Roteiro de 8 Dias Pela Costa da Puglia de Carro
Roteiro de 8 dias pela costa da Puglia de carro: distâncias reais entre Bari, Polignano a Mare, Monopoli, Ostuni, Alberobello, Torre dell’Orso, Otranto, Gallipoli e Lecce, o que ver em cada parada, quando ir, quanto se dirige por dia e os erros que mais atrapalham quem monta esse trajeto pela primeira vez.

O calcanhar da Itália, e por que ele funciona tão bem de carro
A Puglia é aquela faixa comprida no sudeste da Itália, o salto e o calcanhar da bota. Ela é banhada por dois mares, o Adriático a leste e o Jônico a oeste, e é justamente por isso que um roteiro em forma de laço faz tanto sentido ali. Você desce por uma costa e volta pela outra, sem repetir estrada.
É também uma das regiões italianas com menos relevo. Grande parte do território é planalto baixo e planície, o que na prática significa curvas suaves, distâncias curtas e trechos de estrada com o mar aparecendo do lado. Nada parecido com a tensão de dirigir na Costa Amalfitana.
O ponto que mais surpreende quem nunca foi é a densidade. Em oito dias você atravessa cidades brancas encravadas em colinas, casas de pedra em forma de cone, um centro histórico barroco inteiro esculpido em pedra amarela, cidades velhas sobre ilhas, praias com falésias e outras com areia branca e pinheiro atrás. E entre uma e outra, quase sempre menos de uma hora de carro.
Esse roteiro de oito dias com Bari, Polignano a Mare, Monopoli, Ostuni, Torre dell’Orso, Otranto, Gallipoli e Lecce cobre praticamente toda essa variedade. Vale entender cada parada, o que ela realmente entrega e onde o trajeto pede ajuste.
A lógica da rota, e um ajuste que vale fazer
O desenho clássico começa em Bari, no norte, desce pelo Adriático até a ponta do Salento e volta pela costa jônica. O total costuma ficar entre 400 e 500 quilômetros de deslocamento, o que dividido por oito dias é pouquíssimo: em vários dias você dirige menos de uma hora.
A parte que merece atenção é a ordem no fim. Colocar Gallipoli antes de Lecce faz você descer até a costa jônica e depois subir de volta uns 40 quilômetros para o interior. Não é grave, mas se Lecce for sua base de dormida no Salento, o mais racional é usar Lecce como centro e fazer Otranto, Torre dell’Orso e Gallipoli como saídas de dia. Lecce fica praticamente no meio da península salentina, com o Adriático a 40 minutos de um lado e o Jônico a 40 minutos do outro.
Ou seja: em vez de trocar de hotel todo dia, o formato que funciona melhor é três bases. Uma no Vale d’Itria, região dos trulli, para cobrir Polignano, Monopoli, Alberobello e Ostuni. Outra em Lecce ou arredores, para todo o Salento. E eventualmente uma noite em Bari, no começo ou no fim, dependendo do voo.
Dia 1: Bari, a cidade que quase todo mundo subestima
Bari é a capital da Puglia, com pouco mais de 300 mil habitantes, e é por ali que a maioria entra na região, pelo Aeroporto Karol Wojtyła. Por muito tempo Bari carregou fama de cidade de passagem, lugar para pegar o carro e sumir. Essa fama envelheceu mal.
O coração dela é Bari Vecchia, a cidade velha, um emaranhado de vielas de pedra clara entre o porto e o mar. É um bairro que passou por transformação real nas últimas décadas, de área evitada a região movimentada, cheia de mesas na rua. Ainda é um lugar onde você anda com atenção normal de cidade grande, mas está longe do bicho de sete cabeças que se contava.
O marco principal é a Basílica de San Nicola, e a história aqui é boa. As relíquias de São Nicolau de Mira, o santo que deu origem à figura do Papai Noel, foram trazidas para Bari em 1087 por marinheiros da cidade que as retiraram de Mira, na atual Turquia. A basílica foi construída para abrigá-las e é um dos exemplares mais importantes do românico da Puglia, com fachada larga, austera, quase de fortaleza. Ela é local de peregrinação tanto católica quanto ortodoxa, e é comum ver grupos russos e gregos na cripta.
A poucos minutos está a Catedral de San Sabino, também românica, mais sóbria e menos visitada, e o Castello Svevo, castelo normando-suevo reconstruído por Frederico II no século 13.
