Sul do Chile: Pucón, Valdivia, Puerto Varas, Puerto Natales e Punta Arenas
Do vulcão ativo de Pucón aos ventos gelados do Estreito de Magalhães, o sul do Chile entrega paisagens que parecem exageradas de tão bonitas. Lagos cor de esmeralda, florestas úmidas cheias de samambaias gigantes, vulcões nevados que aparecem no horizonte quando você menos espera, e aquele silêncio patagônico que só quem já pisou por lá entende. Cinco cidades condensam essa experiência: Pucón, Valdivia, Puerto Varas, Puerto Natales e Punta Arenas. Cada uma delas tem personalidade própria, clima diferente e um jeito particular de receber o viajante. Não são apenas paradas no mapa. São destinos que pedem tempo, olhar atento e, de preferência, uma jaqueta boa à prova de vento.

O que conecta essas cinco cidades é a geografia generosa e ao mesmo tempo impiedosa do sul chileno. A Cordilheira dos Andes se estende por ali como uma espinha dorsal, recortada por lagos de origem glacial e rios que descem com força das montanhas. Pucón e Puerto Varas olham para vulcões imponentes. Valdivia se espalha por ilhas fluviais. Puerto Natales e Punta Arenas já entram no território da Patagônia profunda, onde o vento é personagem da paisagem e as distâncias se medem em horas de estrada vazia. Viajar por esse pedaço do Chile é entender que o país é muito mais do que Santiago, Atacama e vinhedos. É mergulhar numa natureza que não pede licença.
Pucón: o vulcão no quintal e as termas no fim do dia
Pucón fica na região da Araucanía, a cerca de 780 km ao sul de Santiago, e tem pouco mais de 30 mil habitantes. A cidade é pequena. Dá para atravessar o centro a pé em vinte minutos. Mas o tamanho engana. Pucón é um dos centros de turismo de aventura mais relevantes do Chile, com infraestrutura turística sólida, agências sérias e uma capacidade impressionante de agradar tanto o mochileiro que quer subir vulcão quanto a família que só quer relaxar em águas termais.
O cartão-postal da cidade é o Vulcão Villarrica, com seus 2.847 metros de altitude. Ele é um dos vulcões mais ativos da América do Sul. A última erupção significativa aconteceu em 2015, e desde então o vulcão segue sendo monitorado de perto pelo Sernageomin, o serviço geológico chileno. À noite, dependendo das condições, dá para ver um brilho avermelhado saindo da cratera. Os mapuches, povo originário da região, chamavam o Villarrica de “Ruka Pillán”, algo como “casa do espírito”, e acreditavam que ele abrigava forças poderosas. Olhando para aquela montanha fumegante no horizonte, não é difícil entender por quê.
Subir o Villarrica é o passeio mais procurado da cidade. A ascensão começa de madrugada, com a van te deixando no centro de esqui na base do vulcão, a cerca de 1.400 metros de altitude. De lá, são aproximadamente cinco horas de subida até a cratera. A maior parte do ano o cume está coberto de neve, então o uso de crampons e piolet é obrigatório. O vento no topo costuma ser violento. Mas a recompensa vale cada passo: olhar para dentro da cratera e ver a lava borbulhando, com os Andes se estendendo até onde a vista alcança, é uma daquelas imagens que grudam na memória.
Claro que nem todo mundo vai (ou quer) escalar um vulcão ativo. Pucón tem alternativas para todos os níveis de disposição. O Parque Nacional Huerquehue, a cerca de 35 km do centro, oferece trilhas por florestas de araucárias centenárias, lagos de altitude e mirantes de tirar o fôlego. A trilha mais famosa do parque, chamada Los Lagos, passa por três lagos de origem glacial em cerca de quatro horas de caminhada. A floresta é densa, úmida, cheia de musgos e fungos coloridos. Um espetáculo à parte.
