Como Saber se o Influencer de Viagem Está Falando a Verdade
Como saber se o influencer de viagem está falando a verdade: veja sinais de publicidade escondida, fotos editadas, dicas desatualizadas e como checar cada informação.

Saber se o influencer de viagem está falando a verdade virou uma habilidade quase obrigatória para quem planeja qualquer passeio hoje, seja um fim de semana em Tiradentes ou quinze dias na Europa. Os perfis de viagem se tornaram uma das principais fontes de pesquisa de muita gente. Em 2022, um executivo do Google, Prabhakar Raghavan, comentou publicamente que, segundo levantamentos internos da empresa, quase 40% dos jovens já procuravam lugares para almoçar no TikTok ou no Instagram, e não no Google Maps. A frase ficou famosa porque resumia uma mudança enorme de comportamento.
O problema é que confiança não vem junto com o número de seguidores.
Tem criador de conteúdo excelente, cuidadoso, que pesquisa, volta ao destino, corrige informação errada e avisa quando algo mudou. E tem perfil que grava tudo em dois dias, recebe a hospedagem de presente, elogia sem ressalva e publica dicas que já estavam velhas no momento da postagem. Os dois aparecem no mesmo feed, com a mesma música de fundo e a mesma simpatia.
Separar um do outro não exige nenhum conhecimento técnico. Exige atenção a alguns sinais e o hábito de conferir antes de pagar. É isso que vale olhar com calma.
Verdade, aqui, não é só ausência de mentira
Antes de falar dos sinais, vale ajustar uma ideia. Muita gente imagina que o influencer que engana é aquele que inventa coisas. Isso existe, mas é a minoria dos casos.
A informação pode ser verdadeira e ainda assim enganar
Um vídeo pode mostrar uma praia vazia de água cristalina, e a praia existir de fato. Só que a gravação foi feita às seis da manhã, num dia de maré baixa, no mês mais favorável do ano. Nada ali é mentira. Mas quem chega ao meio-dia de um feriado encontra outra coisa.
O mesmo vale para o hotel que tratou o criador como convidado especial, para o restaurante que serviu o prato caprichado sabendo que estava sendo filmado, para o passeio que pareceu tranquilo porque a fila foi cortada na edição.
A pergunta certa muda tudo
Em vez de perguntar “isso é mentira?”, pergunte “isso vai ser assim para mim?”. Essa troca simples ajuda a enxergar o que ficou de fora do vídeo. E quase sempre o que ficou de fora é o que mais pesa no bolso e na paciência.
O primeiro sinal: existe dinheiro envolvido?
Boa parte dos perfis de viagem vive de parcerias. Isso é trabalho legítimo e permite que muita gente produza conteúdo gratuito de qualidade. O ponto não é condenar a publicidade. É saber quando ela está presente, porque isso muda o peso da recomendação.
O que diz o CONAR
No Brasil, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, o CONAR, publicou em 2021 o Guia de Publicidade por Influenciadores Digitais. A orientação é que todo conteúdo com relação comercial seja identificado de forma clara, com termos como “publicidade”, “publi”, “patrocinado” ou “parceria paga”. O guia também considera que a relação comercial existe mesmo quando não há pagamento em dinheiro, como no caso de hospedagem, refeição ou passeio oferecidos em troca de divulgação.
O Código de Defesa do Consumidor já trazia, desde 1990, a regra de que a publicidade deve ser feita de forma que o consumidor a identifique fácil e imediatamente como tal. Ou seja, esconder que algo é anúncio não é só falta de cuidado. É contra as regras.
As marcações de cada plataforma
Cada rede tem seu próprio jeito de sinalizar conteúdo comercial. No Instagram, aparece a indicação “parceria paga com” logo abaixo do nome do perfil. No YouTube, surge o aviso “inclui promoção paga” no início do vídeo quando o criador declara o patrocínio. O TikTok também tem uma opção para o criador marcar o vídeo como conteúdo de marca, que exibe um aviso na publicação.
Quando essas marcações aparecem, ótimo. O criador está sendo transparente. A dica pode ser boa, mas você já sabe que ela não é neutra.
Quando a marcação não aparece
Nem todo mundo marca. Por isso, vale prestar atenção nas falas. Expressões como “a convite de”, “em parceria com”, “agradeço ao hotel tal pela recepção”, “fui recebido por” ou “graças à equipe de” indicam relação comercial, mesmo sem aviso formal.
