Como é o Passeio na Lagoa Cejar, Ojos del Salar e Tebinquiche

O passeio pela Laguna Cejar, os Ojos del Salar e a Laguna Tebinquinche reúne, em menos de cinco horas de tarde, três das experiências mais sensorialmente intensas de todo o roteiro de San Pedro de Atacama — e termina com um pôr do sol que concorre de igual para igual com qualquer coisa que o Atacama tem para oferecer.

Fonte: Civitatis

Existe um tipo de passeio no Atacama que funciona pela escala visual, pela altitude, pelo esforço físico, pelo espetáculo geotérmico. Esse não é esse tipo. Este aqui funciona pelo toque. Pelo que acontece quando você entra na água e percebe que o corpo não afunda. Pela estranheza de encontrar dois poços circulares de água azul no meio de um deserto de sal. Pela paleta impossível que o sol cria quando desce atrás dos vulcões andinos com as águas rasas da Tebinquinche no primeiro plano. É um passeio que entrega mais do que parece à primeira leitura, e por isso costuma surpreender mesmo quem já pesquisou bastante antes de chegar.


O contexto: o Salar de Atacama

Os três pontos deste tour ficam dentro ou nas bordas do Salar de Atacama — o maior salar do Chile e um dos maiores do mundo, com cerca de 3.000 quilômetros quadrados de extensão. É uma bacia endorreica: a água que entra, pela chuva ou pelo degelo dos Andes, não tem saída para o mar. Fica. E ao longo de milhões de anos, o sal, o lítio, o magnésio e outros minerais foram se concentrando nessa bacia até criar uma das formações geológicas mais extraordinárias do planeta.

O salar não é uma superfície plana e branca como o Salar de Uyuni, na Bolívia. O Salar de Atacama tem uma textura mais irregular, com crostas de sal que se formam em blocos e polígonos de diferentes tamanhos, cores que variam do branco ao cinza ao amarelo dependendo da composição mineral de cada área. É feio e bonito ao mesmo tempo, dependendo da hora do dia e do ângulo de quem olha.

É dentro desse ambiente que as lagunas aparecem. Não como anomalias, mas como consequências naturais de um sistema hidrológico que tem sua lógica própria, mesmo que à primeira vista pareça improvável.


A Laguna Cejar: onde o corpo não afunda

A Laguna Cejar fica a cerca de 18 a 20 quilômetros ao sul de San Pedro de Atacama, já dentro do Salar. A viagem de van leva 20 a 30 minutos pela estrada que corta o deserto em direção ao sul.

A primeira coisa que chama atenção ao se aproximar é a cor. A água da Cejar tem um azul-turquesa de uma intensidade que parece artificialmente saturada — mas não é filtro de câmera, é química. A concentração extrema de sal e outros minerais altera a forma como a luz é refletida pela água, criando aquele tom que contrasta de forma brutal com o branco do sal e o ocre do deserto ao redor.

A Laguna Cejar tem uma salinidade que ultrapassa a do Mar Morto em concentração — o que significa que qualquer pessoa que entrar nela vai flutuar. Não é metáfora, não é exagero de agência de turismo. É física. A densidade da água salgada é maior do que a do corpo humano, e com salinidade suficientemente alta a flutuação é automática e involuntária. Você entra, tira os pés do fundo e sobe. Não tem como afundar por mais que tente.

A sensação é estranha no melhor sentido. O corpo assume uma posição horizontal sem esforço algum, e qualquer pessoa — saiba nadar ou não, tenha medo de água ou não — flutua. Crianças, idosos, quem nunca entrou no mar na vida. A água empurra de baixo para cima com uma consistência que é diferente de qualquer outro corpo d’água.

O banho é curto por necessidade, não por falta de vontade. A recomendação é ficar no máximo uns 30 minutos dentro da água. O sal em concentração tão alta resseca a pele com rapidez e pode irritar mucosas — olhos, principalmente. Entrar com óculos de proteção é uma boa ideia para quem tem sensibilidade, e evitar mergulhar a cabeça é recomendado. O sal que fica na pele depois do banho queima em qualquer arranhão ou machucado que você não sabia que tinha.

O complexo tem duchas de água doce logo depois das piscinas, e usar o chuveiro antes de se vestir não é opcional — é necessário para tirar o sal da pele antes que ele cristalize e machuque. Secar bem entre os dedos dos pés, passar nos braços e pernas, lavar os cabelos. Esse ritual de pós-banho faz parte do passeio tanto quanto o mergulho em si.

