A História do Vinho Brunello di Montalcino na Itália

A história do Brunello di Montalcino é a trajetória de um vinho que nasceu da obstinação de uma única família no século 19, atravessou guerras, crises e escândalos, e se transformou em um dos rótulos mais respeitados do mundo, contada aqui desde as raízes medievais do cultivo da Sangiovese nas colinas da Toscana até a explosão internacional do Brunello a partir dos anos 1970 e o panorama atual da denominação, com as famílias fundadoras, os marcos regulatórios e as polêmicas que marcaram o caminho.

Fonte: Civitatis

Tem vinho que conta a história de uma região. E tem vinho que é a história de uma região. O Brunello di Montalcino é desse segundo tipo. Você não consegue separar o vinho da terra, nem a terra das famílias que decidiram, contra todo o ceticismo, que aquela uva específica naquele canto específico da Toscana podia produzir algo grandioso. E produziram. Mas demorou. E custou.

Vou contar essa história do jeito que ela merece ser contada. Sem a versão sanitizada das brochuras turísticas, sem aquele tom de mito fundador irretocável, mas também sem perder o respeito por uma das tradições enológicas mais importantes da Europa. O Brunello tem episódios bonitos, tem episódios feios, tem heróis discretos e tem alguns escândalos que quase derrubaram a denominação. Tudo isso faz parte.

Antes de tudo: o que era Montalcino antes do Brunello

Para entender o nascimento do Brunello, você precisa saber o que era Montalcino antes dele. E não era nada glorioso, vinicolamente falando.

Durante a Idade Média, Montalcino era uma cidade importante. Independente até o século 16, com fortificações que ainda hoje impressionam, posicionada estrategicamente entre as repúblicas de Siena e Florença, sobreviveu a vários cercos e teve papel relevante na história toscana. A vila chegou a ser a “última Siena”, o lugar para onde os refugiados de Siena fugiram em 1555, quando a cidade caiu para os florentinos. Os sienenses resistiram em Montalcino por mais quatro anos antes da rendição final.

Mas economicamente, Montalcino sempre foi pobre. Solos pedregosos, agricultura difícil, isolamento geográfico. O vinho que se produzia ali nos séculos 17, 18 e início do 19 era genérico, mistura de várias uvas, vendido a granel para Siena e arredores, sem qualquer pretensão de qualidade. Era vinho de subsistência. Como em tantos outros cantos da Toscana.

A uva Sangiovese existia ali, sim. Estava plantada. Mas misturada com outras variedades, vinificada de qualquer jeito, sem cuidado nem identidade. Ninguém em Montalcino, em 1850, suspeitaria que aquela região se tornaria, cento e cinquenta anos depois, um dos endereços mais cobiçados do mundo do vinho.

O século 19 e a obstinação de Clemente Santi

A história moderna do Brunello começa com Clemente Santi, um farmacêutico e proprietário de terras nascido em 1795, dono da propriedade Il Greppo, nos arredores de Montalcino. Clemente era um homem instruído, com formação científica, interessado em agronomia e em técnicas modernas de vinificação que começavam a aparecer na França e em outras regiões da Europa.

Ele percebeu algo importante. Entre as várias subvariedades de Sangiovese cultivadas em Montalcino, havia uma específica, com cachos menores, casca mais escura, taninos mais firmes, que dava vinhos diferentes. Mais profundos, mais estruturados, com capacidade de envelhecimento muito maior do que o Sangiovese comum. Os camponeses locais chamavam essa uva de “brunello”, literalmente “marronzinho”, pela cor escura das cascas.

Clemente decidiu fazer algo que ninguém em Montalcino fazia: vinificar essa uva sozinha, sem misturar com outras, e envelhecer o vinho em barricas de carvalho antes de engarrafar. Era uma aposta. E era uma aposta cara, porque exigia muito mais tempo e muito mais cuidado do que o vinho comercial da época.

Em 1869, Clemente Santi apresentou um vinho na Esposizione Agraria di Montepulciano com o rótulo “scelto, vino rosso 1865” (vinho tinto selecionado de 1865). Esse é, segundo a maioria dos historiadores, o primeiro Brunello documentado da história. Ganhou medalha. Foi notado. Mas não decolou comercialmente. Clemente morreu em 1877 sem ver o vinho que ajudou a criar se transformar em um produto de prestígio.

Ferruccio Biondi-Santi e o nascimento oficial em 1888

O salto decisivo veio com o neto de Clemente, Ferruccio Biondi-Santi, que herdou Il Greppo e levou as experimentações do avô para outro nível.

