Coisas que o Viajante não Deve Fazer Durante Terremoto na Viagem
Os erros mais comuns que viajantes cometem durante um terremoto e o que fazer no lugar deles, com base nos protocolos usados no Chile, no Japão e nas recomendações oficiais de proteção civil.

Trinta segundos decidem quase tudo
Terremoto não avisa. Isso muda completamente a natureza do problema, porque a maior parte das decisões que salvam ou complicam a vida de alguém acontece nos primeiros trinta a sessenta segundos, quando o corpo está em modo reativo puro. E o reflexo natural do ser humano, quando o chão se move, é fazer justamente a coisa errada: correr para fora.
Existe muito material sobre “o que fazer” em caso de terremoto. Achei mais útil escrever pelo avesso, listando o que não se deve fazer, porque na prática é isso que mata gente. Estatística de terremoto não é bonita de ler, mas ela é clara em um ponto: a maioria das mortes e das lesões graves em eventos de magnitude moderada não vem do prédio inteiro caindo. Vem de objeto que despenca, de vidro que estilhaça, de queda durante fuga, de tijolo de fachada que solta na calçada e de decisão errada nos minutos seguintes.
Vou percorrer isso na ordem em que costuma acontecer numa viagem.
Não corra para fora do prédio
Esse é o erro número um, e é o mais difícil de combater, porque contraria o instinto.
A recomendação oficial de praticamente todas as agências sérias de gestão de risco, incluindo a proteção civil chilena (SENAPRED, antiga ONEMI), a agência japonesa e a americana, é a mesma: durante o tremor, permaneça onde está. Não tente sair correndo. A explicação é bem concreta. A fachada de um prédio é a parte mais frágil da estrutura em termos de elementos não estruturais. Revestimento, vidro, marquise, telha, ar-condicionado de janela, letreiro, cornija de prédio antigo. Tudo isso desprende e cai exatamente na calçada, no lugar onde você acabou de chegar depois de descer as escadas em pânico.
Em Ciudad de México, no terremoto de 2017, boa parte dos ferimentos registrados aconteceu na rua, com pessoas atingidas por escombro de fachada. No Chile em 2010, os relatos de lesão por queda em escada durante evacuação enquanto o chão ainda se movia foram frequentes.
O certo é agachar, proteger cabeça e nuca, e se abrigar sob uma mesa firme ou ao lado de um móvel robusto, longe de janela. Se você está na cama e o tremor começa, a orientação é permanecer na cama e proteger a cabeça com o travesseiro, a não ser que exista algo pesado pendurado logo acima, tipo lustre ou prateleira. Levantar no escuro, num quarto de hotel desconhecido, com o chão se movendo e vidro no piso, tende a ser pior do que ficar.
Sair, sim, mas depois que parar. E aí sim, com calma, olhando para cima.
Não use o elevador. Nunca
Parece obviedade, mas em hotel de dez andares, às três da manhã, com corredor no escuro, gente aperta o botão do elevador por automatismo.
Elevador em terremoto é uma armadilha por três motivos. Pode parar entre pavimentos com queda de energia. O sistema de guias pode se deformar e travar a cabine. E os sensores sísmicos, quando existem, fazem o elevador parar no andar mais próximo e abrir a porta, o que é ótimo se você tiver sorte, mas não é comportamento garantido em equipamento antigo.
Se você estiver dentro de um elevador quando o tremor começar, aperte todos os botões de andar. Muitos elevadores param no primeiro andar acionado. Se ficar preso, use o interfone e espere. Não tente forçar a porta nem subir pelo alçapão do teto, porque o poço tem contrapeso em movimento e cabos, e isso já matou gente.
Não fique embaixo do vão da porta
Essa é uma crença antiga e bastante disseminada, inclusive na América Latina: “corra para o vão da porta”. Era uma orientação razoável em casas de adobe e alvenaria antiga, onde o portal reforçado com madeira era realmente uma das partes mais rígidas da construção.
Em edificação moderna, de concreto armado ou estrutura metálica, isso não se sustenta. O vão da porta não é mais resistente que o resto da estrutura, não protege de objeto caindo e ainda coloca você num lugar onde a porta pode bater com força, além de estar em rota de circulação de gente correndo. As agências americanas e chilenas abandonaram essa recomendação há anos justamente porque ela dava falsa sensação de segurança.
O protocolo atual é agachar, cobrir e segurar. Em inglês virou slogan, “drop, cover, hold on”. Em espanhol o Chile usa “agáchese, cúbrase, afírmese”. Segurar importa porque durante um tremor forte você não fica de pé, você é derrubado, e ser derrubado contra um móvel é uma das formas comuns de se machucar.
Não vá para a janela ver o que está acontecendo
Curiosidade é uma força poderosa e péssima conselheira aqui. Vidro é o material que mais fere em terremoto. Janela grande, sacada envidraçada, porta de correr de hotel com vista para o mar, tudo isso pode estilhaçar com a deformação do caixilho.