Outro passeio que merece menção é o Lago Caburgua, a 25 km de Pucón. As águas são de um azul quase irreal, com temperatura mais amena do que os lagos glaciais da região. Tem praias de areia vulcânica, cachoeiras próximas e os famosos Ojos del Caburgua, duas nascentes que brotam do meio da mata com uma força impressionante.
E não dá para falar de Pucón sem mencionar as termas. A região tem dezenas de fontes termais naturais, que vão desde estruturas rústicas no meio do mato até complexos completos com piscinas, restaurantes e spa. As Termas Geométricas, no Parque Nacional Villarrica, são talvez as mais famosas. São 17 piscinas de água quente conectadas por passarelas de madeira vermelha que serpenteiam por uma quebrada coberta de vegetação exuberante. A água vem do subsolo a temperaturas que chegam a 85°C e é resfriada naturalmente ao longo do percurso. No inverno, com neve ao redor e o vapor subindo das piscinas, a experiência beira o surreal. Já as Termas Los Pozones, mais simples e menos badaladas, têm seis piscinas escavadas na rocha às margens do Rio Liucura, e são frequentadas principalmente por chilenos.
Pucón é uma cidade que funciona bem o ano inteiro. No verão (dezembro a março), as temperaturas ficam entre 15°C e 28°C, e o lago enche de banhistas e praticantes de esportes náuticos. No inverno (junho a setembro), a neve cobre o topo do vulcão e a estação de esqui do Villarrica entra em operação. É uma estação pequena, com cinco lifts e pistas mais curtas, mas a experiência de esquiar olhando para o lago lá embaixo é única.
O acesso a Pucón se faz pelo Aeroporto La Araucanía, em Temuco (ZCO), que fica a 85 km de distância. Tem voos diretos de Santiago operados por Latam, Sky e JetSMART. De Temuco, o trajeto até Pucón leva cerca de uma hora e meia de carro ou ônibus.
Valdivia: rios, fortes coloniais e leões-marinhos urbanos
Valdivia tem uma vibe completamente diferente. Enquanto Pucón é adrenalina e montanha, Valdivia é cidade universitária, cervejeira e molhada. Chove bastante por ali. A média anual passa de 1.800 mm, e a umidade é presença constante. Mas a chuva, em vez de atrapalhar, contribui para a atmosfera: a cidade fica verde o ano todo, os jardins são exuberantes e a luz filtrada pelas nuvens baixas cria um clima quase cinematográfico.
Capital da Região de Los Ríos, Valdivia foi fundada em 1552 por Pedro de Valdivia, o conquistador espanhol que dá nome à cidade. Foi um dos primeiros assentamentos espanhóis no atual território chileno. No século XVII, a Coroa Espanhola construiu um sistema de fortes para proteger a cidade de ataques de piratas e corsários, principalmente holandeses. Esses fortes, localizados em Niebla, Corral e Mancera, ainda estão de pé e podem ser visitados.
O mais impressionante é o Forte de Niebla, situado na desembocadura do Rio Valdivia, a 18 km do centro. A construção original data de 1671. Hoje funciona como museu, com canhões da época, passagens subterrâneas e uma vista que domina toda a baía. Dali de cima, olhando o Pacífico se abrir no horizonte, é fácil imaginar os soldados espanhóis vigiando o mar em busca de velas inimigas.
Mas Valdivia não é só história colonial. A cidade tem um dos cenários urbanos mais interessantes do sul chileno. A Costanera, que margeia o Rio Calle-Calle, é o ponto de encontro da população local. Tem ciclovia, bancos, food trucks e uma feirinha de artesanato aos fins de semana. O que chama mais atenção, no entanto, são os leões-marinhos que frequentam o Mercado Fluvial. Eles chegam pertinho da margem, atraídos pelos restos de peixe que os pescadores descartam. Dá para ficar horas observando esses bichos enormes disputando espaço com as gaivotas, enquanto o cheiro de peixe fresco e a gritaria dos comerciantes compõem a trilha sonora do lugar.
