Como é o Passeio nas Termas de Puritama em San Pedro de Atacama
As Termas de Puritama são o único passeio em San Pedro de Atacama onde o objetivo principal não é contemplar, fotografar nem caminhar — é entrar na água e ficar lá o tempo que durar a vontade.

Num roteiro que passa boa parte do tempo exigindo o corpo — madrugadas nos gêiseres, subidas ao Pukará de Quitor, trilhas no Valle de la Luna, aclimatações progressivas a altitudes que testam qualquer organismo —, as Termas de Puritama aparecem como uma pausa calculada. Um dia de recuperação disfarçado de passeio. E funciona tão bem justamente porque o lugar em si é extraordinário, então a experiência de descanso acontece dentro de uma paisagem que não seria ordinária em lugar nenhum do mundo.
Puritama significa água quente na língua kunza, o idioma do povo atacamenho. O nome já diz o essencial.
O que são as Termas de Puritama
As termas ficam a cerca de 30 quilômetros ao norte de San Pedro de Atacama, pela estrada B-245, numa área a 3.500 metros de altitude. São oito piscinas naturais formadas ao longo do Rio Puritama, que corre dentro de um cânion estreito encravado nas rochas e montanhas do altiplano chileno.
A água que alimenta as piscinas tem origem nas neves e geleiras dos cerros e vulcões da Cordilheira dos Andes. Essa água de degelo infiltra no solo em altitude, percorre caminhos subterrâneos por onde a atividade geotérmica do deserto a aquece, e emerge no fundo do cânion do Puritama com uma temperatura que varia entre 28°C e 35°C dependendo da piscina e da época do ano. O processo inteiro — de neve no topo dos vulcões até água morna no fundo do cânion — é um ciclo que acontece sem intervenção humana há milênios.
As paredes do cânion têm uma coloração que vai do ocre ao marrom-avermelhado, pontuadas por vegetação nativa — tamarugos, algarrobos, llareta, algumas gramineas — que só consegue existir ali por causa da umidade que as termas criam naquele microclima. Em qualquer outro ponto do deserto, a poucos metros dali, a aridez é absoluta. Dentro do cânion, há verde. Esse contraste é parte do que faz o lugar parecer irreal.
As piscinas foram adaptadas com intervenção mínima — paredes de pedra que contêm a água em cada nível, criando uma sequência de tanques que descem o cânion como degraus naturais. Cada piscina tem sua temperatura própria, seu tamanho, seu enquadramento de pedra e vegetação. Algumas são mais rasas e ensolaradas. Outras ficam mais à sombra das paredes do cânion e têm um aspecto mais recolhido. Em algumas, dá para ver peixinhos pequenos circulando pelo fundo entre as pedras.
Como funciona a visita
As Termas de Puritama são uma propriedade privada gerenciada com regras claras de capacidade e horário. Isso é importante entender logo no início do planejamento, porque é exatamente essa gestão que mantém o lugar com a qualidade que tem.
A visita funciona em dois turnos:
- Turno da manhã: das 9h às 13h30
- Turno da tarde: das 13h às 18h
A capacidade máxima é de 140 pessoas por turno. Não é muito. San Pedro de Atacama recebe um volume considerável de turistas ao longo do ano, e as vagas das Termas de Puritama esgotam com frequência — especialmente em julho e agosto, que é o inverno austral e a alta temporada do Atacama, e em janeiro e fevereiro, quando os brasileiros e argentinos viajam em massa. A recomendação de comprar o ingresso com antecedência não é formalidade: é necessidade prática.
Os ingressos são vendidos pelo site oficial das termas e precisam ser adquiridos antes de reservar o transfer com qualquer agência. Algumas operadoras vendem o pacote completo com ingresso incluído, mas cobram um pouco a mais por isso. Vale verificar o que cada operadora inclui na hora de contratar.
O transfer: como chegar até lá
A estrada entre San Pedro e as termas é boa e percorrível em carro comum. São 30 quilômetros de via asfaltada até a entrada do cânion, e o trecho é plano na maior parte — sobe gradualmente conforme se aproxima das montanhas.
Quem quer ir por conta própria pode alugar um carro em San Pedro ou, para os mais dispostos, fazer o percurso de bicicleta — mas 30 quilômetros de ida a 3.500 metros de altitude não é pedalar qualquer um, e o retorno seria no final de um turno, quando o corpo já está descansado mas as pernas precisam corresponder. Cada um conhece seus limites.