A temperatura da água da Cejar não é quente como Puritama. É fria — em torno de 15°C a depender da época do ano. O contraste com o calor seco do deserto faz com que a entrada na água seja um choque breve, mas depois de um minuto o corpo se adapta e a flutuação compensa qualquer desconforto inicial.

Ao redor da lagoa, a borda de sal cria uma faixa branca que faz a transição entre a água e o terreno. Caminhar nessa borda descalço é possível, mas a textura irregular e cortante do sal pode machucar os pés — chinelo ou sandália resistente é essencial.


Os Ojos del Salar: os buracos que ninguém sabe a fundo

Logo depois da Cejar, a menos de alguns minutos de van, ficam os Ojos del Salar — literalmente olhos do salar. São dois poços circulares que emergem no meio da crosta de sal como se alguém tivesse furado o deserto de cima a baixo com um perfurador perfeito.

A água desses poços é doce. Completamente diferente da Cejar. Nasce de lençóis subterrâneos que atravessam o salar e emergem nesses dois pontos com uma cor azul profunda, quase opaca, que contrasta com toda a aridez ao redor. A profundidade dos Ojos é indefinida — ninguém sabe ao certo quanto descem. Exploradores e mergulhadores já tentaram mapear a fundo e não chegaram ao limite.

Os Ojos têm bordas de vegetação aquática que só consegue crescer ali porque a água doce cria um microambiente completamente fora do padrão do salar. Juncos, algas, pequenos organismos que dependem da ausência de sal. Mais um exemplo do tipo de anomalia que o Atacama produz sem pedir licença.

A visita aos Ojos é mais contemplativa do que ativa — a maioria dos tours não permite natação ali, e a profundidade desconhecida cria um respeito natural que dispensa proibição. O que se faz é observar, fotografar, deixar que a estranheza daquilo faça seu efeito.

Ver dois círculos perfeitos de água azul no meio de um deserto de sal, sem explicação visual óbvia, com vulcões ao fundo, tem uma qualidade quase onírica. É o tipo de coisa que não processa de imediato.


A Laguna Tebinquinche: o final que o passeio merece

A última parada é a Laguna Tebinquinche — ou Tebenquiche, dependendo da transliteração que a agência usa. É uma lagoa ampla e rasa, muito diferente das anteriores. Não tem a salinidade extrema da Cejar, não tem a profundidade enigmática dos Ojos. O que a Tebinquinche tem é escala e luz.

A lagoa se estende por uma área considerável, com águas rasas que em muitos pontos permitem caminhar por dentro até a cintura ou menos. A superfície plana e extensa funciona como espelho — quando o vento está calmo, o reflexo dos vulcões da cordilheira se projeta na água com uma nitidez que embaralha o horizonte entre o real e o refletido.

E é aqui que a lógica do passeio vespertino se revela em toda sua força. A Tebinquinche é o ponto final do tour justamente porque é o lugar certo para ver o pôr do sol. Quando o sol começa a descer atrás dos Andes e a luz vira lateral, as águas rasas da lagoa pegam aquela coloração dourada e depois alaranjada que transforma a cena por completo. Os flamingos — que frequentam a lagoa para se alimentar do fitoplâncton que cresce naquelas águas rasas e mineralizadas — ficam ali em silhueta contra o reflexo do sol. Os vulcões ao fundo ficam violeta, rosa, vermelho.

É um pôr do sol com várias camadas simultâneas: o céu, os vulcões, a água, os flamingos, o sal branco nas bordas. Tudo acontecendo ao mesmo tempo, mudando a cada dois minutos enquanto a luz se transforma.

As operadoras costumam servir um coquetel — pisco sour ou uma bebida local — durante esse momento. A lógica é simples e acertada: certas combinações funcionam por razões que não precisam de explicação.


Como o passeio funciona na prática

É um passeio de tarde. A saída dos hotéis em San Pedro acontece entre 14h e 14h40, e o retorno ao centro é por volta das 18h a 18h30. A duração total é de aproximadamente 5 horas.

A altitude da região é de cerca de 2.300 metros — a mesma de San Pedro de Atacama, sem o salto para as altitudes extremas dos gêiseres ou das lagunas altiplanicas. Isso faz deste um dos passeios mais acessíveis do roteiro, indicado para os primeiros dias de aclimatação, para crianças acima de alguns anos, para quem tem sensibilidade a altitude.

