Como Visitar a Região Vinícola de Kakheti na Geórgia

Guia completo para visitar Kakheti, a região vinícola mais antiga do mundo, com roteiro pelas vinícolas de Telavi, Sighnaghi, Kvareli e os mosteiros milenares que guardam o segredo do vinho em qvevri.

Fonte: Get Your Guide

A Geórgia reivindica algo que nenhum outro país do mundo pode reivindicar com tanta solidez. Aqui se faz vinho há pelo menos 8 mil anos. Não é marketing, é arqueologia. Em 2017 foram encontradas em sítios próximos a Tbilisi cerâmicas com resíduos químicos comprovados de uva fermentada, datadas de 6.000 a.C. Isso transformou oficialmente a Geórgia no berço do vinho como bebida cultural humana. E o coração desse berço é Kakheti, a região no leste do país onde mais de 70% do vinho georgiano é produzido até hoje.

Visitar Kakheti não é apenas ir a uma região vinícola. É entrar num modo de fazer e beber vinho que sobreviveu intacto por milênios, resistindo a invasões persas, dominação otomana, padronização soviética e a globalização do gosto enológico. O método tradicional, em que o vinho é fermentado dentro de grandes ânforas de barro chamadas qvevri, enterradas no chão, foi reconhecido pela Unesco como patrimônio cultural imaterial da humanidade em 2013. E em Kakheti esse método ainda é praticado por milhares de famílias rurais, do mesmo jeito como há mil anos.

Vou organizar aqui o que importa saber antes de visitar, como organizar o roteiro, quais cidades e vinícolas priorizar, e o que esperar dessa imersão.

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Onde fica e como chegar

Kakheti está a leste de Tbilisi, com a cidade principal, Telavi, a 95 quilômetros da capital. A região é cercada pelas montanhas do Cáucaso ao norte, faz fronteira com o Azerbaijão a sudeste, e ao sul desce em direção à estepe seca do vale do Alazani. As paisagens são variadas, com vinhedos cobrindo planícies inteiras, vilarejos medievais com torres de pedra, mosteiros isolados em encostas e pequenas cidades fortificadas.

Para chegar de Tbilisi a Kakheti há três rotas principais. A estrada que passa pelo passo de Gombori é a mais cênica, atravessando montanhas cobertas de floresta antes de descer para o vale dos vinhedos. A estrada por Sagarejo é mais rápida e plana, ligando direto à parte sul da região. E a estrada por Sighnaghi, no extremo sudeste, é a melhor para quem quer começar pelo coração turístico romântico de Kakheti.

As opções de transporte são parecidas com as do resto do país:

Carro alugado: a melhor opção. As estradas dentro de Kakheti são razoáveis, e a flexibilidade para parar em vinícolas espontaneamente vale ouro. Aluguel sai em torno de 70 a 120 lari por dia em Tbilisi.

Tour privado por dia: motoristas em Tbilisi cobram de 200 a 350 lari pelo dia inteiro, dependendo da distância e do número de paradas. Há motoristas-guias que falam inglês ou russo e conhecem produtores específicos.

Tour em grupo: opção mais barata, com saídas diárias por 100 a 180 lari por pessoa, incluindo geralmente Sighnaghi, Bodbe e duas vinícolas. Bom para quem quer uma introdução, mas o ritmo é apertado e o roteiro padronizado.

Marshrutka: vans coletivas saem do terminal Samgori em Tbilisi para Telavi, Sighnaghi e Kvareli várias vezes ao dia. Custam em torno de 10 a 15 lari por pessoa. Funciona bem para chegar nas cidades, mas dentro de Kakheti as vinícolas estão espalhadas e quase sempre exige táxi local.

Minha recomendação direta. Kakheti não se faz bem em um dia só. Dá, mas é desperdiçar uma região que pede ritmo lento, almoços longos, conversa com produtores. Dois ou três dias dormindo na região mudam completamente a experiência.

Entender o que é qvevri antes de visitar

Conhecer Kakheti sem entender o método qvevri é como ir a Bordeaux sem saber o que é barrica. O qvevri é uma ânfora de barro de tamanho variado, indo de algumas centenas de litros até mais de 3.000 litros. Tem formato cônico, com a ponta para baixo, e é enterrado no chão até a boca, deixando apenas a abertura no nível do piso da adega.

A uva é colhida, prensada e despejada inteira no qvevri, com cascas, sementes e às vezes engaços. A fermentação acontece naturalmente, sem leveduras adicionadas, sem controle de temperatura, sem nada. A terra em volta da ânfora regula a temperatura sozinha, mantendo-a estável durante todo o processo. Depois da fermentação, o vinho descansa por meses no próprio qvevri, em contato com as cascas, antes de ser engarrafado.