A forma mais comum de ir é pelo transfer compartilhado oferecido pelas agências de San Pedro. Funciona assim: a van passa no hotel no horário de saída do turno escolhido, leva o grupo até a entrada das termas, e retorna ao final do turno. Não há guia dentro das termas — o transfer é só transporte. O que você faz dentro do cânion é por conta própria.
O preço do transfer gira em torno de CLP$ 25.000 por pessoa (em torno de R$ 130 a R$ 145). A isso se soma o valor da entrada:
- Adulto: CLP$ 35.000
- Crianças e idosos: CLP$ 17.000
O total por adulto fica em torno de CLP$ 60.000, ou aproximadamente R$ 320 a R$ 340, dependendo da cotação. O ingresso precisa ser pago com antecedência, pelo site das termas. O transfer pode ser contratado diretamente com as agências da Calle Caracoles ou via plataformas online.
Dentro do cânion: como é a experiência
A entrada das termas fica no alto do cânion, onde há um estacionamento, vestiários, banheiros e um guarda-volumes. Dali, uma trilha desce pelas bordas do cânion até as piscinas, que ficam distribuídas ao longo do leito do rio.
A descida é curta e tranquila — não tem inclinação agressiva nem terreno difícil. Em poucos minutos se está dentro do cânion, e a mudança de ambiente é imediata. O calor seco do deserto ficou lá em cima. Aqui dentro há umidade, vegetação, o som do rio, e as piscinas se apresentando uma depois da outra ao longo do percurso.
Cada piscina tem uma personalidade. A lógica é ir da mais alta até a mais baixa, onde a água chega um pouco menos quente. As de cima têm temperatura mais intensa — próximas de 33°C a 35°C — e são as preferidas de quem quer o máximo de contraste com o frio do ar. As de baixo são mais mornas, mais largas, e tendem a ficar mais movimentadas por causa disso.
Não há sequência obrigatória. Você escolhe onde fica, por quanto tempo, quantas trocas de piscina faz. Não tem guia explicando geologia nem história. É um lugar para existir sem roteiro.
O que chama atenção logo de início é o silêncio. Ou quase silêncio — o que existe é o barulho da água correndo entre as pedras, o vento passando pelo cânion, e as vozes das outras pessoas ao redor. Não tem música tocando, não tem barzinho, não tem churrasquinho. É um lugar que foi desenhado para ser o que é: piscinas naturais num cânion de deserto.
A vegetação nas bordas das piscinas cria uma moldura verde que não existe em lugar nenhum do roteiro típico do Atacama. Pinheiros andinos, grama úmida, arbustos espinhosos com flores pequenas — vida que só está ali porque a água permite. E os peixinhos no fundo das piscinas, pequenos e rápidos, circulam entre as pedras como se a presença humana fosse completamente irrelevante.
O contraste entre a água quente e o ar frio do altiplano é mais intenso no turno da manhã e no inverno. Entrar numa piscina de 33°C quando a temperatura do ar está em 5°C ou 10°C — o que é comum em junho, julho, agosto — cria uma diferença sensorial que vai muito além do conforto. Tem algo de quase medicinal naquilo. O vapor que sobe da água no ar frio, as pedras escuras ao redor, o céu azul intenso da altitude lá em cima do cânion. É uma combinação que justifica o passeio por si só.
Turno da manhã ou da tarde?
Essa é a pergunta que qualquer um faz antes de reservar, e a resposta não é simples porque depende do que cada pessoa quer da experiência.
O turno da manhã é mais quieto. Menos gente, mais silêncio, luz de manhã cedo entrando oblíqua pelo cânion. Para fotografia é claramente superior — as sombras do amanhecer criam texturas nas paredes de pedra que o sol do meio-dia destrói. E tem o detalhe do frio: de manhã, a diferença entre a água quente e o ar é maior, o que intensifica a experiência de entrar nas piscinas. O preço da entrada costuma ser um pouco maior no turno da manhã.
O turno da tarde tem mais movimento — é o turno que a maioria das agências oferece, porque se encaixa no restante do dia sem exigir acordar cedo novamente. A luz da tarde dentro do cânion tem sua beleza própria, mais dourada e quente. E para quem vai depois de outros passeios da manhã — o tour arqueológico, por exemplo, que termina ao meio-dia — o turno da tarde funciona como complemento perfeito no mesmo dia.
