Como é o Caminho Primitivo no Caminho de Santiago de Compostela

O Caminho Primitivo é a rota mais antiga do Caminho de Santiago, saindo de Oviedo e cruzando montanhas, vilarejos e paisagens rurais até Santiago de Compostela, em uma peregrinação exigente e muito bonita.

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O Caminho Primitivo costuma ser escolhido por quem quer um percurso com mais natureza, menos multidões e uma sensação maior de travessia. Ele parte de Oviedo, nas Astúrias, e chega a Santiago após cerca de 320 km, normalmente percorridos em 12 a 16 dias, conforme o preparo físico, o ritmo e as paradas planejadas.

A origem histórica é um dos grandes atrativos. A tradição associa a rota à peregrinação do rei Alfonso II, no século IX, quando ele teria viajado de Oviedo a Compostela para verificar a descoberta atribuída aos restos do apóstolo São Tiago. Por isso, recebe o nome de “Primitivo”: é considerado o primeiro caminho jacobeu organizado.

Mas não é só uma rota histórica. É um caminho fisicamente mais duro que o Francês e o Português.

Como são as paisagens

No começo, o peregrino atravessa o interior das Astúrias, com vales verdes, estradas rurais, pequenas aldeias, bosques e bastante relevo. Há dias de subida longa, descidas que castigam joelhos e trechos em altitude nos quais o clima muda rápido.

A região do Hospitales, antes de Grandas de Salime, é a parte mais emblemática e também uma das mais exigentes. Trata-se de uma variante por áreas altas e abertas, com paisagens amplas e pouca infraestrutura no trajeto. Em condições ruins de tempo, especialmente com neblina, vento forte ou neve, ela pode ser desaconselhada. Existe uma alternativa mais baixa, pela estrada e por povoados, que costuma ser a escolha mais prudente quando o clima fecha.

Ao entrar na Galícia, o cenário continua rural, mas ganha outro ritmo: mais bosques, estradas estreitas, muros de pedra, vilas pequenas e umidade mais presente. A rota passa por cidades importantes como Lugo, conhecida pela muralha romana preservada, antes de seguir rumo a Melide.

Em Melide, o Caminho Primitivo encontra o Caminho Francês. A mudança é perceptível: aparecem bem mais peregrinos, albergues cheios e uma estrutura maior de bares e serviços até Santiago.

É um caminho difícil?

Sim, para a média dos peregrinos, é uma das rotas mais exigentes. Não porque seja impossível, mas porque combina três fatores: desnível, trechos isolados e clima instável.

A primeira metade, entre Oviedo e Lugo, costuma exigir mais atenção. Há etapas que podem parecer curtas no mapa, mas levam bastante tempo por causa do terreno. Uma caminhada de 20 km com subidas constantes, pedras molhadas e lama não tem o mesmo efeito de 20 km em uma rota plana.

Também não é a melhor escolha para quem vai caminhar sem qualquer preparação física. Fazer treino de caminhada por algumas semanas antes da viagem, usando a mochila e testando a bota, reduz bastante a chance de bolhas, dores musculares e abandono precoce.

Etapas e tempo de viagem

Não há uma divisão obrigatória de etapas. Cada pessoa adapta a rota ao próprio corpo, à disponibilidade de hospedagem e ao tipo de experiência que busca. Ainda assim, uma organização comum é esta:

TrechoDistância aproximadaPerfil
Oviedo a Salas50 kmInício com subidas e interior asturiano
Salas a Tineo20 kmRural e com relevo
Tineo a Pola de Allande28 kmEtapa longa e desgastante
Pola de Allande a Berducedo18 kmSubidas importantes
Berducedo a Grandas de Salime20 kmMontanha e descida marcante
Grandas de Salime a A Fonsagrada28 kmEntrada na Galícia e altimetria
A Fonsagrada a Lugo54 kmPode ser dividido em duas ou três etapas
Lugo a Melide102 kmTrechos rurais e mais tranquilos
Melide a Santiago53 kmTrecho compartilhado com o Caminho Francês

Na prática, a maioria das pessoas divide os 320 km em cerca de duas semanas. Quem tem excelente condicionamento pode fazer em menos tempo, mas apertar demais o roteiro tira uma parte importante da experiência e aumenta o risco de lesão.

