Destinos de Viagem na Puglia Para Você Explorar

Um roteiro pelos destinos que realmente valem na Puglia: Bari e suas orecchiette feitas na rua, Polignano a Mare sobre a falésia, Monopoli e seu porto tranquilo, Alberobello e os trulli, Locorotondo, Martina Franca, Ostuni a Cidade Branca, Lecce com seu barroco e Gallipoli com o centro antigo numa ilha, mais os cuidados com ZTL e aluguel de carro.

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A Puglia funciona em blocos, não em linha reta

Antes de falar de cada cidade, uma coisa que economiza dias de viagem: a Puglia não se percorre como um corredor. Ela se organiza em quatro ou cinco blocos com personalidades próprias, e a graça está em entender qual bloco combina com o tempo que você tem.

O eixo de Bari e da costa adriática, com Polignano e Monopoli, é o mais acessível e o único que funciona bem de trem. O Vale d’Itria, com Alberobello, Locorotondo, Martina Franca e Ostuni na borda, é compacto e pede carro. O Salento, com Lecce, Gallipoli e Otranto, é outro mundo, mais quente, mais grego, mais festivo. E há o Gargano, no extremo norte, que quase nunca cabe e por isso não entra aqui.

A sequência que vou seguir é geográfica, de norte para sul, porque é assim que a maioria das viagens acontece: você pousa em Bari, desce devagar e termina no Salento.

Bari: a cidade que era para ser evitada e virou destino

Por muitos anos, o conselho padrão sobre Bari era passar direto. Pegue o carro no aeroporto e vá embora. Isso ficou desatualizado, e quem repete perde uma das cidades mais interessantes do sul da Itália.

Bari tem em torno de trezentos mil habitantes, é a capital da região e a maior cidade da Puglia. Ela se divide em duas partes com lógicas opostas.

A Bari Vecchia, a cidade velha, é uma península de becos brancos apertados, sem geometria, onde as portas ficam abertas, as roupas secam na janela e a vida acontece na rua. Não é cenário. É um bairro habitado, e essa é justamente a razão de ir.

O ponto mais importante ali é a Basílica de San Nicola, construída a partir de 1087 para abrigar as relíquias de São Nicolau, trazidas de Myra por marinheiros bareses. Isso faz de Bari um destino de peregrinação também para cristãos ortodoxos, e é comum ver russos, gregos e ucranianos rezando na cripta. A arquitetura é românica pugliesa, austera, de pedra clara, e o interior é mais impressionante pela sobriedade do que por ornamento.

A poucos passos está a Catedral de San Sabino, do século 12, também românica, e ao lado o Castello Svevo, castelo normando-suevo reconstruído por Frederico II no século 13. Frederico II é um nome que aparece muitas vezes na Puglia, e vale saber quem foi: imperador do Sacro Império, criado na Sicília, culto, poliglota, chamado de stupor mundi, e responsável por uma rede de castelos espalhada pela região.

O que mais gente lembra de Bari, no entanto, não é igreja. É a Strada delle Orecchiette, na zona do Arco Basso, onde senhoras fazem a massa à mão na porta de casa, apertando cada pedacinho com o polegar contra a tábua. Elas vendem em saquinhos, conversam, discutem entre si, e o barulho da rua é parte do espetáculo. É uma das cenas mais autênticas da Itália e não custa nada assistir.

Para comer em Bari: focaccia barese, com tomate e azeitona, comprada num forno de bairro e comida em pé. Panzerotto, o pastel frito de tomate e mozzarella. Riso patate e cozze, o gratinado de arroz, batata e mexilhão que é o prato mais barese que existe. E crudo di mare, peixe e frutos do mar crus, tradição antiga do porto, que se come nos quiosques da beira-mar com sal e limão.

No fim da tarde, o Lungomare Nazario Sauro, a avenida de mar, enche de gente caminhando, e a Piazza del Ferrarese e a Piazza Mercantile ficam ocupadas por mesas até tarde. É quando a cidade mostra o melhor de si.

Como se mover em Bari: a pé. A cidade velha não tem onde estacionar e é área de tráfego restrito. Deixe o carro fora, ou melhor ainda, não tenha carro nos dias de Bari. E, como em qualquer cidade grande, atenção com bolsa e celular em rua movimentada, e nada visível dentro do carro.