O programa de rua que vale é caminhar pelo Lungomare Nazario Sauro, a beira-mar larga construída nos anos 1920, e passar pela Muraglia, o trecho de muralha sobre o mar em Bari Vecchia, no fim da tarde, quando a cidade inteira sai para caminhar.
E tem a comida. Bari é o lugar das orecchiette, a massa em forma de orelhinha feita à mão, tradicionalmente servida alle cime di rapa, com um vegetal amargo da família da couve. Na Strada delle Orecchiette, em Bari Vecchia, ainda se vê senhoras fazendo a massa na porta de casa. Também nasce ali a focaccia barese, com tomatinho e azeitona, e o panzerotto, uma espécie de pastel frito recheado de tomate e mozzarella, comida de rua barata e viciante.
Um detalhe prático: pegar o carro logo na chegada e tentar dirigir dentro de Bari é uma escolha ruim. A cidade tem zonas de tráfego restrito, estacionamento complicado e trânsito nervoso. Vale ver Bari a pé e retirar o carro no dia da partida.
Dia 2: Polignano a Mare, a foto que todo mundo já viu
Polignano fica cerca de 35 quilômetros ao sul de Bari, uns 30 a 40 minutos de carro. É provavelmente a imagem mais reproduzida da Puglia: casas brancas empilhadas no alto de uma falésia de calcário caindo direto no Adriático.
A praia da foto é a Lama Monachile, também chamada Cala Porto, uma enseada de seixos entre dois paredões de rocha, com uma ponte antiga por cima. É pequena, fica lotada no verão e o acesso é por escada. A vista de cima, do Ponte Lama Monachile, é o que rende o retrato.
O centro histórico é minúsculo e branco, com arcos, terraços sobre o mar e uma quantidade absurda de mirantes. O Terrazza Santo Stefano é um dos mais bonitos. Espalhados pelas paredes há versos escritos, uma tradição local que virou marca da cidade.
Polignano também é a terra de Domenico Modugno, autor de Nel blu dipinto di blu, a canção mundialmente conhecida como Volare, de 1958. Há uma estátua dele na beira-mar, de braços abertos, e é ponto de encontro garantido.
Ali fica o Grotta Palazzese, restaurante instalado dentro de uma caverna natural na falésia, um dos endereços mais fotografados da Itália. Vale saber que ele é caro de verdade, a reserva precisa ser feita com muita antecedência e a avaliação da comida é bem menos entusiasmada que a do cenário. Você paga pela caverna, não pelo prato. Saber isso antes evita frustração.
Uma parada gastronômica mais barata e igualmente característica: o caffè speciale, café com creme, açúcar, casca de limão e licor Amaretto, invenção local servida em vários bares da cidade.
Dia 3: Monopoli, a alternativa mais tranquila
Monopoli está a cerca de 10 quilômetros de Polignano, quinze minutos de carro. É a parada que mais gente subestima e mais gente termina gostando.
A cidade tem um centro histórico maior que o de Polignano, com muros de defesa, um porto de pescadores ainda ativo com os barquinhos azuis e vermelhos, o Castelo de Carlos V, do século 16, sobre o mar, e uma catedral barroca. O ritmo é mais de cidade que vive de si mesma, e menos de cartão-postal.
O porto velho no fim da tarde, com os pescadores desembarcando e as mesas enchendo ao redor, é um daqueles momentos que não aparecem em roteiro nenhum e valem mais que muita atração listada.
Monopoli também tem uma costa longa com várias enseadas ao sul, algumas de areia, algumas de rocha, muitas com nome de cala, e é uma base decente de banho se você quiser algo menos disputado que Polignano.
Dia 4: os trulli de Alberobello e o Vale d’Itria
Aqui o roteiro sai do mar e entra no interior, e é onde a Puglia fica mais estranha e mais interessante.
Do litoral, subindo cerca de 20 a 25 quilômetros, você chega ao Vale d’Itria, um planalto de muros de pedra seca, oliveiras retorcidas e vinhedos. E é ali que estão os trulli, as casas de pedra calcária com teto cônico de lajotas empilhadas sem argamassa.