O Mercado Fluvial em si já é um passeio. O prédio é uma construção de 1939, em estilo modernista, com uma cúpula central que chama atenção. Lá dentro, dezenas de bancas vendem pescados frescos, mariscos, queijos artesanais, embutidos e conservas. Vale a pena comprar salmão defumado, que é excelente e tem preço honesto.
Do outro lado do rio fica a Isla Teja, acessível pela Ponte Pedro de Valdivia. A ilha concentra o campus da Universidad Austral de Chile, uma das mais prestigiadas do país, e abriga atrações como o Jardim Botânico e o Museu de Arte Contemporânea (MAC). O jardim botânico tem mais de 900 espécies de plantas, incluindo exemplares da selva valdiviana, um ecossistema raro de floresta temperada úmida que só existe nessa região do mundo. O MAC, por sua vez, funciona nas ruínas da antiga Cervejaria Anwandter, destruída pelo terremoto de 1960.
Aliás, o terremoto de 1960 merece um parágrafo à parte. No dia 22 de maio daquele ano, um sismo de 9,5 graus na escala Richter, o mais forte já registrado na história, sacudiu o sul do Chile. Valdivia foi a cidade mais atingida. O terremoto fez o solo afundar entre 1,5 e 2 metros em várias áreas, alterando permanentemente a geografia local. Bairros inteiros desapareceram sob as águas do rio. Hoje, ao caminhar pela cidade, ainda se percebem marcas daquela tragédia em alguns prédios e na memória dos moradores mais antigos.
Valdivia também respira cerveja. A tradição cervejeira vem dos imigrantes alemães que chegaram à região no século XIX, e a cidade é considerada a capital da cerveja artesanal chilena. A Kunstmann, fundada em 1997 por Armin Kunstmann, descendente de alemães, é a mais conhecida e tem uma fábrica-restaurante enorme na saída da cidade, com visita guiada e degustação. Mas há dezenas de pequenas cervejarias locais, como a Cervecería Valdiviana, que também valem a visita.
O acesso a Valdivia se faz pelo Aeródromo Pichoy (ZAL), a 32 km do centro, com voos diretos de Santiago. Também é possível chegar de ônibus, numa viagem de aproximadamente 10 horas desde a capital.
Puerto Varas: vulcão Osorno, arquitetura alemã e o lago que abraça a cidade
Puerto Varas está para o Chile assim como Bariloche está para a Argentina. Não pela paisagem, que é diferente, mas pelo papel que ocupa no imaginário turístico. É a cidade mais charmosa da Região dos Lagos, com aproximadamente 38 mil habitantes, casas de madeira em estilo enxaimel, ruas floridas e uma vista que parece montada: o Lago Llanquihue em primeiro plano, com o Vulcão Osorno ao fundo, simétrico como um desenho de criança.
O Lago Llanquihue é o segundo maior do Chile, com 887 km² de superfície. Suas águas são de um azul profundo, frias o ano todo, e o visual muda completamente conforme a luz e o vento. Nos dias calmos, o lago vira um espelho que reflete o Osorno e o Calbuco, outro vulcão que também compõe o horizonte. Nos dias de vento, as ondas batem com força na costanera e o cenário ganha um ar dramático.
A Costanera de Puerto Varas é uma das orlas mais bem cuidadas do sul chileno. Tem calçadão, ciclovia, gramados, esculturas e bancos estrategicamente posicionados para admirar o lago. No fim da tarde, quando o sol baixa atrás dos vulcões e pinta o céu de tons alaranjados e rosados, a costanera se enche de fotógrafos amadores, casais e famílias. É um ritual diário.