Ferruccio era um patriota italiano, veterano das guerras de unificação (lutou ao lado de Garibaldi), com mentalidade reformadora e disposição para inovar. Quando assumiu a propriedade, ele fez algo radical para a época: replantou os vinhedos exclusivamente com o clone específico de Sangiovese (que ele passou a chamar oficialmente de “Sangiovese Grosso”), eliminou todas as outras uvas que se misturavam tradicionalmente, e estabeleceu um protocolo rigoroso de vinificação.

A safra de 1888 é a primeira considerada oficialmente como Brunello di Montalcino no formato moderno. Cem por cento Sangiovese Grosso. Longo envelhecimento em barricas grandes de carvalho. Engarrafamento só depois de anos.

Aqui entra um detalhe que poucos sabem: aquela primeira garrafa de 1888 (e algumas das safras seguintes) ainda existem. A família Biondi-Santi guardou exemplares dessa primeira safra histórica em sua adega particular, e a recava periódica (rolha trocada, nível restaurado) é um ritual que se mantém há mais de cem anos. Foram abertas garrafas dessa safra em ocasiões raras, e os relatos descrevem um vinho ainda vivo, depois de mais de 130 anos. Isso é o tipo de coisa que define o conceito de “vinho de guarda”.

Ferruccio insistiu durante décadas que o Brunello precisava de tempo. Defendia que o vinho só devia ser comercializado depois de pelo menos quatro ou cinco anos em barrica. Isso ia contra toda a lógica comercial da época, que privilegiava vinhos jovens, baratos e de rápida rotação. Ele perdeu dinheiro durante muito tempo apostando nessa filosofia. Mas plantou uma identidade que sobreviveria a ele.

O século 20 e o longo período de obscuridade

Aqui vem uma parte que poucas brochuras turísticas contam. Durante a maior parte do século 20, o Brunello di Montalcino foi um vinho praticamente desconhecido fora de um círculo muito pequeno de conhecedores. Não era prestigiado. Não era exportado em volume relevante. Não fazia parte do imaginário internacional do vinho italiano.

Por décadas, depois da morte de Ferruccio em 1917, a produção de Brunello continuou sendo basicamente uma operação familiar da família Biondi-Santi, com pouquíssimos outros produtores se aventurando no estilo. Em 1929, segundo relatos da própria família, existiam apenas quatro safras de Brunello classificadas como excepcionais nos cinquenta anos anteriores: 1888, 1891, 1925 e 1945. Cada uma delas foi (e ainda é) considerada uma raridade absoluta no mercado de vinhos antigos.

O filho de Ferruccio, Tancredi Biondi-Santi, continuou o trabalho do pai com a mesma intransigência. Tancredi atravessou as duas guerras mundiais administrando Il Greppo, manteve a tradição de longas guardas e foi quem efetivamente sistematizou as práticas que viriam a se tornar regras da denominação.

Mas a região como um todo continuava pobre. Nos anos 1950 e 1960, depois da Segunda Guerra, Montalcino sofreu o êxodo rural que afetou toda a Itália meridional e central. Camponeses abandonando o campo, propriedades sendo vendidas, terras agrícolas voltando ao mato. Em meados dos anos 1960, a comuna de Montalcino tinha pouco mais de uma dezena de produtores que efetivamente vinificavam Brunello para venda. Era uma fração ínfima do que é hoje.

1966: a DOC e o reconhecimento oficial

Em 1966, o Brunello di Montalcino recebeu o reconhecimento de DOC (Denominazione di Origine Controllata), parte do novo sistema italiano de classificação de vinhos criado em 1963. Esse foi o primeiro passo institucional importante. As regras de produção foram codificadas: 100% Sangiovese, envelhecimento mínimo, área geográfica delimitada.

O Consorzio del Vino Brunello di Montalcino foi fundado em 1967, com 25 produtores fundadores. Vinte e cinco. Esse era o tamanho da denominação naquele momento. Compare com os mais de 200 produtores que existem hoje, e você entende como o Brunello cresceu nas décadas seguintes.

A DOC criou as bases legais, mas o reconhecimento internacional ainda estava por vir.

Os anos 1970 e o ponto de virada

A virada começou nos anos 1970, por uma combinação de fatores que se reforçaram mutuamente.