O resultado é um vinho diferente de tudo que se faz no resto do mundo. Os tintos são intensos, com taninos firmes e notas que lembram terra molhada, frutas escuras e especiarias. Os brancos, feitos com fermentação de cascas, ganham uma cor âmbar que vai do dourado ao laranja-cobre, com aromas que parecem de chá preto, damasco seco, mel e nozes. Os ocidentais costumam chamar esses brancos de “orange wines”, mas na Geórgia eles simplesmente são vinhos brancos. Estão fazendo assim há milênios.

A uva mais famosa de Kakheti é a Saperavi, uma tinta de polpa também tinta (uma das poucas no mundo), que produz vinhos profundos e estruturados. Entre as brancas se destacam a Rkatsiteli, a Mtsvane Kakhuri e a Kisi.

Telavi: a capital de Kakheti

A cidade de Telavi é o centro administrativo de Kakheti e a base mais natural para explorar o norte da região. Tem cerca de 20 mil habitantes, um centro pequeno e arrumado, e está cercada de vinhedos por todos os lados. Ao norte se vêem as montanhas do Cáucaso nevadas, ao sul o vale do Alazani se estende até onde a vista alcança.

O ponto principal da cidade é o Castelo de Batonis Tsikhe, residência fortificada dos reis de Kakheti nos séculos XVII e XVIII. Foi a partir daqui que o rei Erekle II governou a região no final do século XVIII, antes da incorporação ao Império Russo. O complexo inclui o palácio real, duas igrejas, uma muralha completa e um pequeno museu com objetos da corte. A entrada custa em torno de 7 lari, e a visita leva uma hora.

Em frente ao castelo está uma estátua equestre de Erekle II e o famoso plátano de Telavi, uma árvore com mais de 900 anos, com tronco de circunferência impressionante. Os locais consideram a árvore símbolo da cidade, e tirar foto ali é praticamente obrigatório.

Para hospedagem, Telavi oferece desde guesthouses simples a partir de 80 lari a noite até hotéis modernos como o Schuchmann Wines Châteaux Hotel, fora do centro mas integrado a uma vinícola, com diárias acima de 600 lari. Para comer, o restaurante Bravo no centro serve cozinha tradicional georgiana de boa qualidade, e o Restaurant Pheasant’s Tears, em Sighnaghi, é destino gastronômico em si mesmo (mais sobre ele adiante).

Mosteiros próximos a Telavi

A região em torno de Telavi tem vários monastérios importantes, e visitar pelo menos um é parte essencial da experiência kakhetiana.

Mosteiro de Alaverdi

A 18 km de Telavi, o Mosteiro de Alaverdi é um dos lugares mais imponentes da Geórgia. A catedral central foi construída no século XI, com 50 metros de altura, sendo por séculos o edifício mais alto do país. As muralhas externas formam um perímetro fortificado completo, com torres de defesa e portões pesados.

A história do vinho aqui é direta. Os monges de Alaverdi nunca pararam de fazer vinho em qvevri, nem mesmo durante o período soviético, quando a produção tradicional foi quase extinta no resto da região por imposição do Estado. A adega do mosteiro, de 1011, é uma das mais antigas do mundo em uso contínuo, e a marca Alaverdi Tradition, produzida pelos monges, está entre os vinhos georgianos mais respeitados internacionalmente.

A entrada no complexo é gratuita. Mulheres precisam de saia e lenço cobrindo a cabeça, disponíveis na portaria. Visitas à adega histórica precisam de agendamento prévio e custam em torno de 60 a 100 lari por pessoa, incluindo degustação.

Mosteiro de Ikalto

A 8 km de Telavi, Ikalto foi fundado no século VI e foi sede de uma das principais academias filosóficas da Geórgia medieval, ativa entre os séculos XI e XII. O grande poeta nacional, Shota Rustaveli, autor de “O Cavaleiro na Pele de Pantera”, teria estudado aqui. A academia ensinava teologia, filosofia, retórica, astronomia, geometria e também enologia.

O complexo foi destruído pelos exércitos persas no século XVII, e hoje o que resta são as ruínas da academia, três igrejas em diferentes estados de preservação e os restos de uma grande adega antiga, com qvevris ainda enterrados no chão. É um lugar mais silencioso e contemplativo que Alaverdi, com poucos visitantes. Vale a parada.

Mosteiro de Nekresi

Um pouco mais distante, nas colinas que se erguem do vale do Alazani, Nekresi tem uma das vistas mais bonitas de toda Kakheti. O complexo é dos séculos IV ao VII, com várias igrejas, residências monásticas e um portão fortificado. A subida final é íngreme, e em alguns períodos só se chega ao topo com transporte oficial saindo do estacionamento abaixo.