Polignano a Mare: a foto que todo mundo conhece e a cidade que quase ninguém vê

Polignano fica uns 35 quilômetros ao sul de Bari, ligada por trem em cerca de meia hora, e é uma das imagens mais reproduzidas da Itália.

O motivo é a Lama Monachile, também chamada de Cala Porto, uma enseada estreita de pedras encaixada entre duas paredes de calcário, com uma ponte de origem romana passando por cima e as casas brancas equilibradas na borda da falésia. Ver aquilo pela primeira vez é impressionante mesmo depois de ter visto mil fotos.

O erro clássico é chegar, tirar a foto e ir embora em quarenta minutos. Polignano tem mais.

O centro histórico é pequeno mas gostoso de andar, com arcos, becos e vários mirantes debruçados sobre o mar, sendo o mais bonito o terraço perto da igreja matriz. Nos degraus e nas paredes de algumas ruas há versos escritos, projeto de um poeta local, e ler aquilo caminhando é um programa em si.

Polignano também é a cidade natal de Domenico Modugno, autor e intérprete de Nel blu dipinto di blu, a canção que o mundo conhece como Volare. Existe uma estátua dele de braços abertos na beira do mar, e ela é o segundo ponto mais fotografado da cidade.

Duas advertências práticas sobre a Lama Monachile. Primeira: a praia é de pedra, não de areia, e a entrada no mar é desconfortável sem sapatilha de borracha. Isso vale para quase todo o litoral adriático da Puglia. Segunda: a enseada é minúscula, e em julho e agosto ao meio-dia ela fica intransitável. Vá antes das nove da manhã ou depois das dezessete.

E ali, na falésia, funciona o restaurante Grotta Palazzese, dentro de uma caverna marinha natural. É extremamente caro, opera em temporada e exige reserva pelo site. Uma aquarela de 1783 já mostra gente jantando nessa mesma gruta, o que dá a dimensão de quanto tempo aquilo é usado assim.

Se sobrar tempo, vale saber que Polignano é boa também para uma coisa simples: sentar num bar e tomar o caffè speciale, uma preparação local de café com licor, casca de limão e creme, servida em copo. É bem melhor do que a descrição sugere.

Monopoli: a cidade que resolve o problema de onde dormir

Monopoli fica uns quinze minutos ao sul de Polignano e é frequentemente descrita como subestimada. É verdade, e por um motivo simples: ela não tem uma foto famosa.

O que ela tem é uma cidade real, de tamanho confortável, com centro histórico branco, muralha voltada para o mar, e um porto antigo com barcos de pesca de casco azul e vermelho encostados na parede da cidade. É uma das cenas mais bonitas da costa adriática e ela é gratuita, tranquila e nunca lotada como Polignano.

O centro tem a Basílica da Madonna della Madia, do século 18, com fachada barroca e uma história local encantadora: a lenda diz que a viga que faltava para terminar a construção da catedral medieval chegou flutuando numa jangada, junto com um ícone da Virgem, e por isso a igreja e a festa da cidade têm esse nome. A festa acontece em dezembro e em agosto, e é uma das mais participadas da região.

Há também o Castelo de Carlos V, do século 16, na ponta da muralha, e uma sequência de praças que enchem no fim da tarde.

Perto de Monopoli, na direção do interior, existem as igrejas rupestres e as grutas ao longo da costa, e para o sul começa a área de Savelletri di Fasano, que concentra as masserias de luxo da Puglia e o Parque Arqueológico de Egnazia, sítio de cidade messápica, grega e romana, com museu e ruínas à beira do mar, quase sempre vazio.

Por que Monopoli funciona como base: fica a vinte minutos de Polignano, vinte e cinco de Ostuni, meia hora de Alberobello, quarenta minutos de Bari, tem estação de trem, tem restaurantes bons o ano inteiro e tem vida própria à noite, o que as vilas do interior não têm. Se você quer uma base única para a metade norte da viagem, ela é uma escolha melhor que Alberobello.

Alberobello: espetacular, e melhor fora do horário comercial

Alberobello é o lugar mais fotografado da Puglia e é patrimônio da UNESCO desde 1996.