Outro sinal é a hashtag discreta. Às vezes o “#publi” está lá, mas escondido no meio de vinte hashtags no fim da legenda, onde quase ninguém chega.
Link de afiliado e cupom
Muitos criadores ganham comissão quando alguém reserva hotel, contrata seguro, compra chip internacional ou agenda passeio por um link indicado por eles. Esse modelo é comum e não tem nada de errado. O cuidado é outro: o cupom de desconto passa a impressão de vantagem, mas nem sempre o preço com cupom é o menor disponível. Comparar com outros sites leva poucos minutos e, às vezes, revela valores iguais ou mais baixos sem desconto nenhum.
E se o mesmo seguro, o mesmo chip ou a mesma plataforma aparecem em todos os vídeos do perfil, independentemente do destino, vale pensar se aquilo é preferência real ou apenas o patrocinador fixo.
O segundo sinal: o criador pagou o que você vai pagar?
Esse ponto parece pequeno, mas explica muita diferença entre o vídeo e a realidade.
Convidado recebe tratamento de convidado
Quando um hotel convida um influencer, é natural que ele receba o melhor quarto, atenção especial da equipe, um café da manhã caprichado e talvez algum mimo na chegada. Restaurantes fazem o mesmo com o prato. Agências fazem o mesmo com o passeio, às vezes em versão privativa.
Isso não torna o hotel, o restaurante ou a agência ruins. Só significa que a experiência mostrada é a melhor versão possível, e não necessariamente a que um hóspede comum vai ter pagando a diária mais barata.
O quarto do vídeo costuma ser o mais caro
Banheira na varanda, piscina privativa, vista para o mar. Essas categorias aparecem muito nos vídeos e podem custar bem mais que o quarto padrão do mesmo hotel. Quem reserva “o hotel do vídeo” sem olhar a categoria pode se frustrar com um quarto bem diferente, ou se assustar com o preço do quarto igual.
Antes de reservar, procure o nome exato da acomodação mostrada e compare com as outras opções. Às vezes o hotel continua valendo a pena no quarto simples. Às vezes não.
Quem pagou do próprio bolso fala diferente
As avaliações de hóspedes comuns em plataformas como Booking, Google e TripAdvisor mostram o outro lado. O Booking, por exemplo, só permite avaliar quem fez a reserva pela plataforma e se hospedou, o que reduz bastante a chance de opinião falsa. Leia as notas baixas também, porque elas costumam apontar problemas que nunca aparecem em vídeo patrocinado, como barulho, manutenção ruim, cobrança extra ou atendimento lento.
O terceiro sinal: só existe lado bom?
Toda viagem tem algum ponto negativo. Fila, calor, preço alto, atendimento demorado, um passeio que não correspondeu à expectativa. Isso é normal e faz parte.
Elogio sem nenhuma ressalva merece atenção
Quando um perfil mostra cinco dias num destino e tudo é perfeito, incrível, imperdível, sem um único comentário crítico, vale olhar com mais cuidado. Pode ser entusiasmo genuíno. Pode ser parceria. Pode ser apenas o formato do perfil, que só publica o lado bonito.
Criadores que falam do que não gostaram costumam ser mais úteis, justamente porque ajudam a ajustar a expectativa. “Esse restaurante é bonito, mas achei caro pelo que entrega” vale mais do que dez elogios genéricos.
Superlativos demais
“O melhor do mundo”, “a praia mais bonita que já vi”, “você precisa ir antes de morrer”. Frases assim aparecem o tempo todo porque funcionam bem no algoritmo. Mas quando tudo é o melhor, nada é. Um bom termômetro é reparar se o criador usa esses termos em quase todos os vídeos. Se usa, eles perderam o significado.
Vídeos com títulos alarmistas também
O contrário também acontece. “Não vá para tal cidade”, “a pior viagem da minha vida”, “o golpe que quase me pegou”. Alguns trazem alertas sérios e úteis. Outros transformam um dia ruim em verdade sobre um país inteiro. Tanto o elogio exagerado quanto o susto exagerado servem para prender atenção, e nenhum dos dois deveria decidir sozinho o seu roteiro.
O quarto sinal: a foto mostra o lugar ou um recorte dele?
Toda foto é uma escolha de ângulo, horário e enquadramento. Isso não é mentira, é fotografia. Mas algumas imagens vão bem além disso.
