10 Coisas Para Fazer em San Carlos de Bariloche no Verão

Descubra as melhores atividades de verão em Bariloche, da navegação no Nahuel Huapi ao Circuito Chico, passando por praias de água doce, trilhas, chocolate artesanal e o mirante eleito pela National Geographic como um dos mais bonitos do mundo.

Foto de Marcelo Gonzalez: https://www.pexels.com/pt-br/foto/neve-panorama-vista-paisagem-27999861/

Bariloche no verão é um dos segredos mal guardados da Patagônia argentina. A cidade carrega fama mundial por causa da neve, dos centros de esqui e daquele clima meio europeu que encanta quem chega pela primeira vez. Mas quem só conhece a versão branca está deixando passar metade da história. Entre dezembro e março, a paisagem troca o tom branco pelo verde intenso das florestas andino-patagônicas, os lagos ficam com aquele azul profundo que beira o irreal, e as temperaturas agradáveis (raramente ultrapassando os 25°C) convidam a um tipo de exploração que no inverno simplesmente não existe.

E aqui vai uma opinião honesta antes de começar: o verão é, para muita gente, a melhor estação para visitar Bariloche. Não pela ausência de neve, que faz falta sim, mas pela quantidade de atividades liberadas, pela leveza do clima, pelos preços mais camaradas e pela possibilidade real de ver a cidade sem aquela correria toda da alta temporada de julho. Os dias são longos — escurece perto das 21h30 — e isso dá um fôlego gigante para fazer mais coisas em menos tempo.

Bariloche fica na província de Río Negro, às margens do imenso Lago Nahuel Huapi, dentro do parque nacional de mesmo nome. O centro da cidade tem aquele ar alpino, com construções de pedra e madeira, chocolaterias que perfumam a calçada e o famoso Centro Cívico, que é praticamente o cartão-postal urbano da região. Mas o verdadeiro espetáculo acontece quando você sai do centro e começa a explorar o entorno. É lá que a coisa fica séria.

Abaixo está uma lista honesta, pensada para quem quer aproveitar de verdade e não apenas bater foto. Misturei clássicos imperdíveis com atrações que às vezes ficam de fora dos roteiros prontos. Vamos a elas.

1. Fazer o Circuito Chico com calma

Se houvesse uma única atração para escolher em Bariloche, seria essa. O Circuito Chico é um percurso de aproximadamente 65 quilômetros que contorna parte do Lago Nahuel Huapi, partindo do fim da Avenida Bustillo. Em média, o trajeto leva quatro horas, mas o segredo é justamente não fazer no modo “turbinado”. Esse passeio merece ser saboreado.

O roteiro passa por alguns dos lugares mais bonitos da região: a Playa Bonita, o Cerro Campanario, o icônico Hotel Llao Llao, a Ponte Angostura (onde o Lago Moreno se encontra com o Nahuel Huapi), o Punto Panorámico e, se der tempo, uma esticada até a Colonia Suiza. Dá para fazer de carro alugado, que é a opção mais flexível, com agência ou até de bicicleta para os mais dispostos — existe aluguel de bikes ao longo da Avenida Bustillo.

Uma dica prática: comece cedo. Os tours em grupo costumam sair às 9h ou 15h, mas quem vai por conta consegue começar por volta das 8h30 e pegar os mirantes praticamente vazios. A luz da manhã sobre o Nahuel Huapi é algo que vale o despertador.

2. Subir o Cerro Campanario

O Cerro Campanario tem 1.050 metros de altitude e uma vista que foi eleita pela National Geographic como uma das mais espetaculares do mundo. E quando você chega lá em cima, entende o motivo sem precisar de explicação. Os lagos Nahuel Huapi e Moreno se desenham embaixo de você, cercados por penínsulas verdes, ilhotas e a cadeia andina ao fundo. É daquelas paisagens que parecem montadas de propósito.

A subida pode ser feita de duas formas: pelo teleférico (aerosilla), que é rápido e tem um charme próprio, ou por uma trilha de cerca de 20 a 30 minutos, para quem prefere suar a camisa. No verão, a trilha é perfeitamente viável e oferece um passeio pela vegetação nativa. No alto existe uma confeitaria com mesas ao ar livre, e vale parar para um café olhando aquela vista. É comum a gente ficar mais tempo do que planejou.