Estrutura de hospedagem e alimentação

O Caminho Primitivo tem albergues públicos, privados, pensões, casas rurais e pequenos hotéis. A estrutura é boa, mas menos abundante do que no Caminho Francês, principalmente nas áreas montanhosas das Astúrias.

Por isso, vale reservar com antecedência em alta temporada, sobretudo entre maio e outubro. Não é necessário transformar toda a viagem numa sequência rígida de reservas, mas algumas localidades menores têm poucas camas, e chegar tarde pode limitar as opções.

Em alimentação, o peregrino encontra bares e restaurantes em muitos pontos, porém há trechos em que não convém depender da sorte. Levar água, frutas, castanhas, sanduíche ou algum lanche simples é uma decisão prática. Nos dias de montanha, sair sem provisão pode virar um problema.

A culinária é outro motivo para gostar da rota. Nas Astúrias, aparecem pratos mais robustos, sidra e queijos locais. Já na Galícia, a comida ganha sabores como caldo galego, empanadas, queijos, polvos e carnes. Em Melide, por exemplo, o polvo à galega é quase uma parada clássica, embora seja bom evitar exageros antes de uma etapa longa.

Quando fazer o Caminho Primitivo

A melhor época, em geral, vai de maio a junho e de setembro a outubro. Nesses períodos, as temperaturas tendem a ser mais agradáveis e o fluxo de peregrinos costuma ser mais equilibrado do que no auge do verão europeu.

Julho e agosto têm dias longos e mais estrutura funcionando, mas também podem trazer calor em partes do percurso, hospedagens mais concorridas e maior movimento a partir de Melide.

No inverno, o Caminho Primitivo exige outro nível de planejamento. Neve, gelo, chuva persistente, vento e baixa visibilidade podem afetar as partes altas. Alguns estabelecimentos fecham fora da temporada. Não é uma rota para improvisar nos meses frios.

Independentemente da época, capa de chuva e proteção para mochila são itens realmente úteis. No norte da Espanha, o tempo pode mudar dentro da mesma caminhada.

Credencial e Compostela

Para receber a Compostela, o certificado tradicional entregue em Santiago, é necessário cumprir os requisitos definidos pela Oficina del Peregrino. No caso de quem vai a pé, é preciso percorrer pelo menos os últimos 100 km de uma rota reconhecida, utilizando a credencial do peregrino e registrando os selos ao longo do caminho.

Quem inicia em Oviedo e completa o Caminho Primitivo inteiro supera essa distância com folga. A credencial também é importante para usar muitos albergues de peregrinos.

Vale preencher os dados com cuidado e carimbar a credencial diariamente. Nos últimos 100 km, é recomendável obter pelo menos dois selos por dia, algo simples de fazer em albergues, igrejas, cafés e hospedagens.

Para quem o Caminho Primitivo faz mais sentido

Ele combina muito com quem já caminha regularmente, aprecia silêncio e busca paisagens naturais mais marcantes. Também é uma ótima alternativa para quem quer fugir da sensação de roteiro turístico muito cheio.

Não é preciso ser atleta. Mas é preciso respeitar o próprio ritmo.

Muita gente erra ao tentar copiar etapas prontas de guias ou aplicativos como se fossem obrigação. O melhor ritmo é aquele que permite chegar ao destino ainda com energia para tomar banho, comer bem, cuidar dos pés e olhar em volta. Caminhar todos os dias com dor intensa não faz parte de uma boa experiência de peregrinação.

O Caminho Primitivo tem momentos de isolamento, dias de chuva e trechos que pedem persistência. Em troca, entrega uma rota com identidade forte, paisagens menos urbanizadas e uma chegada a Santiago que costuma ter um peso especial justamente pelo esforço acumulado.

A parte galega oficial do Caminho Primitivo tem cerca de 167 km, dependendo da variante escolhida, segundo a informação turística oficial da Galícia. A rota completa desde Oviedo é consideravelmente mais longa, com aproximadamente 320 km até a Catedral de Santiago de Compostela.

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