O espelho dos Portões do Céu
O exemplo mais conhecido é o Templo Lempuyang, em Bali. A foto famosa mostra uma pessoa entre os portões, com o vulcão Agung ao fundo e um reflexo perfeito no chão, como se houvesse um lago ali. Não existe lago. O efeito é feito por um morador que segura um pedaço de espelho ou vidro logo abaixo da lente do celular. E a imagem solitária costuma vir depois de uma longa fila, que em dias movimentados pode passar de uma hora.
Muitos perfis publicaram essa foto sem explicar nada disso. Não inventaram o templo, mas criaram uma expectativa que o lugar não entrega.
A ilusão da Pedra do Telégrafo
No Rio de Janeiro, a Pedra do Telégrafo, em Guaratiba, ficou famosa pelas fotos em que a pessoa parece pendurada sobre um abismo. A ilusão vem do ângulo da câmera, porque a altura real abaixo da pedra é bem menor do que parece. Quem sabe disso vai, se diverte e entende a brincadeira. Quem não sabe pode chegar esperando uma aventura e encontrar uma fila de gente esperando a vez de posar.
Edição e filtro pesado
Água azul demais, céu laranja demais, grama verde demais. Boa parte das fotos de viagem passa por edição forte. Uma dica prática é procurar o mesmo lugar pela busca de localização no Instagram, nas publicações mais recentes de pessoas comuns, ou nas fotos enviadas por visitantes no Google Maps. Elas costumam mostrar cores e movimento bem mais próximos da realidade.
Imagem gerada por inteligência artificial
Um cuidado mais recente: com as ferramentas de inteligência artificial, ficou fácil criar paisagens que não existem ou alterar fotos reais de forma quase imperceptível. Alguns sinais ajudam a desconfiar, como detalhes estranhos em mãos, textos de placas sem sentido, sombras incoerentes e cenários perfeitos demais. Para tirar a dúvida, a busca reversa de imagem, disponível no Google Lens, permite procurar a mesma foto na internet e ver de onde ela veio.
O quinto sinal: a informação ainda vale?
Esse talvez seja o ponto em que mais gente se dá mal, e nem envolve má intenção do criador.
Conteúdo envelhece rápido em turismo
Preço de ingresso muda, restaurante fecha, linha de ônibus troca de número, atração passa a exigir agendamento. Um vídeo de dois ou três anos atrás pode estar errado em metade das dicas, mesmo que estivesse perfeito quando foi gravado. E vídeos antigos voltam a circular nas redes como se fossem novos, principalmente no formato curto.
Antes de seguir qualquer dica, olhe a data da publicação. No YouTube, ela aparece logo abaixo do título. No Instagram e no TikTok, costuma ficar mais escondida, mas está lá.
Exemplos reais de regras que mudaram
Veneza passou a cobrar, em 2024, uma taxa de acesso de visitantes que vão passar o dia na cidade sem pernoitar, em datas específicas do calendário. Vídeos de roteiro pela Itália gravados antes disso simplesmente não mencionam a taxa.
Na Europa, o EES, sistema de registro biométrico de entrada e saída de viajantes de fora da União Europeia, começou a ser implantado de forma gradual em outubro de 2025. Conteúdos antigos sobre imigração em aeroportos europeus não falam dele. Já o ETIAS, autorização eletrônica prevista para viajantes isentos de visto, como os brasileiros, teve o início adiado várias vezes, e muitos vídeos anunciaram com toda a convicção datas que nunca se confirmaram.
Nesses casos, o criador não necessariamente mentiu. A informação era a disponível na época. Mas, para você, ela pode estar errada hoje.
Preço de “quanto gastei”
Vídeos que mostram o custo total de uma viagem fazem muito sucesso. Só que o valor está preso ao câmbio, à temporada e às promoções daquela época. E muitas vezes não inclui tudo. Às vezes a hospedagem foi cortesia, a passagem veio de milhas, ou os passeios foram oferecidos em parceria. Um orçamento montado a partir desses números tem grande chance de ficar curto.
Uma boa pergunta para fazer, inclusive nos comentários, é: esse valor inclui hospedagem, passagem e passeios? Foi tudo pago por você?
O sexto sinal: o criador conhece mesmo o destino?
Existe diferença entre quem foi uma vez e gravou tudo às pressas e quem conhece o lugar de verdade.