O centro da cidade é compacto e muito agradável para caminhar. A Igreja do Sagrado Coração de Jesus, construída em 1918 em madeira de alerce, é o símbolo arquitetônico de Puerto Varas. Inspirada nas igrejas da região alemã da Baviera, tem um campanário que se destaca na paisagem. Nas ruas ao redor, casinhas de tejuelas (pequenas placas de madeira sobrepostas, técnica trazida de Chiloé) abrigam cafeterias, chocolaterias, restaurantes e lojas de artesanato.
A herança alemã está em toda parte. Nos letreiros das lojas, nos nomes das ruas, nos pratos dos restaurantes. O kuchen (torta de frutas de origem alemã) é quase uma instituição local. As cafeterias da cidade disputam quem faz o melhor, e a verdade é que é difícil encontrar um ruim. A Café Haussmann e a Café Danés são referências, mas vale entrar em qualquer portinha que pareça acolhedora.
Saindo do centro, o passeio mais procurado é o Parque Nacional Vicente Pérez Rosales, o mais antigo do Chile, criado em 1926. Fica a cerca de 60 km de Puerto Varas e abriga os Saltos del Petrohué, uma sequência de quedas d’água sobre rochas vulcânicas esculpidas pela lava do Osorno. A água é absurdamente azul, quase turquesa, e o contraste com o preto da rocha vulcânica e o verde da vegetação é hipnotizante. Tem passarelas e mirantes bem estruturados, e a visita ocupa entre uma e duas horas.
Dentro do mesmo parque está o Lago Todos Los Santos, um lago de origem glacial de águas cristalinas cercado por montanhas cobertas de vegetação nativa. Dali parte a Travessia Internacional dos Lagos Andinos, um percurso que conecta Puerto Varas a Bariloche, na Argentina, combinando navegações e trechos de estrada. A travessia completa leva cerca de 12 horas e passa por paisagens que deixam qualquer um sem palavras.
O Vulcão Osorno também merece uma visita demorada. Com 2.652 metros de altitude, ele tem um cone quase perfeito que lembra o Monte Fuji. No verão, é possível subir até o cume numa caminhada que exige bom preparo físico. No inverno, o centro de esqui na encosta do vulcão oferece pistas com vista para o Lago Llanquihue. Mesmo quem não esquia pode subir de teleférico só para apreciar o visual.
Puerto Varas fica a 20 km de Puerto Montt, cidade que tem o aeroporto mais próximo (El Tepual, PMC), com voos diretos de Santiago. Muita gente usa Puerto Varas como base para explorar a região e faz bate-volta para Puerto Montt só para pegar voos ou ônibus.
Puerto Natales: o portal para Torres del Paine
Puerto Natales é onde o sul do Chile começa a ficar sério. A cidade está na região de Magallanes, às margens do Seno Última Esperanza, um fiorde de águas calmas e frias que se conecta ao Pacífico através de um labirinto de canais e ilhas. A paisagem aqui já é patagônica por definição: montanhas recortadas, céu imenso, vegetação rasteira e aquele vento constante que parece vir de todas as direções ao mesmo tempo.
Com cerca de 20 mil habitantes, Puerto Natales é uma cidade funcional, de ruas retas e casas baixas, que vive em função do turismo. Não tem o charme arquitetônico de Puerto Varas nem a agitação de Pucón. Mas tem algo que nenhuma das outras oferece: é a base de acesso ao Parque Nacional Torres del Paine, um dos destinos de natureza mais espetaculares do planeta.
Torres del Paine fica a 112 km de Puerto Natales. O parque tem 227 mil hectares de área protegida, declarados Reserva da Biosfera pela UNESCO em 1978. Dentro dele estão as famosas torres de granito que dão nome ao lugar, além de lagos de um azul leitoso alimentados por glaciares, rios caudalosos, campos de gelo e uma fauna que inclui guanacos, raposas, condores e, com sorte, pumas.
