo amarrada e você está dividindo a atenção com a conversa, há grande chance de que um parceiro esteja vasculhando sua mochila. Perder dinheiro para pagar a pulseira pode ser o menor dos prejuízos.

A resposta certa é não parar. Dizer não com firmeza e seguir caminhando, sem grosseria e sem culpa.


O falso funcionário do metrô

Nas estações mais movimentadas — Victoria, King’s Cross, Waterloo — há relatos frequentes de pessoas uniformizadas de forma semelhante aos funcionários reais do metrô que oferecem “ajuda” com as máquinas de bilhetes. O desfecho costuma envolver cobranças extras, Oystercards carregadas com menos do que o valor pago, ou simplesmente o cartão sendo clonado durante o processo.

Os funcionários reais do Transport for London têm uniforms identificados com o logo oficial e crachás visíveis. Qualquer dúvida com bilhetes ou passes, procure o balcão de atendimento dentro da estação, não aceite ajuda de estranhos nas máquinas.


Se algo acontecer, o que fazer

Para emergências em Londres, o número é o 999. Para situações não urgentes — inclusive registrar boletim de ocorrência após um golpe — o número é o 101. Reclamações sobre transporte irregular, incluindo pedicabs, podem ser feitas diretamente ao Transport for London pelo site tfl.gov.uk.

Guarde qualquer comprovante, anote horário, local e descrição das pessoas envolvidas. Mesmo que a chance de recuperar o dinheiro seja pequena, o registro ajuda as autoridades a mapear padrões e, no caso de seguros de viagem, é documentação obrigatória para acionar o reembolso.


Londres é extraordinária apesar de tudo isso. A cidade tem uma qualidade de vida pública, uma infraestrutura cultural e uma diversidade que poucas capitais do mundo conseguem igualar. Mas ela também é uma cidade de 9 milhões de pessoas com um fluxo constante de 30 milhões de visitantes por ano — e onde existe esse volume, existe oportunismo organizado.

Chegar preparado não tira o charme de nada. Só garante que você vai voltar falando da viagem, não do golpe.

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