A ordem do roteiro pode variar um pouco por operadora, mas a sequência mais comum é: Laguna Cejar → Ojos del Salar → Laguna Tebinquinche, chegando nesta última para o pôr do sol.

O passeio é geralmente indisponível às terças-feiras, por conta de manutenção e descanso das áreas protegidas. Verificar disponibilidade antes de planejar o dia é fundamental.


O que está incluído e o que custa

A maioria das operadoras inclui no preço do tour:

  • Pickup no hotel em San Pedro
  • Transporte compartilhado em van
  • Guia bilíngue (espanhol e inglês; algumas com opção em português)
  • Ingressos das lagunas Cejar e Tebinquinche
  • Coquetel no pôr do sol na Tebinquinche

O preço do tour varia bastante por operadora — em plataformas internacionais começa em torno de US$ 55 por pessoa em serviço compartilhado. Agências locais na Calle Caracoles de San Pedro cobram entre CLP$ 20.000 e CLP$ 30.000 pelo transporte, com os ingressos incluídos ou cobrados separadamente dependendo do pacote.

O ingresso para as lagunas Cejar e Tebinquinche está em torno de CLP$ 21.000 por pessoa — pago no local ou incluído no tour, dependendo da agência contratada. Vale confirmar o que está incluído antes de fechar.


O que levar obrigatoriamente

A lista para este passeio é específica porque envolve banho em água altamente salgada.

Roupa de banho — e uma roupa seca para vestir depois. Entrar na van de volta com roupa encharcada de sal é desconfortável e frio.

Toalha — mais de uma, de preferência. Uma para secar depois da Cejar, outra para o final da Tebinquinche se houver caminhada na água.

Chinelo ou sandália resistente — para caminhar nas bordas de sal das lagunas. O sal cristalizado corta a pele descalça com facilidade.

Óculos de proteção para água — opcional, mas recomendado para quem tem olhos sensíveis. O sal da Cejar em contato com os olhos arde bastante.

Protetor solar de alto fator — o sol no deserto a 2.300 metros é implacável, especialmente refletido na superfície das lagunas.

Casaco ou corta-vento — para o final da tarde na Tebinquinche. O pôr do sol no deserto vem acompanhado de uma queda de temperatura abrupta, especialmente no inverno austral. O frio entra rápido quando o sol some.

Câmera ou celular carregado — o pôr do sol na Tebinquinche justifica qualquer capacidade de armazenamento disponível.


Por que fazer esse passeio nos primeiros dias

Há uma lógica prática por trás de colocar a Laguna Cejar no início do roteiro em San Pedro, e não só porque a altitude é acessível. É também porque a experiência de flutuar num dos mais salgados corpos de água do mundo, ver os Ojos del Salar e assistir o pôr do sol na Tebinquinche calibra o nível de expectativa para o restante da viagem de uma forma muito favorável.

Quem faz este passeio primeiro entende rapidamente que o Atacama não é apenas grandiosidade visual distante. É também físico. É água que empurra o corpo, sal que queima na pele, flamingos que passam voando baixo sobre o espelho da lagoa. É a natureza funcionando de formas que não se explicam facilmente na memória de quem cresceu longe dali.

E depois que o sol some atrás dos Andes e o guia entrega o pisco sour com o horizonte ainda rosado ao fundo, fica muito claro que a tarde toda foi construída para aquele momento final. Não foi acidente. Foi sequência. E funcionou.


Informações práticas (2026):

  • Saída: entre 14h e 14h40 (pickup no hotel)
  • Duração: ~5 horas | Retorno: 18h a 18h30
  • Altitude: ~2.300 m (mesma de San Pedro — sem necessidade de aclimatação)
  • Paradas: Laguna Cejar (banho com flutuação) → Ojos del Salar (contemplação) → Laguna Tebinquinche (pôr do sol + coquetel)
  • Inclui (na maioria das operadoras): transporte, guia, ingressos, coquetel
  • Ingresso das lagunas: ~CLP$ 21.000 por pessoa
  • Passeio indisponível às terças-feiras
  • Temperatura da água na Cejar: ~15°C — fria, mas compensada pela flutuação
  • Levar obrigatoriamente: roupa de banho, toalha, chinelo, casaco para o fim da tarde
  • Recomendado para todos os perfis — ótimo para os primeiros dias do roteiro

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