O mesmo vale para não ficar perto de estante, armário alto, televisão pendurada, quadro grande, espelho e frigobar sobre superfície alta. Em quarto de hotel, o lugar mais seguro em geral é o piso ao lado da cama, no lado oposto à janela, com a cabeça protegida.
Não acenda fósforo, isqueiro ou vela
Depois de tremor forte é comum haver vazamento de gás, tanto de rede como de botijão. Chama aberta em ambiente onde pode haver gás acumulado é como se pede um segundo desastre. Boa parte da destruição do terremoto de São Francisco em 1906 e do Grande Terremoto de Kanto, no Japão em 1923, veio de incêndio, não do tremor em si. Em Kanto morreram mais de 100 mil pessoas, e a maioria por fogo.
Use a lanterna do celular. E se sentir cheiro de gás, feche o registro se souber onde está, abra a janela e saia. Não acione interruptor de luz, porque a faísca do contato elétrico basta.
Não corra de volta para o quarto para pegar suas coisas
Aqui entra um ponto muito específico de viajante. Passaporte, dinheiro, notebook, câmera. A tentação de voltar é enorme, e a réplica é exatamente o momento em que a estrutura já comprometida cede.
Réplica não é detalhe. Depois de um terremoto grande, réplicas de magnitude 6 ou mais são comuns nas horas e nos dias seguintes. Depois do Maule, no Chile em 2010, houve centenas de réplicas, várias acima de 6. Em Christchurch, na Nova Zelândia, a réplica de 2011 foi mais destrutiva que o evento principal de 2010, porque foi mais rasa e mais próxima da cidade. Morreram 185 pessoas.
O jeito de resolver isso é antes: mantenha passaporte, cartão, um pouco de dinheiro em espécie, cópia digital de documento e medicação de uso contínuo sempre num mesmo bolso ou pochete pequena de fácil acesso. Se precisar sair de um hotel em dez segundos, você pega uma coisa só. É a mesma lógica de quem mora em zona de risco.
Não desça correndo a escada durante o tremor
Escada é um elemento estrutural que se comporta de forma independente do resto do prédio, com movimento próprio, e historicamente é um ponto de dano em edifícios. Além disso, escada com dezenas de pessoas em pânico produz queda, pisoteio e fratura.
Espere o tremor parar. Depois desça, com calma, atento a rachadura, degrau deslocado e escombro. E não volte a subir sem liberação.
Não ignore o próprio tremor como aviso de tsunami
Este é o erro mais letal em zona costeira do Pacífico, e vale muito para quem viaja pelo Chile, Peru e Equador.
Quando o epicentro é próximo, a onda pode chegar em quinze, vinte minutos, às vezes menos. Nenhum sistema de alerta consegue avisar, confirmar e evacuar uma cidade nesse prazo com folga. Por isso o protocolo chileno e o japonês colocam o próprio terremoto como o alerta. A regra prática, adotada oficialmente: se você está na costa e o tremor for forte o suficiente para dificultar ficar de pé, ou durar mais de um minuto, evacue para terreno alto imediatamente, sem esperar sirene, sem esperar aviso, sem esperar confirmação de ninguém.
Duas coisas relacionadas, igualmente importantes.
Não vá para a praia ver o mar recuar. O recuo súbito da água é sinal clássico de tsunami a caminho, não é fenômeno turístico. Em 2004, no Índico, muita gente morreu justamente por caminhar em direção ao mar exposto.
E não volte depois da primeira onda. Tsunami é uma série de ondas, e frequentemente a segunda ou a terceira é maior que a primeira, com intervalo que pode passar de meia hora. A liberação para retorno vem da autoridade local. No Chile, do SHOA e da SENAPRED.
Não confie em número de magnitude para decidir se é grave
Magnitude 7 longe e profundo pode ser inofensivo. Magnitude 6 raso e embaixo da cidade pode ser devastador. O terremoto de Armênia, na Colômbia em 1999, teve magnitude 6,2 e matou cerca de 1.180 pessoas. O de Iquique, no Chile em 2014, teve 8,2 e matou cerca de 6.
O que decide o estrago é a combinação de profundidade, distância, tipo de solo e qualidade da construção. Solo mole amplifica onda, e isso já explicou desastre em Caracas em 1967 e na Cidade do México em 1985. Portanto, não relaxe porque o app disse 5,8 e não entre em pânico porque disse 7,5. Observe o que está ao seu redor.
Não use o telefone para ligar, a não ser que seja emergência real
Rede de telefonia cai por sobrecarga muito antes de cair por dano físico. Milhares de pessoas ligando ao mesmo tempo travam o sistema e atrapalham quem precisa de resgate.