Sighnaghi: a cidade dos amantes

No extremo sudeste de Kakheti, num platô elevado com vista panorâmica para o vale do Alazani e para as montanhas do Cáucaso ao fundo, está Sighnaghi. É a cidade mais turística da região, e também a mais bonita.

O centro histórico foi totalmente restaurado em 2007 por iniciativa do governo de Mikheil Saakashvili, que apostou em Sighnaghi como cartão postal do turismo georgiano. Telhados de cerâmica vermelha, fachadas em tons pastel, varandas de madeira esculpida, calçamento de pedra. A cidade ganhou o apelido de “cidade dos amantes” porque o cartório municipal funciona 24 horas e casa qualquer casal sem burocracia, sem necessidade de morar na Geórgia, e sem prazo de espera. Muitos casais russos, ucranianos, israelenses e turcos vão até lá só para casar.

As muralhas medievais de Sighnaghi são uma das atrações principais. Estendem-se por 4 km em volta do platô, com 23 torres de defesa, e podem ser percorridas a pé inteiras (com algum esforço físico). Da torre mais alta a vista do vale verde se abre para o horizonte. Em dias claros, as montanhas do Cáucaso aparecem nítidas ao norte.

O Museu de Sighnaghi, no centro da cidade, é pequeno mas vale a parada. Tem uma coleção de pinturas do Niko Pirosmani, um dos artistas georgianos mais celebrados do início do século XX. Pirosmani é o autor do quadro “A Atriz Margarita”, e sua história foi imortalizada na canção russa “Um Milhão de Rosas Vermelhas”. A entrada custa em torno de 7 lari.

Para hospedagem, Sighnaghi tem boas opções de guesthouses familiares com vista do vale, e alguns hotéis-boutique como o Kabadoni e o Pheasant’s Tears Guesthouse. Diárias variam de 100 a 400 lari conforme o padrão.

Restaurante Pheasant’s Tears

Sighnaghi tem um endereço que merece destaque próprio. O restaurante Pheasant’s Tears é um projeto do americano John Wurdeman, que se mudou para a Geórgia há mais de 25 anos e se tornou um dos principais defensores internacionais do vinho georgiano natural em qvevri. O restaurante serve cozinha kakhetiana tradicional preparada com ingredientes locais, em pratos sazonais que mudam o tempo todo. Os vinhos vêm da própria vinícola Pheasant’s Tears, uma das mais respeitadas do país, com vinhos minimamente intervencionistas, sem aditivos, fermentados em qvevri.

A reserva precisa ser feita com antecedência em alta temporada. Pratos ficam em torno de 25 a 50 lari, e taças de vinho a partir de 12 lari. A experiência é uma das mais completas que se pode ter em Kakheti.

Mosteiro de Bodbe

A 2 km de Sighnaghi está o Mosteiro de Bodbe, um dos lugares mais sagrados da Geórgia. Aqui está enterrada Santa Nino, a missionária do século IV que evangelizou o país. O complexo atual é dos séculos IX e XVII, com a igreja principal cobrindo o túmulo da santa.

O lugar é ativo, com freiras vivendo no convento. A entrada é gratuita. No vale logo abaixo do mosteiro há uma fonte com água considerada sagrada, alcançada por uma trilha íngreme de cerca de 800 metros. Muitos peregrinos descem para se banhar na fonte, em piscinas separadas para homens e mulheres.

Kvareli: o lago, a vinícola subterrânea e a fronteira

Mais ao norte, na parte mais úmida e fria de Kakheti, fica Kvareli. É uma cidade pequena, ainda menos turística que Telavi, mas com algumas atrações que valem o desvio.

A principal é a Khareba Winery, uma vinícola gigantesca instalada dentro de um túnel escavado na montanha durante o período soviético. O túnel tem 7,7 km de extensão, com temperatura constante de 12 graus o ano inteiro, perfeita para envelhecimento de vinho. A visita guiada percorre uma parte do túnel, mostra a coleção de garrafas, demonstra a produção de churchkhela e termina com degustação. Custa em torno de 30 a 60 lari dependendo do pacote.

Em Kvareli também está o Lago Kvareli, ou Lopota, um conjunto de represas com infraestrutura turística desenvolvida em torno. O Lopota Lake Resort é um dos hotéis-resort mais sofisticados da região, com diárias acima de 800 lari, infraestrutura completa e atividades como cavalgada, parapente e pesca. Para quem quer uns dias de relax integrado a uma viagem de vinhos, é um endereço a considerar.