A concentração maior está em Alberobello, que é Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1996 e reúne mais de 1.500 trulli distribuídos em dois bairros, o Rione Monti, o maior e mais turístico, e o Rione Aia Piccola, mais residencial e bem mais calmo. A origem da técnica é antiga, mas a explicação mais citada para a construção sem argamassa é fiscal: telhado desmontável em pouco tempo permitia que a casa fosse tecnicamente considerada estrutura precária, escapando de tributo sobre imóvel novo. Também existe a explicação prática, de uso do calcário abundante retirado do próprio terreno.
Alberobello é intensamente turística. No pico do verão, o Rione Monti vira uma sequência de lojas de lembrança. O truque é chegar cedo, antes das dez, ou tarde, depois das dezoito, e caminhar pelo Aia Piccola, onde ainda mora gente.
No mesmo vale valem duas paradas que o mapa não marca mas que quase todo mundo acaba fazendo: Locorotondo, cidade branca de planta circular, considerada uma das mais bonitas da região e com vista ampla sobre o vale, e Martina Franca, com centro barroco e a tradição do capocollo, embutido curado local.
O Vale d’Itria também é a melhor área para dormir nesse trecho, porque muitos trulli foram convertidos em hospedagem, e alguns masserie, as antigas fazendas fortificadas de pedra, viraram hotéis com piscina e produção própria de azeite. Ficar numa masseria é, para muita gente, a melhor lembrança da viagem.
Sobre azeite, uma informação real e um pouco triste: a Puglia é a maior produtora de azeite de oliva da Itália, com séculos de oliveiras monumentais, algumas com mais de mil anos. A partir de 2013 a região foi atingida pela bactéria Xylella fastidiosa, que devastou milhões de árvores, principalmente no Salento. Dirigindo pelo sul você vai atravessar trechos longos de oliveiras secas, de galhos cinzentos. É parte da paisagem atual e ajuda a entender o que se fala por lá.
Dia 5: Ostuni, a cidade branca no alto
De Alberobello até Ostuni são cerca de 35 quilômetros, quarenta minutos. E a chegada é bonita porque você vê a cidade de longe: um cone branco sobre uma colina, cercado de oliveiras, com o mar ao fundo a poucos quilômetros.
Ostuni é chamada de Città Bianca por causa da cal. A tradição de pintar as fachadas com cal tem função prática: reflete o sol, ajuda a manter o interior mais fresco e tem propriedade desinfetante, o que historicamente foi usado como medida sanitária em períodos de peste.
O centro é um labirinto vertical de ruelas, arcos, escadas e becos, com a Concattedrale di Ostuni no ponto mais alto, do fim do século 15, em estilo gótico tardio com uma rosácea grande e trabalhada na fachada. Subir até ela é o programa, e o percurso é mais interessante que o destino.
Dois avisos práticos. O primeiro é que Ostuni é toda em ladeira e escada, e no verão o calor lá é sério. O segundo é o estacionamento: deixar o carro na parte baixa e subir a pé, ou usar os estacionamentos periféricos, poupa muita dor de cabeça, porque a cidade alta tem zona restrita e ruas onde carro simplesmente não passa.
A costa de Ostuni fica a uns 7 ou 8 quilômetros do centro, com praias de areia e trechos protegidos dentro do parque regional das Dunas Costeiras. É uma boa tarde de mar antes do trecho mais longo do roteiro.
Dia 6: a descida ao Salento e Torre dell’Orso
Aqui está o único deslocamento realmente longo da viagem. De Ostuni até Torre dell’Orso são cerca de 130 a 140 quilômetros, entre uma hora e quarenta e duas horas, geralmente passando por Brindisi e Lecce.
Vale considerar uma parada técnica em Brindisi, cidade portuária com a coluna romana que marcava o fim da Via Ápia, a estrada que ligava Roma ao Adriático. Não é a parada mais espetacular da Puglia, mas quebra o trajeto e tem valor histórico concreto.
Torre dell’Orso é praia, e ponto. Fica na costa adriática do Salento, no município de Melendugno, e tem uma enseada de areia clara com quase um quilômetro de extensão, cercada de pinheiral. A água ali costuma ser transparente e o fundo é raso por bastante espaço, o que torna a praia boa para família.
O símbolo do lugar são Le Due Sorelle, duas formações rochosas gêmeas que emergem do mar na ponta sul da baía. A lenda local conta que eram duas irmãs que se lançaram do penhasco e foram transformadas em pedra. É o tipo de história que não precisa ser verdade para ser boa.