Mensagem de texto e aplicativo de dados costumam passar mesmo com rede congestionada, porque usam pacote pequeno. Mande uma mensagem curta para a família dizendo que está bem, informe onde está, e economize bateria. Coloque o celular em modo de economia. Bateria é recurso escasso quando falta luz por dias.
Não saia dirigindo ou andando pela cidade “para ver como ficou”
Depois de tremor forte, rua é lugar de escombro solto, fio de energia caído, poste inclinado, vazamento e passeio de gente. Circular atrapalha operação de emergência e expõe você a queda de fachada, que continua acontecendo nas réplicas.
Se você estiver dirigindo quando o tremor começar, pare em local aberto, longe de ponte, viaduto, túnel, poste e encosta, permaneça no carro com o cinto e espere. Carro tem estrutura e amortecimento, é um lugar razoável. Depois, evite ponte e passagem elevada sem inspeção.
E se estiver em estrada de montanha, o que é comum em roteiro andino, o problema principal passa a ser deslizamento. Nesse cenário, não force travessia. Deslizamento e queda de bloco depois de sismo são causa recorrente de morte e de isolamento de estrada no Peru, na Bolívia, no Chile e na Colômbia.
Não entre em prédio que “parece” ok
Aqui a intuição falha muito. Dano estrutural sério pode ser quase invisível para leigo, escondido em pilar, viga e nó de ligação, enquanto a pintura fica intacta. Já vi o inverso também: prédio com parede de alvenaria toda rachada, aspecto terrível, e estrutura íntegra, porque alvenaria de vedação não sustenta nada.
A regra é simples: não volte a entrar antes de liberação oficial. Vale para hotel, shopping, aeroporto e igreja. Igreja histórica, aliás, é um dos lugares mais perigosos em terremoto na América Latina, porque são construções antigas, de alvenaria pesada, com abóbada e torre, sem reforço sísmico. O mesmo se aplica a centro histórico colonial em Cusco, Quito, Arequipa, Popayán e Sucre. São lindos e são frágeis.
Não beba água da torneira nem coma o que ficou solto na geladeira sem energia
Sismo rompe adutora e mistura esgoto com rede de água. Depois de terremoto grande, a orientação padrão é consumir água engarrafada ou fervida até aviso das autoridades. Já é bom hábito de viagem em várias cidades andinas, mas em cenário pós-sismo vira regra.
Não fique no meio da multidão nem entre em disputa por recurso
Em cenário de desabastecimento, posto de combustível, supermercado e caixa eletrônico concentram tensão. Depois do terremoto de 2010 no Chile houve saque em Concepción e a região chegou a ter toque de recolher e presença militar. Não é lugar de estrangeiro procurando abastecer de última hora.
Ter uma reserva mínima na mochila resolve quase todo esse problema: uma garrafa de água, algo calórico, lanterna, bateria externa carregada, cópia de documento e dinheiro em espécie em notas pequenas. Máquina de cartão para de funcionar sem energia e sem internet.
Não ignore instrução em espanhol ou outro idioma porque você não entendeu
Detalhe prático de viajante brasileiro. Quando funcionário do hotel ou agente de proteção civil dá instrução, mesmo em espanhol ou outro idioma rápido, é preciso seguir. Muita gente sorri, agradece e faz o oposto. Vale aprender três palavras antes de viajar: evacuación, zona segura, réplica. E vale saber que no Chile, por exemplo, placa verde com seta e a palavra “vía de evacuación” indica rota para cota alta, e “zona segura de tsunami” indica o ponto final.
Não deixe de se registrar no consulado e não confie só na sorte
O Itamaraty mantém o serviço de registro de brasileiros no exterior, que ajuda a localização em caso de emergência. Levar dez minutos antes de viajar. Junte com isso o telefone do consulado brasileiro na cidade de destino salvo offline e a apólice do seguro em PDF no celular.
E uma coisa que sempre repito: confira se o seguro cobre desastre natural, evacuação e interrupção de viagem. Muitas apólices baratas excluem “atos da natureza”, o que é um jeito elegante de dizer que não vão pagar nada justamente no cenário em que você mais precisa. Em 2010, com o aeroporto de Santiago comprometido por dias, essa cláusula fez diferença real na conta de muita gente.
O que eu acho que resume tudo
O viajante bem preparado para terremoto não é o que sabe muita geologia. É o que já pensou uma vez, com calma, em três coisas: onde eu me abrigo neste quarto, por onde eu saio deste prédio, e para onde eu subo se eu estiver na costa. Dois minutos de reflexão no check-in valem mais do que qualquer aplicativo.
O resto é resistir ao instinto. Não correr, não usar elevador, não acender chama, não voltar para pegar coisas, não descer para ver o mar. Terremoto é um dos raros eventos em que a resposta certa é quase sempre o oposto do que o corpo quer fazer.