Primeiro, a chegada da família Mariani, italo-americanos da Banfi Vintners, que adquiriram em 1978 uma propriedade enorme ao sul de Montalcino (cerca de 2.800 hectares, dos quais aproximadamente 850 hoje são vinhedos). A Banfi trouxe capital, tecnologia, marketing internacional e ambição comercial em escala que Montalcino nunca tinha visto. Para o bem e para o mal, a Banfi foi quem efetivamente colocou Montalcino no mapa global do vinho.

Segundo, o trabalho do enólogo Giulio Gambelli, conhecido como “Bicchierino” pela sua capacidade lendária de avaliar vinhos. Gambelli foi consultor de vários produtores importantes da região (Soldera, Poggio di Sotto, entre outros) e ajudou a refinar o estilo do Brunello tradicional, mais elegante, com taninos mais finos e maior longevidade.

Terceiro, o ingresso de famílias com recursos e visão de longo prazo: Frescobaldi, Antinori, Mazzei (que já tinham tradição vinícola em outras partes da Toscana) entraram em Montalcino. Outros nomes históricos da região começaram a investir em qualidade: Il Poggione, Costanti, Fattoria dei Barbi, e claro, a própria Biondi-Santi continuou sendo a referência absoluta.

Quarto, e talvez decisivo: as safras dos anos 1970 e início dos 1980 foram excepcionais. 1970, 1975, 1985, 1988, 1990. Cada uma dessas safras gerou vinhos que envelheceram esplendidamente e que, quando começaram a ser provados pelos críticos internacionais nas décadas seguintes, criaram a reputação que existe hoje.

1980: a primeira DOCG da Itália

Em 1980, o Brunello di Montalcino recebeu o status de DOCG (Denominazione di Origine Controllata e Garantita), o nível máximo da classificação italiana. E aqui um detalhe que vale destacar: o Brunello foi a primeira DOCG da Itália, junto com o Barolo, o Barbaresco e o Vino Nobile di Montepulciano. Foram os quatro primeiros vinhos italianos a alcançar esse status, anunciados oficialmente em julho de 1980.

Esse reconhecimento foi um marco simbólico. Significava que o sistema italiano colocava o Brunello no topo absoluto da hierarquia de seus vinhos, ao lado dos grandes Barolos do Piemonte. E significava também regras mais rigorosas: envelhecimento mínimo de cinco anos (com pelo menos dois em madeira), seis anos para a Riserva, controles estritos de rendimento por hectare, e a obrigação dos 100% Sangiovese Grosso.

A partir desse momento, o Brunello entrou em uma trajetória de crescimento que se manteve por quase três décadas.

A explosão dos anos 1990 e 2000

Os anos 1990 foram a década em que o Brunello deixou de ser um vinho de nicho para conhecedores e se tornou um item de prestígio global. As safras de 1995, 1997 (esta considerada lendária por muitos críticos) e 1999 atraíram pontuações altíssimas de figuras como Robert Parker, James Suckling e a revista Wine Spectator. Os preços dispararam. A demanda internacional explodiu.

Nesse período, a área plantada com Brunello em Montalcino cresceu de cerca de 600 hectares no início dos anos 1980 para mais de 2.000 hectares no início dos anos 2000. O número de produtores também cresceu na mesma proporção. Investidores estrangeiros (americanos, suíços, alemães) começaram a comprar propriedades. Os preços da terra em Montalcino se multiplicaram por dez, depois por vinte, depois por mais.

Em 2006, a Wine Spectator elegeu o Brunello Casanova di Neri Tenuta Nuova 2001 como o melhor vinho do mundo daquele ano. Foi a primeira vez que um italiano ganhou esse título. O efeito foi imediato: a demanda por Brunelli premium se multiplicou, e Montalcino entrou definitivamente no panteão internacional, ao lado de Bordeaux, Borgonha e Napa Valley.

2008: o Brunellopoli

Aqui entra o capítulo que poucos turistas conhecem, e que vale a pena conhecer.

Em 2008, estourou um escândalo que ficou conhecido na imprensa italiana como “Brunellopoli” (uma referência ao “Tangentopoli”, o grande escândalo de corrupção italiano dos anos 1990). A acusação era grave: várias vinícolas importantes da denominação teriam misturado outras uvas (Merlot, Cabernet Sauvignon, Syrah) ao Sangiovese, em violação direta à regra fundamental do Brunello, que exige 100% da uva autóctone.