Detalhes revelam intimidade
Quem conhece o destino fala de coisas que não aparecem em qualquer site. Explica por que escolheu um bairro e não outro, mostra caminhos alternativos, comenta o que mudou desde a última visita, indica o horário em que o lugar fica mais vazio. Quem não conhece tende a repetir as mesmas dicas genéricas que aparecem em todos os outros perfis, quase na mesma ordem.
Moradores e guias locais
Perfis de moradores, guias credenciados e pessoas que voltam com frequência ao mesmo destino costumam trazer uma visão mais profunda. Muitas vezes têm menos seguidores e menos produção, mas mais informação útil. Vale incluir esse tipo de conta na pesquisa, e não só os perfis grandes.
Canais que nunca foram ao lugar
Um fenômeno que cresceu bastante é o de perfis e canais que montam vídeos com imagens de banco, mapas e narração genérica, às vezes com voz sintética, sem nunca terem pisado no destino. Alguns sinais ajudam a identificar: nenhuma imagem gravada pelo próprio criador, dezenas de destinos diferentes publicados na mesma semana, informação vaga e nenhum detalhe pessoal sobre a experiência.
Roteiro de três dias gravado em uma semana
Outra prática comum é juntar cenas de uma estadia longa, ou de várias viagens, num vídeo de “dois dias na cidade”. O roteiro parece possível em pouco tempo, mas foi construído com muito mais calma. Se a programação mostrada parece apertada demais, provavelmente é. Na vida real, deslocamento, fila, refeição e cansaço ocupam muito mais tempo do que aparece na edição.
O sétimo sinal: os números fazem sentido?
Número de seguidores impressiona, mas pode enganar.
Seguidores e curtidas podem ser comprados
Existe um mercado de venda de seguidores, curtidas, visualizações e comentários. Perfis inflados artificialmente parecem mais confiáveis do que são. O problema é tão grande que, em 2024, a Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos aprovou uma regra proibindo a compra e venda de avaliações falsas e de indicadores falsos de influência nas redes. A regra não vale no Brasil, mas mostra o tamanho da questão.
Como perceber o engajamento estranho
Alguns sinais chamam atenção. Perfil com centenas de milhares de seguidores e poucas curtidas por publicação. Comentários genéricos em grande quantidade, como “lindo”, “amei”, “perfeito”, vindos de contas sem foto, sem publicações ou com nomes estranhos. Picos repentinos de seguidores sem nenhum vídeo viral que explique. Nada disso prova fraude sozinho, mas o conjunto merece desconfiança.
A ferramenta “Sobre esta conta”
O Instagram tem uma função pouco conhecida e muito útil. Ao tocar nos três pontinhos no perfil e escolher “Sobre esta conta”, aparecem informações como a data em que a conta foi criada, o país em que ela está baseada e se o nome de usuário mudou recentemente. Um perfil que se apresenta como agência tradicional, mas foi criado há dois meses e já trocou de nome algumas vezes, é um sinal de alerta forte.
No YouTube, a aba “Sobre” do canal mostra a data de criação e o total de visualizações. Também ajuda a entender se o criador tem histórico ou apareceu agora.
O oitavo sinal: a dica envolve risco?
Aqui o problema deixa de ser frustração e passa a ser segurança.
Trilhas apresentadas como passeio leve
Trilhas famosas aparecem muito em vídeos editados, com a vista no topo e quase nada do esforço no caminho. A Trolltunga, na Noruega, exige uma caminhada longa, que pode passar de 20 quilômetros ida e volta dependendo do ponto de partida, com muitas horas de esforço e clima que muda rápido. Resgates de turistas despreparados já aconteceram várias vezes.
No Brasil, trilhas na Chapada Diamantina, no Jalapão e na Serra do Cipó também exigem preparo, água, horário certo de saída e, em várias áreas, guia credenciado. Se o influencer não menciona nada disso, a informação está incompleta, e isso pode custar caro.
Dicas que contornam regras
Desconfie de qualquer conteúdo que ensine a “dar um jeito” na imigração, a omitir informações, a entrar em área proibida para tirar foto ou a burlar regras de bagagem. Na imigração, por exemplo, mentir pode resultar em entrada negada e problemas em viagens futuras. O caminho certo é sempre responder com a verdade e levar os documentos que comprovam a viagem.
O mesmo vale para lugares interditados ou propriedades particulares. Alguns criadores mostram acessos irregulares sem avisar que eles são irregulares. Reproduzir isso pode render multa, acidente ou dano ambiental.