O que se vê ali são os trulli, construções cônicas de pedra calcária empilhada a seco, sem argamassa, com telhado em forma de cone e pináculo no alto. Alberobello concentra mais de mil e quinhentos deles, distribuídos em dois bairros: o Rione Monti, o maior e mais turístico, e o Aia Piccola, menor, mais residencial e bem mais silencioso.

A explicação histórica é boa. A técnica de pedra seca é antiga na região, mas a proliferação em Alberobello tem uma teoria muito citada: construir sem argamassa permitia desmontar rapidamente a casa. E desmontar rápido era útil porque, sob o domínio do Reino de Nápoles, uma povoação estável gerava tributo. Trulli podiam ser derrubados antes da chegada do inspetor do rei. A cidade só recebeu status próprio em 1797, por concessão de Fernando IV.

Nos telhados de vários trulli há símbolos pintados com cal, cruzes, corações, sinais astrológicos e figuras que combinam devoção cristã com superstição rural.

O ponto onde a experiência costuma decepcionar: a rua principal do Rione Monti virou uma sequência de lojas de souvenir, e entre as dez e as dezessete, no verão, o fluxo de excursões é grande. Não dá para caminhar tranquilo.

A solução é simples. Vá antes das nove da manhã ou depois das dezoito. A cidade fica quase vazia, a luz é infinitamente melhor, os comerciantes ainda não abriram e você tem a sensação que a foto promete. Duas ou três horas resolvem Alberobello inteira. Reservar duas noites ali para ver o centro é desperdício.

Um trullo vale como hospedagem, isso sim. Mas escolha um no campo em volta, não no meio do centro turístico.

Vale subir ao mirante de Belvedere Santa Lucia, que dá a vista do mar de cones, e entrar na Chiesa di Sant’Antonio, uma igreja construída em forma de trullo, e no Trullo Sovrano, o único de dois andares, hoje museu.

Locorotondo: talvez a vila mais bonita da região

A quinze minutos de Alberobello, Locorotondo é o contraponto exato: o mesmo branco, sem o turismo.

O nome vem de locus rotundus, lugar redondo, porque o centro histórico foi construído em círculos concêntricos sobre uma pequena colina. Isso é visível no mapa e sensível no chão: você anda em curva e sempre volta a algum lugar conhecido.

O que faz Locorotondo especial é o cuidado. As casas são caiadas de branco, as janelas e sacadas estão cobertas de plantas e flores, e as ruas de pedra clara são limpas de um jeito quase irreal. A vila integra a lista dos Borghi più belli d’Italia, os vilarejos mais bonitos da Itália, e por uma vez o título é justo.

As casas locais têm um telhado próprio, chamado cummerse, de duas águas muito inclinadas com lajes de pedra, que é diferente do trullo e específico dali.

Locorotondo é também uma denominação de vinho, o Locorotondo DOC, um branco fresco feito principalmente com as uvas verdeca e bianco d’Alessano. É o vinho ideal para o calor do Vale d’Itria e para peixe, e vale beber ali mesmo, numa mesa de rua, olhando o vale.

Do mirante da vila se vê o Vale d’Itria todo, coberto de olival, muros de pedra seca e trulli isolados. É um dos panoramas mais bonitos da Itália rural, e ao pôr do sol fica melhor ainda.

Martina Franca: barroco onde ninguém espera

Martina Franca é maior do que se imagina e mais imponente. É a surpresa de muita gente no Vale d’Itria.

O centro histórico é barroco, com palácios, balcões trabalhados e a Basílica de San Martino, do século 18, com uma fachada exuberante que não faria feio em cidade grande. Entrar pela Porta di Santo Stefano, o arco que marca a entrada da cidade velha, e chegar à Piazza Roma com o Palazzo Ducale é um momento bonito.

A cidade tem vida própria, comércio real e restaurantes que funcionam o ano inteiro, o que a torna uma base de inverno melhor que as vilas menores.

Duas coisas locais valem menção. A primeira é o capocollo di Martina Franca, embutido curado feito com a parte alta do lombo do porco, defumado com casca de amêndoa e madeira do Mediterrâneo e maturado com vinho cozido. É produto tradicional reconhecido e é diferente de qualquer capocollo que você já comeu.