A investigação, conduzida pela promotoria de Siena, atingiu produtores grandes e respeitados, incluindo nomes como Antinori (com a marca Pian delle Vigne), Castello Banfi, Frescobaldi (Castelgiocondo), Argiano, entre outros. Milhões de litros de vinho foram sequestrados pelas autoridades. As exportações para os Estados Unidos foram temporariamente bloqueadas até que cada lote fosse certificado como puro Sangiovese.

O impacto foi enorme. A reputação da denominação sofreu, os preços caíram, a confiança do mercado foi abalada. O consórcio reagiu propondo um referendo entre os produtores sobre permitir oficialmente a mistura de outras uvas. A votação aconteceu em 2008 e o resultado foi categórico: a comunidade produtora optou por manter a regra dos 100% Sangiovese. O Brunello continuaria sendo puro.

Esse episódio, embora doloroso, acabou fortalecendo a denominação a longo prazo. Reforçou a identidade do vinho, melhorou os controles, e gerou um movimento de produtores menores e mais tradicionalistas que se posicionaram firmemente em defesa da pureza do estilo.

O sistema de estrelas e a classificação das safras

Uma das características marcantes do Brunello é a classificação oficial das safras feita pelo Consorzio. Todo ano, depois da colheita, um painel de especialistas avalia a qualidade da safra e atribui de uma a cinco estrelas. Isso vira referência para o mercado, para colecionadores, para sommeliers do mundo todo.

Algumas das safras mais aclamadas da história moderna do Brunello:

SafraEstrelasObservações
19905 estrelasConsiderada lendária
19955 estrelasMarco da nova geração
19975 estrelasAclamada internacionalmente, ícone
20015 estrelasEquilibrada, longevidade alta
20045 estrelasElegante, taninos finos
20065 estrelasEstrutura clássica, longa guarda
20105 estrelasOutra safra excepcional
20155 estrelasAcessível mais cedo, muito boa
20165 estrelasConsiderada a do século por alguns
20195 estrelasRecentes, com grande potencial

A classificação influencia preços, mas não substitui a avaliação individual do produtor. Há Brunelli de 4 estrelas que envelhecem melhor que alguns de 5, dependendo da vinícola. Mas como referência geral, o sistema funciona bem e dá ao consumidor uma orientação confiável.

A geografia que faz o Brunello ser Brunello

Vale uma pausa para entender por que Montalcino especificamente, e não outro lugar da Toscana, produz esse vinho. A geografia importa demais.

A comuna de Montalcino fica no extremo sul da Toscana, em uma área de colinas altas (entre 120 e 650 metros de altitude) cercada por três rios: o Ombrone ao norte, o Asso ao leste e o Orcia ao sul. Esse isolamento geográfico cria um microclima específico: mais seco que o Chianti, mais ensolarado, com brisas constantes vindas do mar Tirreno (que está a apenas 40 km a oeste) e proteção parcial do Monte Amiata, ao sul, que filtra parte das chuvas vindas do leste.

Os solos são variadíssimos. Em uma única propriedade, você pode encontrar argila, calcário, galestro (xisto típico da Toscana), areia, e tufos vulcânicos. Essa diversidade explica por que o estilo do Brunello varia tanto de uma sub-região para outra dentro da própria comuna. Norte é mais elegante, sul é mais potente, leste mais estruturado, oeste mais vibrante.

A altitude e a amplitude térmica entre dia e noite (especialmente em agosto e setembro, quando as uvas terminam de amadurecer) preservam a acidez da Sangiovese e desenvolvem os aromas complexos que caracterizam o Brunello jovem. Vinhos mais quentes perdem essa frescura. Em Montalcino, ela se mantém.

As famílias e os nomes que escreveram a história

Impossível contar a história do Brunello sem citar algumas famílias e nomes específicos. Cada um deles contribuiu de forma distinta para o que a denominação se tornou.

Biondi-Santi: a família fundadora. Quatro gerações de obstinação. Hoje, a propriedade Tenuta Greppo continua produzindo o Brunello de referência absoluta da região, embora desde 2017 a família tenha vendido o controle para o grupo francês EPI. A continuidade do estilo foi mantida.

Tancredi Biondi-Santi: filho de Ferruccio, atravessou as duas guerras administrando a propriedade. Estabeleceu protocolos que viraram norma da denominação.

Franco Biondi-Santi: neto de Ferruccio, comandou Il Greppo por décadas no século 20, recusou-se a modernizar o estilo apesar das pressões de mercado, manteve a tradição. Morreu em 2013.

Família Mariani / Castello Banfi: italo-americanos que transformaram a escala do Brunello. Para alguns críticos, comercializaram demais a denominação. Para outros, foram fundamentais para levar o vinho ao mercado global.