Existem várias maneiras de conhecer o parque. O full day é a opção mais comum para quem tem pouco tempo: um passeio de aproximadamente 12 horas que percorre os principais mirantes, como o Lago Pehoé, o Salto Grande e o Lago Grey. O ingresso para estrangeiros custa em torno de 35 a 45 dólares, dependendo da temporada. Já o Circuito W, uma das trilhas mais famosas do mundo, exige de 4 a 5 dias de caminhada e passa pelos pontos mais emblemáticos do parque: a Base das Torres, o Vale Francés e o Glaciar Grey. O Circuito O, ainda mais desafiador, completa a volta inteira pelo maciço Paine em 7 a 9 dias.
Mas Puerto Natales não é só uma sala de espera para Torres del Paine. A cidade tem passeios que merecem atenção por si mesmos. O Cerro Dorotea, a apenas 5 km do centro, oferece uma trilha de dificuldade moderada que leva a um mirante com vista panorâmica do fiorde e da cidade. A subida leva cerca de 1h30, e o visual no topo é de tirar o fôlego, especialmente no fim da tarde.
A Cueva del Milodón, a 24 km de Puerto Natales, é uma caverna natural gigantesca onde, em 1896, foram encontrados restos de um milodonte, uma espécie de preguiça gigante que habitou a região há mais de 10 mil anos. O achado gerou comoção científica na época e até hoje intriga os visitantes. A caverna em si impressiona pelo tamanho: são 30 metros de altura, 80 de largura e 200 de profundidade.
A gastronomia local gira em torno do cordeiro patagônico, preparado lentamente em fogo de chão ou em parrillas, e da centolla, um caranguejo gigante de águas frias que é uma iguaria da região. Restaurantes como o Santorini e a La Picá de Carlitos são boas pedidas para provar os sabores locais.
Puerto Natales tem um aeródromo próprio, o Teniente Julio Gallardo (PNT), com voos sazonais desde Santiago. Mas a maioria dos viajantes chega pelo Aeroporto de Punta Arenas (PUQ) e faz o trajeto de ônibus, que leva cerca de 3 horas. A melhor época para visitar é entre outubro e abril, quando os dias são mais longos e as temperaturas, embora ainda frias, são mais amenas.
Punta Arenas: a cidade no fim do mundo
Punta Arenas é a capital da região de Magallanes e a cidade mais populosa da Patagônia chilena, com mais de 150 mil habitantes. Fica na Península de Brunswick, de frente para o Estreito de Magalhães, aquele mesmo que o navegador português Fernão de Magalhães atravessou em 1520 na primeira circum-navegação do globo. A cidade respira essa história. Está nos nomes das ruas, nos monumentos, nos museus e no ar.
Ao contrário de Puerto Natales, que é mais rústica e funcional, Punta Arenas tem uma cara mais urbana e cosmopolita. O centro histórico é repleto de palacetes construídos no final do século XIX e início do XX, quando a cidade vivia o auge da economia da lã de ovelha. Famílias de imigrantes europeus, principalmente croatas, espanhóis e britânicos, enriqueceram com a criação de ovinos e ergueram mansões que até hoje impressionam.
A Plaza Muñoz Gamero, a praça central, é o melhor ponto de partida para explorar a cidade. No centro dela está o monumento a Fernão de Magalhães, com uma estátua do navegador e, aos pés, duas figuras que representam os povos originários da região. Uma delas, a do indígena, tem o pé polido e brilhante de tanto que os visitantes o tocam. Reza a lenda que quem beija ou toca esse pé volta a Punta Arenas um dia.
Ao redor da praça estão alguns dos prédios mais emblemáticos da cidade. O Palacete Sara Braun, hoje sede do Clube Militar, foi construído em 1895 para a viúva de José Nogueira, um dos barões da lã. Sara Braun foi uma figura controversa e poderosa, que controlou grande parte da economia regional no início do século XX. O palacete tem mobiliário europeu importado, afrescos nos tetos e um jardim de inverno que impressiona.