A segunda é o Festival della Valle d’Itria, festival de música lírica que acontece em Martina Franca desde 1975, tipicamente entre julho e agosto, com apresentações no pátio do Palazzo Ducale. Se a sua viagem cai nessas datas, é uma noite que não se esquece.

Perto dali, duas paradas que completam o dia. Cisternino, vila pequena e caiada, famosa pelas fornello pronto, açougues que grelham a carne na hora e servem ali mesmo, com pão e vinho da casa. É informal, barato e uma das melhores refeições da região. E Ceglie Messapica, cidade de fama gastronômica séria e quase nenhum turista estrangeiro.

Ostuni: a Cidade Branca vista de longe e de perto

Ostuni é aquela imagem de um bloco branco inteiro empilhado no alto de uma colina, cercado de olival, com o mar Adriático ao fundo a poucos quilômetros. A primeira visão, chegando pela estrada, é uma das mais fortes da viagem.

O branco é a cal, aplicada tradicionalmente ano após ano nas casas. A prática tem origem prática e não estética: a cal é barata, reflete o calor e tem propriedades desinfetantes, o que importava em época de epidemia.

O centro histórico é um labirinto de becos, arcos, escadas e passagens cobertas subindo até a Concattedrale di Ostuni, do fim do século 15, que tem uma característica marcante: uma rosácea enorme com doze raios, e um frontão em curva que mistura gótico tardio com influência local. É diferente de qualquer catedral italiana que você tenha visto.

Ostuni é uma cidade para andar sem mapa, virando esquinas, encontrando pátios e restaurantes escondidos. À noite, iluminada, ela fica ainda melhor, e o passeio pelas ruas depois do jantar é o ponto alto.

Dois problemas práticos em Ostuni, e eles pegam muita gente.

O primeiro: a estação de trem fica na parte baixa, a cerca de dois e meio a três quilômetros do centro, e o trajeto é ladeira. Chegar de trem com mala grande imaginando uma caminhada curta é frustração garantida. Há ônibus urbano entre estação e centro, com frequência boa no verão e ruim no inverno, e táxi resolve, mas convém anotar o contato de um serviço local antes.

O segundo: o centro histórico é zona de tráfego restrito, com ruas estreitas e escadas. Se você reservou hospedagem no coração da cidade velha e vem de carro, prepare-se para estacionar longe e subir a pé com bagagem.

A costa de Ostuni, chamada de Marina di Ostuni, fica a uns oito quilômetros e tem praias de areia e a reserva natural de Torre Guaceto, que é uma área protegida com mar bonito e bem menos gente que as praias famosas do Salento.

Lecce: a Florença do Sul, e o apelido é justo

Lecce é o destaque do Salento e uma das cidades mais impressionantes da Itália, e ela funciona por uma razão geológica.

A pedra local, a pietra leccese, é um calcário macio, dourado, fácil de esculpir quando recém-extraído e que endurece com o tempo ao contato com o ar. Isso permitiu que, nos séculos 17 e 18, os escultores locais fizessem o que quisessem nas fachadas. Nasceu daí o barroco leccese, um estilo próprio, obsessivo em detalhe, cheio de folhagem, animais, figuras e volutas.

O ponto mais alto é a Basílica de Santa Croce, cuja fachada foi trabalhada ao longo de décadas até a segunda metade do século 17, com um rosetão central cercado de figuras e uma balaustrada de criaturas sustentando a estrutura. É o tipo de fachada que exige ficar sentado na frente olhando por vinte minutos. Passar rápido é desperdício.

A Piazza del Duomo é uma das poucas praças italianas fechada em três lados, com uma única entrada monumental. O efeito é de pátio privado, e à noite, iluminada, é um dos espaços urbanos mais bonitos do país. Ali estão a catedral, o campanário alto e o Palazzo del Seminario.

Na Piazza Sant’Oronzo, no meio da cidade moderna, está o anfiteatro romano do século 2, parcialmente escavado e visível no nível da rua, com a coluna de Sant’Oronzo ao lado. É uma sobreposição de camadas históricas bem visível: romano no chão, barroco em volta, gente tomando spritz nas mesas.

Vale também o Castelo de Carlos V, o Teatro Romano e a igreja de Santa Chiara.