O Campanario fica dentro do Circuito Chico, a uns 18 km do centro, então não é nem preciso um deslocamento separado. Só não esqueça de levar um casaco leve, porque lá em cima venta e a temperatura cai alguns graus mesmo nos dias mais quentes.

3. Navegar até Puerto Blest e Lago Frías

Esse é um dos passeios mais emocionantes para quem gosta de navegação e natureza intocada. A partida é de Puerto Pañuelo, próximo ao Hotel Llao Llao, em catamarãs que cruzam o Nahuel Huapi em direção ao oeste, até chegar em Puerto Blest. A travessia dura cerca de uma hora e a paisagem muda completamente à medida que o barco avança: as margens ficam cada vez mais selvagens, o verde se intensifica e, se tiver sorte, você cruza com a tal da mata valdiviana — um ecossistema úmido exclusivo da Patagônia, cheio de fetos gigantes e árvores cobertas de musgo.

Em Puerto Blest existe o histórico hotel com o mesmo nome, e dali sai um ônibus (opcional, cobrado à parte) que leva até o Porto Frías, onde está o Lago Frías, com uma cor esmeralda tão intensa que parece pintada. Esse é, inclusive, um dos pontos do famoso Cruce Andino que liga a Argentina ao Chile.

O catamarã tem área coberta e aberta. A recomendação é ficar na parte aberta sempre que possível, principalmente na ida, quando o sol bate e a vista se abre. Leve protetor solar e óculos escuros — a refração da luz no lago é forte.

4. Curtir as praias de água doce

Sim, Bariloche tem praias. E muitas. Essa é uma das grandes surpresas para quem chega na cidade no verão esperando apenas montanha. O Lago Nahuel Huapi e os lagos menores do entorno formam uma coleção de praias de areia e de pedrinhas, com águas transparentes e geladas (prepare-se — a temperatura raramente passa dos 18°C, mesmo em janeiro).

Algumas das praias mais populares são:

PraiaCaracterística
Playa BonitaClássica, fácil acesso, movimentada
Villa TaculPequena e cercada de bosque, mais reservada
Bahía ManzanoÁguas calmas, boa para famílias
Playa MuñozPróxima ao centro
Lago GutiérrezÓtima para SUP e caiaque

Villa Tacul merece um destaque à parte. É preciso caminhar por uma trilha curta no meio da floresta para chegar, e isso já afasta metade dos turistas. Quem insiste encontra um recanto quase privado, com árvores enormes dando sombra e o lago prático para um mergulho rápido (bem rápido, acredite).

5. Pedalar ou andar de caiaque no Lago Nahuel Huapi

O Nahuel Huapi tem 557 quilômetros quadrados e é enorme ao ponto de ser confundido com mar em alguns trechos. No verão, ele se transforma num parque aquático natural. Passeios de caiaque são oferecidos por várias operadoras, geralmente com duração de duas a três horas, saindo de pontos como Bahía López ou Puerto Pañuelo.

A sensação de estar no meio do lago, com montanhas nevadas ao redor (sim, os picos mais altos mantêm neve o ano todo) e o silêncio quebrado apenas pelo remo, é uma experiência diferente de tudo. Para quem nunca fez, não se preocupe: os instrutores dão um treinamento básico antes, e os caiaques são estáveis. Stand up paddle também tem, e funciona bem nas baías mais protegidas, onde o vento é menor.

Quem prefere terra firme pode alugar bicicleta. A ciclovia ao longo da Avenida Bustillo é bem cuidada e percorre vários quilômetros em meio às casinhas de montanha. Uma pedalada tranquila até o km 8 (onde fica a cervejaria Patagonia, que a gente chega já já) é um programa perfeito para o final da tarde.

6. Visitar a Colônia Suíça e experimentar o curanto

A Colonia Suiza é um vilarejo minúsculo, a cerca de 25 km do centro, fundado por imigrantes suíços no fim do século XIX. O ar europeu que Bariloche tem no geral, ali vira quase cenográfico: casinhas de madeira, chaminés fumegantes, jardins cuidados e uma pausa no tempo que destoa totalmente da agitação do centro.