A Kindzmarauli Corporation, uma das maiores vinícolas da Geórgia, fica em Kvareli. Produz o vinho Kindzmarauli, um tinto semi-doce feito com uvas Saperavi colhidas na região exata em volta da cidade. Era o vinho favorito de Stalin, fato que a vinícola explora bastante na visita guiada. As degustações custam em torno de 25 a 50 lari.

Vinícolas para visitar com ou sem agendamento

Kakheti tem milhares de produtores, da família que faz 200 garrafas por ano para consumo próprio até gigantes que exportam milhões de garrafas. A melhor experiência costuma vir das vinícolas familiares pequenas e médias, que oferecem visitas íntimas, com o próprio enólogo conduzindo a degustação e contando histórias.

Algumas opções para considerar:

VinícolaCidade próximaEstilo principal
Pheasant’s TearsSighnaghiVinhos naturais em qvevri
Schuchmann WinesTelaviMistura de qvevri e barrica europeia
Twins Wine CellarNapareuliPequena vinícola com museu de qvevri
Khareba WineryKvareliAdega no túnel da montanha
TsinandaliTelaviHistórica, fundada no século XIX
Kindzmarauli Corp.KvareliTintos semi-doces clássicos
Alaverdi MonasteryTelaviVinhos monásticos antigos
Okro’s WinesSighnaghiPequena, vinhos biodinâmicos

A maior parte das vinícolas exige agendamento, mesmo com poucas horas de antecedência. Em alta temporada (junho a outubro) é prudente reservar pelo menos no dia anterior. WhatsApp funciona melhor que e-mail na maioria dos casos.

Os preços de degustação variam muito. Em vinícolas pequenas familiares, a visita pode sair por 15 a 30 lari por pessoa, incluindo prova de quatro a seis vinhos com pão e queijo. Nas vinícolas-boutique mais sofisticadas, com almoço incluído, pode chegar a 200 a 400 lari por pessoa.

A Tsinandali: a vinícola dos príncipes

Vale destacar à parte a Tsinandali, fundada em 1835 pelo príncipe Alexander Chavchavadze, poeta romântico, oficial do exército russo e um dos personagens mais influentes da aristocracia georgiana do século XIX. Sua propriedade em Tsinandali, hoje aberta como museu e vinícola ativa, é uma das visitas mais cultas que se pode fazer em Kakheti.

A propriedade inclui um palácio em estilo neoclássico, com móveis de época preservados, biblioteca com mais de 20 mil volumes, e o jardim botânico desenhado pelo próprio príncipe, com plantas trazidas da Europa e da Ásia. A adega histórica abriga uma coleção de vinhos antigos, com algumas garrafas de meados do século XIX ainda preservadas.

Foi aqui também que aconteceu o famoso sequestro de 1854, quando rebeldes do Cáucaso liderados por Imam Shamil invadiram a propriedade e levaram cativos a princesa Anna Chavchavadze e mais de 20 membros da família e da criadagem. Foram libertados meses depois mediante resgate. A história é contada num dos cômodos do museu.

A entrada custa 25 lari, e a visita inclui o palácio, o jardim e a adega. Degustações dos vinhos atuais Schuchmann (a empresa que opera a vinícola hoje) custam à parte.

Festivais e melhor época para ir

A época do ano define muito a experiência em Kakheti. Resumo as principais variações:

MêsO que esperar
Abril/MaioVinhedos brotando, paisagem verde, poucos turistas
JunhoVerão começando, calor moderado, dias longos
Julho/AgostoCalor forte, alta temporada turística
SetembroInício da colheita (rtveli), festas de produtores
OutubroFim do rtveli, cores de outono, vinho jovem disponível
NovembroFrio chegando, turistas reduzidos, churchkhela fresco

A colheita, chamada rtveli, é o evento do ano em Kakheti. Acontece entre meados de setembro e meados de outubro, dependendo do clima e da uva. Famílias inteiras se reúnem nas propriedades para colher juntos, prensar a uva (algumas ainda fazem com os pés, em troncos escavados de madeira chamados satsnakheli) e celebrar com supras, banquetes longos com música, brindes e comida farta.

Muitas guesthouses oferecem pacotes de rtveli para turistas, em que os visitantes participam da colheita, ajudam a prensar, comem com a família e dormem na propriedade. É uma das experiências mais autênticas que se pode ter no país. Custa em torno de 200 a 500 lari por pessoa por dia, com tudo incluído.

A supra e a tradição do tamada

Comer com georgianos em Kakheti é uma experiência cultural completa. A refeição tradicional, chamada supra, não é apenas um jantar. É um ritual social que pode durar quatro, cinco, seis horas, com mesa coberta de pratos sobrepostos, brindes ininterruptos e canto polifônico.