Quanto tempo Lecce pede: um dia e meio, no mínimo. Meio dia não dá. E o melhor da cidade é andar sem destino, olhando para cima.

Por que Lecce é a melhor base do Salento: dali saem trem e ônibus para Otranto, Gallipoli e, no verão, para as praias. A cidade tem restaurantes, bares e vida noturna o ano inteiro, o que as cidades de praia não têm fora da temporada. E é o único lugar do Salento onde um dia de chuva não estraga o programa.

Para comer em Lecce: ciceri e tria, a massa em que parte é cozida e parte é frita, servida com grão-de-bico. Pittule, bolinhos fritos de massa. Pezzetti di cavallo, pedacinhos de carne de cavalo no molho de tomate, tradição forte da cidade. Puccia, o pão redondo recheado. E, no café da manhã, o pasticciotto, massa amanteigada com creme de confeiteiro, quente, do forno. Comer isso às oito da manhã numa mesa de calçada explica o Salento.

Para beber, o caffè leccese, espresso com gelo e leite de amêndoa, é a bebida local nos dias quentes. E o vinho da zona é o Negroamaro, incluindo os rosados, que são excelentes, e o Primitivo di Manduria, mais potente.

Gallipoli: cidade velha numa ilha, e um verão bem barulhento

Gallipoli fica no litoral jônico do Salento, e a primeira coisa a entender é a geografia: a cidade tem uma parte nova no continente e a cidade velha construída numa ilha, ligada por uma ponte.

Isso muda tudo. A cidade antiga é cercada de água por todos os lados, com muralha, ruelas brancas, igrejas barrocas escondidas, casas de pescador e um mar que aparece no fim de cada beco. O nome vem do grego kalé polis, cidade bonita, e a presença grega na região é antiga e real.

Na ilha estão a Concattedrale di Sant’Agata, barroca, de pietra leccese, e o Castelo Angevino na entrada da ponte. Há também o mercado de peixe junto ao porto, que funciona de manhã e é ótimo para ver e para comer depois.

O litoral jônico é diferente do adriático de um jeito importante: aqui a areia é fina e clara, o mar é raso, a entrada é suave e a água é de um azul claro que rende as comparações caribenhas. É o lado bom para família com criança pequena.

Perto de Gallipoli estão praias muito conhecidas: Baia Verde, logo ao sul, Punta della Suina, Punta Prosciutto, Torre Lapillo, Porto Cesareo e, mais ao sul, Pescoluse, que ganhou o apelido de Maldivas do Salento.

E aqui vem o aviso. Gallipoli em julho e agosto é destino de festa. Baia Verde concentra clubes grandes e a cidade recebe muito público jovem italiano. Se é isso que você quer, é o lugar certo. Se você quer sossego, escolha Otranto, Santa Maria di Leuca ou uma masseria no interior e vá a Gallipoli só de dia.

Fora da alta temporada, Gallipoli é outra coisa: quieta, ventosa, com pescadores consertando rede e restaurantes vazios. Muito mais bonita, na minha opinião, do que na versão lotada.

O que mais merece entrar, se sobrar tempo

Alguns lugares que ficam fora da lista padrão e que são bons demais para omitir.

Otranto, no lado adriático do Salento, cidade fortificada com muralha, castelo aragonês e uma catedral que guarda o mosaico da Árvore da Vida, executado entre 1163 e 1165, cobrindo o piso inteiro da nave. É uma obra extraordinária e a maioria dos visitantes caminha por cima dela sem olhar para baixo.

Matera, que fica tecnicamente na Basilicata, a cerca de uma hora de Bari. Os Sassi, os bairros escavados na rocha, são patrimônio da UNESCO desde 1993 e a cidade foi Capital Europeia da Cultura em 2019. Estar em Bari e não ir a Matera é um erro de oportunidade.

Trani, ao norte de Bari, com a catedral românica de pedra clara construída praticamente sobre o mar. Recebe uma fração dos visitantes de Alberobello e é uma das igrejas mais bonitas da Itália.

Castel del Monte, o castelo octogonal de Frederico II, do século 13, isolado numa colina, também patrimônio da UNESCO. Precisa de carro.

Grotte di Castellana, quilômetros de galerias subterrâneas com visita guiada em horários fixos, e a Grotta Bianca no fundo do percurso.