O Museu Regional de Magallanes, instalado em outro palacete histórico, conta a história da região desde os povos originários até a era das grandes estâncias ovinas. Vale a visita para entender o contexto que moldou Punta Arenas. Mas o museu mais inusitado da cidade é o Museu Naval e Marítimo, que tem como peça central o submarino O’Brien, da Marinha chilena, aposentado e aberto à visitação. Entrar num submarino de verdade é uma experiência que agrada de crianças a adultos.
O passeio mais marcante de Punta Arenas, no entanto, está fora da cidade: a Isla Magdalena, a 37 km de navegação pelo Estreito de Magalhães. A ilha abriga a maior colônia de pinguins-de-Magalhães da Patagônia continental, com cerca de 120 mil exemplares durante a temporada reprodutiva, entre outubro e março. O desembarque é feito por um catamarã, e os visitantes podem caminhar por trilhas demarcadas entre os pinguins. Os bichos não se intimidam com a presença humana. Passam ao lado, cruzam a trilha, observam os visitantes com a mesma curiosidade com que são observados. É uma experiência de imersão total. Fora da temporada, o passeio não opera, então é preciso planejar a viagem com atenção.
Outro ponto que merece destaque é a Zona Franca de Punta Arenas, um enorme complexo de lojas com isenção de impostos. Para quem quer comprar eletrônicos, perfumes, roupas de marca ou equipamentos outdoor, a Zona Franca costuma ter preços competitivos. Mas o destaque vai para o Mercado Municipal, bem mais modesto, onde se encontram produtos locais como lã de alpaca, artesanato, doces regionais e, claro, centolla fresca.
O Cemitério Municipal de Punta Arenas é outro ponto que surpreende. Com seus mausoléus de mármore, ciprestes podados e avenidas internas arborizadas, parece mais um parque do que um cemitério. Os túmulos das famílias mais abastadas competem em grandiosidade, e há esculturas de anjos e cruzes que são verdadeiras obras de arte. O cemitério foi declarado Monumento Nacional em 2012.
A cidade também funciona como porta de entrada para outros destinos da região. De Punta Arenas partem expedições para a Terra do Fogo, atravessando o Estreito de Magalhães de balsa até Porvenir. E de lá para a Ilha Navarino e Puerto Williams, a cidade mais austral do mundo, o passo é curto, embora logisticamente complexo.
O Aeroporto Internacional Presidente Carlos Ibáñez del Campo (PUQ) fica a 20 km do centro e recebe voos diretos de Santiago (aproximadamente 4 horas de voo). Também há voos para Puerto Montt e conexões para a Antártica, já que Punta Arenas é um dos principais pontos de partida para expedições ao continente gelado.
Como conectar essas cinco cidades em uma viagem só
Quem tem tempo e disposição consegue visitar todas essas cidades numa mesma viagem, mas é preciso planejamento. As distâncias no sul do Chile são longas, e o deslocamento consome horas preciosas. Abaixo, um resumo realista das conexões:
| Trecho | Distância | Tempo de ônibus/carro | Alternativa aérea |
|---|---|---|---|
| Pucón a Valdivia | 170 km | 2h30 | Não há voo direto |
| Valdivia a Puerto Varas | 210 km | 3h | Não há voo direto |
| Puerto Varas a Puerto Natales | 2.000 km | 30h (não recomendável) | Voo Puerto Montt a Punta Arenas (2h) + ônibus a Puerto Natales (3h) |
| Puerto Natales a Punta Arenas | 250 km | 3h | Não há voo direto |
O pulo mais complicado é entre Puerto Varas e Puerto Natales. A distância é enorme, equivalente a ir de São Paulo a Fortaleza. O mais sensato é voar de Puerto Montt a Punta Arenas e depois seguir de ônibus para Puerto Natales. As companhias Latam, Sky e JetSMART operam essa rota, e os preços variam bastante conforme a antecedência da compra.