Giulio Gambelli: o consultor enólogo lendário, conhecido como “Bicchierino”, que ajudou a definir o estilo do Brunello tradicional moderno. Morreu em 2012.

Gianfranco Soldera: produtor controverso, irascível, mas autor de alguns dos Brunelli mais elogiados da história. Em 2012 sua adega sofreu um caso de sabotagem em que toneladas de vinho foram derramadas por um ex-funcionário, em um dos episódios mais bizarros da história recente da denominação. Morreu em 2019.

Família Ricasoli, Mazzei, Frescobaldi, Antinori: famílias históricas da Toscana que investiram em Montalcino e contribuíram com expertise vinícola acumulada por séculos.

Casanova di Neri (família Neri): representam a nova geração de produtores que ascendeu a partir dos anos 1990, com vinhos que combinam tradição e técnica moderna.

O Brunello hoje: panorama atual

Hoje, a denominação Brunello di Montalcino conta com mais de 250 produtores certificados, área plantada de aproximadamente 2.100 hectares para Brunello (mais cerca de 510 hectares para Rosso di Montalcino), e produção anual em torno de 9 milhões de garrafas de Brunello. Os principais mercados de exportação são Estados Unidos, Alemanha, Suíça, Canadá e países asiáticos em ascensão.

Os preços variam enormemente. Um Brunello básico de produtor médio sai por 30 a 50 euros direto na vinícola. Brunelli de produtores top podem facilmente passar de 200 ou 300 euros. Garrafas raras de safras antigas (anos 1960, 1970, 1980 dos grandes nomes) atingem milhares de euros em leilões internacionais.

O preço da terra em Montalcino é, hoje, um dos mais caros do mundo do vinho. Hectare plantado com direito a produzir Brunello pode chegar a 1 milhão de euros ou mais, dependendo da localização. Isso cria uma barreira de entrada altíssima para novos produtores e concentra a propriedade em famílias estabelecidas ou em investidores com grande capacidade financeira.

A discussão atual na denominação é sobre como conciliar tradição com mudanças climáticas. As temperaturas mais altas das últimas décadas estão acelerando a maturação das uvas e mudando o perfil do vinho. Alguns produtores estão experimentando com altitudes maiores, com orientações de vinhedo diferentes, com técnicas de manejo da copa para preservar a frescura. É um debate vivo, que vai definir o Brunello das próximas décadas.

O que o Brunello ensina

Mais do que um vinho, o Brunello ensina algumas coisas que vale levar para casa.

Ensina sobre paciência. Você não faz Brunello rápido. Da colheita até a garrafa engarrafada e pronta para venda, são pelo menos cinco anos. Da garrafa para o auge da forma, podem ser mais dez, vinte, trinta anos. Quem faz Brunello pensa em décadas, não em trimestres.

Ensina sobre identidade. A escolha radical de Ferruccio Biondi-Santi, de apostar tudo em uma única uva, contra todas as conveniências comerciais da época, é uma lição sobre o que significa criar algo verdadeiramente próprio. O Brunello não é um vinho versátil, nem democrático, nem fácil. É ele mesmo, em uma intensidade que poucos vinhos do mundo conseguem alcançar.

Ensina sobre territorialidade. Não dá para fazer Brunello em outro lugar. Nem em outra parte da Toscana. Nem em outra parte da Itália. Nem em outro lugar do mundo. A combinação específica de solo, altitude, clima, sol, vento, mão humana, tradição acumulada, só existe ali. E essa especificidade é o que dá ao vinho seu valor absoluto.

Ensina sobre humildade também. Porque o Brunello, quando bem feito e bem envelhecido, simplesmente é melhor do que você. Você pode passar a vida estudando vinho, fazendo cursos, treinando o paladar, e ainda assim, quando abre uma garrafa de Brunello de safra excepcional com 25 anos de garrafa, tem que sentar, calar a boca e simplesmente provar. O vinho diz tudo.

A história continua sendo escrita. A cada ano, novas safras, novos produtores, novos desafios, novos defensores e novos críticos. Mas a essência permanece: uma uva, um lugar, tempo. É a fórmula que Clemente Santi descobriu no século 19, que Ferruccio Biondi-Santi formalizou em 1888, e que cento e quarenta anos depois continua produzindo um dos vinhos mais memoráveis do mundo.

E você, ao abrir uma garrafa de Brunello, está bebendo um pouco dessa história inteira. Vale lembrar disso na próxima taça.

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