A costa entre Otranto e Santa Maria di Leuca, com Santa Cesarea Terme, Castro e a Grotta Zinzulusa. É uma das estradas mais bonitas do sul da Itália.

Os erros de logística que estragam a viagem

Termino com a parte prática, porque na Puglia é ela que decide se a viagem foi boa.

As ZTL. Zona a Traffico Limitato é a área do centro histórico onde só entram carros autorizados. O controle é feito por câmera automática que lê a placa. Não tem cancela, não tem guarda, nada acontece na hora. A multa chega meses depois. E se você alugou carro, a locadora repassa a multa e cobra uma taxa administrativa por informar seus dados, geralmente algo entre trinta e cinquenta euros por ocorrência, além da multa. Três entradas indevidas viram três multas e três taxas. Bari, Lecce, Ostuni, Otranto, Gallipoli, Martina Franca e outras cidades têm ZTL ativa.

Estacione fora e caminhe. Vagas com linha azul são pagas, em parquímetro ou aplicativo. Linha branca é gratuita, quando existe. Linha amarela é proibida, reservada a residentes e serviços. Se o hotel está dentro da ZTL, avise antes da chegada, porque muitas hospedagens registram a placa do hóspede junto à prefeitura e liberam o acesso. Isso precisa ser feito antes, não depois.

Alugue carro pequeno. Um SUV grande é um problema real nas ruas do Vale d’Itria, nas vagas de Ostuni e nas estradas rurais onde os muros de pedra seca ficam encostados na pista. Espelho arranhado em muro é ocorrência frequente. E se você não dirige câmbio manual, reserve automático com muita antecedência, porque a frota é pequena e esgota no verão.

Alugue carro só nos dias em que ele serve. Bari e Lecce se resolvem a pé e de trem, e ter carro nesses dias é pagar aluguel e estacionamento para ficar exposto a multa. Já o Vale d’Itria, as masserias e a costa do Salento fora do verão exigem carro. O arranjo eficiente é trem no eixo urbano e carro por dois ou três dias.

Reserve com antecedência. Isso vale para hospedagem, especialmente entre junho e setembro, e vale para restaurante. Chegar às vinte e uma sem reserva num sábado de agosto em Otranto ou Ostuni significa comer mal ou não comer. Muitos restaurantes pequenos não usam plataforma e atendem por telefone ou pelo Instagram.

Entenda o horário de fechamento. Na Puglia, especialmente nas cidades pequenas, a vida para no meio da tarde. Lojas fecham por volta das treze e trinta e reabrem entre dezesseis e dezessete. Muitas igrejas fecham na hora do almoço. Quem chega numa vila às quatorze horas encontra tudo fechado e conclui que o lugar é sem graça. Você chegou na pausa do almoço.

Escolha bem a época. Agosto é o mês em que os próprios italianos entram de férias, com praias cheias, trânsito pesado, preços triplicados e o Ferragosto, dia 15, como o pico de tudo. Setembro é a melhor escolha: mar ainda quente, cidades esvaziando, preços caindo. Maio e começo de junho têm campo florido e mar mais frio. De novembro a março a região é bonita, barata e vazia, mas boa parte da estrutura de praia e várias masserias fecham, então a viagem tem que ser de cidade, igreja, comida e vinho.

Um roteiro que junta tudo isso sem correr

Para sete ou oito dias, um formato que funciona.

Três noites com base em Monopoli ou Polignano, usando trem para Bari e para a costa, e um dia de carro para Matera ou para Castel del Monte e Trani.

Duas noites no Vale d’Itria, em Locorotondo, Martina Franca ou numa masseria de campo, com carro, cobrindo Alberobello cedo, Cisternino, Ostuni e as grutas.

Três noites em Lecce, com dois dias de carro para Otranto, a costa até Leuca e uma praia do lado jônico, e o resto a pé pela cidade.

Duas atrações por dia é um bom ritmo. Uma de manhã, uma no fim da tarde, e o meio livre para almoço longo, praia ou nada. A Puglia não recompensa quem corre. Ela recompensa quem senta às treze, levanta às quinze e meia e sai de novo às dezessete, quando as cidades acordam e a passeggiata toma as ruas.

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