Para quem tem entre 15 e 20 dias, um roteiro possível seria: chegar por Santiago, voar para Temuco e fazer Pucón (3 a 4 dias), seguir de ônibus para Valdivia (2 a 3 dias), depois para Puerto Varas (3 a 4 dias), voar de Puerto Montt para Punta Arenas, fazer Puerto Natales e Torres del Paine (4 a 5 dias) e finalizar em Punta Arenas (2 a 3 dias).
O que levar: clima, roupas e preparação
O sul do Chile ensina uma lição rápida: o clima muda sem avisar. Em Pucón e Puerto Varas, mesmo no verão, as noites são frias e a chuva pode aparecer de repente. Em Puerto Natales e Punta Arenas, o vento é companheiro constante, e a sensação térmica costuma ficar bem abaixo da temperatura real.
Alguns itens que fazem diferença prática:
- Jaqueta impermeável com capuz: essencial em todas as estações. O vento patagônico atravessa qualquer blusa fina.
- Camadas térmicas: a lógica de vestir em camadas (segunda pele, fleece, jaqueta) funciona perfeitamente ali.
- Calçado impermeável: para trilhas e cidades. Pés molhados arruínam qualquer passeio.
- Protetor solar e óculos escuros: a incidência de raios UV no sul do Chile é alta, especialmente perto de glaciares e neve.
- Mochila pequena para passeios: leve, com espaço para água, lanche e uma capa de chuva extra.
Na Patagônia, a regra de ouro é: prepare-se para quatro estações no mesmo dia. Já vi neve em pleno verão em Puerto Natales. Já tomei sol de mangas curtas em Punta Arenas num dia em que a previsão indicava 3°C. O clima patagônico é imprevisível por natureza, e a melhor estratégia é estar pronto para o que vier.
Moeda, custos e planejamento financeiro
O Chile não é um destino barato, e o sul do país tende a ser ainda mais caro que Santiago, especialmente na região de Magallanes. Os custos de transporte encarecem tudo: a gasolina é cara, as distâncias são longas e muitos produtos chegam de longe.
Em 2025, uma refeição simples em restaurante sai entre 8.000 e 15.000 pesos chilenos (CLP). Um prato mais elaborado com cordeiro patagônico ou centolla pode chegar a 25.000 CLP. Hospedagens variam muito: hostels e guesthouses cobram entre 25.000 e 50.000 CLP por noite, enquanto hotéis confortáveis ficam entre 80.000 e 150.000 CLP. Em Torres del Paine, os preços disparam: os refúgios dentro do parque cobram de 100.000 a 200.000 CLP por noite, e os hotéis de categoria superior passam fácil dos 400.000 CLP.
O câmbio é um fator a considerar. Levar pesos chilenos em espécie é útil para compras pequenas, mas cartões de crédito e débito são amplamente aceitos. Pagar em real com cartão internacional costuma ser mais vantajoso do que trocar dinheiro em casas de câmbio com taxas desfavoráveis.
O sul do Chile é desses destinos que depois de visitados deixam uma marca permanente. Cada uma dessas cinco cidades entrega algo diferente. Pucón é energia, aventura e a visão hipnotizante de um vulcão ativo no horizonte. Valdivia é calma, história, cerveja artesanal e o charme de uma cidade que convive de perto com seus rios e sua chuva. Puerto Varas é elegância discreta, com paisagens de cartão-postal e a sensação gostosa de estar num lugar que foi feito para ser admirado. Puerto Natales é o ponto de partida para o espetáculo absoluto de Torres del Paine, mas também uma cidade que aprendeu a receber o mundo sem perder sua alma simples. E Punta Arenas, ali no extremo do continente, é história viva, vento no rosto, pinguins e aquela sensação de estar num lugar onde pouca gente chega.
Viajar pelo sul do Chile exige tempo, dinheiro e disposição para lidar com o imprevisível. Mas a recompensa vem em forma de paisagens que não cabem em fotografia, silêncios que valem ouro e a certeza de que, em algum momento da viagem, a natureza chilena vai te deixar sem palavras.