Selfie em lugar perigoso
Um estudo publicado em 2018 no Journal of Family Medicine and Primary Care reuniu registros de mortes relacionadas a selfies noticiadas entre 2011 e 2017 e chegou a 259 casos no mundo, com afogamentos e quedas entre as causas mais comuns. Nenhuma foto vale ultrapassar uma grade de proteção ou subir numa borda de penhasco, por mais que o vídeo faça parecer simples.
O nono sinal: o perfil vende algo além do conteúdo?
Muitos influenciadores passaram a vender produtos próprios, como roteiros em PDF, planilhas, consultorias, mentorias e até pacotes de viagem em grupo.
Roteiro pago pode ser bom ou pode ser genérico
Alguns materiais são feitos com cuidado, atualizados e realmente úteis. Outros são compilações de informações que estão disponíveis de graça em qualquer site, às vezes desatualizadas. Antes de comprar, procure a data da última atualização, veja se há avaliações de quem já usou e confira se o criador demonstra conhecer de fato o destino nos conteúdos gratuitos.
Viagem em grupo organizada por influencer
Quando o próprio criador organiza excursões ou viagens em grupo, ele está atuando como prestador de serviço turístico. No Brasil, agências de turismo precisam ter cadastro no Cadastur, o sistema do Ministério do Turismo. Vale perguntar qual empresa está por trás da venda, consultar o CNPJ, procurar no Cadastur e no Reclame Aqui e ler o contrato antes de pagar.
Se não houver empresa nenhuma, só um Pix para pessoa física e muita promessa, o risco é seu.
O décimo sinal: os comentários contam outra história?
Os comentários são uma das fontes mais ricas para checar o que o influencer disse.
Correções aparecem ali
É comum encontrar, embaixo de vídeos de viagem, pessoas avisando que o restaurante fechou, que o preço subiu, que a linha de ônibus mudou ou que a experiência foi bem diferente. Às vezes o comentário de ontem corrige o vídeo de dois anos atrás. No YouTube, dá para ordenar os comentários pelos mais recentes, o que ajuda muito nessa checagem.
Como o criador reage às críticas
Repare também na resposta do criador. Quem é transparente costuma agradecer a correção, explicar o contexto ou atualizar a informação. Quem esconde algo tende a ignorar, apagar ou responder com agressividade. Se um perfil comercial só tem elogios nos comentários, pode ser porque as críticas foram removidas ou os comentários foram limitados.
Cuidado com perfis falsos nos comentários
Golpistas costumam criar contas com nome e foto quase iguais aos do influencer e responder comentários oferecendo “promoções exclusivas”, pedindo contato por WhatsApp ou Telegram. O criador verdadeiro raramente faz esse tipo de abordagem. Se a oferta chegou por resposta em comentário, desconfie, confira o nome de usuário com atenção e nunca pague por esse caminho.
Como checar uma dica em poucos minutos
Juntando tudo, dá para criar um pequeno ritual de checagem que cabe em qualquer planejamento.
Para hotel e pousada
Procure o nome exato no Google, no Booking e no TripAdvisor. Filtre as avaliações pelas mais recentes e leia também as notas baixas. Veja se a categoria de quarto mostrada no vídeo é a que você está reservando. Compare o preço do link do influencer com outros sites e com o site oficial do hotel.
Para restaurante e atração
Confira no Google Maps se o lugar continua aberto, os horários atualizados e as fotos enviadas por visitantes. Para ingressos, taxas e agendamento, consulte sempre o site oficial da atração. Em Fernando de Noronha, por exemplo, a Taxa de Preservação Ambiental e o ingresso do Parque Nacional Marinho são reajustados com frequência, e o valor certo está nos canais oficiais.
Para agência e passeio
Consulte o CNPJ, o Cadastur e o Reclame Aqui. Pesquise o nome da empresa junto com a palavra “golpe”. Desconfie de preço muito abaixo do mercado e de pedido de pagamento integral antecipado por Pix. Sempre que possível, prefira cartão de crédito, que oferece mais chance de contestação.
Para documentos, saúde e seguro
Aqui não existe influencer que substitua fonte oficial. Visto, passaporte e regras de entrada se confirmam no Portal Consular do Itamaraty e nos sites das embaixadas e consulados. Vacinas, como o Certificado Internacional de Vacinação ou Profilaxia contra febre amarela, emitido pela Anvisa, se confirmam com a própria Anvisa e o Ministério da Saúde. Para entrar nos países do Espaço Schengen, é exigido seguro viagem com cobertura mínima de 30 mil euros para despesas médicas, e as condições da apólice devem ser lidas antes de contratar, não importa quem indicou.