O grande atrativo gastronômico é o curanto, prato típico da culinária andina de origem mapuche, cozido debaixo da terra. Tudo — carnes, frangos, linguiças, batata, cenoura, abóbora — é envolto em folhas de maqui e cozido por horas sobre pedras quentes enterradas. O resultado é uma comida de sabor defumado e complexo, quase impossível de reproduzir em outro lugar.

O curanto só é preparado às quartas e aos domingos, quando também funciona a feira de artesanato local. É importante planejar a visita para esses dias. O prato não é barato, mas é uma daquelas experiências que definem uma viagem. Reserve com antecedência — os lugares enchem.

7. Subir o Cerro Otto ou o Cerro Catedral

Os dois maiores morros da região, que no inverno são estações de esqui, no verão se transformam em paraísos para caminhadas e vistas panorâmicas. O Cerro Otto, com 1.405 metros, fica bem próximo do centro e tem acesso por teleférico (o famoso tele ferrico giratório que leva até o restaurante rotativo no topo). Lá em cima você tem uma vista 360° de Bariloche, dos lagos e dos Andes. Na descida, há trilhas para quem gosta de caminhar.

Já o Cerro Catedral é maior, mais alto e mais imponente. Durante o verão, ele oferece trilhas sinalizadas de diferentes níveis, mountain bike, tirolesa e até escalada. É onde ficam algumas das trilhas mais queridas pelo pessoal local, como a que leva até o Refugio Frey, um passeio de dia inteiro para trekkers mais preparados, com lagoa glaciar de premiação no final.

Para quem tem criança ou prefere algo mais leve, o Cerro Catedral também conta com atividades leves no Piedras Blancas e áreas de lazer. Cada morro tem sua vocação, e escolher entre os dois depende do seu perfil.

8. Degustar chocolate na Rua Mitre (e nas chocolaterias históricas)

Bariloche é conhecida como a “capital argentina do chocolate”, e isso não é marketing. A tradição começou com imigrantes suíços, italianos e alemães no início do século XX, e até hoje a cidade tem algumas das chocolaterias artesanais mais reconhecidas da América do Sul. Nomes como Rapa Nui, Mamuschka, Del Turista e Havanna têm filiais espalhadas pela Rua Mitre, a principal artéria comercial.

O passeio é quase obrigatório, mesmo para quem não tem tanta paixão por doce. A Rapa Nui tem uma fábrica-museu onde dá para acompanhar parte da produção e tomar o famoso chocolate quente de colher. A Mamuschka é queridinha pelos bombons com recheios criativos. Em todas elas, é comum ter degustação livre — você entra, experimenta, e decide o que comprar.

No verão, aproveite o sorvete artesanal, outra especialidade da cidade. O sabor de chocolate amargo da Jauja ou da Rapanui é motivo de brigas acaloradas entre turistas sobre qual é o melhor. Minha dica: experimente os dois e tire sua própria conclusão.

9. Conhecer a Rota dos 7 Lagos (ou pelo menos parte dela)

A Ruta 40 ao norte de Bariloche esconde um dos trechos mais bonitos de estrada da Argentina — e talvez da América do Sul. A famosa Rota dos Sete Lagos liga Villa La Angostura a San Martín de los Andes e tem cerca de 110 km de puro espetáculo visual. Os sete lagos que dão nome ao passeio são Nahuel Huapi, Correntoso, Espejo, Escondido, Villarino, Falkner e Machónico.

Fazer o percurso completo exige pelo menos um dia inteiro (idealmente com pernoite em San Martín) e carro próprio ou alugado. Mas mesmo quem tem pouco tempo consegue pegar o “pedaço obrigatório”: ir até Villa La Angostura (cerca de 80 km de Bariloche), parar no Lago Espejo e no Lago Correntoso, almoçar em Villa La Angostura e voltar.

Villa La Angostura, aliás, merece atenção. É um vilarejo charmoso, bem mais tranquilo que Bariloche, cheio de cafés aconchegantes e com acesso ao Parque Nacional Los Arrayanes, uma floresta rara formada pela árvore de arrayán, com troncos alaranjados e textura fria. Para chegar ao parque é preciso caminhar 12 km ou fazer uma travessia de barco pelo Lago Nahuel Huapi. Vale cada minuto.