Perto dali, na mesma faixa de costa, estão Grotta della Poesia, uma piscina natural de rocha ligada ao mar, muito fotografada e muito cheia no verão, e as praias de Sant’Andrea, com arcos de rocha e falésias baixas.
A costa adriática do Salento tem um comportamento próprio: quando sopra o vento de nordeste, o mar fica agitado. Nesses dias, a solução é atravessar para o lado jônico, que fica calmo. São 40 minutos de carro entre um mar e o outro, e essa flexibilidade é o maior luxo de fazer o Salento com veículo próprio.
Dia 7: Otranto e a ponta leste da Itália
De Torre dell’Orso a Otranto são cerca de 25 a 30 quilômetros, meia hora por uma estrada costeira bonita.
Otranto é uma das cidades mais interessantes de toda a região, e o motivo é histórico. Ela é o município mais oriental da Itália, e a poucos quilômetros ao sul está o Capo d’Otranto, com o farol de Punta Palascìa, o ponto geográfico mais a leste do país. Dali a Albânia está a menos de 80 quilômetros através do Canal de Otranto, e em dias limpos a costa albanesa aparece no horizonte. Esse mesmo canal é a fronteira convencional entre o mar Adriático e o mar Jônico.
Essa posição fez de Otranto um lugar de choque. Em 1480 a cidade foi tomada por forças otomanas, e o episódio dos chamados Mártires de Otranto faz parte da memória local: centenas de habitantes foram executados por recusarem a conversão. Os restos deles estão expostos numa capela dentro da catedral, atrás de vidro, dispostos em nichos. É impactante e vale saber antes de entrar.
A Catedral de Otranto, consagrada em 1088, guarda o que é possivelmente o mosaico de piso medieval mais extraordinário da Itália. Executado entre 1163 e 1165 pelo monge Pantaleão, ele cobre praticamente toda a nave e representa uma imensa Árvore da Vida, misturando cenas bíblicas, signos do zodíaco, animais fantásticos, o Rei Artur e figuras de Alexandre o Grande. É um daqueles casos em que a cultura cristã, clássica e oriental aparecem no mesmo chão, e ele sobreviveu inclusive à invasão de 1480.
Além disso, Otranto tem o Castelo Aragonês, do fim do século 15, com muralhas robustas voltadas ao porto, e uma cidade velha branca e murada, bem agradável de andar no fim do dia.
A praia mais famosa da região é a Baia dei Turchi, alguns quilômetros ao norte, com areia clara, água muito transparente e um pinheiral atrás. O nome remete justamente ao desembarque otomano de 1480. Ela está dentro de área protegida, o acesso final é a pé por uma trilha no pinheiral, e o estacionamento é pago e distante. Chegar cedo faz diferença enorme.
Ao sul de Otranto, a estrada costeira até Santa Cesarea Terme e Castro é uma das mais bonitas do sul da Itália, com falésias altas e o mar bem abaixo. Se sobrar tempo, esse trecho é melhor que muita atração de lista.
Dia 8: Gallipoli no Jônico e o barroco de Lecce
Gallipoli fica na costa jônica, cerca de 50 a 60 quilômetros a oeste de Otranto, atravessando a península salentina de mar a mar em pouco mais de uma hora.
O nome vem do grego kallipolis, cidade bela, o que já indica a origem antiga da região. O Salento tem herança grega funda, e no interior existe até hoje a Grecìa Salentina, um conjunto de municípios onde se preservou o griko, uma língua de raiz grega falada por parte da população mais velha.
Gallipoli é dividida em duas. A cidade nova, no continente, e a cidade velha, sobre uma ilha calcária ligada por uma ponte do século 17. A parte velha é onde está o interesse: casas brancas apertadas, um caminho que dá a volta pela muralha com vista para o mar, o castelo angevino na entrada, e a catedral barroca de Sant’Agata, feita na mesma pedra dourada que você vai ver em Lecce.
O mercado de peixe de Gallipoli é ativo de verdade, com pescadores vendendo direto. E a costa ao sul da cidade, com praias como Punta della Suina e Baia Verde, tem areia branca e água de tom quase caribenho quando o dia está calmo. Vale avisar: Baia Verde é conhecida como polo de balada de verão do Salento, com clubes grandes e público jovem. Se você quer silêncio, é o trecho a evitar em agosto.