Para bagagem e vôos
Truques de bagagem de mão fazem muito sucesso nas redes, mas cada companhia aérea tem regras próprias de peso, tamanho e itens permitidos. Antes de cada vôo, consulte o site da companhia e as orientações da ANAC. Em vôos com conexão entre empresas diferentes, as regras podem variar em cada trecho, e isso quase nunca aparece no vídeo.
A regra dos três criadores
Um hábito simples resolve boa parte dos problemas: nunca tome uma decisão importante com base em um único perfil.
Compare visões diferentes
Assista ou leia pelo menos três criadores diferentes sobre o mesmo assunto, de preferência com estilos de viagem distintos. Um que viaja com orçamento alto, um mais econômico e, se possível, um morador local. Se todos dizem a mesma coisa, a informação ganha peso. Se um diz algo muito diferente, vale investigar antes de seguir.
Considere o seu perfil
Um influencer que viaja sozinho, jovem, com disposição para andar o dia inteiro, vai recomendar um roteiro que pode ser impossível para uma família com criança pequena ou para alguém viajando com pais idosos. A dica pode ser verdadeira para ele e inviável para você. Procurar criadores com um estilo parecido com o seu ajuda a ter referências mais úteis.
Sinais de que o perfil merece sua confiança
Depois de tantos alertas, vale lembrar o outro lado. Existem muitos criadores sérios, e reconhecê-los também é parte do processo.
Transparência sobre parcerias
Perfis confiáveis marcam publicidade de forma clara, dizem quando foram convidados e, muitas vezes, explicam se pagaram ou não pela experiência. Alguns chegam a separar conteúdos patrocinados dos espontâneos, o que facilita muito a vida de quem assiste.
Disposição para corrigir
Criadores cuidadosos atualizam informações, fixam comentários avisando sobre mudanças, gravam vídeos novos quando algo muda e admitem quando erraram. Esse comportamento vale mais do que qualquer número de seguidores.
Equilíbrio entre bom e ruim
Quem mostra fila, preço, cansaço, chuva e decepção junto com os momentos bonitos está entregando uma visão mais próxima da realidade. Esse tipo de perfil costuma ter um público menor do que os que só mostram paraíso, mas a informação é bem mais aproveitável.
Informação prática e verificável
Endereço, horário, preço com data, nome do serviço, forma de reserva, fonte oficial indicada. Quanto mais o conteúdo permite que você mesmo confira, mais confiável ele tende a ser. Quem não tem nada a esconder não se importa que você cheque.
Perguntas para fazer antes de seguir qualquer dica
Na hora de decidir se uma recomendação merece entrar no planejamento, algumas perguntas ajudam a colocar os pés no chão.
Quando isso foi publicado? Se tem mais de alguns meses, precisa ser confirmado.
Quem publicou ganhou alguma coisa com isso? Hospedagem cedida, comissão, cupom, pagamento direto?
O que não foi mostrado? Fila, preço, distância, época do ano, acesso, tempo de deslocamento.
Essa informação aparece em fonte oficial ou em avaliações de pessoas comuns?
Isso faz sentido para o meu tipo de viagem, meu orçamento e meu ritmo?
Se a resposta para alguma dessas perguntas acender um alerta, não significa que a dica seja ruim. Significa que ela precisa de uma segunda checagem antes de virar gasto.
O que muda quando você aprende a filtrar
Quem desenvolve esse olhar crítico não para de seguir influenciadores de viagem. Continua se inspirando, descobrindo lugares, rindo das histórias e aproveitando o lado bom das redes. A diferença é que passa a usar esses perfis como ponto de partida, e não como palavra final.
Na prática, isso evita o hotel que parecia um palácio e era um quarto apertado, o passeio que parecia tranquilo e virou maratona, a taxa que ninguém mencionou, a pousada que só existia no Instagram e a dica de imigração que poderia ter dado muito errado.
O influencer de viagem pode ser um ótimo companheiro de planejamento. Só não precisa ser o único. Com um pouco de atenção à publicidade, à data, aos comentários, aos números e às fontes oficiais, fica bem mais fácil perceber quem está mostrando o destino como ele é e quem está mostrando apenas a melhor cena dele. E a viagem real, aquela que você vai viver, agradece.