10. Visitar uma cervejaria artesanal (ou várias)

A cena cervejeira de Bariloche surpreende. A cidade e a região formam um dos polos mais fortes da Argentina em produção de cervejas artesanais, e no verão os biergartens ao ar livre ficam lotados. A Patagonia Brewing Co., localizada no km 24,7 da Avenida Bustillo, é a mais famosa: um espaço enorme, com deck de madeira debruçado sobre o lago e montanhas ao fundo. O pôr do sol ali vira cartão-postal automaticamente.

Mas não é a única. A Berlina Patagonia, no km 11, é outra parada clássica, com cervejas premiadas e comida boa. Para quem prefere algo menor, a Manush e a Blest (esta com produção própria em fazenda) oferecem experiências mais caseiras. Em todas, as tábuas de embutidos patagônicos, com defumados e queijos locais, acompanham bem as cervejas pretas ou lagers mais leves.

Uma observação pessoal: se for à Patagonia no final da tarde, reserve. No verão, principalmente em janeiro e fevereiro, os decks enchem rápido e ficar na lista de espera ao pôr do sol dói um pouco.

Quando ir e o que levar

O verão patagônico oficial vai de 21 de dezembro a 20 de março, mas a temporada turística de calor costuma se estender de meados de novembro até o fim de março. Janeiro e fevereiro são os meses de pico, com clima mais estável e noites menos frias. Dezembro ainda tem dias bem mais frescos, e março já começa a esfriar bastante à noite.

Mesmo no verão, as temperaturas oscilam muito entre dia e noite. Não é incomum amanhecer com 6°C, chegar aos 24°C à tarde e cair para 10°C de noite. Então a dica é sempre levar roupas por camada: uma camiseta, uma blusa de manga longa, uma segunda camada (fleece ou camisa flanelada) e um corta-vento impermeável. Protetor solar é essencial — a altitude e a radiação na Patagônia são mais intensas do que parecem.

E o vento. O vento patagônico é uma entidade à parte. Às vezes surge do nada, principalmente à beira dos lagos, e transforma um dia quente numa bagunça meteorológica. Faz parte.

Sobre alimentação, moeda e deslocamento

O peso argentino continua instável, e a melhor forma de aproveitar é levar dólares em espécie e trocar em casas de câmbio na Rua Mitre, que historicamente oferecem taxas melhores que as oficiais. Cartão de crédito funciona na maioria dos estabelecimentos, mas pagar em pesos em dinheiro ainda costuma sair mais barato em muitos lugares, principalmente nos pequenos.

Alugar carro é quase obrigatório para quem quer aproveitar de verdade. O transporte público existe, mas é limitado e não cobre a maior parte das atrações fora do centro. As locadoras estão no aeroporto e no centro da cidade, e os preços no verão são mais acessíveis que no inverno.

Restaurantes como El Boliche de Alberto (para cordeiro patagônico e bife), La Trattoria de la Famiglia Bianchi, Butterfly (mais sofisticado, com degustação) e Alto el Fuego são referências locais. Para almoço rápido e barato, as empanadas de La Casita de la Abuela resolvem bem. Mas se for um único restaurante, cordeiro assado é obrigatório — é um dos pratos mais emblemáticos da Patagônia e vale o investimento.

Vale mesmo ir no verão?

Vale. E com folga. Quem chega esperando a Bariloche da neve pode, no começo, estranhar a troca de cenário. Mas em questão de horas, geralmente na primeira vista do Nahuel Huapi de algum mirante, a conta se fecha. A cidade revela uma personalidade completamente diferente, mais verde, mais acessível, mais lenta. É possível fazer praticamente tudo que se faz no inverno (exceto esqui, obviamente), com o bônus das atividades aquáticas, das trilhas de altitude, das pedaladas e do sol que aquece sem queimar.

Bariloche no verão não é um plano B para quem perdeu a neve. É uma Bariloche diferente, e em muitos aspectos, uma versão ainda mais completa da Patagônia argentina. Quem reserva pelo menos cinco dias consegue fazer as atrações principais com calma. Uma semana inteira, então, transforma a viagem numa dessas que a gente lembra por anos.

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