De Gallipoli até Lecce são cerca de 40 quilômetros, quarenta minutos. E Lecce é o lugar certo para terminar, porque é a cidade mais densa de coisa para ver de todo o roteiro.
Lecce é chamada de Florença do Barroco, e o apelido tem base material. A cidade fica sobre um depósito de pietra leccese, um calcário local de cor amarelo-dourada, muito macio quando recém-extraído e que endurece com a exposição ao ar. Isso permitiu aos escultores dos séculos 17 e 18 um nível de detalhe quase impossível em pedra dura, e o resultado é uma cidade onde fachadas parecem bordadas.
O exemplo máximo é a Basílica de Santa Croce, cuja construção se estendeu por décadas até o fim do século 17, com uma fachada carregada de figuras, animais, grotescos, colunas torcidas e uma rosácea imensa. É um daqueles casos em que você fica dez minutos só olhando o detalhe.
O outro conjunto essencial é a Piazza del Duomo, uma praça fechada, com entrada única, o que é raríssimo na Itália. Ali estão a catedral, o campanário alto e o palácio do bispo, e a sensação de recinto interno numa praça aberta é peculiar.
No centro também está a Piazza Sant’Oronzo, com a coluna dedicada ao santo patrono, feita com material vindo de uma das colunas romanas de Brindisi, e o anfiteatro romano parcialmente escavado, visível abaixo do nível da praça. Ele é do século 2 e comportava milhares de espectadores. Ver ruína romana num nível e cidade barroca no outro resume bem Lecce.
Lecce é também onde vale comer o pasticciotto, o doce mais típico do Salento: uma massa amanteigada recheada de creme de confeiteiro, servido de preferência quente, no café da manhã. E o rustico leccese, folhado salgado com molho de tomate, mozzarella e béchamel.
O que comer ao longo da rota
A comida da Puglia é o oposto de sofisticada, e isso é um elogio. Ela nasce de cucina povera, cozinha de pouco recurso, com base em vegetal, massa, pão, azeite e peixe.
As massas mais típicas são as orecchiette, já mencionadas, e no Salento as sagne ‘ncannulate, fitas torcidas. Aparece muito cicoria, chicória, e a fava e cicoria, purê de fava com verdura amarga, prato antigo e barato.
Nos laticínios, dois nomes importam. A burrata, criada em Andria, na província de Bari, no começo do século 20, uma bolsa de massa filada preenchida com creme e stracciatella. E a mozzarella di bufala vizinha, embora essa seja mais associada à Campânia.
Na parte de peixe, o Adriático e o Jônico dão polvo, ouriço, mexilhão e o crudo di mare, frutos do mar crus servidos apenas com limão e azeite, tradição forte em Bari, Polignano e Gallipoli. Vale bom senso com consumo de crus, escolhendo lugares movimentados e de rotatividade alta.
Nos vinhos, a Puglia é gigante em volume e vem melhorando muito em qualidade. As uvas que definem a região são o Primitivo, especialmente o Primitivo di Manduria, tinto potente e alcoólico, geneticamente o mesmo que o Zinfandel californiano, e o Negroamaro, base do Salice Salentino. No rosado, o Negroamaro rosato é uma tradição antiga do Salento e costuma ter ótima relação de preço.
Quando ir, e por que agosto é a escolha mais difícil
O clima da Puglia é mediterrâneo, com verão longo, seco e quente. Em julho e agosto, temperaturas passando de 35 graus são normais, e o mar fica na melhor temperatura do ano.
O problema de agosto não é o calor. É que a Itália inteira sai de férias em agosto, e o Salento é um dos destinos favoritos dos próprios italianos. Isso significa praias cheias, estacionamento difícil, preço de hospedagem multiplicado e trânsito nas estradas costeiras. Ao redor do dia 15 de agosto, o feriado de Ferragosto, o pico é máximo.
As janelas melhores são maio, início de junho e setembro. Em setembro o mar ainda está morno de todo o verão, a lotação cai, o preço desce e a luz fica mais bonita. Em maio o mar está fresco mas as cidades estão vazias e verdes.
Novembro a março é um período de charme diferente, com muitas estruturas de praia fechadas, algumas cidades pequenas em modo hibernação, mas Lecce, Bari, Ostuni e Alberobello funcionando normalmente e sem multidão.