A figura central da supra é o tamada, o mestre de cerimônias dos brindes. É ele quem conduz a sequência de toasts, que seguem ordem específica. Brinde à paz, brinde à pátria, brinde aos antepassados, brinde aos pais, brinde aos filhos, brinde aos ausentes, brinde ao amor, brinde aos amigos. Cada brinde é um discurso curto, às vezes um poema, e termina com todos bebendo a taça inteira de vinho. Em algumas ocasiões a taça é substituída por um chifre de animal, chamado kantsi, que não pode ser apoiado na mesa antes de esvaziado.

Essa estrutura ritual sobreviveu intacta por séculos, e em Kakheti ela continua sendo praticada nas refeições familiares, nos casamentos, nos batismos, nos enterros. Quem é convidado para uma supra está recebendo um dos maiores gestos de hospitalidade da cultura georgiana.

Algumas guesthouses oferecem supras turísticas para hóspedes, geralmente com a família anfitriã servindo de tamadas e cantadores. É uma das experiências mais marcantes que se pode ter na região.

Sugestão de roteiro de três dias

Para quem dispõe de três dias e dois pernoites na região, uma divisão equilibrada seria:

Dia 1: saída de Tbilisi pela manhã, entrada em Kakheti via Sighnaghi. Visita à cidade, passeio pelas muralhas, almoço no Pheasant’s Tears, degustação na vinícola homônima, parada em Bodbe no fim da tarde. Pernoite em Sighnaghi.

Dia 2: deslocamento para Telavi pela manhã, com parada em vinhedos pelo caminho. Visita ao Mosteiro de Alaverdi e ao Mosteiro de Ikalto. Almoço em Telavi, tarde livre na cidade ou em Tsinandali. Pernoite em Telavi.

Dia 3: dia em Kvareli ou Napareuli, com visita à Khareba Winery, almoço em vinícola familiar, degustação adicional. Volta para Tbilisi no fim da tarde.

Para quem tem cinco dias, é possível adicionar um dia de rtveli em setembro/outubro, ou um dia em região menos turística como Tusheti (área de montanha alta, exige 4×4 e só acessível no verão).

Algumas observações finais

Kakheti não é uma região vinícola no formato que estrangeiros costumam imaginar quando pensam em Bordeaux, Toscana ou Mendoza. Não há grandes châteaux com fachadas pomposas em todas as esquinas, nem programas turísticos cuidadosamente coreografados. Há, isso sim, milhares de pequenas adegas familiares, alguns produtores de médio porte, e poucas operações realmente grandes. A maior parte do vinho de Kakheti continua sendo feito para consumo próprio das famílias, e o turismo enológico é um fenômeno relativamente recente, dos últimos quinze anos.

Isso tem vantagens e exige paciência. A vantagem é a autenticidade. As pessoas que recebem nas vinícolas pequenas são frequentemente os próprios donos, fazendo o vinho com as próprias mãos. A informalidade é a regra, não a exceção. A paciência é necessária porque a infraestrutura turística é irregular. Algumas vinícolas têm sites lindos e atendem em inglês fluente. Outras nem site têm, recebem por WhatsApp em georgiano ou russo, e não funcionam em horário fixo.

Outra observação. A cultura georgiana do vinho não tem nada do snobismo enológico que dominou o Ocidente nas últimas décadas. Aqui ninguém vai ficar julgando se você bebeu Saperavi com peixe ou Rkatsiteli com churrasco. Vinho não é objeto de status. É comida líquida, parte da mesa do dia a dia, oferecido de coração aberto. Não rejeitar uma taça oferecida em supra é considerado básico de educação. Mas tomar todo brinde até o fundo, em ritual completo, num jantar de quatro horas, exige treino. Não há vergonha em dar pequenos goles em vez de virar a taça toda.

E talvez o mais importante para guardar. Kakheti é uma região que se entrega aos visitantes que aceitam o ritmo dela. Quem chega com pressa, querendo encaixar oito vinícolas em um dia, vai sair com gosto bom na boca mas sem entender o que viu. Quem chega disposto a ficar sentado por horas numa varanda de vinhedo, comendo lentamente, conversando com o produtor, voltando à taça quando der vontade, sai entendendo por que esse povo continua fazendo vinho do mesmo jeito desde antes da maioria das civilizações terem começado a existir. Vinho aqui não é produto. É memória líquida que segue passando de geração para geração, e cada qvevri enterrado no chão é, no fundo, uma forma de continuar essa conversa milenar.

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