O que não funciona bem é chegar cansado do turno da tarde e esperar que o lugar seja silencioso. Em alta temporada, 140 pessoas num cânion pequeno é perceptível.
Uma regra que precisa de atenção: o protetor solar
As Termas de Puritama têm uma política de protetor solar que não é opcional e que precisa ser respeitada. Só é permitido usar protetor solar 100% natural ou orgânico, sem derivados de petróleo nem fragrâncias sintéticas — e ele deve ser aplicado antes de entrar no complexo, não dentro.
A razão é direta: a água das termas é um ecossistema vivo. Produtos químicos convencionais alteram a qualidade da água, agridem a fauna aquática e comprometem a vegetação do cânion. Os peixinhos que circulam pelas piscinas dependem desse equilíbrio. A política existe para proteger exatamente o que torna o lugar especial.
Protetor orgânico pode ser comprado em algumas farmácias e lojas de artigos naturais em San Pedro de Atacama, mas não é garantido que esteja disponível. Levar de casa, comprado antes da viagem, é a opção mais segura. A mesma lógica vale para repelente — o convencional não é permitido dentro do complexo.
O que levar obrigatoriamente
A lista é curta, mas cada item importa.
Roupa de banho — uma e, de preferência, uma roupa seca para trocar depois. Sair das piscinas com roupas molhadas no frio do altiplano é desconfortável de uma forma que quem experienciou não repete.
Toalha — o complexo tem vestiários mas não fornece toalhas.
Chinelo ou sandália resistente — o fundo das piscinas tem pedras e o percurso até elas é de terra e rocha. Entrar na água descalço é possível mas desnecessário.
Protetor solar orgânico — aplicado antes de entrar.
Lanche e água — não há lanchonete ou restaurante dentro das termas. O tempo dentro do cânion é de quase cinco horas em alguns turnos, e estar com fome ou sem hidratação naquela altitude atrapalha qualquer experiência.
Casaco — para depois de sair da água. O corpo aquecido pelas termas encontra o ar frio do deserto, e a diferença de temperatura pode ser brutal sem proteção. Mesmo no verão austral.
Como encaixar esse passeio no roteiro
Puritama funciona melhor em dois momentos específicos de qualquer roteiro em San Pedro de Atacama.
O primeiro é no início, junto com o Valle de la Luna ou o tour arqueológico. Os três passeios têm altitude próxima à de San Pedro — sem o salto para os 4.000 metros dos gêiseres ou das lagunas altiplanicas — e qualquer combinação deles num mesmo dia ou em dias consecutivos no começo da viagem serve como aclimatação gradual e bem aproveitada.
O segundo momento é no fim do roteiro, depois de El Tatio. Há uma razão muito prática: uma parte dos grupos que vai aos gêiseres faz uma parada nas Termas de Puritama no caminho de volta para San Pedro, já que a estrada passa próxima ao cânion. Mas nem todos os tours incluem essa parada, e quem faz os gêiseres costuma chegar de volta ao meio-dia — tempo suficiente para pegar o transfer de tarde para as termas e encerrar o roteiro do Atacama no lugar mais relaxante do circuito inteiro.
Para quem tem apenas quatro ou cinco dias no Atacama e precisa escolher, Puritama não é o passeio que vai concorrer com os géiseres ou com as lagunas altiplanicas em termos de espetáculo visual. Mas para quem tem uma ou duas horas a mais num dia de transição — ou para quem quer um dia de descanso sem abrir mão de experiência —, é o passeio que entrega relaxamento dentro de uma paisagem que nenhum spa do mundo consegue replicar.
A água quente, o cânion de pedra, o céu azul de altitude. O silêncio quebrado só pelo rio. Há dias de viagem que ficam na memória pelo que exigiram. E há os que ficam pelo que permitiram.
Informações práticas (2026):
- Localização: ~30 km ao norte de San Pedro de Atacama, pela B-245
- Altitude: 3.500 m
- Turnos: manhã (9h–13h30) e tarde (13h–18h)
- Capacidade: máximo 140 pessoas por turno
- Entrada adulto: CLP$ 35.000 | Crianças e idosos: CLP$ 17.000
- Transfer compartilhado: a partir de CLP$ 25.000 por pessoa
- Ingresso comprado antecipadamente no site oficial — não é vendido na portaria
- Inclui: 8 piscinas naturais, vestiários, banheiros
- Protetor solar: apenas orgânico/natural, aplicado antes de entrar
- Recomendado para todos os perfis, inclusive crianças a partir de 5 anos