Dirigir na Puglia: o que realmente vale saber
Alugar carro faz toda a diferença nesse roteiro, porque o transporte público liga cidades grandes de forma razoável mas não alcança praia, masseria e vila pequena com horário útil.
Algumas informações práticas que evitam problema.
ZTL. Praticamente todo centro histórico italiano tem zona de tráfego restrito, com câmeras. Entrar sem autorização gera multa que chega meses depois, com taxa administrativa da locadora por cima. A regra simples é: nunca entre em centro histórico de carro. Estacione fora e ande.
Estacionamento por cor. Linha branca é gratuita, azul é paga, amarela é reservada. No verão, cidades costeiras cobram estacionamento em quase tudo.
Carteira de habilitação. Para brasileiros, a Permissão Internacional para Dirigir é exigida junto da CNH. Muitas locadoras não pedem no balcão, mas a fiscalização de trânsito pode pedir.
Combustível. Existe atendimento servito, com frentista, e fai da te, autoatendimento, com preço menor. Fora de horário comercial, muitos postos funcionam só por máquina automática, e algumas rejeitam cartão estrangeiro. Não deixe o tanque chegar na reserva à noite em área rural.
Rodovias. A A14 corta o norte da região com pedágio. No Salento, as vias principais são gratuitas, tipo a superstrada entre Bari, Brindisi e Lecce, que é rápida e movimentada.
Estradas secundárias. No interior, entre muros de pedra, as estradas ficam estreitíssimas, com curva sem visibilidade e sinalização escassa. Ótimas de dirigir devagar, ruins de ter pressa.
Onde dormir para aproveitar melhor
A recomendação prática, para oito dias, é dividir em duas ou três bases.
Duas ou três noites no Vale d’Itria, num trullo ou masseria entre Alberobello, Locorotondo e Ostuni, cobrindo o litoral adriático norte e o interior.
Três ou quatro noites em Lecce ou em algum ponto do Salento, cobrindo Otranto, Torre dell’Orso, Gallipoli e as praias dos dois mares.
E, se o voo pedir, uma noite em Bari no começo ou no fim.
Trocar de hotel oito vezes em oito dias consome parte enorme do tempo com arrumar mala, fazer check-in e procurar estacionamento. Fixar base é o que faz o roteiro caber com folga.
As armadilhas mais comuns de quem faz esse trajeto
Achar que dá para juntar Puglia com Costa Amalfitana ou Matera na mesma semana e ainda cumprir esse itinerário. Dá, mas o preço é passar a viagem no carro. Matera, na vizinha Basilicata, é uma exceção que vale, porque está a pouco mais de uma hora de Bari e é impressionante, com os Sassi escavados na rocha e status de Patrimônio Mundial. Mas ela pede um dia inteiro, não um encaixe.
Subestimar o calor no meio do dia. Ostuni, Alberobello e Lecce ao meio-dia de agosto, sem sombra, são desgastantes. O ritmo local existe por um motivo: manhã e fim de tarde para andar, meio do dia para comer, descansar ou ficar na água.
Contar com restaurante aberto fora de horário. Cozinha de almoço geralmente fecha por volta das 14h30 e jantar começa perto das 20h. Em cidade pequena, chegar às 18h com fome de refeição resulta em nada.
Escolher praia só pela foto. Muitas das enseadas mais fotografadas são minúsculas e viram formigueiro em julho. As praias longas de areia, como Torre dell’Orso, Baia Verde, Punta Prosciutto e Pescoluse, absorvem gente muito melhor.
Não checar o vento. Ele decide se você vai ao Adriático ou ao Jônico naquele dia. É a informação mais útil da manhã.
O que fica desse roteiro
O que faz esse trajeto funcionar não é nenhuma das paradas isoladamente. É a alternância. Você sai de uma catedral românica do século 11 em Bari e, três horas depois, está numa casa de pedra em forma de cone. Da cidade branca sobre a colina você desce para uma praia de pinheiral. Do mosaico medieval de Otranto você atravessa a península e almoça peixe num porto do Jônico. E termina num centro barroco esculpido em pedra dourada, com anfiteatro romano no meio da praça.
Oito dias, menos de 500 quilômetros, duas ou três hospedagens e nenhuma pressa real. Para o padrão de roteiro italiano, isso é raro.
